Ana Cristina Alves Via do MeioO Sacrifício dos Deuses Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau O mito de origem popular “Pangu Separa o Céu” (盘古开天Pángǔ kāi tiān) remonta ao Período dos Três Reinos (三国, 220-280) e ao seu Registo do Calendário Três Cinco (《三五历纪》)2, de acordo com os dados da enciclopédia online Baike.Baidu, onde surge exposta a teoria cosmológica Hun Tian (“浑天说”), que significa «teoria do Globo Celestial» ou, numa tradução menos literal, «teoria do ovo cósmico»”3 : No Registo do Calendário Três Cinco pode ler-se “O Céu e a Terra estavam ligados como um ovo, tendo originado Pangu. Na teoria Hun Tian, a esfera celeste envolve a terra, e o centro onde o Céu e a Terra se encontram é conhecido como «o centro geográfico». Foi em Luoyang que Pangu nasceu, nessa altura o Céu e a Terra ainda não se tinham separado, o universo era uma mistura caótica. Pangu dormiu neste caos por 18 mil anos. Certo dia, de repente acordou. À volta, reinava um escuro de breu. Ele ergueu um grande machado com o qual lutou contra a escuridão. Esta foi-se dissipando com um estrondo imenso. O que era leve começou aos poucos a subir, transformando-se no Céu; o que era pesado foi descendo progressivamente e tornou-se a Terra. Depois de o Céu e a Terra se terem separado, o titã temeu que eles se voltassem a unir, para que tal jamais fosse possível, firmou a cabeça contra o Céu, deixando os pés bem assentes na Terra. E foi assim que o Céu subiu para o alto, afastando-se todos os dias três metros e pouco da Terra. Também ele acompanhou durante muitos anos o crescimento do Céu, cada vez mais alto e distante. Quando o Céu e a Terra já estavam totalmente formados, Pangu tombou exausto. Após a sua queda, o corpo dele sofreu as maiores alterações: A respiração transformou-se no vento e nas nuvens das quatro estações; a voz em estrondosos trovões; os olhos no sol e na lua, os quatros os quatro pontos cardeais da Terra, leste, oeste, sul e norte; os músculos e a pele na vasta extensão da Terra; o sangue em pequenos e grandes rios sempre a fluir e o suor, na chuva e orvalho que nutrem os dez mil seres. 据《三五历纪》记载,“天地浑沌如鸡子,盘古生其中” 。浑天说中,球壳状的天包着地,天与地的中心就是“地中”,即洛阳 ,盘古生于此。当时天和地还没有分开,宇宙 一片。盘古在这个混沌的宇宙中睡了一万八千年 。有一天,盘古突然醒了。他见周围一片漆黑,他就抡起大斧头,朝眼前的黑暗猛劈过去了。只听一声巨响,一片黑暗的东西渐渐分散开了。轻清的东西缓缓上升,变成了天;重浊的东西慢慢下降,变成了地 。 天和地分开以后,盘古怕它们还会合在一起,便头顶着天,脚蹬着地。天每天升高一丈,盘古也随着天越长越高。这样不知过多少年,天和地逐渐成形了,盘古也累得倒下来了。 盘古倒下后,他的身体发生了极大的变化。他呼出的气息,变成了四季的风和云;他发出的声音,化作了隆隆的雷声;他的双眼变成了太阳和月亮;他的四肢,变成了大地上的东、西、南、北四极;他的肌肤,变成了辽阔的大地;他的血液,变成了奔流不息的江河;他的汗,变成了滋润万物的雨露。 João Marcelo Martins em A Gramática Universal do Mito (2023, 142) chama a atenção para os vários sentidos etimológicos do nome de Pangu (盘古),que, numa leitura possível se aproxima da fonética da palavra «cabaça», Páohù (匏瓠), tendo esta na cultura chinesa o sentido simbólico de reprodução de vida, há ainda outras possibilidades interpretativas em torno do nome deste grande titã, como a de uma «antiguidade espiralada» (Ibidem), por causa de um dos sinogramas ser 古 (gǔ), que significa «antigo», enquanto o outro 盘 (pán), pode ser traduzido por «espiralar». A verdade é que este mito chinês do ovo cósmico se encontra em várias mitologias, como por exemplo na órfica da Grécia antiga, nas quais se enfatiza a imagem de um grande ovo do qual brotaram, quais pintos, todos os seres do universo, incluindo as próprias bases do mesmo – o Céu e a Terra. Panorama idêntico nos apresenta a mito de génese chinês. Neste mito de criação, é-nos facultada uma imagem que apela a uma mistura caótica, na qual está imerso o universo numa escuridão total. Depois, assiste-se ao sacrifício do titã, que consegue separar e constituir as duas forças básicas, representantes do princípio masculino Yang (阳), o Céu e do princípio feminino Yin (阴), a terra. Toda a criação é um ato de sacrifício do portentoso, que começa nos milhares de anos em que a força divina separa os elementos e culmina com a exaustão do titã. É do corpo de Pangu e, por transformação, que surgem todos os seres vivos, celestiais e telúricos. Há uma energia imanente, viva e animada que mantém um universo ligado, como num só corpo. Os generosos sacrifícios não se ficam por aqui. Nem na China, nem na Grécia antiga, tornam-se muito claros quando se pensa nas descrições encontradas para a criação da humanidade pela Deusa Nϋwa (女娲), que numas versão do mito “Nϋwa cria os seres humanos” (女娲造人Nǚ wā zào rén) depois de criar a humanidade com o auxílio da terra e de encher de gente adormece profundamente, tal era o estado de cansaço e fica-se sem saber se não terá acordado no paraíso para não mais regressar ao mundo. A Deusa, após ter criado os animais, continuava a sentir-se sozinha, pelo que “no sétimo dia, chegou a um lago. Pegou num pouco de barro e misturou-o com água. Ao ver a sua imagem refletida fez um pedaço de barro parecido com ela” (Wang, Alves, 2009, 16). Para que se mexesse, bastou colocar o boneco e a todos os outros que se haviam de seguir, em contacto com a terra. A energia desta, animava-os, sendo por si só indispensável na passagem dos bonecos para a criação da humanidade. Tal como sucedeu no mundo grego antigo, o cosmos surge do vazio e do Caos primordial, depois, por geração espontânea, conta-se na teogonia de Hesíodo, manifesta-se a Mãe- Terra Gaia, Eros, o Deus do Amor, e a partir desta todos os elementos deificados: o Céu ou Urano, o Mar e as Montanhas, etc. Gaia, com a ajuda de Urano, gera os restantes filhos, alguns deles criaturas colossais e deformadas como os ciclopes, com cinquenta cabeças e cem braços, além dos titãs, dos gigantes, bem como dos restantes deuses, aos quais Cronos, o deus do tempo chamava titãs, que significava na sua ideia “criaturas arrogantes e ambiciosas”. Os Deuses gregos tinham todos os defeitos e virtudes humanas eram maus, ciumentos, vingativos, mas também bondosos e dadivosos, dependendo o modo como se comportavam dos seus humores. Na Grécia antiga não era a humanidade forjada à semelhança dos deuses, mas, pelo contrário, eram os deuses concebidos à imagem e semelhança da humanidade. Pobres daquelas forças divinas que por amor à humanidade tentaram ludibriar os seus pares, como sucedeu com o titã Prometeu que foi ao Olimpo roubar o fogo dos deuses para dotar a humanidade duma arma poderosa. O episódio sucedeu na sequência de Epimeteu, irmão mais novo de Prometeu, cujo nome significa “o que pensa depois”, ter dotado os animais, quando os criou com as melhores virtudes que retirou do alforge preparado pelos deuses mais novos: garras, presas, asas, tentáculos, bicos, ferrões, velocidade e tudo o resto que os animais possuem de bom. Prometeu, cujo nome significa “pensador previdente”, ao concluir nada ficar para si na terra que distinguisse a humanidade, foi ao Olimpo, ludibriar e extorquir o fogo dos deuses, dotando assim os seres humanos de inteligência para que se pudessem defender de animais com capacidades físicas muito superiores às deles. Para tal, teve de apanhar distraída Héstia, a deusa virgem do lar, mas o mesmo não sucedeu a Zeus, o líder supremo dos deuses, que não se deixou enganar. Puniu o que considerou ser a suma arrogância do titã ladrão com um suplício terrível. Agrilhoou Prometeu nas montanhas do Cáucaso e mandou que Hefesto, deus da forja e de outras artes, fabricasse na sua fornalha os grilhões para o acorrentar. O criador da humanidade foi preso pelo Poder e pela Força a um penhasco, de braços e pernas esticadas, agarrado pelos pulsos e tornozelos, sendo visitado diariamente por uma águia voraz, que lhe despedaçava o diafragma e lhe comia o fígado. Ésquilo (525- 456 a.C), o grande dramaturgo grego relata o suplício, inspirado pela Teogonia de Hesíodo, na tragédia Prometeu Agrilhoado, deixando o herói desabafar no final da peça que relata a sua aventura da dádiva do fogo à Humanidade: (…) Eis a rajada que, para sobre mim trazer terror, foi mandada por Zeus. Oh Majestade! Oh minha mãe! Éter divino! ― Que, pelo mundo além, fazes rolar maravilhoso hino : a Luz ― supremo bem, a iluminar o trágico destino de toda a gente ! Vê como é grande a minha desventura, A dor que me tortura ― Injustamente!… (Ésquilo, 1946, 115) O sacrifício de Prometeu terá eco no mundo cristão, no qual o filho de Deus, Jesus Cristo, também se sacrifica por amor à Humanidade. Morre na cruz para salvar os homens, que invariavelmente se portam mal. Mas há uma grande diferença na maneira de encarar o cosmos de chineses e cristãos, com a Grécia antiga a estabelecer a ponte entre ambas as mundividências. Na perspetiva cristã, Deus criou o mundo a partir do nada (Creatio ex nihilo) . É uma criação transcendente, pessoal e com assinatura de artista. O fruto da criação talvez não tenha sido o melhor, mas ficará sempre por explicar como entrou o mal no mundo, mesmo com Santo Agostinho a defender a teoria do livre-arbítrio humano. Aqui fica o relato da criação ex nihilo no livro do Génesis do Antigo Testamento (Gn 1): No princípio Deus criou o Céu e a Terra. A Terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas. Deus disse: «Que exista a luz!» E a luz começou a existir. Deus viu que a luz era boa. Deus separou a luz das trevas: à luz Deus chamou «dia» e às trevas chamou «noite». Houve uma tarde e uma manhã, foi o primeiro dia. Depois seguiu-se a criação do firmamento, ao qual Deus chamou céu no segundo dia. No terceiro dia, criou a terra, o mar e as plantas. No quarto dia foram criados o sol, a lua e as estrelas. No quinto dia, os peixes, os pássaros e todos os seres vivos. No sexto dia, os animais foram divididos em espécies e foi ainda criado o homem. No sétimo dia descansou. Relativamente à criação da humanidade, Deus numa das versões cria-as diretamente e à sua imagem e semelhança (Gn 1, 27-31), na outra cria primeiro o homem e depois a mulher partir da costela deste (Gn 2,18-23). Após o que, é percorrido um longo caminho até se chegar ao Novo Testamento e ao sacrifício de Jesus Cristo, morto na cruz por amor à humanidade. Há uma grande diferença, do ponto de vista filosófico, entre as cosmologias imanentistas chinesa e grega e a transcendente cristã. As primeiras obedecem ao princípio da transformação de elementos que estiveram desde sempre imersos no caos primordial e, portanto, apresentam uma imagem cosmológica interrelacionada, em que os elementos ou os dez mil seres possuem afinidades de raiz que lhes permitem comunicar e transmutar-se sempre que necessário. Os deuses gregos, por exemplo, assumem as formas que desejarem, tal como as divindades e imortais chineses. Já no Ocidente cristão a ausência de um ovo cósmico ou de um caos primordial dificulta e impede a transmutação. Os seres estão todos separados e numa posição exterior em relação à divindade, já que se é feito à imagem de deus, não se é o próprio divino e para se alcançar esse estatuto supõe-se uma união mística com o mesmo. O profano exterior, cindido, distante terá de percorrer um longo caminho, que talvez implique o martírio e o sacrifício já anteriormente vivido pelo filho de Deus. De qualquer modo, mesmo no âmbito de filosofias imanentistas, guiadas pelo princípio da transformação, o sacrifício também está sempre presente, quando aliado ao amor à humanidade, como no caso de Prometeu ou, em parte de Nϋwa; ou sem amor, mas por essência natural, quando a aliança é feita com o tempo, se for considerado o exemplo de Pangu. Os deuses são sacrificados, porém não estão sozinhos. O sacrifício é universal, porque as criaturas naturais são também martirizadas por amor ou pelo tempo nas três cosmogonias apresentadas, imolam-se às divindades, umas mais distantes, outras tão próximas que só de dentro conseguem ser intuídas. Referências Bíblia Sagrada. 1997. São Paulo: Paulus. Ésquilo. 1946. Prometeu Agrilhoado. Tradução de Eduardo Scarlatti. Lisboa: Livraria Luso-Espanhola, Lda “浑天说” (teoria Hun Tian) In Baidu. Baike. https://baike.baidu.com/item/%E6%B5%91%E5%A4%A9%E8%AF%B4/717090?fromModule=lemma_inlink, acedido a 25 de fevereiro de 2026. “盘古开天” (Pangu separa o Céu). In Baidu. Baike. https://baike.baidu.com/item/%E7%9B%98%E5%8F%A4%E5%BC%80%E5%A4%A9/74007,2008年6月7日, acedido a 24 de fevereiro de 2026. Johnston, Sarah Iles. 2025. Deuses e Mortais. Odivelas: Alma dos Livros Martins, João Cancelo. 2023. A Gramática Universal do Mito: Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, Universidade de Macau. Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. Mitos e Lendas da terra do Dragão. Lisboa: Caminho. Notas: I Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores. De acordo com o estudioso João Martins em A grmática Universal do Mito. Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem (2023, 143, nota 100) O Calendário Três Cinco diz respeito aos registos históricos já perdidos das Três Divindades Soberanas e dos Cinco Deuses. iii A teoria Hun Tian, fundada por Zhang Heng (张衡), um astrónomo da Dinastia Han, é uma teoria astronómica entre as teses geocêntrica e heliocêntrica, na qual se defende que o universo é infinito, o movimento dos corpos celestes é regular, a luz da lua é o reflexo da luz solar e os eclipses lunares são causados pela Terra bloqueando a luz solar. Para comprovar a sua Teoria Hun Tian, Zhang Heng construiu a primeira “esfera armilar movida a água”, inaugurando uma era de observação astronómica mais precisa. Utilizou então dados de observação astronómica mais rigorosos para corroborar a sua teoria na explicação de diversos fenómenos celestes, influenciando a astronomia por mais de 1500 anos. (cf https://baike.baidu.com/item/%E6%B5%91%E5%A4%A9%E8%AF%B4/717090?fromModule=lemma_inlink)
José Simões Morais Via do Meio关帝 Guan Di – deus da Guerra Em Macau, a maior parte dos estabelecimentos comerciais têm a imagem de Kuan Tai (Guan Di em mandarim), que se apresenta com um corpo forte, cara vermelha, longa barba preta e vestindo como oficial militar, a segurar na mão direita uma lança. Como pessoa é conhecido por Guan Yu e está relacionado com a queda da dinastia Han e às lutas para o estabelecimento do reino Shu, no período que antecedeu os Três Reinos. Com o nome de Chang Sheng (长生) nasceu em Xiezhou (hoje Yuncheng, província de Shanxi), no dia 24 do sexto mês lunar dos anos 60 do século II. Como episódio da sua juventude conta-se que certo dia um fidalgo quis à força possuir uma rapariga e Guan Yu, indignado, matou-o. Perseguido pelas autoridades teve que fugir e segundo a lenda, para não ser reconhecido Guanyin (conhecida em Macau por Kun Iam) transfigurou-lhe a cor da cara para vermelho. Outra história refere que um proprietário rural com muito poder, para obrigar toda a gente a comprar-lhe água, conspurcava as outras fontes da região. Saturado com tamanha infâmia, Guan Yu um dia matou-o e teve que fugir da cidade. Nessa fuga, para passar a fronteira (guan), tomou o nome de Guan Yu. Nos finais da dinastia Han do Leste (25-220), a decadente corte em Luoyang era dominada por eunucos e generais. Guan Yu vagueava como vendedor ambulante na municipalidade de Zhuo, (hoje província de Hebei), quando se encontrou com Liu Bei e Zhang Fei. Os três fizeram um juramento no jardim dos Pessegueiros tornando-se irmãos de armas, com o voto de Guan Yu e Zhang Fei ajudarem Liu Bei, ligado à casa real dos Han, na sua sublevação armada para estabelecer o reino Shu-Han. Por essa altura havia outras duas diferentes facções que dividiam o país e assim no Norte, dominava o exército Wei liderado por Cao Cao, no Leste e Sul as forças Wu e a Oeste, os Shu. Eram constantes as batalhas entre elas. Guan Yu, um ávido leitor do Clássico “Anais da Primavera-Outono” (Chunqiu jing), que o acompanhava sempre, comandava a guarnição Shu em Jingzhou há 10 anos. No ano 219/220, estando ocupado numa batalha fora da muralha contra as forças Wei, foi apanhado por um ataque surpresa do exército Wu, que era mais ou menos aliado dos Shu. Os Wu conquistaram a cidade e mataram Guan Yu, decepando-lhe a cabeça para, como prova de amizade, a entregarem a Cao Cao. A meio caminho souberam que os Wei tinham feito um acordo de paz com os Shu e por isso, a cabeça foi abandonada junto a Luoyang. O processo da sua deificação foi longo. Apesar de só ter sido Deus da Guerra durante o período Ming, quando em 1578 o imperador Wan Li lhe deu o título de Imperador Guan (Guan Di), já na dinastia Sui tinha um templo a si dedicado no local onde foi sepultado, sendo os títulos dados por todas as seguintes dinastias. Durante a vida, Guan Yu tinha a posição de Oficial Militar (Hou). Na dinastia Song tomou o lugar de Rei (Wang). Pela sua lealdade, honestidade, piedade, benevolência, sentido de justiça e coragem, tornou-se muito popular devido ao livro San Guo Yan Yi, escrito no início da dinastia Ming. Foi nessa dinastia promovido a Imperador (Di) e depois, em 1614, a Sábio (Sheng) ou Santo Militar (Wu Di). Como Ser tão perfeito, todas as profissões o querem como patrono e assim é venerado como Deus da Guerra, da Literatura, da Riqueza e patrono das Artes Marciais. Em Macau, Guan Di é conhecido por Kuan Tai e o templo Sam Kai Wui Kun, situado na rua Sul do mercado de S. Domingos, é-lhe dedicado. Aí, a imagem do Deus é toda dourada, não tendo objectos nas mãos e está acompanhado à sua esquerda por Chau Chong e do outro lado por Kuan Peng. O seu aniversário acontece no dia 24 do sexto mês lunar apesar de não se realizarem oficialmente nenhumas festividades em sua honra. 灶神 Zao Shen – o deus do Fogão O deus do Fogão, conhecido em Macau por Tchôu-Sân (em mandarim Zao Shen), é o mais importante das divindades domésticas e duas vezes por mês (durante a Lua Nova e a Lua Cheia) recebia oferendas, apesar do seu aniversário apenas ser celebrado no terceiro dia, da oitava Lua. No entanto, as cerimónias mais importantes realizadas a este deus são as que ocorrem antes da viagem de uma semana, quando o deus deixa o lar e vai ao Céu fazer o relatório anual ao Imperador de Jade sobre a família da residência onde está colocado. E é por isso que este deus, também conhecido por deus da Cozinha, como por simplificação passou a ser chamado o deus da Chaminé da Cozinha, tem grande poder sobre a vida das pessoas que formam o agregado familiar. É na última semana do ano lunar, que sobe ao Céu para se reunir com o Imperador de Jade, onde lhe relata os acontecimentos ocorridos na habitação a seu cargo, regressando no primeiro dia do ano, onde de novo é colocado na cozinha, atrás do fogão. Na véspera da viagem, no vigésimo terceiro dia do último mês lunar, os habitantes da casa oferecem sacrifícios a esta divindade, enchendo-o de guloseimas para que apenas conte coisas boas ao Imperador de Jade. Numa cerimónia realizada apenas pelos homens, o deus do Fogão parte transportado num cavalo e para que a viagem seja fácil e agradável, um dos seres masculinos da casa pega numa vela e queima a imagem do deus para que mais facilmente ascenda pelo fumo ao Céu. Antes de ser nomeado pelo Imperador de Jade como Deus do Fogão, ou da Cozinha, fora um marido que, tendo gasto todo o dinheiro ao jogo e vendido a sua mulher, anos mais tarde ao mendigar pelas ruas chega à casa da sua antiga esposa. Esta, reconhecendo-o e com pena dele, leva-o para a cozinha onde lhe dá de comer. Mas o actual marido chega e para que não o veja, esconde-o na lareira. Quando a criada acende o lume este, para não comprometer a caridosa mulher, ali se deixa ficar. O Imperador do Jade vendo o seu sacrifício, nomeou-o deus do Fogão, conhecido também como deus da Cozinha, ou deus do Lar. Existem outras versões tanto para como o homem perdeu o dinheiro, como a sua ex-mulher o apoiou. Esta, sem ser reconhecida pelo ex-marido, deu-lhe alguns bolos onde colocou uma moeda em cada um. O homem, no caminho encontrou um outro pedinte, que ao ver o saco com os bolos, lhe pediu um. Este ao descobriu a moeda no meio do bolo e percebendo que o outro não sabia do recheio propôs ficar com todos, o que conseguiu a troco de uma pequena quantia. Quando mais tarde veio a saber o que tinha feito, percebendo a sua pouca sorte, resolveu suicidar-se. O Imperador do Jade vendo a sua bondade, nomeou-o deus da Cozinha. A celebração da viagem até ao Céu desta divindade começou por se realizar no Verão, mas na dinastia Han passou para o Inverno e durante a dinastia Ming foi celebrada pelos populares no dia 24, realizando-se os sacrifícios no dia anterior. Zao Shen é representado numa imagem onde consta apenas a sua figura, ou associada com a consorte, ou ainda apenas com caracteres, que se coloca no primeiro dia do ano lunar na cozinha por detrás do fogão.
José Simões Morais Via do MeioDeuses da Água e do Solo Na História da China aparecem como lendas e mitos duas grandes inundações no período de vida de Fuxi e da meia-irmã Nuwa, no início do terceiro milénio antes da nossa Era. A primeira criou um oceano e foi iniciada por uma imensa tempestade com chuvas torrenciais sem parar e uma súbita subida da água a não deixar terra à vista. Levados separadamente pela corrente, os dois meios-irmãos seriam os únicos a sobreviver desse grande dilúvio e daí ficarem considerados os pais da humanidade chinesa. A segunda grande cheia decorreu, em relato mitológico, da luta entre Gonggong (deus da Água) e Zhurong (deus do Fogo), saindo Gonggong derrotado e humilhado suicidou-se, atirando-se contra a Montanha Buzhou, quebrando um dos quatro pilares da abóbada Celeste. Um tal abalo abriu fendas na terra, de onde saíram torrentes de água a inundar as zonas baixas do mundo, precisando Nuwa de erguer uma enorme argamassa feita com a mistura de cinco seixos de diferentes cores para reparar os estragos do Céu, ficando desde então este inclinado para Noroeste. No reinado de Zhuanxu, Taitai já trabalhava a regularizar os rios, com o Imperador Diku a promovê-lo a chefe do controlo das águas. Taitai chefiava a tribo Jintian (Jintian shi) em Shanxi, pois inicialmente ela vivia em Shandong e descendia de Shaohao [conhecido também por Jintian, ou Xuanxiao e segundo o Shu Jing – Livro da História, ou de Documentos, um dos Cinco Ancestrais Imperadores]. Shaohao (c.2597-2514 a.n.E.) era o filho mais velho de Leizu e Huangdi (Imperador Amarelo), sendo o seu irmão Changyi pai de Zhuanxu. Changyi nascera no ano 29 do reinado de Huangdi e no 77.º ano foi para Sichuan, casando-se com Changpu (Jingpu), do clã Shushan, e dessa relação nasceu o filho Gaoyang, conhecido depois por Zhuanxu, o segundo dos Cinco Ancestrais Imperadores. Bai Shouyi refere, em Shandong habitava a tribo Shaohao, com os chefes Xiu e Xi, e por serem especialistas no controlo de inundações colocaram os filhos e netos a realizar esse trabalho e assim se transformaram em Deuses da Água. Na região de Shanxi, a tribo Jintian teve chefes como Mei e o filho Taitai, especialistas na construção de diques e no controlo das cheias dos rios. Conhecidos por geração Mei (昧), os dois foram oficiais da Água (Shuiguan, 水官), ficando Taitai (台骀) encarregue especificamente dos rios Fen (汾) e Tao (洮). Deslocando-se com muita gente para o ajudar, criou as bases onde instalou os trabalhadores enquanto dragavam o rio Fen (Fenshui), construindo uma represa a originar o lago Daze e assim, os habitantes da área de Taiyuan puderam ter uma vida mais estável, passando a designá-lo por Taisheng (deus Tai). Zhuanxu ofereceu a Taitai a governação da área de Fenchuan (mais ou menos a actual província de Shanxi) onde existiam quatro reinos tribais: Shenguo (沈国), Yaoguo (姚国), Ruguo (蓐国), Huangguo (黄国), e em cada um deles realizou sacrifícios às quatro direcções. Daí Taitai ser o Deus do Fengshui e receber oferendas por parte desses quatro reinos governados pelos seus descendentes. As informações deste parágrafo provêem do livro (左传-昭公元年). Durante o reinado dos dois últimos Ancestrais Imperadores, Yaodi e Shundi, a população sofria graves inundações e para resolver esse problema contrataram Gun, pai de Yu, que trabalhou em conjunto com a tribo de Gonggong. Sem conseguir resultados, foi Gun despedido por Yaodi e substituído no cargo pelo filho Yu. Yaodi registou esse período de inundações, ficando o relato transcrito no Livro de Documentos (Shu Jing). No Norte de Henan encontrava-se a tribo Gonggong, com o chefe Houtu especialista nos trabalhos de controlo das águas, sendo a tribo a inventora do método da construção de diques para prevenir as cheias. Segundo o Clássico das Montanhas e Mares [Shanhai Jing – haineijing (山海经-海内经)] Gonggong (共工) é filho de Zhurong (祝融) e pai de Houtu (后土). No entanto, sofreram graves inundações quando alguns dos diques cederam e daí ter sido a tribo Gonggong banida por Shundi, mudando-a para a prefeitura You. Houtu tornara-se o Deus do Solo e a tribo mais tarde passou a representar o deus da Água. Os Gonggong viriam a ajudar Dayu no controlo das águas e depois usaram com bons resultados o método de Yu para evitar inundações. Yu, o Grande, também considerado Deus do Solo, além de adquirir conhecimentos com o pai Gun, fez a aprendizagem enquanto andava por diferentes regiões a ajudar a resolver os constantes problemas. Estudou as características das águas, a topografia dos terrenos e assim abriu muitos canais para controlar as cheias, conseguindo desbloquear os leitos dos rios, ou alargando-os, e conduzi-los a um fácil desaguar. Certa vez, Yu não estava a realizar bem o trabalho de levar as águas do rio Amarelo para o mar, pois mandara escavar o canal na direcção errada. Então Houtu, como rainha deusa da Terra fez o Mapa do Rio Amarelo (Hetu) e enviou um pássaro mensageiro com instruções específicas a Yu, dizendo-lhe dever o canal ser aberto para Leste, para permitir um correcto escoamento. Dayu reunia-se na montanha de Kuaiji com os senhores da terra (da tribo dos Gonggong), que o ajudaram no controlo das inundações, para lhes entregar o prémio segundo o contributo dado. YU O GRANDE A uns cinco quilómetros do centro de Shaoxing, na província de Zhejiang, um complexo envolve a montanha Kuaiji, onde no cume uma enorme estátua de Dayu domina a cidade. Para aceder ao recinto paga-se um bilhete de 25 yuans e junto a um canal proveniente da cidade está a entrada do templo e mausoléu de Dayu, onde prestamos homenagem ao fundador da dinastia Xia. Desde criança Yu tinha um pequeno tigre como companheiro com quem se deu pela vida fora e o protegia quando trabalhava sobre as ordens de Yaodi, acompanhando-o sempre e devido a ser grande, bravo e forte ajudava-o a guiar os outros animais e a vencer demónios. Segundo a mitologia, Gun depois de morrer em Yushan transformou-se num Urso Amarelo e a sua alma tornou-se Huang Neng, a tartaruga de três patas, passando a viver na água. Numa noite, estava Yu sem soluções para domar as águas dos rios da montanha Huanyuan [a Sul da província de Anhui], quando viu surgir o espírito do pai na forma de urso amarelo e com a cabeça mover a montanha. [O totem do povo Qiang, antepassados de Yu, era o urso amarelo.] Aos trinta anos Yu ainda não se tinha casado, andando atarefado no trabalho de controlar as águas dos rios turbulentos das montanhas de Tu (Tushan ou Dangtu em Anhui), quando foi visitado por uma raposa branca de nove caudas. Ao vê-la Yu pensou: “branca é a minha roupa e nove caudas significa vir a ser rei” e começou a cantar: “uma raposa branca com nove caudas apareceu ao meu lado. Como estaria contente com esta beleza para minha esposa. Quando marido e mulher trabalham juntos com um só coração, então a harmonia reina entre o Céu e o Ser Humano”. Ao acabar a canção a raposa transformou-se numa bela mulher e Yu com ela casou, chamando-lhe Nujiao. [No tempo de Wudi da dinastia Han do Oeste, a Rainha Mãe do Oeste era esposa do imperador Yu (o Imperador do Leste) e ambos presidiam à corte do Céu.] Sima Qian refere, que pouco tempo Dayu passou com a esposa pois, logo após casarem, foi chamado para resolver inundações e durante mais de uma dezena de anos atarefado com o trabalho, por três ocasiões passou em frente a casa, mas aí não se deteve. Devido à sua sabedoria, Yu em 2070 a.n.E. tornou-se rei e governou durante 45 anos, fundado a dinastia Xia, a primeira na China. Até aí, eram os Imperadores e chefes escolhidos pela inteligência na capacidade de resolver os piores problemas a afectar as populações e a conseguir evitar desastres. Dando início ao período das dinastias, a dinastia Xia (2070-1554 a.n.E.) viveu no curso médio do rio Amarelo (Huang he) entre os afluentes Yishui e Luoshui e dava ao território o nome de Hua Xia. Próxima do Monte Song, entre os rios Wudu e Ying, a cidade Yangcheng foi construída por Yu e tornou-se a primeira capital da dinastia Xia, hoje a povoação de Gaocheng, em Dengfeng Henan. Já rei, Da Yu tentava controlar as cheias do rio Longo (Changjiang, ou Yangzi) no lugar das Três Gargantas, quando da Garganta Wu começou a jorrar água. Da Yu não podendo cortar montanha dentro para controlar a inundação, realizou uma oração à deusa Yaoji, a viver em Wushan. Esta ordenou à vaca, uma das 28 constelações, para vir à Terra ajudar Da Yu e com os cornos furou a rocha, desviando assim as águas do monte de Wu(shan), conseguindo desobstruir a passagem ao rio. O cavalo-dragão só é visto por um imperador sagaz e quando Da Yu encontrando-se em imensas dificuldades para controlar o rio Luo, afluente do Huanghe, viu emergir das águas uma tartaruga e na carapaça encontrou o Livro do Rio Luo (Luoshu) com a Teoria do materialismo dos Cinco Elementos a representar a Ordem do Universo Manifestado. Ao ler o Mapa do Rio, Da Yu entendeu-o e por fim conseguiu com sucesso estabilizar o rio Luo e controlar as águas do rio Amarelo. Quando Dayu morreu foi sepultado na base da montanha de Kuaiji e sucedeu-lhe como segundo rei da dinastia o filho Qi, nascido de Nujiao. Iniciava-se o período das dinastias com sucessão de poder transmitido normalmente de pai para o mais velho dos filhos, perpetuando-se no trono a família reinante. O Templo Ancestral de Yu foi construído durante a dinastia Liang (502-557), mas o local tinha sido já oferecido por o sexto rei da dinastia Xia, Shao Kang (Du Kang, 1943-1922 a.n.E.), aos descendentes de Yu, o clã Si do povo Qiang, que aqui viveram mesmo depois da dinastia ser substituída em 1600 a.n.E. por a Shang. O templo mausoléu é composto por diferentes partes: rodeado por um muro de quatro metros de altura, encontra-se dentro o pavilhão Memorial e a Porta Wu, estando a estátua de Yu no pátio central. Acima, o monte da sepultura marcado por um bei. Partimos depois de visitar a ponte do Dragão, por onde as águas do canal correm, com embarque no bote a remos em frente ao Palácio de Yu, no parque do mausoléu, para navegar até ao centro da cidade de Shaoxing.
Ana Cristina Alves Via do MeioA riqueza e os seus deuses Desde os tempos mais recuados houve quem na China desprezasse a riqueza. Podemos encontrar entre estes os seguidores mais fiéis das filosofias confucionista, daoísta e budista. O cavalheiro confucionista ou o sábio daoísta pouco ligam aos bens materiais. Para estas filosofias, mais importante do que a riqueza material, são os bens espirituais, que cada um vai desenvolvendo como pode: os valores morais, no caso confucionista, e os existenciais, impregnados de espiritualismo, no caso daoísta. Também aos budistas interessa, sobretudo, a libertação dos desejos materiais, a fim de escapar à terrível roda das reincarnações. Mas, o certo é que, desde os tempos mais recuados muitos, muitíssimos, mesmo, têm sido os que, entre os chineses, amam devotadamente a riqueza. Estes situam-se a um nível mais popular, são a grande maioria da população. Não obstante, neles se incluem muitos dos eruditos, capazes de suspender, no dia-a-dia, com admirável facilidade, os preceitos filosóficos que vão transmitindo nas aulas, conferências e outros momentos teóricos das suas actividades. Enfim, para a maioria, a riqueza é um bem inestimável. Há até um deus, o da riqueza, ou vários, dependendo das versões, a que as pessoas prestam culto de modo a enriquecer rápida e prolongadamente. A riqueza, na China, tem uma dimensão religiosa e, por vezes, até mística. Este povo adora com fervor religioso certos bens materiais, como o dinheiro, o ouro, e todos os metais preciosos, as pedras, também preciosas e, em suma, todos os objectos vulgarmente catalogados como tesouros materiais. A relação dos chineses com a riqueza abre-nos as portas ao estudo de uma religião materialista, onde este mundo e os seus bens são o verdadeiro modelo para um mundo sobrenatural, que só é superior na medida em que copiar, sem quaisquer alterações, a ordem estabelecida na terra. Nesta mundividência, há uma mensagem bem clara a reter: não basta actuar no mundo laico para se ser rico, é preciso ter fé e procurar o auxílio e a protecção das divindades ligadas à riqueza, caso contrário a sorte não será favorável. O deus da riqueza, Cai Shen, desdobra-se, em muitas versões, em dois: um militar, representado por Guandi, também conhecido por deus da guerra, e um civil que, não raro, aparece representado pelo ministro da antiguidade, Bi Gan. Este no livro da História é descrito como um servidor leal e justo, que sofreu martírios inenarráveis às mãos de um monarca cruel. O deus, ou os deuses da riqueza, são adorados com fervores redobrados entre os mais desfavorecidos, como é natural. São-lhes erguidos vários templos e altares, onde abundam oferendas, como vinho, frutas e bolos. As divindades são, também, muito apreciadas em zonas e cidades comerciais, como Cantão e afins. O deus civil é venerado por pessoas ligadas a profissões, carreiras e negócios que nada tenham a ver com o mundo militar. Já o deus militar é o protector de todos os indivíduos que, de algum modo, se relacionem com a guerra, como cutileiros, ferreiros, militares… Estes deuses vivem, como já se disse, segundo o modelo da existência terrestre. Têm mulher, família, riquezas sem fim e uma corte poderosa. Despertam um fervor intenso nos seus fiéis tanto eles, como os seus acólitos. Entre estes, um dos mais conhecidos é Liu Hai, habitualmente figurado por um menino com um colar de moedas à volta do pescoço. O rapaz faz-se acompanhar por uma criatura fabulosa: um sapo de três pernas, que devora moedas. Liu Hai é muito importante, do ponto de vista simbólico, pois mostra bem como, para a mentalidade chinesa, se interligam os desejos de riqueza e descendência masculina. Outros acólitos da divindade da riqueza são os gémeos da harmonia: He He Er Xian. Estes revelam mais uma característica importante da maneira de pensar dos descendentes do dragão – o espírito familiar. A verdadeira riqueza não surge com indivíduos isolados, mas em união e, especialmente, em família. A história do par de gémeos chega-nos através de uma lenda. Esta fala-nos de dois irmãos, nascidos de pais diferentes (nessa altura ainda não eram gémeos!), que deitaram mãos à obra, lançando-se ao negócio. Fizeram uma grande fortuna. Com a riqueza a aumentar, acabaram por se desavir. Separaram-se e só na oitava geração os descendentes se voltaram a unir, recuperando todos os bens de que os ancestrais tinham sido senhores. A harmonia e a união trazem a riqueza e, também, a longevidade e felicidade. Esta última é, muitas vezes, simbolizada num morcego, que congrega, por homofonia, a riqueza e a felicidade. Associada aos deuses da riqueza e seus acólitos, costuma surgir uma panela preciosa, que terá sido pescada por um homem de Nanjing, no rio Yanzi. O pescador pensou que o utensílio vindo às redes, seria útil para fazer a comida do cão, de modo que resolveu ficar com a panela. Para grande surpresa dele e da mulher, o objecto era mágico, logo tudo o que se punha lá dentro multiplicava-se indefinidamente. Assim sucedeu com a comida do cão, mas, também, com o gancho dourado da mulher, que, inadvertidamente, lhe escorregou da cabeça. Outros símbolos ligados ao culto da riqueza são: um cavalo precioso, provavelmente de origem budista, de cuja boca se escapam jade, moedas de todos os tipos e outros bens valiosos e que, além disso, transporta um taça repleta de jóias; um dragão-moeda, já que o seu corpo é formado por um longo cordão de moedas; uma carpa, que, por homofonia, representa a abundância, além de inúmeros cestos e caixas a transbordar de tesouros. Este mundo religioso da riqueza, repleto de seres e objectos sagrados, dá acesso ao crente a todo o tipo de bens preciosos: lingotes de ouro e prata, pedras preciosas, árvores mágicas, donde também saem moedas, e riquezas sem fim. Um grande número de frases auspiciosas, de inegável eficácia mágica, remata e coroa este cenário. Os possuidores das belas frases caligrafadas podem estar certos de obter o que elas indicam. Para citar algumas, “longa vida, riqueza e posição social”, ou, apenas, “riqueza e posição social, ou “a visita do Deus da Riqueza”… Na China, e um pouco à semelhança do espírito que anima certas filosofias cristãs do Norte da Europa, para se ser rico há, antes de mais, que acreditar. Em seguida, deve-se cultivar, incessantemente, as relações com os deuses, seus acólitos e nunca esquecer de ter sempre à mão a vasta gama de amuletos aqui referidos. Estes tanto produzem efeito a duas como a três dimensões.