Mandopop | Grand Lisboa Palace recebe actuação de Kelly Yu

É no próximo sábado, 22, que o The Grand Hall, no empreendimento Grand Lisboa Palace, no Cotai, recebe o concerto da cantora de mandopop Kelly Yu. Nascida em Dalian, China, mas com grande parte da vida passada no Canadá, a cantora viu o seu talento vocal confirmado com êxitos como “Decency” ou “Why Bother”. O público de Macau pode agora ouvi-los ao vivo

Kelly Yu, um dos nomes mais conhecidos do género mandopop, actua em Macau no próximo sábado, 22 de Agosto, num espectáculo que acontece no The Grand Hall, no Grand Lisboa Palace, no Cotai. O evento, promovido pela Sociedade de Jogos de Macau (SJM), promete ser “uma noite de mandopop apaixonante”, revela-se em comunicado.

A artista, nascida em Dalian, na China, cresceu no Canadá e, além de cantora, compõe também as suas músicas. Neste espectáculo no Grand Lisboa Palace o público pode esperar “melodias arrebatadoras”, conectadas com “histórias comoventes”.

O mandopop, enquanto música pop cantada em mandarim, tem em Kelly Yu uma das suas vozes “mais emblemáticas”. A artista “é amplamente aclamada pelo seu talento na composição e pela sua musicalidade distinta”, além de possuir “um timbre vocal único e um talento criativo excepcional”.

Entre baladas românticas e canções mais viradas para sonoridades rock, os fãs de Kelly Yu poderão assistir a uma “noite cativante de actuação ao vivo”, pautada por “emoções profundas que ressoam no coração e na alma”.

Uma força de palco

Kelly Yu nasceu em 1989 e formou-se no reputado Berklee College of Music, com especialização em guitarra eléctrica e tantos outros instrumentos. A guitarra eléctrica é, aliás, presença constante nos seus espectáculos.

A estreia como cantora e também como autora das suas músicas começou em 2014, com o álbum “Spirits”. A sua música de maior sucesso é “Decency”, uma poderosa balada que fez sucesso nas principais tabelas musicais da Ásia. Outros sucessos bem conhecidos da artista são “Heartbeat”, “Scorpio” e “Why Bother”.

A SJM destaca, na nota sobre o espectáculo, que estas canções “têm ressoado junto de milhões de pessoas”, graças às “letras profundas e melodias memoráveis”.

“Além das baladas comoventes, Kelly brilha em palco com composições rock cheias de energia. Destaca-se pelos característicos solos de guitarra eléctrica, uma intensa profundidade emocional e presença cénica magnética, que definem a sua verdadeira arte”.

Na plataforma de streaming “Spotify”, Kelly Yu tem cerca de 319 mil ouvintes por mês. Ali, já é possível ouvir o último trabalho discográfico da cantora, “Boundary”, com faixas inteiramente em mandarim. No dia 22, o concerto começa às 19h30, tendo aproximadamente duas horas de duração. Os bilhetes já estão à venda nas plataformas online habituais da venda de ingressos.

12 Ago 2026

Pop é mas é o diabo

[dropcap]D[/dropcap]urante os últimos meses estive ocupado com um romance que foi escrito a partir de marcos familiares (não sei, francamente, se é um romance). Quer isto dizer que o projecto abraçou memórias que acabaram autonomamente por crescer, dilatando a semente dos factos. Concluí, mais uma vez, que o acto da escrita só existe se se situar no instante e no instinto da derrapagem.

Escrever nasce do delírio onde pululam afectos e todos os seus anticorpos mais negros. Ao fim e ao cabo, o delírio é uma vasta floresta sem qualquer árvore. Quem nunca entrar num espaço destes, branco e árido por natureza, é porque afinal não escreve; apenas publica livros. Pode redigir-se nos conformes, organizando-se enredos com as baias certinhas de uma boa trama; pode embelezar-se a cárie e as corrosivas – afiadas – máscaras dos advérbios, mas isso pode apenas redundar em higiene momentânea. Não deixa de ser verdade que a moralidade crítica se esquece amiúde de percorrer as galerias onde luz o minério, concentrando-se cada vez mais nos alardes que encapelam as superfícies do texto e os repetidos avatares (e palavras de ordem) da biografia literária.

Lembro-me de estar sentado, em Maio passado, diante do meu editor e de lhe ter falado sobre o que desejava fazer. Na mão tinha apenas o que não sabia. Foi importante ter registado o súbito assentimento, embora saiba que a solidão é bem mais do que estar a sós; a solidão é a indiferença radical com que o mundo nos deverá observar, quando ingressamos em territórios que se alimentam de uma compaixão igual à das ventanias do fim da tarde.

Com um nada a invadir-me a távola de lancelote, lá avancei com a obsessão de me ver a saltar de história para história, muitas delas contadas em vida pelo meu pai (sublinho “em vida”, pois há infinitas coisas que a morte também nos confidencia aos berros). Escrevi virado para um bosque, depois para um mar mortiço e, por fim, quase no desenlace, vi-me ao lado da minha gata, contemplados eu e ela pelo pátio de todos os dias.

Quando concluí a primeira versão do livro (porventura será a única), não me dei muito tempo de descanso. Teria sido penoso fazê-lo. Quase um mês depois – que entretanto ocupei com uma nova série de poemas (respondendo às ‘Cartas a Lucílio’ de Séneca) -, retirei da estante por mero acaso um livro que nunca havia lido. E estava lá tudo, dito e redito em jeito de testamento. E era-o, na realidade. Há sortilégios assim.

Eu explico: quatro anos antes de ter morrido, Marguerite Duras foi entrevistada por Benoît Jacquot. Da longa conversa resultou um filme que foi para o ar em Novembro de 1992 no canal ‘Arte’. No ano seguinte, o texto da entrevista apareceu em livro, publicado pela Gallimard com o título ‘Écrire’ (o que aconteceu entre nós, já em 1994, por iniciativa da Difel). Trata-se de uma reflexão poderosa sobre a escrita e o acto de escrever em que reencontrei todos os pontos de partida que eu vivera intimamente nas minhas reflexões de Maio passado.

Destaco três aspectos que li, como se tivessem sido escritos de propósito para aquele ápice inicial em que ainda continuo sentado diante do meu editor. Esse momento mantém-se, congelou-se. Falo, gesticulo, bem tento explicar o que quero escrever, mas sei que tudo é pantanoso, secreto, inaudito. Até hoje.

1- A primeira ideia: “estar sem tema”, sem ideia quase nenhuma do livro que nos espera, “é reencontrarmo-nos perante o livro” que desejamos. Por outras palavras ainda: “escrever é tentar saber aquilo que escreveríamos, se escrevêssemos”. É pura verdade: uma tentativa destas só avança no campo da derrapagem. Foi o que se passou.

2- A segunda ideia: “Se não é um livro o que nos espera, sabe-se sempre”; de qualquer modo, “estar só com o livro ainda não escrito é estar ainda no primeiro sono da humanidade”. Ou seja: regressar aos baldios onde persistem todas as fontes iniciais. E elas deverão ser rigorosamente inocentes, ingénuas e desconhecedoras da experiência que, nos seus vaivéns do hábito, cega bem mais do que revela.

3- A terceira ideia: “a solidão é sempre acompanhada de loucura; não a vemos, pressentimo-la”. É por isso que escrever é “uma faculdade que temos ao lado da nossa pessoa, paralelamente a ela”. Saímos de nós, é verdade: desarrumamos, desalinhamos, desabamos. No limite, é mesmo verdade e o meu editor terá toda a razão: exilamo-nos, desaparecemos. E o texto limitar-se-á a saber imprimir as marcas, a vaticinar os vestígios, a gritar o que é preciso ser gritado. E não vale a pena emoldurar o desvario. O melhor é mesmo deixá-lo respirar à vontade até que seque e se rarefaça cheio de gretas (como acontece às lamas aráveis do Nilo) diante dos olhos do público e da crítica, se os houver.

Por fim, até a “censura” – palavra perigosa! – de Duras se acabou por rever na minha reflexão de Maio sobre os mineiros ocultos que descem às profundidades da mina para a explorar, ela que permanecerá sempre encoberta pelos malabarismos da moda, das gerações e, inevitavelmente, das ‘correcções’ desferidas pelas sinuosas azagaias da coisa literária: “…censuro aos livros em geral: o facto de não serem livres. Vêmo-lo através da escrita: são fabricados, são organizados, regulamentados” (…) “o escritor torna-se no seu próprio chui. Quero dizer com isso a procura da boa forma, quer dizer, da forma mais corrente, mais clara e mais inofensiva” (…) “Mesmo os jovens: livros encantadores sem qualquer prolongamento, sem noite”.

Livros “sem noite”: livros asseados, livros sem falhas, livros centrados na expectativa do tempo que corre, livros inofensivos, livros vorazes mas apenas resguardados, aguardados, livros pop. Pop.

18 Out 2019