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Agosto é de praia e férias, mas Agosto de anos bissextos também é de Jogos Olímpicos de Verão. Este Rio 2016 proporcionou material para conversa na área feminista e sexual. Dois pontos importantes que foram debatidos foram o tom pouco igualitário dos comentadores e a menstruação de Fu Yuanhui.
Os comentadores e os jornalistas que trabalharam ao serviço dos jogos olímpicos, de vários países, revelaram-se, um tanto ou quanto, machistas. A surpresa persiste porque vivemos no ano de 2016, mas parece que as pessoas estão um pouco… desactualizadas. Desde a fazerem comentários sobre o corpo das atletas até atribuírem o seu sucesso aos seus maridos, ouviu-se de tudo. O escrutínio sensato pôs-se de mãos à obra, criticando severamente as bestialidades que se foram dizendo. E ainda bem.
Tema também de grande debate foi a menstruação da nadadora chinesa Fu Yuanhui. Após uma prova que correu pior, a atleta, muito naturalmente, falou sobre a menstruação e as dores que estava a sentir para um canal chinês. De imediato tornou-se numa sensação das redes sociais chinesas – e não chinesas. Não só pelas suas fantásticas expressões faciais, mas porque puseram as pessoas na China a pensar sobre como é que se nada com a menstruação (sem deixar a piscina toda vermelha) e na chatice que será estar menstruada quando se compete em provas de alta competição.
Como o tampão é ainda um objecto alienígena na China, isso justifica muitas das reacções de surpresa pela população chinesa. Se és estrangeira a viver na China continental bem sabes que não é um objecto de bem comum. Eu, por exemplo, via-me obrigada a levar a minha mala carregadinha deles. Era simplesmente impossível encontrar esses algodões em supermercados locais. O que nos poderia safar de momentos sangrentos, especialmente quando nos impõem actividade extrema (e.g. nadar)? Pouco ou nada, porque tampões são uma caça ao tesouro feminino alucinante. Há quem diga que é a medicina chinesa que desaconselha por ser demasiado intrusivo e há quem diga que é puro desconhecimento – desconhecimento esse que não gera procura e por isso não gera produção. Mas não se preocupem, porque o momento de ribalta do tampão está em pura ascensão: espera-se, muito em breve, produção nacional chinesa. Este tampão ‘awareness’ deve-se muito em parte a um simples comentário público de que a menstruação teria aparecido no dia anterior a Yuanhui. Se calhar ela até estava a usar um copo menstrual (copinho de silicone reutilizável que retém o fluxo menstrual e que deve ser esvaziado e limpo a cada 3-4 horas): a divulgar nas próximas olimpíadas.
No ocidente o choque nada teve que ver com o método de retenção de fluxo debaixo de água, mas o facto de se falar do período. Sim, o tabu do período volta a atacar. Não há ninguém a pensar muito sobre a menstruação, muito menos em mulheres atletas de alta competição. Falar sobre menstruação é inconveniente, desconfortável e nunca será visto como ‘simples’. Os estudos que entendem a relação entre menstruação e performance são incrivelmente escassos, num mundo onde muitas mulheres são treinadas na sua modalidade por homens. O tabu persiste, mas a Fu Yuanhui é agora descrita no wikipédia como a protagonista da menstruação no Rio 2016.
Os Jogos Olímpicos deveriam ser daqueles eventos que promovem cooperação e compreensão entre nacionalidades e diferenças (enquanto se está a competir para estabelecer quem é melhor – irónico). Mas, por alguma razão, os ideais de privilégio do homem branco conseguem desvendar-se nestas pequenas coisas: nas bocas, nas descrições e nas reacções. O que nos salva é o bom senso de tantos muitos, que refilam quando há comentários machistas e que dizem as coisas que têm que ser ditas.
A Yuanhui que se orgulhe da sua medalha, das suas palavras e o seu jeito de ser. O seu jeitinho está a atirá-la para a fama, divulgando a menstruação e o tampão. Quanto aos comentadores, esperemos que reformulem o seu discurso – e isso veremos em quatro anos.

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