Respirar fundo

Horta Seca, Lisboa, quarta, 30 Setembro

Aumenta com bruteza a lista dos meus mortos, íntimos de aqui longe. Não trouxe cada um, e razões havia, para evitar fazer destas entradas portas de cemitério, obituário constante. Neste ano miserável ficaram por evocar Pierre Guyotat e Rubem Fonseca e Claire Bretcher e Richard Sala e Maria Velho da Costa e Ernesto Cardenal e Juan Marsé. Ponho, em loop, a macieza de Juliette Gréco (1927-2020) de Bonjour Tristesse, ela que me foi mulher e cidade, promessa e acesso, voz e intensidade. «Tu es mon seul amour/ J’ai trop de faiblesse/ Pour te quitter/ Bonjour tristesse.» O sussurro de bons dias soa a conto de encantar os medos, um nada de conforto, pequeno sol de cada dia. O beijo da tristeza nem sempre morde. E assim trago mortos. Ou nem tanto assim, que estes souberam dar nós no tempo.

Quino (1932-2020) foi celebrado com justeza e em vida, raro caso de encontro de talento e popularidade. O seu desenho era rico e claro, mas tal clareza era de mil tons, alguns de profundo negrume. Foi extraordinário cronista do parvo quotidiano. Enfrentou deuses e demónios, escolhendo para maior o dinheiro, o negócio, o capitalismo. Mostrou, como poucos, o rosto da pobreza. E do seu espelho maldito, a riqueza. E da humana miséria, a dos sem sonho. Chicoteou com proverbial bonomia cada um dos poderes, pequenos e grandes.

Mistério, para mim, como consegue a mais extrema severidade sem perder a doçura. Tal como faz sínteses visuais onde se esconde grande complexidade. A política e a burocracia eram, mais do que alvos, objectos de fina análise. O bom humorista é cientista social, desenha ao microscópio. Execrava a censura, as milhentas com que ajardinamos as nossas cidades. Não se devia dar bem com o ar dos tempos, e não falo de poluição. A Mafalda esteve sempre por perto, daquele modo de único de ser tão crucial como o oxigénio sem ar de coisa importante. Por cada fase adolescente a bandeira foi um desenho de Quino, mas os ícones caem com facilidade das paredes porosas. O meu amor de sempre, e que de cada vez que me beija faz manhã, nublada, mas manhã, outro não é que o absurdo. Recordo um pequeno homem de chapéu de coco, mala clássica cruzando o viajante com o vendedor ambulante, em frente a um pedaço de linha de caminho-de-ferro esperando de olhar no vazio alinhavado pelo horizonte. Ou aquele, com todos os detalhes de classe média, outros dos seus queridos objectos, a sonhar-se no tecto espelhado tal e qual, sono profundo da sobrevivência mediana. (Outro exemplo, algures na página). O essencial sobre o essencial para nosso bel-prazer e não menos inquietação.

Espelho d’Água, Lisboa, segunda, 5 Outubro

Associámo-nos à Nova Mymosa para, por estes dias deslassados, marcar regressos lançando, presencialmente e via online, doze livros que deviam ser treze (claro!). No que à abysmo/arranha-céus diz respeito, ficou-nos a faltar «A Grande Dama do Chá» e o Fernando [Sobral], por força de circunstâncias que também afastaram alguns mais. A doença faz-se convidada destas nossas horas, e de mão dada o medo.

Antes dos três títulos que aguardavam lançamento em Lisboa desde Fevereiro, o Paulo [José Miranda] fez o favor de uma leitura do meu mínimo «Navalha no olho», que dediquei à Isabel, por todas as razões e mais uma: «Pudera/ o meu dia ser/ uma peça só/ de alegria/ o teu corpo:/ em que parte/ me encontro/ neste relâmpago?» Assinalou o leitor-maior dois «elementos enganadores», no título e no uso das palavras obscenas, pois, segundo ele, não se trata de livro surrealista nem de poesia erótica-satírica. Estou bem capaz de discordar, mas é preciosismo. Uma vez publicado, o gosto do autor deixou de ser chamado, mas agrada-me a classificação do José Emílio-Nelson: cubista. «Um olhar que se nega a abordar o acto sexual como ideia de realização plena, e o refere de diferentes ângulos num mesmo plano envolvidos.» De qualquer modo, o encontro do corpo e da palavra, das várias peles da língua, brilhando no olhar do Paulo sensibilizaram-me. «Há no livro a devolução do sentido às palavras que banalizamos e do modo como elas agem sobre nós, os corpos. À força de tanto banalizar, os corpos já não reagem às palavras e estas esqueceram-se de si mesmas. Neste sentido, é um livro político, como todos os livros que se debatam com a falência do sentido das palavras e com a falta de acção que isso carrega. O corpo e a palavra estão, e seria realmente assustador se nos déssemos conta disso, a ficar esvaziados de sentido. Assim, foder, subentende-se, não é um exercício espiritual, mas um exercício de salvação. Este livro alerta-nos para esta nossa situação através de um lirismo invejável, ao arrepio do que parecem ser os nossos dias.»

«Cálice», do Luís [Carmelo], que na tarde se deu a ler mais duas vezes em verso livre, «Adius», do Vasco [Gato], e «Aaron Klein», do Paulo, foram atravessados nas respectivas alegações pela assombração da relação entre vida e literatura, da impossibilidade de uma sem outra.

Em «Cálice», a viagem à memória, e que a usa como meio de transporte, servirá para reconstruir a figura do pai, afinal um lugar. «Desde a Poética de Aristóteles», afirma Miranda, «que sabemos que a poesia é precisamente este território móvel entre o sonho e a possibilidade, isto é, não um comboio em andamento, mas escrever num comboio em andamento, onde o presente passa depressa e, à medida que a viagem se alonga, o passado se torna mais apetecível. Alguns séculos antes de Aristóteles, Heraclito disse panta rhei, tudo flui, tudo é devir. Com este tudo flui, queria dizer que estamos junto com todas as coisas num tapete de tempo. O tempo leva-nos. Tudo flui. O mundo, o universo é um comboio imparável.»

Tenho para mim que «Adius» devia ser lido que nem comédia de enganos, se virmos nisso apenas exercício de destilada ironia. O escritor como personagem parece prometer romance de carácter diarístico mas será atravessado por sucessivos planos, espelhos que o rasgam e baralharão os modos e lugares da escrita.

Vasco pôs o narrador a afirmar que Vasco escreve: «não acho que a escrita tenha de obedecer a essa regra de ser a digestão da própria vida. No caso deste livro, foi de facto uma imagem forte que me impeliu, sem nada que a ligasse à minha história de vida». Ao ler para a assembleia as primeiras páginas do livro, em curioso efeito espelhado (ainda ele!), o que nelas se diz ali aconteceu: «A sala permanece em silêncio. A leitura demorou o tempo de trinta, quarenta pessoas se aperceberem que não conviria aplaudir, não conviria agir como se fosse um livro e fosse possível celebrá-lo».

E tudo acabou em paroxismo com «Aaron Klein». Com agudeza, escreveu a Rita [Taborda Duarte], que não pôde estar também por causa da sombra, que «sendo ficção, este livro é, também, um tratado, um ensaio, sobre o humano, a maldade, a ética, a lucidez da infelicidade, também sobre a responsabilidade, sobre a comunicação e sobre a literatura, numa dobra borgesiana acerca do que é a ficção e do que é a vida dentro e fora da literatura, da ficção. (…) É na lâmina da navalha da ficção, se quisermos no rebordo da página afiada, que nos fere o dedo, ao folheá-la, que nos apercebemos que a ficção é afinal vida e real. E Helder Macedo, a sua interpretação da personagem de Aaron, mas também seus poemas, o seu conhecimento ensaístico, tudo é convocado para o limbo que indistingue o que está dentro e fora do livro, dentro e fora do real.» Ora Helder, bem como outra personagem-maior, Ricardo Ben Oliel estavam presentes. E dialogaram com o seu autor. Palavra tangível, espanto lúdico, literatura em acção. Em directo, também na rede. Sem rede.

6 Out 2020

Mão cheia

Horta Seca, Lisboa, 21 Janeiro

O mundo continuará a triturar o que agora se faz aqui, para quê tentar capturar a sensação? No dia em que todos assuntos acordam, vejo-me amiúde ainda a avaliar por palavras os meus dias falecidos ontem. Vale o quê, nos múltiplos contextos que se agigantam? Precisava apenas que se instalasse ao meu redor o silêncio mínimo para estender frases, que são agora tapete de entendimento, tentativa de não derrapar. Mas tudo parece convergir no agora mesmo. Eu a fechar-me e o telefone ininterruptamente a abrir-me, ostra. Eu a fingir sentido e o banco a dizer-me buraco. Eu tentando a concentração e todos-cada-um cobrando atraso. Nada mudará o ter escrito isto.

Mymosa, Lisboa, 22 Janeiro

Boto aqui sob a data o que vai acontecendo, digo eu, dia após dia, contra isto e o resto. Mas pode não ter sido bem assim ou aqui, por conveniência de prosa. E nem precisava acontecer, bastava o meu registo e a tua leitura – vergo-me respeitoso –, tantas são as formas de uma árvore dar fruto. Nas nossas mãos. Beba-se o suco da ideia. Impossível, como todas antes de tentadas. Palpável, esta, exaltante a outra. Do contexto mastigável, da interpretação saborosa, da construção lúdica. Ei-las até comerciais, urgentes e necessárias, afinal dispensáveis. Ninguém m’acredita, mas além da criação acontece trabalho. O jardim infantil apresenta-se belo conceito, capaz de ser regado. Pulei, mãos no ar, frente ao ministério da economia. Não devia? As companhias contam no despertar das abstrações, mas nem todas saltam.

Horta Seca, Lisboa, 24 Janeiro

Não concebo o erotismo sem que, coisa de geração, seja desenhado. Ou dito. Já nasci na fotografia, mas o tráfico do proibido fez-me com a importação de quadradinhos que nos diziam um prazer por descobrir. Desenhado, insisto, antes de dito pela palavra e nas ausências entreditas. Mas desvio-me do que não devia. Morre outro clássico não celebrado. O caricaturista, sobretudo o da ressaca do 25 de Abril, merecia a atenção dos jornais, por exemplo, o Diário de Notícias, em cujas páginas semeou as figuras e os figurões da política, que era tudo, então. Em várias revistas humorísticas, e até no Jornal do Exército, praticou com bonomia e traço anguloso a crítica de costumes, o registo das modas, a piscadela de olho. José Manuel Domingues Alves Mendes (1944-2019), nome que se encolhia em Zé Manel, desenhou a mulher com uma elegância e candura que não seria possível hoje. Uma pequena antologia dos seus corpos daria muito que conversar. Saravah, Zé Manel.

Horta Seca, Lisboa, 25 Janeiro

Mundo Fantasma, estimada galeria, no Porto, cumpriu dez anos. Para dizer o mínimo, mostrou o máximo de ilustrações e quadradinhos oriundos dos vários continentes, os dos mapas e os do gosto. Não foi agora, mas no ano passado, só que o pretexto destas linhas andou perdido. Júlio [Moreira], irmão dos mais antigos, disfarçando a timidez com a câmara, fingindo que não, fixou dez olhares de entre os muitos milhares em que a década se desfez. Nas fotos, que o José Rui [Fernandes] transpôs em risogravura, conservam-se leituras de quem olha: os artistas ou a sua arte, que as imagens perderam protagonismo, ficando-se por desfocado pano de fundo, luminosa razão de ser. O volume confidencial, pasta A3 dobrada, traz por nome «10» e expõe, em murmúrio, o grão da memória. Projectos-projéctil, que vão sabendo ferir o tédio dizendo das margens.

Horta Seca, Lisboa, 26 Janeiro

Tomba na coincidência descobrir que Tom Zé, este feiticeiro da minha língua, gravou para celebrar os seus 80 anos um álbum supostamente destinado a crianças, pega na minha mão que te mostro: «Sem Você Não A». As palavras dão corpo ao manifesto costumeiro de esfusiante criatividade. Não consigo parar de ouvir: ele se apresenta de f na mão para o colocar em afaga na vez de apaga. E depois o carinho revela a cidade de cada um. Ele há jardins infantis que, bem regados, inventam futuros. Oiça-se «O Forrobodó do ABC», um hino à palavra, portanto à edição. Isto sou eu, que oiço vozes e em tudo vejo lombadas. Possíveis.

Horta Seca, Lisboa, 28 Janeiro

Na feitura do livro, os momentos mais compensadores têm raízes nas primeiras leituras, a inicial e a seguinte, já de lápis de carpinteiro na orelha. Falhámos o prazo que nos tínhamos imposto para este «Anastasis», do Carlos [Morais José], cujo detalhe de capa, desenho do enorme Rui [Garrido], aqui se mostra, não por acaso. O livro não deixou ainda de me surpreender, parece brilhar no escuro. Sem fronteira de género, cruzando poesia e relato de viagem, aforismo e reflexão solta, leva-nos em peregrinação às fontes, aos lugares sagrados da mescla de civilizações que somos por esta altura. Para matar sedes, claro. Diz ele, já a meio, que «a primeira palavra desfez o mundo. Ainda hoje nos entretemos, com as suas irmãs, no trabalho de o recriar». Garanto que acontece nestas páginas, e tenho que inventar modos e maneiras de que não venha a perder no ruído (não é invariavelmente esse o desafio?). Possui uma poderosa voz poética, devidamente alheada de modas e outras práticas. O peregrino não foi sozinho, levou deus, que chama ao ininterrupto diálogo com o transcendente, encontrando nas plantas e nas pedras, no chão e no azul, na poesia, nas figuras concretas de hoje ou nas míticas de antanho. Onde quer que se encontre, está só. Estamos todos. E a conclusão dificilmente poderia ser outra. «Por vezes é o mal que sobra. É o que levamos para casa, nos bolsos da alma, sem o conseguir espantar. […] Não amamos: avaliamos; não usufruímos: possuímos para esquecer. Não há exorcismo. O mal será o leal companheiro de um percurso finito». Deixo-me pairar, com frequência, nas minudências tratadas com cuidados de jardineiro-cirurgião. Extraía daqui, com facilidade, um catálogo de descrições da luz, descrições das que fazem acontecer. Este livro pode bem mudar quem nele se atreva. «Cada dia tem a sua espuma própria. Rarefaz-se ao anúncio das sombras, esvai-se nos gestos hipnóticos da noite. Depois reaparece nos labirintos dos sonhos ou no encontro da vida com a morte.»

Horta Seca, Lisboa, 31 Janeiro

O escritor moçambicano, Ungulani Ba Ka Khosa, em polémica azeda com [António] Cabrita começa por me oferecer a estima, anunciar o respeito pelas pequenas editoras, para logo nos fixar sede «num botequim lá para as bandas do Bairro Alto.» E pergunta mais adiante, a propósito de disciplina de trabalho: «alguma vez te adjectivaram por teres uma editora a funcionar num botequim?» Curioso, o Ungulani achar que nos insulta por vivermos muito nas tascas, gostando de comer e beber. (E a sede não pode ter sede?) Não o adjectivarei mais, antes o convidarei. A ver se da próxima não nos põe num quartinho do Ministério de Economia.

Horta Seca, Lisboa, 1 Fevereiro

De súbito, como convém ao inesperado, imagens e palavras chegam dançando uma língua que fala do âmago, do ser. A Bárbara [Fonte] ofereceu esta pérola: https://www.barbarafonte.com/words Gosto de mãos, por nelas ver uma das janelas para o obscuro de cada um, mais do que ferramenta de possíveis. Contudo, aqui, o assunto cresce além dos membros amados, vai à violência e à morte. «As minhas mãos são mais velhas que eu», assim começa esta narrativa, com Debussy ao longe, que me transfigurou o dia. Poderosíssimo micro-espectáculo, como se a vida se medisse aos palmos.

13 Fev 2019

Nada é óbvio nem absoluto

 

 

Mymosa, Lisboa, 19 Julho

Não me lembro da última vez que almocei sozinho, gestos dos mais anti naturais da civilização. O desatino destes dias de apocalipse que piso a tanto obriga, daí o peso acrescido da mensagem que me trouxe à tona do aquário alheado em que mergulhei: Luis García Montero acaba de ser dado como novo director do Instituto Cervantes, substituindo o querido Juan Manuel Bonet, que não reencontrei durante o seu mandato. A ausência dos óculos fez com que o colocasse em uma qualquer short list do homónimo Prémio. Ambas as situações segregam estranheza, que os nossos autores não são de frequentar prémios, ou melhor, os prémios não os visitam a eles; e os corredores do poder estão em lados opostos da cidade. Ainda assim, a notícia alegra-me, pelo que conheço do afã polémico da figura, do modo como radica em Lorca uma ética, da sua paixão pela língua, do carinho por Portugal, da generosidade que testemunhei. Sendo apenas nomeação a um cargo, estou em crer que pode sair daqui algo de bom, assim como horizontes. Melhor: tenho a certeza, pois acredito no que salta do seu O Dogmatismo É A Pressa das Ideias: «Aqui junto das dunas e dos pinheiros,/ enquanto a tarde cai/ nesta hora ampla de beleza no céu/ e faço meu sem pressa/ o vermelho livre da luz,/ penso que sou o dono do minuto que falta/ para que o sol repouse sob o mar.// Essa é a minha razão, o meu património,/ depois de tanta margem/ e de tanto horizonte,/ ser o dono do último minuto,/ do minuto que falta para dizer que sim,/ para dizer que não,/ para chegar depois ao outro lado/ de tudo o que afirmo e do que nego.// Essa é a minha razão/ contra as frases feitas e a manhã,/ enquanto a tarde cai por amor à vida,/ e nada é óbvio nem absoluto,/ e a águia que desfaz os jornais/ arrasta as palavras como peixes de prata,/ como espuma de onda/ que sobe e se matiza/ dentro do coração.» Não fecha assim, antes afirmando «esse único dogma do abraço, minha única razão, meu património.» Partilhando esse dogma único, o do abraço, aqui segue um, com o devido atraso.

Horta Seca, Lisboa, 23 Julho

Circunstância do devir: de cada vez que cai relâmpago perto sinto-o na pele como frase de jazz, desmultiplicadora de inspiração e presságio. O nascimento do Jaime, filho da Liliana [Ribeiro] e do Paulo [Moura], marca nas constelações que pisamos tantos e tão díspares princípios de viagem que justificam este queimar da alegria. Os autores não são de papel, são árvores de tantos frutos. Por cada criança que nasce, vejo surgir, na voz, no olhar, um outro pai, uma distinta mãe, baralhando a posição do céu e da terra, dos ramos e das raízes.

Horta Seca, Lisboa, 25 Agosto

Nos últimos anos, quem se atreva a escrever, a publicar e a editar, está sujeito, ao abrigo da liberdade (talvez de imprensa), ao enxovalho de julgamentos e condenações sem sombra de contraditório. Eles afirmam-se jornalistas, mas confundem código deontológico com etiqueta masturbatória; eles dizem-se críticos, mas trocam a leitura aberta pela cegueira maldosa; eles julgam-se poetas, desde que cada verso se faça degrau para o altar supremo do culto em que oficiam, o único que assegura a única e mais verdade que a verdadeira poesia; eles são editores, mas que só arriscam o himalaia do cânone, aquele que congela para sempre o tempo e as opiniões sagradas dos mortos; eles são livreiros que criticam o capitalismo aberrante, sem que nada os impeça de especular com as raridades anti-sistema. Mimetizando outros tempos e outras figuras em versão serôdia e fora de prazo, celebram a «postura crítica», mas nisso agridem, fazem execráveis ataques de carácter, cometem sem pejo a ignorância mais profunda, riem do seu próprio fel, arrotam sound bites vendendo-os como pensamento. E há quem compre, claro. Gente até que devia saber mais. Não se lhes exija coerência. Estão tão acima moralmente de todos os outros, que nenhuma das regras detestadas por escrito se lhes aplica. Estão muito fora, muito além, muito apesar, muito contra, tudo e todos, mas não sei de nenhum que tenha estado preso ou passado fome. Detestam militantemente a alegria e a festa e o único prazer que se lhes conhece está em chafurdar no ódio. Por mim, levá-los-ei a sério quando doarem o corpo à ciência para que se estude o seu inegável contributo civilizacional: de tão puros, deixaram de cagar.

Curry Cabral, Lisboa, 27 Julho

Não sou supersticioso pela óbvia razão que dá tremendo azar. Tive e estimei gata preta, senhora de muitas sortes. Adoro a parte de baixo das escadas, mesmo quando não as subo. Parto espelhos e espalho sal com displicência e descuido. Celebro muito o treze, por razão tremendíssima, e acumulo bilhetes em que me sentam, por acaso, na sobredita cadeira. Partilho com poetas de envergadura este divertimento. Como interpretar agora o facto do meu velho pai aterrar, ao fim de deambulação de meses, em cama número 13?

Horta Seca, Lisboa, 28 Julho

Parece impossível mas couberam nas nossas duas modestíssimas salas os cinquenta e nove autores de Ilustração Portuguesa. O veterano Diniz [Conefrey] comentava há pouco o caminho, desde o Salão Lisboa e outras iniciativas semelhantes, vetustas de duas décadas: «o que andámos para aqui chegar». Alguns nomes mantêm-se em estimulante laboração, mas nada impressiona mais que a riqueza de estilos e linguagens e temas e projectos. Tal selva só se atravessa sabendo onde pôr os olhos. No último canto, mesmo junto à janela, a ordem alfabética arrumou aqui as peças assinadas por Tida Siuda, polaca a residir no Porto. A janela alargou-se, melhor escrevendo, tal a frescura dos seres-formas que por ali convivem (um deles algures na página, mas outros podem ser verificados aqui: https://tinasiuda.com/). A força poética toca-me, bem como a subtileza das suas cores. Despertam gestos e palavras muito para além do óbvio.

Horta Seca, Lisboa, 2 Agosto

Eis as palavras do poeta Montero chegando ao cargo com pressuposto radical, antes mesmo de irónico presupuesto, contra a desintegração ética da sociedade: o esforço de ser bom, ainda que seja, por ora, tão pouco sexy. «Esta mañana siento la voz de don Quijote, en una de sus famosas parrafadas en homenaje a la libertad, la poesía, la dignidad o el buen gobierno, advirtiéndome sobre la responsabilidad que asumo. Yo le contesto que en mi responsabilidad se abrazan a la vez la exigencia y la ilusión. A los 60 años de edad, cuando he vivido tantos momentos diferentes de la historia de España, agradezco la oportunidad que se me da de compartir en mi oficio una vocación cívica y un tiempo nuevo para la democracia española.
Empecemos por las primeras palabras, esas que según Elsa Morante hacen del arte una apuesta contra la desintegración ética de la sociedad. El mayor reto que tenemos, desde muy diferentes perspectivas, es el esfuerzo por ser buenos, en el buen sentido de la palabra bueno, frente a los que trabajan por crear un tiempo propicio al odio. Cito, como ya sabéis, a Antonio Machado y a Ángel González.»

 

8 Ago 2018