A pequena idade do gelo e as suas implicações sociais

A preocupação sobre a sustentabilidade do nosso planeta não é recente. Segundo o Professor José Pinto Peixoto1 (1922-1996), no seu livro “Influência do Homem no Clima e no Ambiente”2, mencionando um extrato do Livro de Isaías3, “A Terra está desolada e murcha; o Céu e a Terra esmorecem. A Terra está profanada pelos seus habitantes, porque transgridem a lei e violam o direito…”.

Na realidade, a ação nefasta que a espécie Homo sapiens exerce sobre a natureza intensificou-se desde há cerca de 10 000 anos, altura em que a revolução agrícola sofreu grande incremento, quando o homem deixou, em grande parte, as suas atividades como caçador-recoletor. Com esta citação, o Professor JPP pretendeu ilustrar que na antiguidade já havia quem se preocupasse sobre o que o homem poderia causar ao nosso planeta. Por definição, profeta é o que serve de intermediário entre o divino e o povo, e esse texto pode-se interpretar como sendo um aviso sobre a intensificação das agressões que a nossa espécie viria a praticar, e que levaram à crise ecológica e climática atual.

A vida no nosso planeta só é possível devido a uma série de circunstâncias, entre as quais a Terra estar a uma distância do Sol propícia à existência de água no estado líquido, uma atmosfera respirável e um campo magnético que serve de protetor em relação às partículas carregadas eletricamente emitidas pelo Sol (vento solar), o que evita que a superfície seja atingida por parte da radiação que é prejudicial à vida.

Desde que se formou a atmosfera terrestre, sempre houve evolução das suas características, relativamente à composição e parâmetros meteorológicos e climáticos. As alterações do clima influenciaram grandemente a história da humanidade, modelando o comportamento do Homo sapiens.

Têm sido uma das principais causas das grandes migrações e, consequentemente, do aparecimento de diferentes civilizações. Investigação na área da paleoclimatologia permite-nos concluir que, durante milhões de anos, o clima foi caracterizado por períodos glaciários e interglaciários. Durante a glaciação mais recente, o gelo invadiu grandes áreas da Europa e da Ásia, provocando a migração de populações para latitudes mais baixas. Há cerca de 6 000 anos, a seca prolongada que causou a desertificação da região onde se localiza o Saara, causou a debandada de povos para o vale do rio Nilo, onde floresceu uma civilização cujos testemunhos ainda hoje são motivo de admiração e de estudo.

No último milhão de anos houve aproximadamente seis períodos glaciários. Apesar de estarmos atualmente num período interglaciário, têm decorrido períodos mais curtos caracterizados por temperaturas relativamente baixas, como o que se convencionou designar por “pequena idade do gelo”, entre os séculos XIV e XIX. Não há unanimidade sobre o início, e alguns historiadores consideram que começou mais tarde, no século XVI. Há, no entanto, consenso de que este período foi caracterizado por invernos rigorosos e verões curtos. Ainda hoje se discute qual a causa deste arrefecimento, que poderá ter sido consequência de vários fatores naturais, como a diminuição da atividade solar e o aumento da concentração de partículas na atmosfera resultantes de atividade vulcânica e consequente redução da radiação que atinge a superfície.

Segundo alguns historiadores, a “pequena idade do gelo” pode ter sido uma das causas de convulsões sociais.

Assim, nos Estados Unidos da América, em 1692, ocorreu um fenómeno social que consistiu na histeria coletiva por parte da população de Salem, povoação do Estado de Massachusetts, que teve como consequência uma série de julgamentos, na sua maioria de mulheres acusadas de bruxaria. Uma sucessão de anos com maus resultados agrícolas e consequente escassez de alimentos terão contribuído para a perceção de insegurança nas populações da região de Nova Inglaterra. Perante esta situação, o clima psicológico coletivo terá contribuído para que centenas de mulheres fossem tratadas como bodes expiatórios, algumas das quais foram executadas por enforcamento. Este assunto tem sido estudado por vários historiadores e servido de tema de peças de teatro, obras literárias e filmes. A obra mais emblemática consistiu na peça de teatro de Arthur Miller (“The Crucible” – 1953), em que o autor explorou esse fenómeno social como metáfora do macartismo, período da história dos EUA entre o final da década de 1940 e meados da década de 1950, caracterizado pela perseguição de supostos comunistas, inspirada pelo senador Joseph McCarthy. O próprio autor foi vítima dessa perseguição. Várias foram as obras literárias sobre o mesmo assunto, sendo, talvez, a mais marcante, a obra de não-ficção “The Witches: Salem, 1692” da escritora americana Stacy Schiff. A peça de Arthur Miller foi adaptada pelo próprio para o cinema, em 1996, tendo o filme sido distribuído em Portugal com o título “As bruxas de Salem”.

Foi também durante a pequena idade do gelo que ocorreu grande instabilidade social que precedeu o despoletar da revolução francesa. A insatisfação popular causada pela fome generalizada devido a sucessivos desastres naturais, como uma forte seca em 1788 interrompida por intensa precipitação de granizo e saraiva que causaram a perda de grande parte das culturas que haviam resistido. Para agravar a situação, o inverno de 1788/1789 foi extremamente rigoroso.

A fusão de espessas camadas de neve e de gelo causaram enxurradas e inundações na primavera seguinte, em grande parte da França, provocando grave destruição de infraestruturas e a quase totalidade das poucas culturas que restavam. Na sequência destes desastres meteorológicos surgiu um surto de peste que dizimou muitos dos animais que se haviam salvado. A fome adveio a estes eventos e o caos instalou-se nos grandes centros urbanos. O verão de 1789 foi extremamente seco, o que contribuiu para o agravamento da situação. Toda esta sequência de acontecimentos, juntamente com a ineficácia do governo de Luis XVI, contribuiu para o mal-estar social, o que poderá ter constituído uma espécie de rastilho para despoletar a revolução francesa, que teve como um dos episódios mais notáveis, a Tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789.

Pode-se concluir que fenómenos meteorológicos que, no seu conjunto, caracterizam o clima de uma região, contribuem grandemente para o agravamento de crises sociais. Por exemplo, a tempestade recente que assolou Portugal em 27 de janeiro de 2026 (a depressão Kristin, resultante de ciclogénese explosiva) gerou, por parte da população afetada uma sensação de mal-estar em relação ao poder político. Outro exemplo foi a seca que atingiu o seu auge em 2017, que causou graves prejuízos à agricultura, pecuária, recursos hídricos e forte impacto ambiental no que se refere a incêndios florestais que causaram dezenas de vítimas mortais.

Em ambos os casos o poder político foi acusado, por parte da população afetada, de não ter tomado as medidas necessárias para minimizar as graves consequências que advieram desses desastres naturais. Independentemente dos governos, os desastres naturais causam em geral, com ou sem razão, a sensação, por parte da população, de que as suas consequências poderiam ser minimizadas se se tivessem tomado medidas preventivas mais eficientes, como, por exemplo, melhoria do ordenamento florestal, reforço de infraestruturas e avisos meteorológicos precoces mais rigorosos.

Meteorologista

Referências:
José Pinto Peixoto – Académico português. Foi um dos mais ilustres cientistas à escala global nas áreas da Meteorologia e da Climatologia. Era carinhosamente apelidado de JPP pelos seus estudantes e colegas.

Publicado, em 1987, pela Secretaria de Estado do Ambiente e dos Recursos Naturais.

O Profeta Isaías, um dos redatores do Antigo Testamento, viveu entre os séculos VIII e VII a.C.

5 Fev 2026

Jardim da Flora | Pista de gelo concluída este mês

O Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) revelou que as obras de construção de uma pista de gelo para crianças no Jardim da Flora vão ser concluídas neste mês. A revelação foi feita durante um colóquio sobre assuntos comunitários da Freguesia de São Lázaro, na quarta-feira.

Segundo o jornal Ou Mun, os representantes do IAM explicaram que antes de ser uma pista de gelo, o local era um labirinto com plantas. Como este espaço foi danificado pelo sol e chuvas intensas, ao mesmo tempo que outras construções impediram a construção de abrigos para a vegetação, o IAM decidiu instalar ali uma pista de gelo com 450 metros quadrados.

Os representantes do IAM explicaram também que na fase actual ainda estão a corrigir alguns defeitos nas obras e que numa fase posterior, quando estiver garantida a segurança, a pista vai estar aberta ao público.

14 Mar 2025

Xizang | Cientistas extraem maior núcleo de gelo do mundo

Cientistas chineses anunciaram esta terça-feira que extraíram o maior núcleo de gelo do mundo nas latitudes médias e baixas da Terra. O núcleo foi extraído no glaciar Purog Kangri no condado de Tsonyi, Região Autónoma de Xizang, segundo informou a Xinhua.

Com uns impressionantes 324 metros de comprimento, o núcleo de gelo supera o recorde anterior de um núcleo extraído da calota de gelo de Guliya na prefeitura de Ngari em Xizang, indica o Diário do Povo. O glaciar Purog Kangri é o glaciar mais espesso do planalto Qinghai-Tibete. Ao mergulhar na extensão gelada, os investigadores pretendem obter informações valiosas sobre a paisagem em mudança desta região significativa, acrescenta a publicação. Através de exames meticulosos de núcleos de gelo, os cientistas esperam desvendar as transformações que ocorrem dentro do glaciar e lançar luz sobre o impacto da mudança climática global nos glaciares em todo o mundo.

O acontecimento representa um passo crucial na compreensão dos efeitos do aquecimento das temperaturas nestas formações naturais vitais.

31 Out 2024

Antártica | Cientistas chineses descobrem 46 lagos sob o gelo

A descoberta, graças a novo sistema, é mais um passo no sentido de compreender os processos que levaram à evolução da vida no planeta

 

Uma equipa de cientistas chineses descobriu, com recurso um novo método de análise que melhora a precisão da pesquisa, 46 lagos subglaciais sob o manto de gelo da Antártida, informaram ontem meios de comunicação locais.

“O estudo dos lagos subglaciais na Antártica é de grande importância para compreender a dinâmica do manto de gelo, os processos sedimentares, os ciclos geoquímicos subglaciais e a evolução da vida”, explicou o especialista do Instituto de Pesquisa Polar da China (IIPC), Tang Xueyuan, citado pela agência oficial Xinhua.

A Antártica é coberta por um manto de gelo com espessura média de mais de 2.400 metros e sob o qual existem numerosos lagos formados quando a água do gelo é filtrada através de depressões no leito rochoso sobre o qual repousa a placa.

O novo método utilizado pelos investigadores chineses utiliza um codificador para analisar as características da reflexão do fundo do manto de gelo, reflexão cujos dados são previamente colectados por radar.

Desta forma, a equipa conseguiu analisar imagens de radar na região AGAP-S, no leste da Antártica e detectou 46 lagos caracterizados por contornos geométricos menores do que os previamente identificados pelos métodos convencionais.

Desde 1984

Esta pesquisa foi conduzida por especialistas do IIPC, da Universidade de Geociências de Wuhan e da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul. Até agora, foram detectados 675 lagos subglaciais sob o manto de gelo da Antártida, dos quais apenas três puderam ser escavados para recolha de amostras.

A China iniciou suas expedições científicas à Antártica em 1984 e desenvolveu uma série de projectos de pesquisa sobre ambiente, recursos naturais e biodiversidade do continente branco.

Em Fevereiro, o país concluiu a construção da sua quinta estação de investigação na região, localizada na costa do Mar de Ross e que será também a terceira que funcionará durante todo o ano, juntamente com as bases de Changcheng e Zhongshan.

22 Abr 2024

O gelo certo

A semana passada foi publicada uma notícia na China continental sobre o uso excessivo de gelo nos refrescos de café, de que resulta a perda de concentração e de sabor da bebida.

Este caso não tem muito que saber. Em alguns estabelecimentos da China continental, dois terços dos copos que contêm os refrescos estão cheios de gelo e o outro terço é preenchido pela bebida propriamente dita. Independentemente da porção, concentração, ou sabor dos refrescos, os clientes sentem-se enganados. A avaliação sobre estas bebidas é a seguinte: “têm mais cubos de gelo do que café, e não mais café do que gelo.”

Quando um cliente compra um refresco de café na loja, pode pedir que sejam colocados o número de cubos de gelo do seu agrado. No entanto, se encomendar a bebida através da plataforma online, não é possível especificar o pedido. Isto acontece porque as plataformas não têm opção para indicar o número de cubos de gelo pretendidos.

Esta questão dos cubos de gelo não é nova. Em 2016, um consumidor dos Estados Unidos processou a famosa cadeia de cafés Starbucks e pediu uma indemnização. A Starbucks anuncia que os seus refrescos têm cerca de 7dl da bebida, no entanto, o gelo ocupa parte do conteúdo, pelo que a quantidade da bebida em si é menor. Estamos perante um caso de “misrepresentation” (“deturpação”). “Misrepresentation” é um termo jurídico do direito americano, que significa, neste caso, que a publicidade à bebida não está de acordo com os factos. No anúncio é dito que a bebida tem 7 dl e na verdade não tem. Existe deturpação na venda de produtos, se houver discrepância entre o que é anunciado e o que na realidade é vendido. A criação do termo legal “misrepresentation” tem como objectivo proteger os interesses dos consumidores.

Do ponto de vista do consumidor, a reclamação parece razoável. Mas do ponto de vista dos lojistas, o caso muda de figura. Como é que se pode servir uma bebida gelada se não tiver gelo? Em segundo lugar, temos de nos perguntar qual é o padrão que estabelece a quantidade de cubos de gelo que um refresco deve ter? Suponhamos que estabelecemos um padrão segundo o qual 3 dl de gelo é demasiado e 1,5 dl é pouco. Então, devem os consumidores pedir aos lojistas que meçam a quantidade de gelo que vão juntar às bebidas? Esta exigência iria criar um aumento da carga laboral da loja, uma diminuição da eficiência e um aumento do tempo de espera para ser atendido. Além disso, assumindo que a loja aceitava esta imposição, deveremos reflectir sobre o processo de vendas online. Uma bebida que vai ser entregue, pode levar 15 minutos a chegar ao seu destino, se, antes de sair da loja, lhe for adicionado apenas 1,5 dl de gelo, o mais certo é estar todo derretido quando chega ao cliente. A bebida gelada transforma-se numa bebida tépida. Se os consumidores reclamarem por este motivo, como é que as lojas podem lidar com a situação? Nos negócios, tem de se lidar com muitas questões.

A lei que define a “misrepresentation” e a exigência que os comerciantes anunciem os seus produtos de forma a reflectir a realidade, pretendem defender os direitos dos consumidores. Mas podemos pensar sobre o assunto, um copo de refresco de café custa menos de 50 patacas. Se um consumidor processar uma loja porque a bebida tem gelo a mais ou gelo a menos, que indemnização deve receber? Apenas 50 patacas? Os processos implicam muito tempo e dinheiro. Que sentido é que faz processar alguém para se receber 50 patacas de indemnização?

Evitar conflitos é a melhor forma de lidar com este tipo de problemas. Se o software da plataforma de encomendas online não tem a opção para escolher o número de cubos de gelo pretendido, deve passar a ter. As lojas também devem indicar nos menus que o cliente pode pedir a sua bebida com mais ou menos gelo. Desde que o cliente tenha escolha, o problema está resolvido à partida. Se os clientes continuarem insatisfeitos com a questão da quantidade de gelo, pedem à loja que lhes substitua a bebida por outra mais a seu gosto. Se a loja recusar a substituição do produto, o cliente pode considerar não voltar a comprar naquela loja produtos semelhantes. Estas medidas são mais eficazes e práticas do que pedir uma indemnização e levantar um processo.

No tempo quente, um refresco pode trazer alegria e prazer aos consumidores, não insatisfação e processos jurídicos. Esperamos que todos esqueçam os sentimentos negativos e desfrutem em conjunto dos refrescos de café.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Escola de Ciências de Gestão do Instituto Politécnico de Macau
Blog: http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog
Email: legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk

6 Set 2023