Quero é dançar na chuva

Horta Seca, Lisboa, sexta, 8 Janeiro

«Nós, em devir// oramos todos uns dias por um quinhão de alegria». Envolta em mãos desenhadas, simples à vista e outras quase ocultas a tocar corações e complexidades, chega-me «oração», de Isabel Baraona, em correio com carimbo de data e selo contem Amália na fronteira de serrilha. Leio a magnífica litania logo passando para a voz alta, seu indubitável lugar. O caderno que sobra para lá do invólucro de mãos acolhe com mestria gráfica a cadência dos versos em repetição acrescentada, como se fossem chegando para irem adensando até ao núcleo dispersando depois. Aspectos e segredos de mães e amantes, «um coração duas línguas», apanhados no ar para irem definindo corpo, de palavras que são matéria, e casa, de espaços que são respiração. «nós, plural feminino// nós, que somos apenas/ nós, que somos quase// nós, em devir, nós, plurais e por vezes repetitivas,/ as eleitas, mas não as mais jovens/ amantes, mas não as mais belas/ nós, à escuta do amor dos homens/ desejando neles a fêmea que também são/ nós, canhestras e porventura insolentes/ hirtas, entre músculo e ossatura frágil/ esfolamos os seios até ao coração.» A citação falha na aproximação à experiência, destrói o objecto, perfura a borboleta ainda viva. Leio vezes sem conta, «não dizendo angústia porque as palavras são desejos», mas celebrando-a. Um grito bordado em murmúrio. Uma pérola de carne e osso. Mais do que jardinagem de sinais poéticos, dizem-se as palavras que precisão ficar contíguas ao corpo e à casa para o definirem. O ícone não representa, faz-se presença. Uma afirmação de brutal carga eléctrica, indispensável para sobreviver «ao ícone desfeito em tempestade». Queria muito voltar a rezar assim: «nós,// oramos sempre e ainda por uma alegria leve e viva».

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 15 Janeiro

Cá está novo fechamento, anunciado à náusea, adiado ao limite. Ainda assim, as ruas não se esvaziam. A catástrofe está instalada à razão de um avião em queda por dia, mas nem isso acende as campainhas histéricas dos telexes virtuais. Ou antes, os alarmes são ignorados, por não querermos acreditar na impossibilidade de se viver como habitualmente. Arde-me a casa, mas na vez de tentar apagar todos os fogos, o fogo, entendo por bem arrumá-la.

Nem isso: escolho um gesto minimal repetitivo e nele me instalo, performance silenciosa no escuro. Melhor faria se observasse os mil modos do gato se espreguiçar, harmoniosas odes à potência do salto.

Parceiro de projectos postos em pausa, o João Francisco [Vilhena] desafia-me para um «Diário das nuvens», desconhecendo ainda assim a minha desmedida e diletante atracção por esses fugidios elementos. Que teriam para dizer essas imemoriais companheiras destes nossos pára-arranca? Um dos muito encantos das ditas massas suspensas de água e poeira está em nada dizer. Somos nós que nelas penduramos estados de espírito, tornando-as vestes da tristeza ou da melancolia. O João envia, a cada dia, fotografia de um caso, jogando com luz, composição e a sua leitura do dia. Estou a vê-lo a bater às portas para poder subir às varandas, aos telhados, identificando-se: «é para contar as nuvens». Para contar das nuvens só mesmo palavras, micro-histórias ao sabor da absoluta liberdade, perseguindo ideia ou descascando palavra, descrevendo objecto ou engendrando situação, observando, dentro e fora. Exercício de felino doméstico, arranhar sofás e espreitar visões do vizinho nenhures. As decisões urgentíssimas que continuem presas na sua desesperança prática. Topei logo a fala das portas dos últimos dias — estava capaz de criar uma religião. O Bernardo [Trindade] está a fechar com estrondo uma de vidro que permitia, mesmo nas madrugadas aflitas, ver as lombadas alinhadas a conservar saberes. Nem o gradeamento em losangos, arremedo securitário pintado de flores por estes dias, impede que nos assomamos ao miradouro. A da abysmo foi raspada e polida, caiu o verniz, perdeu brilho, portanto, para acolher entretons de laranja. Dá-lhe movimento, parece que acabou de se esfregar na pele na cidade, parou para descansar por instantes antes de continuar a roçagar-se pelas coisas do mundo. A do prédio aqui possui curiosa mistura de peso e transparência, momento distinto das artes aplicadas, com a fechadura próxima do chão, uma bela moral: tu que queres entrar, baixa-te para alcançar a abertura. Apanhei a tua nuvem, João, hesitando entre pára-quedas e metáfora. Entrada primeira:

«Estava capaz de jurar que era uma ideia. Foram as suas hesitações perante a porta que me despertaram. Era uma porta semelhante a tantas horas que se rasgam em rectângulo na face dos prédios. Umas são como canções, outras não. Umas são de abrir acessos, outras de os travar. Esculturas de ferro com transparências de vidro. Cegas na bruteza. Vendo bem, esta era distinta. Era a porta da rua. Não do prédio, mas da rua. O exterior, que costumava ser de todos, vedava-se. A ideia encontrava-se entalada no exacto espaço entre entrada e saída. Ainda bem que o desconforto térmico não era por aí além.”

27 Jan 2021

Fata_listas

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 1 Janeiro

Não faço lista de desejos. Tenho estranha relação com o dito, tal qual a metáfora. Se esta me leva a lugares, estabelecendo ligações, abrindo perspectivas, desdobrando possibilidades, mas no fingimento da transparência, de aproximação a um qualquer centro, uma verdade, nesse mesmo movimento me distrai. Há metafísica suficiente em não pensar em nada. No desejo não encontro degrau para chegar ao real, para transfigurar o volátil em palpável. Se mastigado com tempo e sentidos, o desejo desdobra-se fim em si mesmo e exige múltiplos cuidados e leituras. Portanto, faço listas dos afazeres que teimo em descumprir, mas não dos movediços desejos.
Estou certo que na contagem dos dias que agora recomeça entrarei nas areias movediças da criação partilhada com o André da Loba. A imagem que aqui se tatua pertence a um projecto de revisitação da tira desenhada, buscando nexos entre o desenho livre e o aforismo selvagem, uma gramática das formas em movimento, posta a palavra na cadeira do espectador a dizer por dizer.

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 2 Janeiro

As fatais listas dos melhores do ano, aqui e ali, incluem o «Aaron Klein» e «Os grandes animais». Também está frio e até choveu. Não sei se há neve nas terras altas. Amigo [querido] tem a mania de ilustrar as conversas com livros, pelo que durante o fechamento me atirou habitante das listagens, «Chuva Miúda», de Luis Landero (ed. Porto Editora). Não será mau romance, com excelentes observações, frases de bom tom, fino recorte dos protagonistas e uma competente gestão dos tempos da narrativa. É uma história, que se pretende dura, ou melhor, céptica na visão da família que não saberemos nunca como ser nem deixar de ser. Uma história que talvez seja de consolação, como as que o narrador pensa durante os pensamentos da Aurora, personagem que começa por parecer viver apenas nas palavras dos outros: «que haverá na narração que tanto nos consola das culpas e dos erros e das muitas penas que os anos vão deixando à sua passagem?» Cansou-me sobremaneira a omnipresença do narrador, inescapável, por certo, mas que não precisava tornar-se ferramenta voraz, eléctrica chave que abre tudo para pôr explicações e conclusões nas fendas. O mesmo querido [amigo] pôs-me nas «Viagens», de Olga Tokarczuk (ed. Cavalo de Ferro), que me tinha escapado por entre confusões, mediatismos e certa alergia ao corrente. Também por aqui se dá basto consolo e histórias de ver ao espelho, com princípio meio e fim, não sei se por esta ordem. Para bem dos nossos pecados, acende pensamentos que brilham por muito, faz canções, dá início a outros tantos romances, recorta notícias da banalidade, faz dos pontos de interrogação mapa onde coloca corpos e tempo, não se cansa de fazer e refazer bibliotecas. Está também em várias fatalistas, de prémios até. Não me quero armar em canonista, que não tenho carta de pesados, mas interessa-me mais o que entrega labirinto na vez de porta. Por bem desenhada que esteja na parede.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 3 Janeiro

A vizinha gruta de Ali Babá recebeu umas velhas novidades e lá colhi, puxado pela capa com título desenhado tão viva e modernamente que parecia impresso ontem: «50 anos de poesia portuguesa: do simbolismo ao surrealismo», de um algo destratado João Gaspar Simões, e inserido na colecção/editora movimento que me desperta curiosidade a cumprir. Sem surpresa, encontro por aqui ideias, prenhes de dados e conhecimento, com que dialogar. No essencial, Gaspar Simões defende que o simbolismo teria marcado de modo indelével a produção poética nacional, atacando-o, mastigando-o, celebrando-o, reinventando-o, no balanço do a favor e do contra. Os poetas do surrealismo «iam direitos ao absoluto, resolviam de uma só vez o enigma da alquimia medieval. O poeta é por assim dizer o demiurgo que refaz dentro de si mesmo os segredos essenciais do universo.» Nesse pólo oposto do simbolismo, depois de sustentada digressão, por nomes, movimentos, publicações, temas (onde o amor figura com destaque), acaba o ensaísta por detectar convergência paradoxal. «Esteticamente, afinal, o século XX viveu, e continua a viver, pelo menos no domínio da poesia, das grandes descobertas dos poetas que no final do século XIX conferiram à criação poética prerrogativas de conhecimento absoluto.»

Sobra ainda da leitura uma lista de poetas que passaram entre os pingos da chuva radioactiva dos cânones, seja qualquer for a origem do dito, academia ou mediania. Será talvez triste para quem o não entenda, mas este jogo de escondidas torna-se, com o tempo, motivo de alegria para quem queira atrever-se. (Entrando nos alfarrabistas.) Eis um caso, distinto, por só agora deixar a obscuridade das gavetas. José Rui Teixeira, que já havia trabalhado como poucos a figura do morador da Horta Seca, Guilherme de Faria, tratou agora cuidado extremo o seu companheiro, António Hartwich Nunes, personagem a justificar curiosidades, não apenas pela ilustre filiação. «O Livro de Ónio» (ed. Cosmorama) reúne a poesia de alguém que a praticou toda a vida, como o desenho e a pintura, sem assumir as inerências da condição: «fui poeta sem querer e, sem querer, continuo e continuarei a sê-lo». Um mote essencial, não apenas na sua relação com o suicidado Guilherme, está no mote-enigma: «Sonhei um sonho tão velo,/ E foi pior para mim…/ Agora para esquecê-lo,/ Gasto a vida até ao fim.» Amor, Deus e uma solidão, que talvez só o humor alivie, traçam aqui singela paisagem de almas. «Só comigo fui;/ só eu sei quem sou./ Mas eu senti tudo,/ tudo me falou.// Tudo passa e move;/ tudo é já no fim./ Mas a morte é vida/ a chamar por mim.»

Não será a modéstia encantatória do Levi [Condinho] a afastá-lo das atenções merecidas. Valorizamos demais a presença no palco. E para vestir o fato do poeta há que caber nas várias peças do bem parecer, gravata de maldito incluída. Levi está bem na penumbra, praticando os malabarismos de uma arte poética que independe das leituras: «Perscrutar os veios da matéria/ seus nexos sons perfumes/ íntimas substâncias copuladas pela língua/ inventar o Verbo que invente a negação/ da profaneidade da palavra/ que autómatos nos move sobre escarpas.» A Húmus fez «Colheita serôdia» de inéditos e dispersos. (Poucos poetas se ficam hoje por uma casa, quase sempre para responder ao apelo magnético da amizade, nem tanto por razões programáticas. Não vem daí mal ao mundo. Na área da música, mais do que bandas de formação fixa, vemos projectos com irrequietos e permutáveis interpretes.)

Até ao começo do século, injustamente acusado de novo, o poeta continuou a cultivar como jardim este ao redor dos acordes, dos nadas, do pequeno e médio Deus, de leituras, das memórias, talvez da morte. E pássaros, corvos e melros. E árvores, sobreiros e choupos. «Ciclo fechado em perpétuo devir/ vertigem medida em tempos certeiros geometria perfumada».

6 Jan 2021

Há os homens

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 13 Agosto

 

O mundo não acabou para a Notre Dame de Paris, mas algo se perdeu nas chamas. Assim o mundo rural não acabará, apesar de morrer a cada verão incendiado. Se nas ondas revoltas se naufraga, que palavra espelha o afogamento em mar de chamas? Ardência? Nem todos os finais são abruptos, há formas de ir soltando ser, deixar pele nas silvas, aguentar o amargo do fracasso, o fel da injustiça, a banalidade da desorientação. A Notre Dame não perdeu o seu anjo, aquele que sopra trompa como continuação do corpo, seta disparada ao chão na vez de atirada aos céus, e assim se toca anunciando, a graça ou o fim. Aquando do incêndio do ano passado circularam fotos nas quais com olhar se infantil se vislumbrava anjo de fumo abraçando o pináculo em chamas, figura interpretando o tema derradeiro do instrumento. Blaise Cendrars não desdenharia a potência da imagem, a profecia do gesto. Afinal, já no final de outro século, em 1917 (o século extingiu-se na Grande Guerra e não na folha do calendário) nos dava a ver «O Fim do Mundo Filmado pelo Anjo N(otre) – D(ame)» (edição da Assírio & Alvim, com tradução de Aníbal Fernandes). Os desenhos de Fernand Leger no original fazem paisagem com corpos e letras, palavras, fazendo com elas catedral, cidade, caos. Desfazendo o cima e o baixo, as orientações e os sentidos, brotando em cores básicas do vale das páginas. As letras são estilhaços do fim do mundo. E o Anjo ergue-se sobre o seu sopro, desloca-se empurrado pelo som. Blaise intuiu que o cinema havia acabado de se criar para registar o epílogo, como a revolução foi televisionada e este apocalipse quedo brotou das redes e do santo algoritmo. Mas aquele mundo de antanho havia de ser superprodução com figurantes sem conta e a natureza a recriar-se perante os olhos dos espectadores por haver. No tradicional lugar comum do finamento a vida de cada um passa-lhe em filme, revisão da matéria vivida. Neste do Anjo N.-D. tratou a natureza de se rever em jogo de formas geométricas e orgânicas. «Tudo espirra. Tudo se mistura. Pan. Demónio. O mar oleoso, pesado como asfalto. A terra enegrecida, sangrenta, a liquefazer-se. As ondas transformam-se em montanhas e os continentes afundam-se. Torvelinho.» O crescendo termina quando «o último raio de luz corta o espaço caótico como a barbatana de um tubarão…» Cabe à luz, parceira do verbo nos inícios bíblicos, o papel de ultimar. Um fogo largado à aparelhagem põe o filme a correr às arrecuas. E o Deus-pai de todos os princípios e também deste fim do mundo regressa, capitalista de charuto e automóvel de luxo que havia espoletado tudo com uma grande feira de religiões em Marte. Retrato dos dias nossos nos dai hoje, veja o leitor se não somos de Marte. «A multidão dos Marcianos comprime-se à frente da cavalgada. Vemo-los nas bolas de sabão que lhes servem de habitáculo, como imponderáveis fetos metidos em frascos. Matizam-se como camaleões e adquirem cores, de acordo com os sentimentos que os agitam.» Só que Deus excedeu-se e a feira apresenta-se «demasiado vulgar», uma orgia de anúncios e música em altos berros, o horror dos espectáculos, de certas cenas, dos sacrifícios dos animais, a repugnante exposição dos mártires, a fixidez das máscaras, a crueldade das danças, «todos os meios ferozmente sensuais explorados nesta grande parada das religiões» assustam os marcianos que fervem e explodem empurrando Deus para o deserto onde resolve concretizar as profecias. O homem certo para o «trabalhinho» é o da câmara de filmar, que assim começa a descrever-erguer a cidade-mundo . Aliás, as cidades ajuntam-se frente a Notre Dame de Paris até que o Anjo incha as bochechas. «Tudo o que os homens construiram desaba imediatamente sobre os vivos e soterra-os. Só que ainda tem um resto de vida mecânica resiste mais dois segundos. Vemos comboios andar sem comando, maquinas rodar em vazio, aviões cair como folhas mortas.» Depois o cinema, «acelerado e ao retardador», o da natureza. São frases curtas, lâminas em torvelinho. Descrições exactas, que me fazem hesitar entre Godard e Malick para assistentes de realização. Desnecessários, que o texto revela-se bem, boa companhia neste deserto atravessado a nada. Blaise pariu-o de jacto, «a minha mais bela noite de escrita», sem emenda nem remédio, para nunca se desfazer em luz projectada. Além do brilho próprio, claro. Tinha 30 anos, era editor e estava a fazer contas à vida.

«Hoje, que já não acredito em nada, a vida não me suscita mais horror do que a morte, e vice-versa.
Fiz a pergunta a todos os meus amigos: “Estás pronto a morrer agora mesmo?” Nunca nenhum deles me respondeu. Eu estou pronto; mas também estou pronto a viver mais cem mil anos. Não será a mesma coisa? (…)

Há os homens. Não nos devemos levar muito a sério.»

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 27 Agosto

Homens há que semeiam no deserto. Dia 8 de Setembro nascerá, ali para Alvalade, novo lugar de cultura, sobretudo fotográfica, com foco e desfoque no fotojornalismo. Francisco Leong, Luís Filipe Catarino, Jérôme Pin e o Bruno [Portela] são as almas penadas que assombrarão o CC11, começando com a exposição «Diário de uma pandemia». Pediram a este escriba que olhasse para dúzia e meia de (façanhudas) capas de jornais e revistas tugas.

«A coreografia revela confrontos, ou melhor, idas e vindas, aproximações e cruzamentos, enfim, dança entre drama e quotidiano, apelos tonitruantes ao épico e a voz baixa do trivial, o dentro e o fora, a vista de longe e o íntimo, heróis e líderes, o tudo na mesma no miolo da excepção.

Torna-se fascinante acompanhar os olhares dos fotógrafos sobre o vazio. Os viadutos, lugar de passagem, canal para o sangue que alimenta a grande máquina em movimento contínuo, tornaram-se traços na paisagem. O homem só em plano próximo repete-se à exaustão. Não apenas como metáfora brilhando sobre a humana condição, mas ligando-o ao acontecimento, essa notável mestria do fotojornalismo. O primeiro plano daquele que passa tem como fundo um santuário das multidões. Que lugar para a fé neste instante? O indivíduo que cruza infindável passeio sob viadutos e prédios altos de cidade futurista leva de sacos de compras, a única razão de saída, e, está bem de se ver, máscara.»

Mouriscas, Abrantes, sábado, 30 Agosto

Alguém passa na estrada e o Cão Tinhoso, depois de coçar com a pata de trás a pulga das obsessões, estica ao máximo a coleira da ignorância e rosna a quem passa, a tudo o que mexe. Baba-se no gesto que lhe parece absoluto e vocacional, ao serviço da mais alta missão moral. Meio cego com a febre da carraça, não distingue a motoreta velha do assaltante ágil, cospe latidos que ecoam pestilentos no quintal a que chama mundo. Há sempre uma alma caridosa que lhe atira restos, não tanto para lhe matar, mas por apreciar o grande circo do patético. Que bem fica a cambalhota da dissonância no deserto!

2 Set 2020

Sinais-fósforo

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 5 Junho

«Toda a minha vida acreditei nos sinais.» Escrevo com Nora Mitrani, figura maior, daquelas que muito perversamente só nos são dadas a ver nos interstícios de outras (a mulher de, a amante de, a companheira de, a musa de). «Acreditei que a desordem do meu coração anunciava a ordem esmagadora que sobre ele cairia. […] Convenci-me que cada caso uma linguagem anunciava o acontecido com uma noite profunda ou uma nova esperança; se essa noite ou essa claridade se abatiam sobre mim sem que me apercebesse, estava certa de não ter percebido os sinais…» A pequena novela de nada, «Chronique d’un échouage» (ed. L’ Œuil ébloui), texto límpido sobre naufrágio tão perto das margens e tão dentro da perturbação, ecoa em mim no diálogo destes dias assim mesmo, mais nevoentos que negros, mais difusos que cristalinos. «A verdadeira catástrofe apresenta-se sempre da mesma maneira terna, despida de interesse mítico, quer dizer, exactamente o contrário do estereótipo da catástrofe. Este implica a precisão mortífera dos gestos dos homens e dos golpes da natureza, a aparição de uns quantos monstros e o ritmo do inferno desencadeado pelo conjunto.»

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 6 Junho

Apenas um dado, mas que logo revela a falta que nos faz o jornalismo digestão em tempo gordo de informação. Uma fórmula de divulgação nas redes, sobretudo no twitter, de estatísticas, The World Index, diz que a cidade com mais livrarias no mundo (que sabe contar), e com uma média de 41,6 por cada 100 mil habitantes é, pasme-se, Lisboa (rir). A seguir vem Melbourne (33,9) e depois Buenos Aires (22,6), afinal tão longe como a geografia. Madrid tem 15,7 e Nova Iorque 9,4 livrarias. O ABC logo viu nisto o espírito de Pessoa e Camões, únicos habitantes do centro vazio, uma ruína por acontecer, tremenda injustiça para o cego Chiado e o visionário Almada, o tateador Eça e o tintado Vieira, ou até o anónimo cauteleiro onde alguns doidos vagamente literatos vislumbraram em tempos um Lenine que logo quiseram derrubar em mansa bebedeira. Sem grande investimento, tratei de descobrir a fonte, que é afinal a lista (pública) da DGLAB e onde consta tudo e mais um gato, de alfarrabistas sem poiso a revendedores dos mais dúbios, em cidade que é afinal distrito. Mito, portanto. Cidade tão literária que preenche o vazio de leitores com livrarias. Quem não gosta de um bom livro que não lê nem compra? Projecto que há anos experimenta na carne como cravar essas interrogações ofereceu-me três textos de Jorge Carrión, que começa por «Contra a Amazon, sete razões – um manifesto» (ed. Ler Devagar). A sétima tem a ver como a morte dos espaços físicos, citando, por coincidência, Rem Koolhas: «uma cidade antiga singular, ao simplicar excessivamente a sua identidade, torna-se “genérica”, “transparente”. Intercambiável: como um logotipo». Há muito que os corvos voaram do logo da cidade com mais livrarias do mundo e aos livros nunca aqui lhes deram de comer.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 18 Junho

Na Croácia morreram subitamente mais de 50 milhões de abelhas, caixeiros-viajantes da multiplicação, senhoras do doce e da cor, construtoras da geometria e da textura. O subitamente está aqui a mais pois adivinha-se as razões na agricultura intensiva com os seus insecticidas e outras ferramentas da morte, quase sempre lenta.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 22 Junho

O Instituto Camões de Berlim tem um dolorosamente raro trabalho de divulgação das nossas letras. Agora, para preparar a suposta presença de Portugal na feira de Leipzig e estimular traduções, ou pelo menos leituras, criou site «com informações sobre 67 autores, com as respetivas biografias e sinopses das obras (76 títulos), permitindo que profissionais do sector, como editores de língua alemã ou programadores de festivais literários, solicitem um excerto traduzido para análise.» E pediu sugestões a mão-cheia de editores (https://camoesberlim.de/pl21_editores/). Não quis esgotar a minha quota com autores da abysmo, pelo acrescentei Brandão, Teixeira-Gomes e esse meu dilecto: «A cidade e a língua, nos romances de Nuno Bragança, cruzam-se de modo a construir laboratório das mais fulgurantes experiências. Não são apenas arquitectura e circunstâncias, ruas ou palavras, são memória e língua a fazer-nos acompanhar aventurosos percursos, dos mais díspares no colectivo social, e que nas páginas se encontram para definir a modernidade. Um tempo que nos interpela sempre.»

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 28 Junho

Em cinco dias, a vetusta central nuclear de Almaraz, resto ardente de perigosa distopia, que mora aqui ao lado registou dois incidentes. Ninguém deu por ela, nem preciso seria. As autoridades, no seu trabalho diligente de abelha a segregar tranquilidade, garantem que não foi nada: «O evento não teve impacto nos trabalhadores, no público ou no meio ambiente. Com as informações disponíveis até o momento, o incidente é classificado como nível 0 provisório na Escala Internacional de Eventos Nucleares (INES)». Durmo sempre melhor com um zero provisório à cabeceira.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 6 Julho

A simplicidade explode-nos em qualquer lado, desta foi no coração. Ennio Morricone (1928-2020) deixou-nos melodias que nos deram a ver, onde colocamos rostos e narrativas, vozes e deixas, que mexem connosco de mil formas por haver, que nos atravessam como só a cultura, esse mistério. A sua nota final nada tem de tonitruante. Despede-se de uns quantos amigos, desculpa-se dos esquecimentos e justifica um funeral apenas íntimo: «Non voglio disturbare».

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 10 Julho

O nada ganha terreno, nada de novo. O lugar de Hagia Sophia, na Istambul de mil faces, farol e cruzamento, suprema metáfora de um encontro de civilizações, lugar habitado pelo fogo e pela luz, pelo silêncio e pelo vazio, por deuses e demónios, pela presença do rostos e sinais de mão, pela morte, sobrevivente da guerra e da pandemia turística, sucumbiu aos desígnios sinistros do estreitamento. Não se trata tanto de substituir um deus talvez mais simpaticamente profano por outro, mas de sacrificar a cultura no altar da política, e portanto de reduzir os acessos, baixar do absoluto universal ao mínimo focado. O que era ilimitado tornou-se quebradiço, terna catástrofe.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 12 Julho

Há um mês, mais de 350 elefantes morreram subitamente, de novo a palavra a brilhar como lâmina, no delta do Okavango, no norte do Botswana. Temia-se a mão do caçador furtivo, por via de veneno malino. Um primeiro estudo aponta agora para um novo vírus, que pode até fazer dos humanos casa. «Essa preocupação é legítima porque estamos convivendo cada vez mais com zoonoses que acabam passando para os humanos, dado o aumento da urbanização e a proximidade com animais selvagens», disse à BBC o biólogo Niall McCann, diretor da National Park Rescue. Zoonoses, esses caixeiros-viajantes da morte.

15 Jul 2020

Domingo no Mundo

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 6 Junho

Ficou, José, a conversa a meio, Barrias. Vai ser mais difícil, doravante, ver as linhas com que passajavas as bainhas do Mundo. As mãos do artista não param um instante de alinhavar máquinas de moer sentidos, a romper passagens entre isto e aquilo, ligando a pureza do olhar à sujidade da recomposição. Às vezes chamam-lhe atelier. Não sei agora onde colocar as peças que sobravam na desmontagem dos funcionamentos que praticavas com a elegância dos construtores malabaristas. As palavras nem por cicatrizes voltarão a prender os arames atravessados. Ficamos sempre a meio.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 7 Junho

Estava perdida no tempo a origem de certo azul púrpura que iluminava manuscritos medievais. A cor milenar extrai-se, afinal, dos frutos da pequena planta que nasce na Granja-Amareleja, Chrozophora tinctoria, pequena erva de folhagem verde-prateada. As flores são agrupadas em racemos tipo espiga, com as masculinas no topo e as femininas na base, em geral solitárias. As flores masculinas são amarelas e discretas. As flores femininas exibem um ovário esférico sem pétalas. Os investigadores começaram por ler vários tratados medievais, com as instruções para obter o folium, de uso sumido. Também simularam a interação da luz com a molécula, para verificar se assim chegavam ao tom exacto e desejado. Obtive inesperada alegria com a resolução, através de leitura e luz, deste enigma colorido.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 16 Junho

Na normalidade dita nova as entrevistas televisivas quase dispensam intermediários. As perguntas chegam por email com foto que explica os enquadramentos habituais. Faz-se do ecrã o espelho, ensaia-se sem maquilhagem nem conhecimentos mínimos de iluminação, tortura-se a retórica na esperança da eloquência, repete-se até atingir o ponto e o perfume do refogado e está pronto. Sofrerá ainda a montagem final, que no caso do «Nada Será Como Dante», com o propósito da Torpor, acabou por dar peça redonda e equilibrada, mas o processo deixa um fundo de boca estranho. Perde-se, algures, o olhar do operador de câmara. Somos diferentes quando somos vistos. E postos no lugar pelo olho alheio.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 21 Junho

Do outro lado do Mundo chegou a Sara, filha da Maki e do João. Deu-se o enlevo na madrugada alta, como devia ser sempre. Fora noite e logo o dia nasceria, que novas destes vêm com o condão de mexer nos ritmos. O anúncio deste dia já me tinha trazido graça em altura rasteira, também pelo debate à volta nome, que no Japão ganha a suprema complexidade do único, cruzamento das possibilidades infinitas. Além dos significados de cada partícula, há que ter em conta o equilíbrio gráfico dos caracteres e inúmeras relações, com o apelido, com os sons. Sara pode portanto conter bondade, coisa bem feita, kimono de seda suave ou nova colheita colorida. A entoação encontrar-se-á com as explicações, cantando ambas a maneira única de ser na perfeição Sara. De dizer um nome mais os rios que nele desaguam.

Santa Bárbara, Lisboa, quarta, 24 Junho

O melhor dos filmes tem apenas um protagonista e conta as voltas e reviravoltas da sua vida nuclear de 1 de Junho de 2010 ao mesmo dia de 2020. Um olho-lente esteve focado nele sem pestanejar este tempo todo e o resultado só podia ser brilhante, ainda que este brilho tenha muito que se lhe diga e se veja: https://www.nasa.gov/feature/goddard/2020/watch-a-10-year-time-lapse-of-sun-from-nasa-s-sdo. Crítica singular: Morricone deveria ter tratado da banda sonora.

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 27 Junho

Sem querer descubro dossier todo organizadinho, impante de colagens e legendas dactilografado, ligeiramente sublinhado. São para aí uns três anos de crónicas de Carlos Drummond de Andrade, no Jornal do Fundão. Neste exacto dia há 40 não menos exactos anos o tema era Camões, talvez eco do dia redondo, «amaldiçoado dia de nascer», embora aquele fosse visita frequente da casa destoutro. A coluna, está bem de ver, erguia-se poliédrica por isso naquele dia cantava: «Luís, homem estranho, que pelo verbo/ é, mais do que amador, o próprio amor/ latejante, esquecido, revoltado,/ submisso, renascente, reflorindo/ em cem mil corações multiplicado./ És a linguagem. Dor particular/ deixa de existir para fazer-se dor de todos os homens, musical/na voz de órfico acento, peregrina./ Que pássaro lascivo se intercala/ no queixume sutil de tua estrofe/ e não se sabe mais se é dor, delícia,/ e espinho, afago, e morte, renascença?» E segue estratosfera afora. Quem era aquele miúdo a copiar de tesoura e cola tais palavras, os pensamentos e o humor que se abriam nos micro-contos da delícia; que terá retido do país Brasil que logo esqueceu e ali ressuma de tão explicado, tão de carne, tão de osso? O puto está agora em oportun-idade de balanço, mareado de tão quieto, a pintura das sombras das ferramentas para que não se perca o seu lugar no painel-cenário. O garoto continua rodeado de papel ainda sem saber bem qual o seu, acedendo-lhe tão só pelo tacto à humidade e aos vincos. São «tempos difíceis», adivinhava Drummond, noutro dia: «Na cidade cada vez mais ameaçadora, o sujeito receava ficar em casa e tinha medo de sair à rua. E dava a razão: -Urubu está voando baixo.»

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 28 Junho

As nuvens viajam no tempo. Interrompo a passagem destas que foram fundo, em 1783, para uma das vidas cantadas de Dardanus, de Jean-Philippe Rameau, e circulam agora nas redes sem que se saiba bem a razão. Fatiga-se o olhar na biblioteca de profundidades, de cores em diálogo ininterrupto, as sucessivas subtilezas do azul, sobrepõem-se as carnes, reconheço-lhes as cicatrizes, o verso a transparecer, a canto a marcar arrumações, uma aparente quietude que conserva a passagem do tempo. Fico-me nas nuvens.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 30 Junho

A Arquivo, livraria que emite dons, deu mais uma volta ao sol e por causa dela vejo as chamas consumirem-se no astro Borges. Atrevi-me a dar voz a Outro poema dos dons, sacado à sua «Nova Antologia Pessoal», na edição seminal da Difel, traduzida pela editora, Maria da Piedade Ferreira: «Graças quero dar […]/ pelo facto de que o poema é inesgotável/ e se confunde com a soma das criaturas/ e jamais chegará ao último verso/ e varia segundo os homens».

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 4 Julho

O neto de um amigo, novíssimo como as madrugadas e tocado por doença que tende para tragédia, nunca deixou de brincar. Com ferramentas. Exames recentes dizem que vai continuar a construir o que bem lhe apetecer, apesar dos riscos. Alicate e chave-inglesa, martelo e grifo, serrote e formão são agora flores no meu jardim. A notícia rega-o com abundância de águas onde chapinho descalço e jubiloso.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 5 Julho

Nas bibliotecas de Hong Kong começaram a ser retirados livros de oposicionistas e intelectuais, como Joshua Wong Tanya Chan ou Chin Wan, sem que as autoridades façam disso segredo. Explicação mais oficial não há: contrariam a (nova) lei de segurança nacional. Comovente a força que ainda se reconhece ao livro, abrigo das ideias. Ora se a proibição contém em si o germe da tristeza, cada livro proibido tende a arder muito para além das cinzas. Sem os ter lido, desejo-lhes isso mesmo.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 6 Julho

O longo braço da generosidade toca-me com os «Contos de Aprendiz», de Drummond. Recebo o perverso contentamento desta manifestação de sincronicidade. E fico a pensar se a épica tem maneiras de caber na narrativa curta.

8 Jul 2020

Portanto

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 19 Maio

 

Mal-entendido que talvez desse verso acaba engordando a croniqueta. O carteiro, que me traça o perfil da realidade ao coser em correria geométrica as margens de rua que vislumbro, de calções e ar tresloucado mesmo à chuva, achou que não estava ninguém em casa e levou de volta a pequena encomenda registada. O tangível achou que eu era casa, talvez mobília, talvez muro. Entre mim e as paredes já nem a voz nem as palavras. O envelope resgatado na estação parecia vir do passado, no seu couché agrafado, formato regular e temática futurista. «Orion é um fanzine de sci-fi e fantasia com uma versão electrónica (web) e uma impressa (apenas para os colaboradores)». Assim se apresenta o projecto do Renato [Abreu] que insiste em fórmula imorredoura, alguém que diz por palavras ou imagens e teima em partilhá-lo. E dizem das confusões dos tempos, de muitos modos, para para afirmar o inevitável fim: darkness, nightmare, fim. Ainda antes da pandemia, o futuro estava bastante passado. Portanto, catastrófico.

Santa Bárbara, Lisboa, quarta, 3 Junho

Mais alegria em formato de encomenda, daquelas pueris. É livro! Mas teve que dobrar a espinha para entrar na caixa do correio, nada a fazer, que o carteiro lá vai de calções furta-cor. Chega-me «Selva!!!» (ed. Umbra), a experiência na qual o Filipe [Abranches] se perde a reconstruir cada objecto de que é feita a aventura para a geração dos 50 anos: os airfix, o exotismo dos lugares de combate, os aviões, os vilões, os espiões, as armas em detalhe, o companheirismo viril de quem enfrenta a morte no papel, as frases e as expressões das línguas amigáveis e inimigas, a letra a fingir-se manuscrita e atirada para diante, a amizade manifesta, as recordações pessoalíssimas, a família desfeita em cenário, a traição, os movimentos com o corpo para evitar as balas, as paisagens de atiçar realizações, os dedos a fazer enquadramentos que gritam acção. O pano de fundo acaba sendo a melancolia. Ainda uma vez, os tempos mesclam-se, os bonecos viram homens, as paisagens agitam-se para permitir o regresso algo doloroso àquele passado do tudo possível e mais além. Não há cor, mas trama e traço, reconstituição ágil do nevoeiro húmido da memória. Onde, portanto, se torna fácil, tão fácil, sumirmo-nos.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 8 Junho

Estou em plena ressaca da Torpor, que me fez mesmo interromper por várias vezes este diálogo comigo mesmo, tão útil para mim quão indiferente para os restantes. A revista impôs-se de tal maneira que eclipsou o real: o novo site da abysmo continua atrasado, sem conseguir escoar velhos e novos títulos, não fomos capazes de aproveitar os fluxos para recolher contactos e estreitar relações. Portanto, tudo na mesma, na perspectiva prática, agravado pelo adiamento do mergulho nas contas e nas avaliações antes de ensaiar a planificação dos dias que se adivinham. Um dia de cada vez, oiço a cada hora o mantra enervante do Zen Povinho. No editorial da versão em pdf (https://torpor.abysmo.pt/wp-content/uploads/2020/06/Torpor_edicao0_web.pdf), mais revista que a antologia do online, que já ultrapassou por esta altura o milhar de descarregamentos, evoquei Roland Topor, por causa do erro de simpatia que faz com que o seu nome se confunda com o da revista, mas não apenas. O seu labor artístico tem tudo a ver com a forma de estar de quem se quer lúcido, e espelha como poucas estes confusos dias. (Sem ser preciso lembrar que foi co-arguentista do filme, realizado por Peter Fleischmann, «O Síndroma de Hamburgo», em torno de uma pandemia que acaba em ditadura). Atente-se na figura cujo corpo se fez noite com lua e tudo, e que caminha perigosamente perto de falha com o rosto voltado para quarto crescente. Santo padroeiro, portanto.

A revista vai continuar, por isto e por aquilo, pela urgência de novos temas. No regresso a alguns textos e outros trabalhos, que reverberam. A cumprir o que se anunciava no bloco C da edição zero. «Não será um loop, nem rodopio de entontecer até à queda livre, mas aqui chegados podemos recomeçar. Este em suma ressoa a um vamos lá. De novo a casa e a cidade, as paisagens, interiores e de horizonte, o desejo e o rosto, o ensaio improvável e o desenho concreto, seres que voam e outras matérias voláteis, pensamento a propósito e fotografia da raiva, revisitação dos clássicos e interpretação dos contemporâneos, sítios que parecem nenhures, documentário e delírio. Sobre o magma incandescente e em movimento, passa em corda esticada, o funâmbulo. Sem perder o equilíbrio, nem por sombras cedendo às pressas, levando a sombra por companhia na linha estreita que faz ponte entre isto e aquilo, que estabelece nexos. A linguagem é um vírus, por vezes amigável. Investigue-se, isso e os numerosos nomes para acabamento e finitude. A morte e o medo são vizinhos e da família, à vez. Parceiros de dança, também. Vá de esculpir-lhes rostos, corpos.

Torná-los ainda mais próximos. Dão assim para desmontar, dizem os artistas, para ver por dentro. Não se descobre logo como funcionam, que o coração continua enigma, mas recolhemos as peças e logo se verá. Eis, afinal, o labor labuta do equilibrista que é o leitor, de um lado para o outro, em busca das peças ponham o sentido a mexer. Vai de roda!»

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 9 Junho

Circula desde ontem a notícia venenosa do «apoio» governamental face à crise: insultuoso. Contas feitas, será para aí 1/5 do prometido, que era nada. Vai sair-nos, portanto, caro este alinhamento com ideia de que a (suposta) ajuda da Ajuda mudará alguma coisa, que o Estado fez o que lhe era exigido. Não o devolvo por cansaço. O facto da (des)dita ser a troco de livros para os leitorados de português, no que deveria ser prática rotineira de compra na vez de cravanço, talvez possa constituir sementeira de alguma coisa. Pudera eu acreditar nisso.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 14 Junho

Um pára-raios não os atrai, limita-se a recebê-los se acontecerem por perto. «A visagem do cronista» foi o mais pantanoso cabo dos trabalhos, causando dores em várias partes editoriais, da barriga ao coração, dos pés à cabeça. Aos atrasos aceitáveis em obra gigantesca, acolhendo centenas de nomes, de Almeida Garrett a João Pereira Coutinho, somaram-se, da burocracia à má-vontade, do azar fortuito à desgraça completa, as mais variadas ocorrências que desembocaram agora nesta: no exacto momento em que as 900 páginas dos dois volumes chegam da gráfica acontece a quarentena; no preciso instante em que o diário se torna o género de eleição este percurso por mais de dois séculos de crónica autobiográfica fica preso nos armazéns.

Deve a culpa ser assacada ao editor, que ganha agora a missão de, mais do que desconfinar, libertar prisioneiro que não merecia tal pena. Nem ele, nem a Carina Infante do Carmo, que através de exemplar trabalho de recolha, fixação e enquadramento, desenha panorama que diz muito da riqueza dos olhares, da escrita, da imprensa. Da de antanho, que a de hoje irá ignorar, como de costume – nem que fosse para discutir a escolha, que tem tanto de conservador como de surpreendente. Voltaremos ao assunto, hipnotizados pelo efeito combinado das duas magníficas capas (algures nesta página) do Bruno [Mantraste], na qual o manuscrito da palavra «cronista» contrasta com a pose monumental de mão que sustenta a cabeça e outra que ergue uma caneta. Usando-a, portanto, que nem pára-raios.

17 Jun 2020

Linhas cruzadas

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 31 Maio

Só a incauta diletância de flâneur explica esta aventura, para a qual arrastei o Teófilo [Duarte], e com o ele o João [Silva] e o Cláudio [Fernandes]. Não se sai incólume do cerco sanitário, sobretudo se o aríete for esta «Torpor — passos de voluptuosa dança na travagem brusca», que há horas se completou com a sexta entrega, a da morte e do medo, ainda que não apenas. Logo cedo no pastoso cinza dos dias, os poetas próximos me acendiam versos. Esfreguei os olhos e dei-me conta que a noite constante se iluminava com pequenos palcos, páginas, onde se reconhecia gente, criadores a refazer mundo. Ora, apesar de se terem constituído memória do mundo, as redes são voláteis e instáveis, pelo que me veio à boca a vontade de recolher-caçar e dar a ler. O papel do editor é encontrar nexos, pescar no caos os peixe-chama do sentido. Não se procurou planeamento algum, e só tarde se lançaram desafios, suscitados por vontades ou palavras inscritas na espuma. Na arrumação estabeleceram-se nexos, alguns ainda por detectar, como convém. Abrimos com punhado de artigos que dizem do que se encontrará depois desenvolvido (autobiografia, casa, cidade, paisagem, morte). Depois a comporta abriu-se, vieram águas, ventos e até fogos. Guardo para mim que algumas vozes nasceram nestes palimpsestos e outras regressaram com potência de barítono. Há experiências para acompanhar e imagens às quais regressar. Mantenho-me fixado na do Manuel [San Payo] que vi surgir, conversada em caixas de mensagens (algures na página). Aprendamos, pois, a olhar o tempo. Segue-se versão em pdf, onde a relação entre os fragmentos surgirá mais integrada. Na versão online só os alinhamentos oferecem a unidade possível, resgatando a soma da mera antologia. Deu ainda para perceber que algumas das ideias são específicas das plataformas e falta-lhes o ar fora delas. Depois a ânsia. Na incessante e agora? esconde-se a ânsia do papel. Um dia de cada vez!, respondo com o mote caduco. Ainda que pense que, se lição há a extrair tal dente cariado, é que podemos viver os dias todos num. Só precisamos esticar o hoje.

Palhavã, Lisboa, quarta, 20 Maio

Longe do sofá onde tenho morado fui acompanhando a contagem decrescente para a primeira entrega, a que fará as vezes de editorial, com arte e pensamento e política e inquietação, até música e palavra dita ou sussurrada. O nervoso miudinho no online não se compara ao papel, que a emenda é possível e a errata dinâmica. Continuo com saudades de uma redacção em fecho, quando do caos nascia pontuação. Aqui estamos em contínuo nos três. Deixem correr o sangue!

Santa Bárbara, Lisboa, quarta, 21 Maio

Para não termos a veleidade de arder, voltámos ter uma inundação. Não tão grave como a voz ao telefone anunciava, mas ainda assim lá se perderam mais umas centenas de livros. Que importa? De qualquer modo estavam já enterrados no esquecimento do habitual. Ao contrário dos apoios, a edição de livros é a fundo perdido.

Santa Bárbara, Lisboa, sexta, 22 Maio

Desconfinei sem sair de casa: fui à Prova Oral, do Alvim (https://www.rtp.pt/play/p260/e474129/prova-oral). Não sei se passei. (Ainda não me tinha visto neste espelho-ecrã da nova normalidade, cada um falando a fingir que estamos fora, rádio com imagem à superfície, por aí fora.) Para variar, rebaldaria de liceu, mas deu para tomar nota da confusão instalada à volta do livro.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 5 Maio

O Adérito [Fidalgo] avisa por mensagem que a Mimosa [do Camões] vai fechar de vez. Nada assinala melhor o fim de qualquer coisa, talvez um ciclo, um modo de estar, do que este símbolo a arder. Até o furor das obras de renovação, arrasando com estrondo o que nem por sombras era antigo, parece ser afirmação. Muita conversa, projecto, ideia, disparate, verso, livro, grito, toque, luz, dúvida, encontro e zanga, ameaça ou beijo, sustos, espantos, perdas e ganhos, deves e e haveres se ergueram por ali, no vai-vem entre a mesa e o passeio. Foi considerada, em certa polémica, a sede da abysmo, com isso tentando menorizar quem editámos, como se colocar coração e cabeça no lugar do estômago fosse desprezível. Ali foi, sim, a sede de uma certa sede, a festa pela certa que incomodou tanto alguns vigilantes e outros bem pensantes, sem esquecer muito comissário, coordenador, programador, director, que se arrepia com a vida fora dos gabinetes. Alguém há-de conservar a memória das noites de leitura em homenagem ao Herberto, então e na hora da sua morte. Ou quando nos despedimos de um dos nossos que partia e assustámos ministro que julgou e enfrentar manife operária, e talvez fosse. Há-de haver fotografias dos parcos prémios que nos atingiram expostos sob a vigilância hierática das garrafas de Bushmills. Alguém que tenha o segredo do âmbar que o conserve, pois não sei fazê-lo, não domino o mister da memória. Dito isto, nenhum abalo se regista na natureza quando a cobra muda de pele.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 7 Maio

Prazer igual não há. Receber correio, sobretudo livros, desdobra os dias em espanto. Durante a pegajosa crise, a alegria foi abrindo o correio sentimental. Foi com o pão de ló da Carla, as madalenas do Luís e da Sandra, o cabaz de verdes do João e da Paula, as cerejas da Maggie e do Nuno, os ovos e mais verduras da Ingrid, o pão e mais cerejas do Paulo. Sem nenhum risco de exagero, por causa da balança do António. Os adjectivos foram inventados para pôr cor nisto, vejam onde e podem ser trocados: elegantes, memoráveis, luxuriante, suculentas, saborosos, robusto e belas, tão moderna que comunica.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 8 Maio

Malhas que a rede tece. Um dos grandes professores que me moldaram, o João [Nogueira da Costa] trabalha o tempo com detalhes de escultor. Desencantou uma nota em papel onde se registava o acompanhamento partilhado das voltas de Luandino por Lisboa. Por mais que procure, até em territórios de Alice, não encontro aquele puto. Na encruzilhada de então escolheu rumo, como de costume em contra conselho, que deu em nada. Enfim, talvez o puto aquele acabe por reaparecer para dizer que os caminhos se fazem cruzando os assinalados, os aplanados, os celebrados.

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 9 Maio

Raro é lembrar os sonhos. Já agora, nem os pesadelos. Posso até ser acusado de confundir tudo. Jamais serei exacto surrealista, nem que me apeteça ou os bonzos permitam. Estranho, portanto, esta recordação da noite passada a vaguear por entre altas e magras figuras, esculturais mas no modo marcado de Giacometti, nenhuma minúscula a habitar caixas de fósforos, mas a arder no passo adiante, a refazerem-se para além das marcas dos dedos, hesitando entre ser rosto que marcha ou corpo que sustenta o céu de uma cabeça. Não me limitava a andar. Havia trocado mensagens com a Isabel [Abreu] pelo que ela me apareceu a dar uma peça, e a repetir que era muito importante não a largar nunca, a esculpir as palavras no ar com as suas mãos giacométticas, giacométricas. Atravessei o que havia para atravessar, talvez um ciclo, um modo de estar, o deserto ou rua. E assim fiz com a ansiedade indispensável sem saber se cheguei a algum lugar que não fosse a madrugada do acordar. Recordo a pequena peça, talvez continue a segurá-la noite dentro, não possuo o talento para lhe capturar a estranheza, de formas geométricas desalinhadas mas ainda assim pacificadas, irritantemente nórdicas. Talvez a memória seja ela mesma a obra.

3 Jun 2020

Olhos privados na noite

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 27 Abril

Para efeitos de dramaturgia, acreditem que foi pela meia noite. As casas, pequenas que sejam, reconfiguram-se no inesperado, parecem desenhadas por lombo de gato. Aquela assoalhada tem produzido inúmeras surpresas, sendo que começam sempre pelo toque aveludado da camada volátil e externa de passado, o pó. Aquietada a nuvem, descubro um saco com jornais, revistas, calendário, enfim, publicações que desenham por junto o catálogo de exposição mítica: «Le temps, vite», com que se celebrava a chegada dos zeros. No parisiense Beaubourg, que outro lugar podia ser? Não foi o elegante pescoço de cisne do 2 de década que introduz enorme perturbação, foi o periscópio inquiridor de avestruz dos 2 últimos meses. Na convocatória das artes e ciências, que era também lição de curadoria, não faltam experiências e pensamento, objectos e imagens, a desmultiplicar caminhos, a expor o que não se vê, nem se toca, mas se sente, e nunca de uma maneira só. Os temas levantam-se em vórtice, com Umberto Eco em conversa com Daniel Soutif, o maître d’œuvre, a marcar ritmos. O tempo mecânico é deus recente e o relógio o seu profeta, arqui-inimigo do tempo interior. Houve alturas em que não havia atrasos. O sábio italiano desencanta histórias de movimentos contra o relógio, «espécie de esqueleto roendo o tempo», relembrando Lubrano, o poeta que escreveu sonetos sem conta «sobre essa obsessão do tempo métrico como o tempo da morte». Erupção constante, o tempo íntimo é de vida e muda os olhares, permite observar Mondrian como se fôssemos eternos, ainda que a informação não seja a mesma de um Bosch, ou circular na arquitectura rectilínea da escola do Porto com desatenções diferentes de uma catedral, e o mesmo para a literatura, com pausas nas epígrafes ou passadas apressadas nas citações, nas descrições. E a música. Monk e o seu ‘Round Midnight faz-se banda sonora, clepsidra inesgotável de respirações, de ritmos a dizer corpo, identidade. Por alguma razão se multiplicam os auto-retratos, e sabemos como muitos artistas se estão a desenhar ao espelho neste exacto instante. A síntese dos temas dá-se na bd de Jochen Gerner, «Un temps».

E qual o cenário escolhido? O aeroporto. Nada mudou tanto com a pandemia como estas catedrais da modernidade, assim lhes chamava Georges Duby, «inventor» da Idade Média, planície do tempo interno. Gerner, em narrativa minimal repetitivo, tatua-nos as micro-vivências, do desespero no táxi à chegada, do tédio da espera no atraso da partida, das vezes que se olha o relógio, dos fluxos da mole humano a que se assistia nas grandes montras, a passagem dos lugares nos painéis, a lógica contabilística de meridianos, afinal, a velocidade omnipresente, esmagadora, esventrada tal metáfora maior da vida. A velocidade travou.

As ruas das cidades desertificaram, e que estranho resulta constatar que nos primórdios do milénio o tempo se saudava tanto com ruas vazias passadas a luz. No caderno ligeiro da ficção, Juan José Millas, em «Personne» (ninguém), risca o vidro, arrepia e marca a transparência. Um editor – não é por isso, não se riam – confronta-se com revivências que não o são exactamente. Podemos entreter vidas paralelas, uma mental, outra palpável, correndo o perigo delas se cruzarem. E o beijo pode não ser casto. O imaginado será menos real, se nos afecta? Um Nada, de ontem, pode bem hoje fazer a diferença, tornar-se Tudo. Quantas identidades nos podem fazer mal? A memória teria que ser mote e a internet fazia figura de artista principal, com a morte dos periódicos, a queda do real, a suposta simultaneidade, o pântano do indistinto. Por estes dias, a rede apanha-nos de todo. O Pedro [Fradique] foi desencantar jornal de beira-rio, para o site que ilumina a noite escura. Está todo aqui, a vogar: https://www.luxfragil.com/jornal/ Dá para celebrar, ao som do anjo, a juventude dos velhos, tópico no menu. «As rugas fazem sombra, muita sombra, nalguns casos até dolorosa, mas quantos de nós, corpos hirtos perdidos no deserto, sabemos acolher na própria carne a carícia que a noite desenha na sombra? A sombra afirma como uma tatuagem que ali o sol não chega por nossa causa, porque nos deixamos queimar para inventar frescura. Aquele que aprendeu a voar no sopro do instrumento, que sussurrava através do frio do metal versos de um lirismo vulcânico, que adorava a velocidade dos automóveis e das substâncias, que só queria perder-se e perdeu-se sem envelhecer, Chet soube acolher lugares sem sol nas maçãs do rosto. Chet fez do rosto pomar de macieiras, jardim, paraíso bonsai, exibida naturalidade de enigmas. A juventude vive no rosto e aí rasgou com a sua navalha soprada e modulada pelos dedos, a mesma que não deixou nunca de acariciar, a tatuagem que dizia estarmos por toda a eternidade naturalmente sós, sem sol, parados. Apesar do amor, que é calor companhia e movimento.»

Feridos pela flecha do tempo, somos obrigados a andar de costas para o futuro. A exposição, lenta a ponto de durar até aqui, começava com a Lua, inevitável companheira, e acabava a celebrar o Sol, que marca o nosso fim. Em 2000 calculava-se nos cinco mil milhões de anos. Ainda vamos a tempo.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 28 Abril

Talvez preocupada com as leituras que por aqui enumero, na mais libertária das divagações, a que me tem sido oferecida por este dia estendido, mão amiga manda-me um aviso clássico: «O Vaso Quebrado», de Rex Stout. Nada como detectivar a morte para refrescar. O carteiro veloz, que vejo rasgar as ruas que nem Roadrunner soltando beps, talvez desabituado de ver volumes nesta morada, conseguiu partir-lhe a lombada.

No exacto meio do título do volume 678, da mítica casa editora da Rua dos Caetanos, perfumada de mil maneiras na passagem das horas, com notas titubeantes, eflúvios das damas-da-noite, histórias e personagens, mural de ladrilhos e portões verdes, uma cicatriz de branco parte da esquerda para quebrar o que devia ser contínuo. Não chega a ser fenda, apenas promessa luz. E abre mesmo vale, assinalando sem necessidade onde colocar o polegar, na capa de fundo negro. Muita conversa dedutiva resolverá em poucas horas o suicídio provocado do jovem violinista, além do assassinato mais directo de outras duas figuras nova-iorquinas para compor ramalhete de amores desencontrados e primária cupidez. A primeira frase pôs logo de sobreaviso o meu «olhar mortiço de poeta pessimista», como é apresentado o inspector Damon, no caso dele temperado com queixo de pugilista: «Naquela bisonha noite de Março…» Pode uma noite ser bisonha, ou seja nova, inexperta em arte ou ofício? Pode, revelam os indícios sobrantes das páginas que estamos a escrever.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta, 30 Abril

David B. escreve com imagens como poucos. «Nick Carter et André Breton – Une enquête surréaliste» (ed. Noctambule) não se deixa resolver armado em mistério. Dá rosto às forças do mal, trata os sonhos com carinho, mas não despreza nem criminosos nem artistas. Encontro qualquer coisa de ciência médica no cruzamento dos seres e das coisas, das sensações e das ideias, das letras e dos corpos, sem esquecer algarismos. Uma orgia das formas, que nos põe quietos a mexer. A sonhar, portanto. Os quadros articuláveis (alguns algures na página) alinham-se em biombo que ora revelam ora escondem profundezas à mão de semear. Era só para avisar, que a Lua dá-se bem com as ossadas que sustentam as telas.

6 Mai 2020

Lida da casa

Santa Bárbara, Lisboa, quinta 26 Março (bis)

Insisto. As lombadas andam inquietas com tanta atenção de olhos e mãos. Fingem o pó, para evocarem exteriores. E desafiam em distintos momentos deste longo dia com outras maneiras de caminhar sobre o tempo, de o desatar, de brincar com ele, às escondidas, à apanha. Afinal, passo o dia a fazer noite, como Colin a desgraçada figura que cavalga «A espuma dos dias», desse cintilante Boris Vian (ed. Frenesi) que há-de ser celebrado este ano, por via das redondas datas. A ver vamos, que este opressivo discorrer via produzindo em grande velocidade calhaus, belos e redondos. O realismo mágico, fórmula tristonha, pertence a outras paragens, bem sei, e por lá pode ficar o seu desajuste, mas o quotidiano destas paisagens, longe no tempo e no lugar dessas outras, ergue-se movediço, com uma dinâmica delirante que cruza mecânico e orgânico, sensação e matéria. De tal maneira, parecemos andar sobre perfume, com gozo e facilidade. Sinal maior, a casa muda a sua arquitectura consoante o que à sua volta se experimenta, se conhece, se sente, se vive. A casa enquanto nosso prolongamento, parte de nós, corpo concreto. Nos dias da espuma, a vida pode ser leve, até que a desgraça a contamine, o amor a sofrer com nenúfares a habitarem pulmões. A vida podia ser distinta, mas «nem sempre as coisas podem correr bem». Tenho que concordar com a resposta, até porque pela parte que me toca, também «podiam não correr sempre mal». As coisas são o que são, mas estamos fartos de saber que essa força que faz as coisas serem o que sempre foram tem a ver com quem ganha com isso. As coisas podem sempre ser feitas de maneira outra. Agora ficou manifesto, gritante.

Um viscoso quotidiano, oposto ao do par amoroso Colin e Chloé, escorre de «Les choses» (ed. Juillard) e agarra-se-me. Logo me vejo com o narrador, que podia ser Georges Perec talvez «un autre» sociólogo, a observar aquelas vidas na casinha de bonecas, fascinado pela «aisance» de vidas forradas a coisas, sustentadas por elas, nelas esgotadas. O supremo objecto de desejo do bem-estar quedo e ledo, a sociedade de consumo então nos seus alvores (subtítulo: uma história dos anos sessenta), a felicidade feita venenosa «souplesse». Outro par, que se esgota no conforto modesto, mas que aspira ao luxo, supremo hedonismo no qual a cultura se torna apenas sinal de estatuto, marca, sem transgressão nem sangue. Apenas uma coisa mais. Não há sombra de verdade, portanto de tragédia, apenas pilhas a gastarem-se agradavelmente. «Francamente insípido», eis as duas últimas palavras da novela.

O trânsito do tempo breve ao infinito, diz a sinopse, faz-se gancho enterrado na carne macerada para me puxar para levar a «La cuarentena» (ed. Alfaguara). Juan Goytisolo, outro dos grandes inquietos, interpelado pela morte de uma amiga, pela morte amiga?, resolve viajar. A quarentena onde me leva é a dos místicos sufis, que ele coloca em diálogo com Dante e «Divina Comédia». Afinal, corresponde ao momento em que, entre Terra e Céu, as almas se transfiguram e ganham um corpo subtil. Ganhamos suprema ligeireza para ir onde for preciso para vestir o corpo certo, o da eternidade. Como bom herege, tece «uma rede de significações para além por cima do espaço e do tempo, ignora as leis da verosimilhança, descarta as noções caducas de personagem e trama, abole as fronteiras de realidade e sonho, destabiliza o leitor multiplicando os níveis de interpretação e registo de vozes, apropria-se dos acontecimentos históricos e serve-se deles como combustível ao serviço do seu projecto», ou seja, «viver, morrer e ressuscitar». As suas palavras afirmam o processo de criação como quarentena e fala mesmo em «cordão sanitário, com protecção e barreiras». Por que raio se queixam então os escritores de domingo a passear cursor na rede? Tomo nota das pistas, há que regressar aos místicos, apetece-me o quietismo. Sem perder a leveza, a ligeireza do pó que viaja. Não se deve limpar o pó dos livros. A ele voltaremos.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 12 Abril

Peregrinando por entre a morte, cada um frankstein feito à força de peças de drone e corvo a percorrer ruas vazias a espelharem o nada nosso que nos dais hoje, celebra-se a brutal possibilidade da ressurreição. Sinal de que parte do carácter dos dias se perdeu — obrigando o mano António [de Castro Caeiro], mais tarde ou mais cedo, a acrescentar capítulo ao seu «Um dia não são dias» — até neste calendário se procura saber do futuro da edição, do livro, da leitura. Sílvia Cunha, da «Visão», lançou inquérito (e as respostas podem ser lidas aqui: https://visao.sapo.pt/atualidade/cultura/2020-04-12-covid-19-o-mundo-dos-livros-vai-sobreviver-a-pandemia-quatro-editores-respondem/). Por mais que tente abafá-la com a razão, ando sempre com o perfume de uma probabilidade outra no bolso. «A chegada a pés juntos do tempo nas nossas vidas, com esta travagem brusca, pode, de facto e, de novo, esperançosamente, mudar alguns comportamentos. Não creio que regressaremos a nenhuma época de ouro, que estará sempre por definição em passados e mitos, mas isso exigirá das editoras (e outros actores da tragicomédia editorial) novas respostas que respondam a novas necessidades. Sem dúvida que se abriram portas de um grande laboratório, assim haja quem queira agora manipular os aceleradores de partículas, que não será a aplicação acéfala de pomada na pele carcomida do marketing. Condenado o objecto-livro a uma comunidade de nichos, será daqui que surgirão as propostas mais interessantes.»

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 13 Abril

Quem tem medo do quotidiano? Mal se levantava o grande turbilhão de pó, o José Luiz [Tavares] compôs uma «litania em tempos de coronavírus», exigindo sem temor mais tempo ao tempo. «Agora sim,/ que é antes de toda a dor,/ ainda no corpo tens cor,/ e sobe-te à boca/ centos de sabores.// Mas ainda não ao grande sim,/ porque maravilha-te estar aqui/ (só mais um instantinho),/ embora penses na mão da eternidade/ ou como é doce o despenhamento.»

Agora mesmo (mas ainda haverá agora?), a Rita [Taborda Duarte] anuncia-me que «incorreu na falta» de escrever poema pandémico, cheia de loiça suja. «O poeta tem de bater com estrondo/
a porta da linguagem/ nas trombas do mundo;/ trancá-la por dentro: um poeta tem de escrever/
a métrica centrifugada dos lençóis/ encharcados nas ventas da poesia.// (…) Um poeta tem de escrever.// E só deve baixar os versos/ para chafurdar a esfregona no tinteiro.”

15 Abr 2020

Insignificâncias

Santa Bárbara, Lisboa, terça 24 Março

O gato percebeu-o antes, como deve ser. A varanda que dá para o cruzamento quase largo, palco maior dos pequenos choques e até grandes acidentes, abre-se não apenas para o jardim despercebido das infâncias, mas em vistas para a «situação», dita assim meio a medo de nomear a doença. Da minha varanda vê-se o confinamento, essa lente que agora tudo amplia, tudo atrai para a sua rede de significâncias, talvez aparentes, certamente frágeis.

Há uns valentes anos, em momento difícil, sob liderança esclarecida do mano Tiago Manuel, juntei-me ao Luis [Manuel Gaspar] para um conjunto de objectos que envolvia desenho, pintura e poesia. Em Novembro último, sem razão aparente, sacudi o pó aos versos, alguns pertencendo a poema baptizado «Santa Bárbara», que acabou publicado na folha de sala da «Diga 33», as sessões animadas pelo Henrique [Manuel Bento Fialho]no Teatro da Rainha. Noto-lhe ressonâncias, pelo que aqui o deixo ao vento, mais a chuva que parece vir do rio só para me agradar.

«É da minha torre que vejo o castelo,/ rasgo na mão a flor de sal do horizonte.// Tacteio os muros em busca das janelas,/ noto a ponta dos dedos ferida de céu.// Em cima, os passos descalços da vocação perdida,/ aqui ao fundo aguardo um caminho.// Há promessas de viagem na trovoada,/ a redenção espreguiça-se como um arco.// Uma ideia descalça no miolo da espada,/ são raios que me partem, as dúvidas.// Na companhia íntima das raízes,/ o brilho da lágrima faz a morte hesitar.// Explode às vezes a coluna de pó,/ são as janelas que brincam de ameias.// Desfaz-se o perigo naquelas mãos,/ sei de cor a dádiva de uma recusa.// Anunciam-se os sábios e as palavras,/ mas se o círculo de pólvora limita os passos.// Cada onda da túnica é beijada pelo navio,/ estendo as mãos ao encontro dos estranhos.// Guarda o belo para o regresso,/ repousa a folha, um relâmpago no regaço.»

Santa Bárbara, Lisboa, quarta 25 Março

Saiu da gráfica para o vazio, este «O Nosso Desporto Preferido ̶ Futuro Distante», com que o Gonçalo [Waddington] se tem entretido a fazer e desfazer o tempo, com o corpo todo e a partir dele, nossa inevitável máquina de mastigar paisagens e cuspir necessidades. Ou vice-versa. E não deixo de tropeçar nos fios que ligam este trabalho, onde convivem espectros e a Humanidade em coro, espelhos e o malabarismo da língua, ao que estamos experimentando. «O tempo a ludibriar-nos pela eternidade adentro, e ainda nos aldrabam o espaço», diz Tirésias lá para o fim. «Agora é tudo escondido atrás de uma parede. É isto que nos deixaste, seu madraço? Versos rascas, rimas badalhocas e asneira atrás de asneira?» Um grupo de génios desenvolveu uma humanidade com as necessidades mais básicas resolvidas, e as quatro peças, sem que uma está por levar à cena, vão contando, anos para trás e para frente, do processo e respectivas consequências. Brutais, que não é impunemente que se mexe no que nos define. Nesta encenação em concreto, o público estava em cena, participava apenas por estar de corpo presente, espectro da humanidade possível. Eis-nos agora, postos à força a jogar esse lentíssimo e exasperante badmington, à espera que o outro devolva o volante. Dá tempo para acasalar com uma cadeira.

Santa Bárbara, Lisboa, quinta 26 Março

De cada vez que passo por uma estante, as lombadas, que se alinham de modo diferente a cada dia, sussurram tentações, maneiras de queimar o tempo, de o explicar, de jogar com ele. Tem tentáculos, a situação. Afinal, passo dia a fazer noite. E oiço isso mesmo vindo d’ «A espuma dos dias», do Boris Vian (ed. Frenesi). E lá descubro que «as pessoas perdem tempo viver, por isso já lhes não sobra nenhum para trabalhar». Lá acompanho a desgraça de nenúfares que vivem nos pulmões, apesar das flores. «Nem sempre as coisas podem correr bem». Tenho que concordar com a resposta, «mas podiam não correr sempre mal». Sou agarrado por «Les choses», de Perec (ed. Juillard), e vejo-me com o narrador a observar aquelas vidas na casinha de bonecas, fascinado pela «aisance» de vidas forradas as coisas, sustentadas por elas, nelas esgotadas. A felicidade feita venenosa «souplesse». Mas a situação já manda em mim? Nisto só me apetece o quietismo, invetsigar os místicos. Entro na «Cuaretena», de Juan Goytisolo (ed. Alfaguara), para me baralhar mais ainda os planos, mas convocando o corpo subtil e com ele modos de aprender a leveza, a ligeireza. Além de duas ou três páginas onde o labor da escrita se vê plasmado com minúcias nesta ideia que nos atravessa do isolamento. Mas não haverá outro assunto, ó estante maldita.

Santa Bárbara, Lisboa, sexta 27 Março

Não é de agora. O mano Tiago Manuel insiste em ser um dos últimos moicanos a teimar na carta manuscrita e em papel, invariavelmente acompanhada de desenho, que teima em dobrar e agrafar, tentando sem grande sucesso impedir que acabe nas paredes dos amigos. As suas imagens são matéria pura, em incomum mistura de ligeireza, de fluidez na definição dos corpos e da sua paisagem, e a gravidade que resulta de pensar por inteiro. Desta, teve a generosidade de dialogar com poema meu, que fala de horizonte e relâmpago, e não o mostro aqui por me apetecer a reserva. Foi tempo que lhe respondia, como desejaria, lavrando folha, em esforço para que a letra levasse o mínimo de inteligibilidade, mas há muito desconsegui.

Digo-lhe por aqui que conservo no lugar exacto as suas incandescentes palavras e gestos de conforto e que acredito na teia de bem querenças onde pernoitar. «Estes dias mostram-nos o Mundo com as cores sombrias de um tempo antigo que julgávamos para sempre esquecido e não e fácil equilibrar os nossos males e preocupações com tão grande ressonância. Porém, estamos unidos pela força dos afectos e havemos de ultrapassar as dificuldades de hoje como aquelas que deixamos atrás.»

Santa Bárbara, Lisboa, sexta 3 Abril

A situação pôs ponto final no «Obra Aberta», quatro anos e mais de cem convidados depois. Muitas páginas se folhearam ao vivo no CCB, pouco antes de se ouvir a conversa em torno dos livros e da leitura, portanto, da vida, conduzida pela Maria João Costa, na antena da Renascença. Os livros são corpos cada vez mais estranhos no horizonte dos dias, destes exactos dias que tanto precisam das perspectivas que apenas a leitura possibilita.

8 Abr 2020

Ventos de Verão

Algures, 27 Julho

Podes vir, que não tenho chacais no quarto. Anda ver à tua volta. Não são chacais que rondam a cama. Nem são de lobo os passos que ecoam nos corredores. Vem à vontade que tens sítio onde ficar, pergunta por mim. Não são hienas quem ri ao subires as escadas na dúvida. Chama pelo meu nome cada vez que desejares, não é um leopardo que se esconde atrás das portas. E todos responderão. Acredita, não são babuínos que se dependuram dos candeeiros. Vem e fica à vontade, bem sei que não estamos sós, mas os olhos que brilham são companhia autêntica. Claro que não, que tubarão caberia na banheira? Ratos na cozinha, que ideia!? Anda daí, instala-te, abre as malas, sacode o pó, dobra os mapas, arruma os medos. Todos os selvagens que recolheste das paisagens são aqui em casa animais electrodomésticos. Uma casa não é um motel.

Santa Bárbara, Lisboa, 28 Julho

A minha biblioteca está feita um deserto. Desdobro o mapa e percebo que percorro a Jornada del Muerto. Sam Shepard morreu ontem e só saberei amanhã, mas desde então procuro os seus livros e neles os vestígios de areia dos meus passos. Será maldição que as paisagens do nosso imaginário sejam tão América? Mas se a raiva e solidão encaixam tão bem nelas

Horta Seca, Lisboa, 31 Julho

Também esta semana continuará a ser rasgada por conversas em torno de projectos, consigo adivinhá-lo, mesmo que não estivesse a escrever mais tarde: o spam cartoon vai regressar; um programa de tv a crescer em nós; o «Obra Aberta», que continuará e desdobrado finalmente em papel; novas geometrias de gente a dizer em voz alta; a série insana de participações da abysmo, que queremos radicais, em festivais e afins; o folhetim de Verão, do Ferreira Fernandes e do Nuno [Saraiva], que hoje começa no Diário de Notícias. E livros, muitos livros, assim resolvamos a infindável lista de atrasos. Livros, que são afinal o meio caminho de ideias estendidas no tempo: resultam da criação e partem em busca de quem deles fará mapas de mais viagem. Um bom livro não se esgota em si, mesmo esmagado alimenta crias. O músculo do editor está, por estes dias, em mantê-lo vivo, em fazer dele festival de Verão, temporada de ópera, época de teatro, ciclo de cinema, consultório das mais variadas especialidades e canivete suíço. Sem nunca o descaracterizar, sem lhe arrancar as páginas, sem o perfumar, sem o mascarar de calço para mesas mancas.

Enoteca de Lisboa, Belém, 1 Agosto

Aquele que depois de ter perseguido a luz se fez o maior criador de corvos da cidade, o Mário [Caeiro] desafiou-me. Sento-me, não vejo outra resposta a um desafio. À mesa, claro, com a Paula Ferreira e o Eduardo Jorge Fernandes, do impressivo projecto Travessa da Ermida: a vontade individual a tornar capela do séc. XVIII abandonada em pólo de fruição estética e de pensamento, com um restaurante e ateliers na mesma rua (mas que viaja já pelo país). Não deixo de me surpreender com o que pode conter uma rua de Lisboa. «Vicente», assim se chama o pretexto-corvo que há oito anos por ali voa, e dá agora origem a intensa conversa, que entrou vida dentro. Ganho asas em encontros assim.

CCC, Caldas da Rainha, 3 Agosto

Brutal notícia quase me impedia de ir atrás dos «No Precipício Era o Verbo» a mais uma queda, desta vez no regaço de pequeno auditório da cidade que se torna cada vez mais íntima. Fui a custo e dou graças. Ponho de parte o caloroso acolhimento dos amigos, aliás, tão regular quanto incansável, para me concentrar em dois ou três momentos.

Se nos deixarmos tocar, acontece beleza da que fere por nos colocar no sítio. Das geometrias complexas e inextricáveis. Ver o bailado do mano José [Anjos] a dispor tripés e pedais e pratos e tambores e pandeiretas e outras peles tensas prepara-nos para o encantamento. Arrumadas as peripécias da luz e os afinamentos do som, dos quais muito haveria a dizer, pode bem despontar diálogos. Na quase escuridão, pontuada por vozes e manobras dos irrequietos bastidores, o contrabaixo desafia a percussão para passeio, o sangue a chamar o coração, a arrepiar outras peles e mais caminhos, que os toques desviam, enterrando pés ou pulando às alturas do corvo. Chão e céu deixaram assim de se apresentar no cima e baixo habitual, disponibilizando no cubo forrado a negro de Cornucópia, para quem as soubesse colher, as geometrias complexas e inextricáveis. A improvisação liderada pelo mano Carlos [Barretto] naquele fim de tarde parou o azamboar das coisas. Por essa altura andava o André [Gago] a investigar negrumes de outra dimensão no palco do grande auditório. Estava a preparar-se para depois cantar comoções sobre cada entalhamento que faz a barroca grandeza de um palco de teatro: os quartos em que se divide, os painéis que giram para acolher específico som, o modo como propaga a voz gritada ou em sussurro, a maquinaria que o estica, a teia que o sobrevoa e por aí fora, por aqui dentro. Ainda só titubeávamos no desconcerto.

A menina Graça [Ezequiel] apanhou o depois como ninguém (foto nesta página). Descubram o grão da voz, o suor dos gestos, e as sombras que se multiplicaram sem que saiba se partem das palavras ou nelas se desfazem. O mano António [Caeiro], com as duas mãos no microfone, ergueu e a sala e fê-la rodar sobre si até que as estações se entrançassem em nó na garganta. As cordas não deixaram nunca de invocar a tensão dos graves.

«O vento de Verão continua a soprar. O nosso corpo está como dentro de água e ainda assim está na atmosfera. Para os antigos a variação de elementos era determinada pela densidade e pela rarefacção. Estava-se sempre dentro do ar, como dentro de água. (…)

O calor é como um campo de algodão que envolve os corpos e cria contacto entre os corpos e entre o vazio que há entre os corpos e entre os vazios que se propagam como arcos excêntricos na água percutida por uma pedra. Há um prelúdio que ecoa. O som é fluvial ou marítimo ou oceânico.

A Lua lavou o sangue das cobras bífidas e dos lacraus rabudos e dos animais ferozes. Cobras, lacraus e animais ferozes que são a sombra radiante e luminosa do que existe no Sol: no interior intrínseco da combustão a explodir e a abrasar. Os morcegos são pirilampos que voam com o espírito das corujas, que precisam da escuridão para encontrarem o seu elemento.

O vento de Verão continua a soprar. Precisa de corpos para se fazer ouvir e vem em ondas que não dependem de um único plano, mas de várias geometrias complexas e inextricáveis.»

Dou comigo, transpirado, ansiando por um sopro e a pensar que tenho de resolver a minha suspensa questão com Deus.

9 Ago 2017