UM | João Veloso sai do departamento de português

João Veloso, com formação na área da linguística e vindo da Universidade do Porto, era director do departamento de português da Universidade de Macau desde 2022. Está agora de saída e, em entrevista à Lusa, falou das reformulações levadas a cabo durante o seu mandato e na necessidade de maior internacionalização desta área

O director do departamento de Português da Universidade de Macau, João Veloso, disse à agência Lusa que deixa o cargo, após quatro anos, com uma “forte renovação do corpo docente” e a reformulação dos cursos de pós-graduação.

João Veloso chegou a Macau em 2022 para dirigir o departamento de Português da Faculdade de Letras da Universidade de Macau (UM), que conta hoje com mais de 30 docentes e cerca de 400 alunos. Deixa a direcção “por motivos pessoais” e regressa dentro de dois meses à Universidade do Porto, onde é o único professor catedrático de Linguística.

Sobre o percurso profissional em Macau, o responsável admitiu deixar a instituição com sentido de dever cumprido, nomeadamente no que diz respeito à “forte renovação do corpo docente”.

“Quer da parte da faculdade, quer da parte da universidade, houve sempre um apoio total a esta vontade de trazer professores novos, altamente qualificados, todos com doutoramento, e que vêm dar uma força muito grande ao ensino pós-graduado e à investigação”, disse.

Outra das “principais inovações” destes quatro anos foi a reformulação dos cursos de pós-graduação, quer dos mestrados, quer dos doutoramentos, com um “reforço da formação curricular”, a partir do próximo ano lectivo.

“Em grande medida, porque, neste momento, temos recursos humanos para isso. Isso também foi um esforço muito grande que eu fiz e é o resultado da forma como procurei responder o mais profissionalmente possível àquilo que foram as determinações superiores”, indicou à agência Lusa.

Mais dinamismo

Num balanço à liderança do maior departamento de Português na Ásia, fundado em 1990, o responsável notou ainda que “o dinamismo do ensino do português sofreu também uma melhoria”. Neste sentido, especificou, aumentou o número de universidades com as quais a UM estabeleceu protocolos para um período de estudo num país de língua portuguesa.

O departamento passou a ser também um “local de estágio para estagiários do mestrado em Português Língua Estrangeira da Universidade do Porto”, adiantou o responsável, dizendo tratar-se de outra das “mudanças positivas” da direcção.

Os cursos do departamento de Português chegam a mais de mil alunos em toda a UM, entre estudantes de licenciatura, mestrados e doutoramentos deste departamento da faculdade de Letras, alunos da faculdade de Direito e outros que frequentam as disciplinas de língua oferecidas transversalmente em todos os cursos da instituição de ensino superior.

Internacionalização precisa-se

João Veloso defendeu também, na mesma entrevista, uma maior internacionalização do Departamento de Português, que pode passar pelo contacto com países que não são de língua portuguesa, mas com “investigação de ponta”.

O responsável considerou que o futuro do departamento deve passar por uma aposta mais firme na internacionalização, até em regiões fora do circuito tradicional dos países de língua portuguesa. O departamento que dirige conta neste momento com cerca de 20 alunos internacionais, sendo a maioria dos cerca de 400 estudantes oriundos de Macau e do interior da China.

Seria “muito interessante” trazer alunos de outras geografias, como Tailândia, Coreia do Sul ou Vietname, declarou Veloso. Mas admite: “sabemos que estudar em Macau é caro, os alunos que vêm normalmente são alunos que estão dependentes de uma bolsa e o número de bolsas é limitado”.

No entanto, Veloso aponta para o outro lado do mundo, onde “alunos de países que não são de língua portuguesa querem estudar Linguística do português ou Literatura em português”.

“Os estudos sobre o português são uma área de estudos muito importante na academia internacional. Se nós formos ao Canadá, aos Estados Unidos, à França ou à Alemanha, há muitas pessoas que não são falantes nativas do português e que estão ali a fazer ensino e investigação de ponta na área da linguística,” disse.

E Macau tem-se esquecido deste vector, constatou o responsável, notando que no território persiste “a ideia de que o português é algo que interessa sobretudo aos falantes nativos da língua – portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos – [e] aos alunos das universidades da China”, onde “o português tem uma projecção muito grande”.

Nos cursos de Verão, porém, “houve avanços”, com a presença de estudantes da Austrália e de países asiáticos, em parte devido à promoção do “curso em circuitos que não são os mais habituais”.

Ainda no que diz respeito à internacionalização, o responsável considera que a aposta em línguas estrangeiras por parte da Universidade de Macau continua “pouco diversificada”. “Há uma visão um bocadinho fechada do ensino de línguas estrangeiras em Macau”, observou à Lusa, notando que a UM tem potencial para ensinar línguas asiáticas.

A Faculdade de Letras não tem departamentos específicos para o ensino de línguas como espanhol, alemão, italiano, russo ou francês, tendo o Departamento de Português, por exemplo, duas disciplinas opcionais de espanhol.

Veloso interpreta esta opção com a preocupação que a instituição de ensino superior tem “com a qualidade e a presença nos ‘rankings'”, o que “implica direcionar muitos recursos para áreas específicas”.

1 Jun 2026

Português | João Veloso acredita que UM pode ser referencia no ensino

O director do departamento de português acredita que a universidade pode posicionar-se “como uma instituição de referência para o ensino e a investigação em temas relacionados com a língua e as culturas em língua portuguesa”

 

O novo director do departamento de Português defendeu que a Universidade de Macau (UM) tem “um potencial muito grande” para se tornar “a grande instituição de ensino da língua na Ásia”. João Veloso disse à Lusa que a UM “pode posicionar-se muito bem como uma instituição de referência para o ensino e a investigação em temas relacionados com a língua e as culturas em língua portuguesa” no continente asiático.

O académico lembrou que o 36.º Curso de Verão de Língua Portuguesa da UM, realizado em Julho, atraiu “centenas de estudantes, sobretudo da Ásia, nomeadamente do Vietname, Camboja, Timor-Leste, Tailândia”, apesar de ter decorrido num formato totalmente ‘online’.

Em Abril deste ano, Macau tinha levantado as restrições fronteiriças a estudantes universitários e profissionais do ensino estrangeiros, como professores portugueses.

Quem chega do estrangeiro, ou de Hong Kong, continua a ser obrigado a cumprir uma quarentena de sete dias num hotel, seguido de três dias de “autovigilância médica” que pode ser feita em casa.
Veloso admitiu que as restrições “dificultam muito, por exemplo, a vinda de estudantes de pós-graduação de outros países”.

“O que nos está a faltar neste momento é a candidatura de alunos de outras paragens”, disse o académico, sublinhando que o departamento não sentiu qualquer queda no número de estudantes locais. O director defendeu que “o departamento tem todas as condições para receber alunos que vivem em países que estão a duas ou três horas de avião da China”, como alternativa a cursos em Portugal ou no Brasil.

Optimismo limitado

“Não temos neste momento muitos estudantes com esse perfil”, lamentou o português. “Há um sentimento de algum optimismo”, disse, quanto a um eventual relaxamento das restrições à entrada de estrangeiros sem estatuto de residente “já no próximo ano”.

Mas, para já, as restrições “limitam um pouco o leque de selecção” de novos docentes, admitiu. O departamento perdeu recentemente duas professoras, incluindo a anterior directora Dora Nunes Gago, e tem recebido sobretudo “candidaturas de pessoas que já se encontram em Macau”, reconheceu.

No entanto, Veloso sublinhou que as restrições não impedem “encontros em linha, projectos de investigação conjuntos e publicações conjuntas” com outras instituições, iniciativas que já estão planeadas. O académico lembrou que o território tem várias universidades “onde se ensina e se faz investigação sobre a língua portuguesa” e defende que a cidade deve “aproveitar esta rede de tantas pessoas e tantas instituições interessadas no português”.

A nomeação de João Veloso como director do departamento de Português da Faculdade de Artes e Humanidades foi anunciada na segunda-feira, embora o académico tenha assumido funções a 1 de Julho. Desde 2018, que o académico era pró-reitor da Universidade do Porto, assumindo as pastas da Promoção da Língua Portuguesa e Inovação Pedagógica.

12 Out 2022

UM | João Veloso quer mais alunos de fora da China a aprender português

O novo director do departamento de português da Universidade de Macau pretende, a curto prazo, atrair mais alunos de países asiáticos e de língua portuguesa, bem como reabrir o doutoramento na área da literatura, suspenso por falta de docentes

 

São três os desejos de João Veloso na qualidade de novo director do departamento de português da Universidade de Macau (UM). Depois de mais de 30 anos ligado à Universidade do Porto, onde foi pró-reitor, João Veloso confessou querer “aumentar o intercâmbio de alunos de fora da China, sobretudo dos países asiáticos e de língua portuguesa”.

Mas João Veloso quer também que a UM seja um lugar de “realizações culturais”, para que o português também se ensina através da literatura, do cinema e de outros eventos, aproveitando as actuais infra-estruturas. Outro objectivo é a reabertura do programa de doutoramento em literatura, suspenso devido à falta de docentes doutorados. No entanto, João Veloso acredita que a questão será “mitigada” a curto prazo, uma vez que estão abertos concursos de recrutamento de docentes nesta área.

João Veloso diz ter encontrado um “departamento muito numeroso”, com cerca de 800 alunos, não incluindo estudantes de pós-graduação, bem como 40 docentes. “Os números são surpreendentes em si, porque creio que não haverá muitos departamentos do mundo exclusivamente dedicados ao português que tenham um número tão elevado de alunos. Mas isso é também uma responsabilidade muito grande, pois temos de assegurar tantos alunos mantendo a qualidade”, disse ao HM.

Falta de rede

João Veloso chegou a Macau em Julho e fez o seu “trabalho de casa” no que diz respeito ao panorama do ensino do português, lamentando a pouca cooperação entre diversas instituições do ensino superior.

“Há aqui um conjunto de recursos impressionantes [para o ensino do português], se pensarmos na dimensão geográfica e demográfica do território. Poderia haver uma maior concertação entre instituições, pois parece-me que não dialogam nem cooperam como poderiam”, frisou.

Tendo em conta que cada universidade tem o seu perfil nesta área, João Veloso defende que a UM “deverá assumir-se como um local de investigação em estudos portugueses”. “Falo das áreas centrais como a linguística, literatura e cultura portuguesas. Isso reflecte-se nos programas de pós-graduação que oferecemos”, acrescentou, em comparação à Universidade Politécnica de Macau, que “tem um papel importante na formação de professores de português para Macau e para o Interior da China”. “Há aqui especializações e os destinatários destas formações não são propriamente coincidentes. Um passo a dar seria promover mais iniciativas conjuntas”, disse.

Questionado sobre o papel que Macau vai desempenhar tendo em conta o aumento de professores de português qualificados no Interior da China, João Veloso acredita numa complementaridade. “À medida que [as universidades chinesas] vão tendo mais programas de pós-graduação haverá maior oferta de formação e investigação, e isso é de salutar. Nesse cenário, as universidades de Macau vão ter de entrar numa relação de intercâmbio e criar um trabalho em rede. Macau terá sempre uma posição peculiar em relação à língua portuguesa, que Pequim ou Xangai nunca terão”, rematou.

28 Set 2022

Linguista João Veloso é o director do departamento de português da UM

João Veloso, académico ligado ao Centro de Linguística da Universidade do Porto (UP) e docente na Faculdade de Letras da mesma instituição, é o novo director do departamento de português da Universidade de Macau (UM). Rui Martins, vice-reitor da UM, confirmou esta segunda-feira, à TDM Rádio Macau, a contratação que era esperada há meses, em declarações sobre o arranque de um novo ano lectivo.

Na página curricular de João Veloso, disponível no website da UP, confirma-se que o académico está desde Julho com uma licença especial para o exercício de funções em Macau, e que termina a 30 de Junho de 2024.
Académico com agregação obtida em 2010 na UP, João Veloso é doutorado em Linguística pela UP. É especialista em diversas áreas de investigação da língua portuguesa, tal como a Fonologia e Linguística Comparada, entre outras.

No lugar de Dora

Há muito que a UM se deparava com dificuldades para contratar um director para o departamento de português, tendo em conta a impossibilidade de os estrangeiros entrarem no território devido à pandemia.

Dora Nunes Gago havia assumido estas funções em Julho de 2020 e admitiu, em entrevista ao HM, um ano depois, não querer continuar no cargo. “Não gostaria de continuar no lugar”, assumiu, tendo apontado que uma das grandes mais valias do departamento de português na UM era a investigação. Dora Nunes Gago disse ainda que a UM “tem estado no bom caminho” relativamente às respostas que o ensino superior tem de dar em matéria de cooperação regional.

O departamento de português foi anteriormente liderado por nomes como Fernanda Gil Costa, entre 2012 e 2016, e Yao Jingming, poeta, tradutor e académico.

20 Set 2022