Marte e a agência barata

19/02/2021

Dantes só encontrava números de telefone nas últimas páginas dos livros, muitos deles estranhos e de novo anónimos ao fim de pouco tempo. Nesta época desavinda, sempre que revisito um livro, dou conta de só ter anotado nessas páginas, números de táxis, horários de comboios ou de Expressos, modos de trânsito. O isolamento estreita-se e estreita-nos e eis-nos, como os caranguejos, em andamento oblíquo e reticente, a pau com a própria sombra.

20/02/2021

É espantosa a nossa (minha) ignorância. Em 1926, quando Robert Goddard lançou o primeiro foguete movido a combustível líquido à respeitável “altitude” de 12,5 metros, quem se consentiria a imaginar que o rover Perseverance pousaria em Marte 95 anos mais tarde, 54 milhões de quilómetros de distância?

Não me fez mal tanta leitura de Rilke mas devia ter alternado com mais leituras científicas. A ciência, a poesia e a música: os pilares em que devia assentar qualquer educação que se preze.

O salto que se deu em menos de cem anos!
Melhor, foram três os países que se dispuseram a uma “amartagem” e para além da colheita de poeiras cósmicas ser desta vez partilhada colapsaram-se de uma vez as teorias da conspiração que defendiam nunca o homem ter ido à lua, a não ser que os chineses e os emissários de Alá se hajam rendido a Hollywood.
Em homenagem a Marte, durante um mês só se deviam usar palavras pressurizadas.

22/02/2021

Não é o caso destas.
Há um livrinho colectivo de 2013, que se chama O QUE É UM POVO? Quem o abre é Alain Badiou com um texto intitulado Vinte e quatro notas sobre os usos da palavra “povo”, e na nota final lê-se: «A palavra “povo” só tem um significado positivo quando subentende uma possível inexistência do Estado, seja porque se trata de um Estado interdito cuja criação é ansiada ou de um estado oficial cujo desaparecimento é desejado. “Povo” é uma palavra que assume todo o seu valor na forma, transitória, duma guerra de libertação nacional, ou, em níveis bem mais baixos, sob aquelas formas definitivas das políticas comunistas».

Leio isto e não consigo deixar de pensar em Moçambique e na sorte lamentável que tem, a todos os níveis. Há povos que nascem para a provação. Num estalar de dedos morre Daviz Simango, líder do MDM, e o competente presidente da câmara da Beira. Com 57 anos, de um AVC, com “recaída”. Mais do que Dahklama, que só conhecia a linguagem das armas, Daviz é que introduziu verdadeiramente a oposição parlamentar e democrática em Moçambique e o seu relevo vinha-lhe, além disso, da qualidade da sua gestão à frente de uma cidade fustigada quer por calamidades físicas, quer pelo contínuo boicote do poder central. Apesar dos limites dos recursos com que contava, conseguiu imprimir uma dinâmica e uma credibilidade à sua gestão que o tornou confiável, interna e externamente. Com este desaparecimento, contam-se agora pelos dedos de uma mão as figuras de oposição com um verdadeiro capital político e competência técnica para governar, só que nenhum deles é líder e tem carisma. É uma verdadeira desgraça, num momento de realidade soturna, onde à política restritiva do covid se junta um blackout informativo (sobretudo no que às guerras diz respeito), e quando o poder se sustenta num partido que institucionalmente já colonizou tudo, só restando que o soalho apodreça sob os seus pés à vagarosa velocidade do muchém e que o empobrecimento se acentue. Enfim, cada vez mais este é um povo com muitos recursos mas a quem furtam a esperança.

23/02/2021

Encontro, escrito pelo crítico de arte Bernard Berenson, algo que me parece vital: «Uma vida completa talvez seja aquela que termina em tal identificação com o não-eu que não resta um eu para morrer».
Vagabundagem ao sabor da pele, como a do o matreiro sorriso de Pessoa quando a morte o convidou a jogar xadrez?
Mesmo políticamente, Pessoa apostou sempre nesse tabuleiro.

Em 1917 é publicado no Portugal futurista o «Ultimatum», pela pena de Álvaro de Campos. É um libelo político fortíssimo que apela à regeneração da Europa, mergulhada numa guerra fratricida. O heterónimo de Pessoa propõe uma intervenção cirúrgica anti-cristã, o que compreendia:

a) A abolição do dogma da personalidade; b) a abolição do preconceito da individualidade; c) a abolição do Objectivismo pessoal.

O seu projecto corresponderia a uma revolução coperniciana, com os devidos nexos políticos traduzidos num novo sistema em que cada cidadão teria direito a X votos, consoante o mérito pessoal. Pessoa, como era um Sindicato, teria direito a, no mínimo, 6 votos: ele mesmo, ortónimo, 4 heterónimos (contando com o António Mora), e o semi-heterónimo Bernardo Soares.

Isto é mais do que curioso (ainda que perigoso e manipulável), sobretudo como pretexto para uma discussão quanto aos deficitários valores em uso na preguiçosa e dolente democracia hodierna e nunca esquecendo que Pessoa visava sobretudo um sistema que premiasse o mérito, um sistema antitradicionalista e anti-hereditário, e ao arrepio de interesses corporativos.

Eis um dos poucos democratas genuínos no século XX, um homem que vai ao cerne receptor da ideologia, o sujeito, e o esvazia, substituindo-o por uma pensamento que não se move por antagonismo dialéctico mas no trânsito entre polarizações. O que à partida torna impossíveis pulsões hegemónicas, autoritarismos e dogmas. Mais democrático é difícil.

Em 1936, quando morreu Fernando Pessoa, os serviços fúnebres ficaram a cargo da “Agência Barata”. É um simples pormenor, mas no caso de Pessoa nenhuma coincidência é um acaso. Sinaliza o despojamento de a quem já não resta um eu para morrer.

26 Fev 2021

A nova síndrome de Estocolmo

Tudo começou com boas notícias: o veículo-sonda da NASA a que chamaram Perseverance tinha aterrado são e salvo no solo do planeta vermelho. A sua missão: recolher indícios de vida microscópica, tirar e enviar fotografias dos lugares por onde passa. No fundo, perceber as condições para uma eventual futura exploração humana de Marte.

Este tipo de acontecimentos agrada-me porque inevitavelmente me oferecem a minha insignificante dimensão no universo – algo que considero muito saudável sobretudo quando por um motivo qualquer me encontro mais ufano. Mas para além disso há a alegria de ver que a humanidade, quando quer, consegue feitos extraordinários que quase a redimem de si própria.

Em resumo, amigos: estava feliz. Para variar, durou pouco. Tive de regressar ao planeta onde vivo e deparar-me com o que por aqui anda. E o que aqui anda tende a tornar profética a célebre frase de Nelson Rodrigues: «O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota». São coisas como esta que provam a verdade cirúrgica daquele grande cronista: um grupo de professores e académicos americanos quer retirar o ensino de Shakespeare dos currículos por considerarem que a sua obra não é compatível com a visão actual de raça, género, classe e sexualidade. Esta guerra contra o bardo inglês já é antiga, diga-se em abono da verdade. O crítico Harold Bloom esteve sozinho e de forma quase quixotesca a combater estes soldados das causas justas desde a década de 90 do século passado. Agora a investida regressou sob o pretexto de que o que Shakespeare escreveu é sobre “supremacia branca e colonização”. Este bando de iluminados agregados sob o nome #DisruptTexts exige que o conjunto da obra literária do poeta e dramaturgo – uma das mais espantosas e perenes conquistas da espécie humana – seja totalmente retirada ou, no melhor dos cenários, ensinada com textos amputados e acrescentados de notas críticas criadas para salvaguardar o contexto destes dias. O que já está a ser feito: o jornal Washington Times cita uma professora de Inglês que ensina a tragédia Coriolanus acompanhada de uma análise marxista; e uma outra docente que alerta os alunos para a “masculinidade tóxica” de Romeu e Julieta.

Entretanto, aqui na minha aldeia, um representante eleito do povo português reclamou a destruição de um monumento construído durante o Estado Novo com o espantoso, mas nem por isso raro, argumento de que é preciso “limpar a memória”. Só o facto de ter escrito a expressão entre aspas me arrepia porque imediatamente remete para outras limpezas de memória e sobretudo o que isso significou. Mais uma vez o facto não é novo e mesmo se nos limitarmos a Portugal há muito por onde escolher. Desde as intervenções de António Ferro nos monumentos históricos – o castelo de S. Jorge, por exemplo – , a revolução toponímica que aconteceu durante a I Republica com as artérias e vias públicas rebaptizadas com acontecimentos e heróis republicanos (movimento de “limpeza de memória” que alcançou a esfera do humor involuntário na patética tentativa de renomear o bolo-rei de “bolo nacional”) ou a substituição de nomes ou remoção de estatuária que consagrava figuras do antigo regime (a ponte Salazar, a estátua do Marechal Carmona, por exemplo) que o fenómeno se repete sob variadas formas.

Que ninguém se iluda: a fúria proibicionista dos professores americanos e a demolição de tudo o que evoque um passado indesejado tem uma raiz comum: a emergência de uma nova ortodoxia que, como todas as ortodoxias, é intolerante com tudo o que a contradiga ou incomode. Esta vontade de criar um presente asséptico apagando as pegadas do que aconteceu enquanto se aponta para uma sociedade perfeita e sem pecado é, no mínimo preocupante. E sim, leva ao triunfo dos idiotas.

No espantoso e nada ortodoxo filme dos Monty Python, A Vida de Brian – cuja acção decorre nos primeiros anos da nossa era – existe a célebre cena de uma reunião de uma frente de libertação palestina que luta contra a ocupação romana. A dada altura o líder pergunta, para avivar o espírito de luta: “O que é que os romanos fizeram por nós?”. A resposta é dada de forma hilariante. Devagar e quase a medo a assembleia reunida vai fazendo uma lista extensa do legado romano – educação, esgotos, economia, etc. – perante o desespero do líder.

Os novos idiotas e a sua relação com o passado é semelhante à do líder representado no filme por John Cleese. Com uma única mas perigosa diferença: não ouvem as respostas nem querem saber. O pior, amigos, é que nos vejo reféns voluntários dessa idiotice e, como se não bastasse, sofrendo da Síndrome de Estocolmo. Algo tem de ser feito. Se nada resultar serei o primeiro a tirar uma selfie com a Perseverance, definitivamente o veículo com mais sorte dos últimos tempos.

24 Fev 2021

André Antunes, chefe da equipa de astrobiologia da MUST: “Existe vida em Marte e nós vamos encontrá-la”

Investigador português que lidera a equipa de astrobiologia da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) não duvida que é uma questão de tempo até se encontrar vida extraterrestre. Sobre a missão chinesa a Marte, André Antunes considera a Tianwen-1 “extremamente ambiciosa”

 

O que considera ser uma missão bem-sucedida e uma missão aquém das expectativas?

É difícil responder a essa questão. Neste tipo de missões, que obviamente envolvem custos bastante elevados, existem sempre expectativas muito altas. Mas, tendo em conta o interesse e a relevância de Marte numa perspectiva de evolução humana futura, se eventualmente conseguirmos algumas respostas para a maior pergunta que a humanidade alguma vez fez, já será um sucesso. Estamos ou não sozinhos no universo? Existe vida em mais algum sítio? Qualquer espécie de dados ou informação que nos permita chegar mais perto dessas respostas, são vitais.

Em que difere esta missão de outras que já foram feitas a Marte?

Um aspecto bastante interessante em relação à Tianwen-1 é o facto de ser uma missão extremamente ambiciosa. A maior parte das missões anteriores a Marte, consistem apenas num tipo de módulo. Ou há um módulo orbital, ou seja, uma sonda que fica em órbita do planeta, ou há um módulo que pousa na superfície do planeta e que fica mais ou menos estático ou ainda eventualmente um Rover, um veículo que se desloca à superfície. Neste caso, a China optou por enviar três módulos de uma só vez. Por isso, do ponto de vista técnico, é um desafio e um risco muito maior. É muito mais complicado, mas a ter sucesso, é um enorme salto em frente por parte da China.

Qual o propósito da criação da unidade de astrobiologia da MUST?

O nosso objectivo é fazer de Macau o ponto de referência da astrobiologia para toda a China. Existe alguma investigação que se faz no Interior da China nesta área, mas não há nenhuma espécie de centro coordenador desses esforços. A ideia é precisamente que Macau e a unidade de astrobiologia da MUST, através do Laboratório Estatal de Referência das Ciências Lunares e Planetárias (State Key Lab), funcionem como ponto agregador destas actividades. Do ponto de vista científico e tecnológico, o primeiro passo é a criação dos laboratórios, que devem estar concluídos em Setembro. Depois disso, queremos formar uma equipa que esteja preparada para estudar amostras que venham de Marte. Esse é um dos próximos grandes passos. Como nós, há outras agências espaciais interessadas em trazer amostras de Marte para a Terra, com o objectivo de estudar a possível existência de vida, actual ou passada, em Marte.

Que tipo de apoio vai ser prestado pelo laboratório nas missões a Marte?

A unidade de astrobiologia não está directamente ligada a esta missão, mas pretendemos tratar de amostras em missões futuras. A ideia é procurar locais no nosso planeta que tenham condições semelhantes a Marte e ver se lá existe vida ou não. A unidade de astrobiologia em Macau serve para congregar esforços existentes na China e promover a ligação com o exterior, porque Macau funciona, segundo a história e a tradição, como ponto de ligação entre o Interior da China e o resto do mundo. Nesse aspecto, estamos numa localização privilegiada e este é parte do motivo pelo qual o State Key Lab foi aqui instalado. Com o estudo de ambientes semelhantes que existem um pouco por todo o planeta, vamos conseguir compreender melhor os limites e as adaptações da vida e informar futuras missões chinesas sobre os melhores locais para recolher amostras, o que fazer com as amostras quando vierem e como estudá-las. A ideia é precisamente criarmos aqui a capacidade laboratorial, técnica e a equipa que estará pronta para estudar estas amostras quando elas chegarem.

O nome da missão Tianwen-1, em português, significa “questões celestiais”. Quais são as áreas de investigação onde esperam encontrar mais surpresas? Está em cima da mesa encontrar vida em Marte?

Eu sou suspeito nestas coisas, mas tudo o que tem a ver com o facto de estarmos mais próximos de desvendar se existe vida ou não, considero uma descoberta incrível, uma coisa impressionante. Estou plenamente convicto de que existe vida em Marte e nós vamos encontrá-la. Vai ser uma revolução de todo o tamanho a nível científico. Há duas hipóteses. Ou há vida parecida com aquela que existe na Terra, o que seria muito interessante, porque há teorias que dizem que a vida poderá ter tido origem em Marte e ter passado para a Terra através do trânsito de material espacial entre os dois planetas, no início da sua formação. Ou então pode ser uma coisa completamente diferente e isso seria fenomenal. Acho que ainda estamos muito limitados, porque continuamos a ter uma visão muito antropocêntrica, centrada naquilo que conhecemos e na nossa realidade. Por vezes, temos dificuldade em expandir os nossos horizontes ou ter ideias e percepções diferentes, porque só conhecemos vida num único sítio.

Estamos a falar, para já, ao nível de microrganismos?

Sim, mas mesmo falando de microrganismos pode ser uma coisa completamente diferente e nós assistimos a esse tipo de situações, mesmo ao nível do estudo microbiológico no nosso planeta, por exemplo, com a descoberta de microrganismos que conseguem viver em condições extremas e isso é uma coisa completamente inesperada. Ninguém pensava que fosse possível.

Alguma vez imaginou estar envolvido num projecto desta natureza? Como é que, de repente, acaba a trabalhar numa missão espacial?

Não foi uma coisa planeada, mas desde criança que gosto muito deste tipo de tópicos. Sempre adorei o espaço, saber mais sobre os outros planetas e ciências planetárias. Durante muitos anos, quando me perguntavam o que é que eu queria ser quando fosse grande, eu respondia sempre: astrónomo. Em Portugal a astronomia não tem propriamente grande visibilidade ou opções de formação. Por isso, à medida que fui crescendo, fui aferindo um pouco o caminho e optei pela biologia. Mais tarde, dediquei-me à microbiologia, mas mantive sempre uma paixão forte pelo espaço e pelas ciências planetárias. Por coincidência, ou talvez até tenha sido uma decisão subconsciente, a área da microbiologia, que acabei por estudar, foi a microbiologia de ambientes extremos, que está directamente ligada à astrobiologia e à procura de vida noutros planetas. Ao longo dos anos fui trabalhando com ambientes extremos em vários locais, como o Médio Oriente, onde estive bastante tempo. Trabalhei também com amostras do fundo do Mar Vermelho, estive em Cabo Verde e ainda no Reino Unido antes de vir para Macau. Nos últimos anos acabei por ter uma ligação mais forte com alguns projectos ligados à Agência Espacial Europeia e ligações com a NASA e, por isso, quando surgiu a oportunidade de vir para Macau, a transição foi completamente natural. Obviamente que não me passava pela cabeça estar envolvido nas missões chinesas a Marte, mas estar aqui é uma feliz coincidência de caminhos.

Como é a relação da agência espacial chinesa em comparação com a europeia e a NASA?

Ainda é cedo para falar sobre agência espacial chinesa, mas tenho feito contactos e inclusivamente submeti um projecto para enviar micróbios para o espaço e, ao nível do diálogo, tem corrido muito bem. Inclusivamente, do ponto de vista de colaborações internacionais, porque pode haver dúvidas se há algum problema em envolver parceiros de outros países, a abertura tem sido completa. Há muito interesse em colaborar e nas ligações internacionais. A grande limitação que tem havido tem sido, de facto, a covid-19, que me tem impedido de ir a Pequim.

Que semelhanças existem entre a Terra e Marte, que tornam o seu estudo tão importante?

Há uma série de características que tornam Marte particularmente interessante do ponto de vista do estudo científico e de novas descobertas que possam surgir. Marte é o planeta do sistema solar mais parecido com a Terra. Do ponto de vista da temperatura, apesar de ser mais frio, é o planeta que tem as temperaturas mais próximas e reúne outras condições curiosas, como o facto de a duração dos dias ser muito parecida com a duração na Terra. Mas há outras características semelhantes, como a presença de uma atmosfera, que é mais ténue, e a existência de grandes reservas de gelo de água.

Acredita que, no futuro, vai ser possível viver em Marte?

É uma possibilidade, mas não acho que seja um plano de curto prazo, independentemente daquilo que se possa ler ou pensar. É um tema que tem sido bastante badalado por iniciativas do sector privado, com o Ellon Musk [Tesla] à cabeça, que fala em enviar pessoas para Marte. Mas, na minha opinião, ainda não estamos nesse ponto. A nível tecnológico ainda não estamos suficientemente preparados para estabelecer qualquer tipo de base permanente, semi-permanente ou de fazer um esforço de colonização. Estamos a falar de coisas complicadas e que custam muito dinheiro. Além disso, precisamos de esforços adicionais ao nível dos materiais de construção, ou seja, vamos construir noutro planeta ou, em vez disso, enviamos já tudo construído da Terra. Quanto a suportar a vida humana noutros planetas, e atenção que Marte está bem posicionado porque tem reservas de gelo de água, o primeiro passo será sempre a Lua. A Lua está bem mais próxima e é um bom local de teste e implementação de procedimentos que depois poderão a ser úteis em Marte. Além disso, mesmo que se trate apenas de pôr a primeira pessoa em Marte, é uma missão que acarreta riscos do ponto de vista de uma possível contaminação do planeta. Este é outro dos ramos da astrobiologia, a protecção planetária. Isto é, assegurarmos que qualquer espécie de missão ou material que venha da Terra e que aterre em qualquer parte do sistema solar onde possa existir vida, os riscos de contaminação sejam minimizados dentro do possível. Como os micróbios têm capacidade de sobreviver no espaço e ao transporte até lá chegar, corremos o risco de, tendo condições, que se multipliquem e destruam ecossistemas completos noutros planetas que nós nem sabemos ainda que lá estão. Do ponto de vista científico, imaginemos que uma missão de milhões, com o objectivo detectar vida em Marte, depois de ter um resultado positivo, chega à conclusão que a sonda foi carregada de micróbios e que o que detectou foi nada mais, do que aquilo que levou.

O prazo de validade do nosso planeta pode levar-nos a ter que o deixar mais cedo?

Aquilo que consideramos o prazo de validade da Terra depende muito da utilização que lhe damos. Actualmente sabemos que o Sol não irá durar para sempre e que isso pode significar que a Terra deixa de existir nesse momento. Quanto à utilização da Terra e dos recursos que existem, a continuar ao ritmo que estamos, a gastar recursos naturais como se não houvesse amanhã, obviamente que a capacidade do planeta para sustentar vida humana, fica comprometida.

28 Jul 2020

China planeia lançar sonda para Marte em Julho

A China planeia lançar uma sonda e um pequeno robô de controlo remoto para Marte, em Julho, na sua primeira missão ao planeta vermelho, anunciou hoje a agência responsável pelo projecto.

“O nosso objectivo era enviar a sonda para Marte em 2020. Este grande projeto está a progredir conforme o planeado e estamos a apontar para um lançamento em julho”, anunciou em comunicado a China Aerospace Science and Technology Corporation (CASC).

O país está a investir o equivalente a milhares de milhões de dólares no seu programa espacial, incluindo na construção de uma estação espacial e no envio de homens para a Lua.

A viagem entre a Terra e Marte demora sete meses, pelo que a sonda chinesa não chegará ao seu destino antes de 2021. A distância está constantemente a mudar, à medida que os planetas giram à volta do Sol, mas é de pelo menos 55 milhões de quilómetros.

Chamada Tianwen, a missão chinesa tem três objetivos: colocar uma sonda na órbita de Marte, aterrar no planeta vermelho e pôr um robô na superfície para realizar análises.

A China já realizou uma operação semelhante na Lua, onde depositou em 2013 um pequeno “rover” de controlo remoto com rodas (batizado de “coelho Jade”) e o seu sucessor, em janeiro de 2019, no lado da Lua não visível a partir da Terra.

Os Estados Unidos, que já enviaram quatro veículos exploratórios para Marte, devem lançar entre junho e agosto o quinto, chamado “Perseverança”, que deve chegar por volta de fevereiro de 2021.

Os Emirados Árabes Unidos vão lançar a primeira sonda árabe para o planeta vermelho em 15 de julho, no Japão.

A missão russo-europeia ExoMars, vítima de dificuldades técnicas agravadas pela epidemia de Covid-19, esperava lançar este verão um robô para Marte, mas foi adiada para 2022.

25 Mai 2020

China encoraja cooperação internacional no espaço com teste de aterragem em Marte

A China convidou hoje observadores internacionais a assistirem a um teste do seu módulo de aterragem em Marte, à medida que o país apela a uma inclusão global em projectos espaciais.

Tratou-se da “primeira aparição pública da missão de exploração chinesa de Marte, e uma medida importante para Pequim avançar pragmaticamente com as trocas e cooperação internacionais espaciais”, apontou em comunicado a Administração Espacial Nacional da China. Os convidados para o evento vieram de 19 países e incluíram os embaixadores do Brasil, França e Itália.

A demonstração das capacidades para pairar, evitar obstáculos e desacelerar foi realizada num local fora de Pequim que simula as condições no Planeta Vermelho, onde a força da gravidade é cerca de um terço do nível da Terra.

A China planeia lançar uma sonda e um veículo de exploração para Marte, no próximo ano, visando explorar detalhadamente partes diferentes do planeta.

O programa espacial chinês alcançou um marco no início deste ano ao pousar uma sonda no lado oculto da lua, o hemisfério lunar que não pode ser visto da Terra. Desde a sua primeira missão tripulada, em 2003, o programa chinês desenvolveu-se rapidamente e tem procurado cooperar com agências espaciais da Europa e de outros lugares.

Os Estados Unidos, no entanto, interditaram a maior parte da cooperação espacial com a China, alegando motivos de segurança nacional e impediram a China de participar na Estação Espacial Internacional.

14 Nov 2019

Espaço |Criação de central de energia solar em estudo

A China está a estudar a viabilidade da criação de uma central de energia solar no espaço, com o objectivo de reduzir as emissões de gases estufa na Terra e reduzir a escassez de energia, noticiou ontem o jornal China Daily.

De acordo com a publicação, investigadores da Universidade de Chongqing, da Universidade Xidian e da Academia Chinesa de Tecnologia Espacial estão a pensar construir um protótipo para a transmissão de ondas de energia solar.

Xie Gengxin, um dos investigadores, citado pelo jornal, disse que o protótipo da central será localizado em Chongqing e que o principal foco da investigação vai incidir na distância da entrega da energia.

“Planeamos lançar quatro a seis balões [agarrados ao protótipo] a uma altitude de mil metros”, disse o investigador.

Se estes primeiros testes forem bem-sucedidos, o próximo passo, de acordo com Xie, será enviar balões para a estratosfera para prosseguir com a investigação a uma distância maior.

No início do ano a China tornou-se no primeiro país a pousar uma sonda no lado mais afastado da Lua.

O objectivo é testar o crescimento de plantas e captar sinais de radiofrequência, normalmente bloqueados pela atmosfera terrestre.

A missão ilustra ainda a crescente ambição de Pequim no espaço, símbolo do progresso do país.

Este ano, Pequim planeia ainda iniciar a construção de uma estação espacial com presença permanente de tripulantes e, no próximo ano, enviar um veículo de exploração a Marte.

28 Fev 2019

China | Arrancam trabalhos para aterrar sonda no lado mais afastado da lua e em Marte

A China reafirmou ontem o desejo de explorar o espaço, num livro branco em que confirma os planos para aterrar uma sonda no lado mais afastado da Lua e lançar a primeira sonda a Marte.

“Explorar o vasto cosmos, desenvolver a indústria espacial e converter a China num poder espacial é um sonho que perseguimos incessantemente”, lê-se no livro branco divulgado por Pequim.

O documento, que detalha os planos espaciais do país para os próximos cinco anos, refere que o programa espacial chinês tem fins pacíficos e visa garantir a segurança nacional e realizar pesquisas científicas.

Pequim põe grande ênfase no desenvolvimento da sua indústria espacial, que considera um símbolo de desenvolvimento e afirmação no cenário internacional.

O objectivo do país, ainda que não mencionado no documento, é enviar um astronauta à Lua.

Corrida contra o tempo

Enquanto a Rússia e os Estados Unidos têm mais experiência com viagens espaciais tripuladas, o programa chinês, suportado pelo exército do país, tem alcançado um rápido progresso.

A China realizou a sua primeira missão espacial tripulada em 2003. Uma década depois aterrou uma sonda na Lua.

No mês passado, dois astronautas chineses regressaram à Terra, após 30 dias no espaço, onde viveram e trabalharam no laboratório espacial Tiangong-2, na mais longa e sexta missão tripulada da China.

Pequim quer pôr uma tripulação permanente no espaço até 2022, que está prevista operar ao longo de pelo menos uma década.

O livro branco reitera os planos da China para colocar a sua primeira sonda em Marte, até 2020, visando explorar e trazer amostras do planeta Vermelho.

A missão visa também explorar o sistema de Júpiter e “conduzir pesquisas em questões científicas importantes, como a origem e evolução do sistema solar, e procurar vida extraterrestre”.

Em 2018, a China quer também tornar-se o primeiro país a aterrar uma sonda no lado mais afastado da Lua.

O livro branco diz que aquela sonda, a “Chang’e-4”, visa obter conhecimento sobre a formação e evolução da Lua.

28 Dez 2016