Hoje Macau SociedadeSaúde | Serviços de Lei Chin Ion apelam à vacinação Desde 2014 que a doença está oficialmente erradicada, mas há mais um caso de sarampo confirmado a preocupar as autoridades. É importante vacinar as crianças, recordam os Serviços de Saúde, para proteger aquelas que ainda não têm idade para ser imunizadas [dropcap style≠’circle’]É[/dropcap] preciso prestar mais atenção à prevenção. O conselho é deixado pelos Serviços de Saúde de Macau (SSM), que confirmaram na passada segunda-feira mais um caso de sarampo. Numa nota de imprensa publicada ontem, os SSM explicam que a criança infectada tem 11 meses. No passado dia 18, teve os primeiros sintomas – febre e tosse –, estando actualmente internada no Hospital Kiang Wu, a receber tratamento em regime de isolamento. Na segunda-feira, as análises feitas no Laboratório de Saúde Pública dos Serviços de Saúde confirmaram que se trata de sarampo. O bebé ainda não tinha sido imunizado por não ter idade suficiente para a administração da primeira dose da vacina. Os SSM contam que, antes da manifestação de sintomas, o doente teve contacto com uma prima, que já se encontrava doente, embora ainda não diagnosticada com sarampo. No período de incubação, o bebé viajou, mas atendendo ao facto de a prima estar doente e ao tempo de manifestação dos sintomas, o caso foi classificado como sendo uma infecção local. O doente encontra-se estável, não havendo complicações graves, indica a direcção de serviços liderada por Lei Chin Ion. Está a ser feito agora o rastreio do estado de saúde de mais 12 crianças que partilharam a sala de espera com o bebé, enquanto o paciente aguardava para ser atendido. Todas estas crianças não tinham sido igualmente vacinadas por não terem idade para tal. A primeira dose é ao ano de idade e a segunda aos 18 meses. Por exigência dos SSM, estas crianças não vão às escolas que frequentam por um período de três semanas, a contar do dia de contacto com o paciente, de modo a evitar o contágio caso alguma delas venha a ter sarampo. Neste momento, nenhum destes bebés apresenta sintomas. Vias de transmissão Osarampo é uma doença transmissível aguda por tracto respiratório. As vias de transmissão são as gotículas de saliva expelidas; todavia, a doença pode ser contraída por contacto directo com as secreções infectadas e objectos contaminados de doentes. De um modo geral, o período de incubação é de sete a 18 dias, podendo chegar aos 21 dias. O período de transmissão varia de três dias a uma semana depois do aparecimento de exantema. Em 2014, Macau obteve a certificação da Organização Mundial de Saúde, passando a fazer parte dos primeiros quatro países e regiões da região do Pacífico Ocidental que erradicaram o sarampo. A erradicação não significa a inexistência de casos, explicam os SSM, mas sim que não há transmissão sustentada. Para proteger a saúde das crianças, os Serviços de Saúde pedem aos pais que cumpram o programa de vacinação. Recorda-se também que o sarampo é uma doença de declaração obrigatória. Hepatite B | Macau sem problemas Os Serviços de Saúde de Macau vieram ontem assegurar que existem vacinas suficientes contra a Hepatite B para a população residente. A garantia foi deixada na sequência de problemas com a produção deste tipo de fármaco, que estão a ter repercussões em vários pontos do mundo. No território, há escassez no stock do mercado privado, mas não nos serviços de saúde públicos. A vacina contra a hepatite B foi incluída no programa de vacinação local há já muitos anos, pelo que a quantidade de vacinas adquiridas é suficiente para garantir a imunização de recém-nascidos, de crianças e de grupos de alto risco. De acordo com os profissionais de saúde, sublinham os SSM, para já a quantidade do stock da vacina em causa é “normal”. Foi ainda obtida a garantia por parte do fornecedor quanto ao fornecimento normal da vacina aos Serviços de Saúde, acrescenta-se em comunicado. As vacinas são gratuitas apenas para os residentes de Macau. Existe “uma quantidade muito limitada de residentes não locais que podem pedir vacinação por conta própria”, mas “outros pedidos não são atendidos”. Os viajantes podem pedir vacinação, mas é limitada às vacinas de necessidade urgente, tal como a vacina contra o tétano após lesões, sendo por conta do próprio viajante, referem os SSM. Com base nos dados demográficos disponíveis, como o número de nascimentos, as autoridades fazem uma ordem de compra prévia de vacinas para os dois anos seguintes. Actualmente, são administradas anualmente mais de 20 mil doses da vacina contra a hepatite B. Para assegurar as necessidades dos residentes de Macau, os Serviços de Saúde deram indicações a todas as unidades de vacinação, incluindo o Hospital Kiang Wu e a Clínica dos Operários, que as vacinas fornecidas no programa de vacinação local só podem ser administradas a residentes. Os pedidos feitos por não residentes não poderão ser, deste modo, atendidos.
Valério Romão h | Artes, Letras e IdeiasDo obscurantismo [dropcap style≠’circle’]O[/dropcap] recente surto de sarampo em Portugal fez com que a vacinação voltasse a ser discutida, sobretudo nas redes sociais. A vacinação é responsável pela erradicação, por exemplo, da varíola, que só no século XX matou cerca de quinhentos milhões de pessoas. Se somarmos à varíola as restantes doenças que as vacinas contribuíram para erradicar ou diminuir substancialmente, torna-se claro que as vacinas, a par dos antibióticos, foram responsáveis, de forma decisiva, para o maior aumento de população e longevidade de que há memória. Ainda assim, e a despeito das evidências científicas e empíricas, ainda há quem não vacine os seus filhos. No princípio do século XXI, e surgindo sobretudo como hipótese explicativa para a incidência alarmante de autismo em crianças, surgiu uma corrente anti-vacinação relacionada com um preservante à base de mercúrio presente em algumas vacinas compostas, sobretudo nos Estados Unidos. O estudo que fundamentava essa recusa, de 1998, foi refutado em 2011, por apresentar evidências de manipulação de dados, e a licença do médico que conduziu esse estudo, um britânico chamado Andrew Wakefield, foi revogada. Entretanto, e mesmo depois de retirado o timerosal da composição das vacinas nos Estados Unidos, em 2002, os casos de autismo não pararam de aumentar. Ainda assim, seja pela crença de que a indústria farmacêutica – que em abono da verdade, faz por merecer a desconfiança do público – foi de alguma forma responsável pelo silenciamento do Dr. Wakefield ou pela convicção de que as vacinas são responsáveis por mais danos que benefícios, há quem continue a não vacinar as crianças que tem à sua guarda. Na verdade, as correntes anti-vacinação são apenas um sintoma de uma corrente muito mais vasta e de certo modo transversal a todas as áreas do saber e que se caracteriza por uma profunda desconfiança relativamente aos produtos da ciência. Lembro-me de quando íamos todos morrer de cancro porque aquecíamos uma lasanha no micro-ondas, de como os telemóveis nos iam transformar num ápice numa sociedade de dementes precoces que fariam parecer os filmes de zumbis pós-apocalípticos uma matiné da Disney. Lembro-me também, por outra parte, de como o ginseng, a aloé vera, a geleia real de abelha e, mais recentemente, as bagas de goji nos iam prolongar a vida, debelar qualquer maleita e, sobretudo, livrar-nos da obnóxia dependência dos produtos da indústria farmacêutica. Guess what. Never Happened. A gigantesca indústria das crenças alternativas labora na desconfiança que o sujeito tem relativamente à sociedade em que se insere. E nenhum de nós, por mais infra-paranóico que seja, é imune à suspeição de que as pessoas que dão a cara no exercício do poder não são realmente aquelas que mandam. Essa incerteza, muitas vezes justificada pela revelação jornalística dos interesses muito pouco transparentes que movem os políticos e pelas desocultação das relações que estes mantêm com uma espécie de governo paralelo, constituído por homens com dinheiro e poder, é a base da suspeição que os cidadãos têm vis-à-vis a sociedade em que vivem. E, crescendo de forma incontrolável, essa desconfiança alastra para tudo quanto o governo – o oficial e aquele “que efectivamente manda” – legisla, determina e regula. E embora as teorias da conspiração possam abarcar, de facto, qualquer evidência científica, transformando-as em véus destinados a nos cegar perante a verdadeira intenção daqueles que a produzem, as áreas da saúde, regra geral, são as mais propensas a sofrer este efeito de desinformação. E percebe-se porquê. Se os donos-disto-tudo pretendem instaurar uma “nova ordem mundial”, como advoga a maior parte dos teóricos da conspiração, dizimando grande parte da população ou escravizando-a de alguma forma, o meio mais adequado para o conseguir seria manipular as soluções que temos ao nosso dispor para salvar vidas no sentido exactamente inverso. Daí as teorias dos chemtrails, das vacinas incapacitantes, dos muitos e demasiado diversos planos para nos destruir ou amputar mentalmente para serem enumerados fora do âmbito de uma tese de doutoramento. A verdade é que a haver uma ordem oculta, esta não precisa de gastar um tostão em implementar de forma encoberta uma maquinaria sofisticada capaz de administrar-nos químicos cuja finalidade é tornar-nos estúpidos. A forma como nos comportamos, a maior parte das vezes tão rudimentarmente emocional como acrítica, perante a informação que temos ao nosso dispor, é mais que suficiente.