Chegar tarde à festa

No dia 12 de Junho deste ano estranho aconteceu uma coisa rara: o New York Times publicou uma entrevista a Bob Dylan, que o escritor de canções acedeu fazer uma semana antes do lançamento do seu primeiro disco de originais em oito anos: Rough And Rowdy Ways, assim se chama. Dylan nunca foi grande apreciador de interacções com a comunicação social (como o seu grande ídolo Sinatra, a quem dedicou os dois discos anteriores) mas neste caso deverá ter pesado o facto de que o entrevistador tivesse sido um amigo seu, Douglas Brinkley.

Por esta altura a crítica já incensou o duplo álbum, uma chuva de estrelas por tudo o que é imprensa “especializada”. Pela minha parte, confirmo: bastariam o épico de 17 minutos que é Murder Most Foul (a propósito e a partir do assassinato de John Kennedy) e o ainda mais excelente I Contain Multitudes para provar que o homem está em forma e ainda por cima conta com cúmplices do calibre de Fiona Apple, entre outros. Mas regressemos à entrevista, que é o ponto de partida para esta conversa. Em rigor não traz grandes surpresas ou afirmações bombásticas. Dylan fala do estado do mundo, coisa que as suas canções sempre fizeram. Brinkley não é um entrevistador brilhante até porque nem sequer é jornalista e em quase todas as perguntas que faz as respostas estão contidas no enunciado. Sobre a morte de George Floyd e o que isso espoletou, por exemplo, Brinkley pergunta a Dylan o que acha do fenómeno, listando as canções que falam justamente do assunto racismo e de violência policial (cf. Hurricane, 1976). Espanta como o autor de canções teve algo mais a dizer do que “sim” ou “não”.

Há no entanto perguntas e respostas que valem a pena. Sobre o soberbo I Contain Multitudes o entrevistador pega num verso para saber da relação de Dylan com a sua mortalidade: “I sleep with life and death in the same bed”. A réplica de Dylan aqui é menos interessante do que a sua letra mas nem por isso menos verdade: o homem tem 79 anos, é natural que pense nisso. E diz que pensa na morte “de uma maneira geral, não de uma forma pessoal”.

Mas o que realmente me chamou a atenção a ponto de ser o pretexto desta crónica foi quando a dada altura o entrevistador revela o seu espanto quando em Murder Must Foul o cantor homenageia Glenn Frey e Don Henley, compositores principais da banda The Eagles. E é este espanto que me interessa, porque o que faz é disfarçar o preconceito de Brinkley – o que está no subtexto da pergunta é “como é que um génio como tu pode gostar de uma banda como os The Eagles, tão mainstream e ainda por cima de sucesso”? Dylan não só lista alguma das canções da banda mas ainda diz que Pretty Maids All In The Row é uma das maiores canções de sempre.

Este fenómeno é comum e universal. Trata-se de um preconceito de gosto, um pré-juizo inofensivo (por oposição a outros mais importantes, torpes e nefastos) que desperta a surpresa quando alguém que respeitamos os quebra. O próprio Dylan foi alvo disso: como é que um dos melhores escritores de canções poderia gostar de Sinatra, um tipo que cantava sempre de smoking e em casinos. A resposta, sabemos, é simples: porque Dylan adora canções e conhece a vida de Sinatra.

Há pouco tempo tive uma experiência semelhante: ao ouvir uma canção dos Crosby, Stills & Nash fui arrebatado: como é que estes hippies (subcultura que sempre desprezei) puderam escrever uma canção tão perfeita como Helplessly Hoping ? Na minha ignorância nem sequer me dava ao trabalho de os ouvir. Até o dia em que os ouvi e fiquei deslumbrado.

Vivemos na época em que a formulação mais comum que se utiliza para designar o que não está de acordo com os nossos gostos é “nunca ouvi/li/discuti mas”. A atitude de curiosidade saudável parece ter sido perdida neste mundo de trincheiras em que vivemos, feita de maniqueísmos e ignorância. Mais ainda, a predisposição para ser devidamente contrariado é algo em vias de extinção. E é tão necessária. Teremos sempre preconceitos, disso ninguém duvide. E alguns, eventualmente, serão bons. Mas temos de estar dispostos a que alguém os arrase com inteligência e gentileza. Sem isso não pode haver caminho que valha a pena fazer.

A propósito da minha tardia descoberta da canção mencionada, um amigo comentou: “Às vezes é melhor chegar tarde à festa”. Tem toda a razão. Melhor sempre encontrar alguém do que chegar cedo e estar sozinho.

1 Jul 2020

O combate do século

Numa entrevista recente, a propósito de Murder Most Foul, quando perguntam a Bob Dylan sobre os riscos da hiperindustrialização e da tecnologia se virarem contra a vida humana, o cantor responde:

«Definitivamente, há muito mais ansiedade e nervosismo agora do que costumava existir. Mas isso só se aplica a pessoas de uma certa idade como eu e você, Doug. Temos a tendência de viver no passado, mas isso somos nós. Os jovens não têm essa tendência. Eles não têm passado, então tudo que sabem é o que vêem e ouvem, e acreditam em qualquer coisa. Daqui a 20 ou 30 anos, eles estarão na vanguarda. Quando você vê alguém com 10 anos, ele estará no controle em 20 ou 30 anos, e ele não terá ideia do mundo que conhecíamos. Os jovens que estão na adolescência agora não têm memórias suficientes para se lembrar.

Então provavelmente é melhor entrar nessa mentalidade o mais rápido possível, porque essa será a realidade. No que diz respeito à tecnologia, ela torna todos vulneráveis. Mas os jovens não pensam assim. Eles não poderiam se importar menos, porque telecomunicações e tecnologia avançada são o mundo em que nasceram. O nosso mundo já está obsoleto.»

Gosto do diagnóstico, mas não da resignação do artista, contraditória com a lucidez da primeira parte da resposta; talvez seja típico de um americano.

Sim, os jovens hoje crescem num ambiente em que as ciências humanas e as suas pautas simbólicas foram desvalorizadas e preteridas pelos saberes técnicos e de imediata operacionalidade e vivem sob o jugo do “eterno presente” da esfera mediática. Trump é o exemplo de alguém que é absolutamente fruto de uma educação temperada pelos inputs das indústrias culturais, sem qualquer filtragem de uma cultura humanística que coloque o presente e os seus valores em perspectiva.

Trump é um espelho das patologias da sociedade de consumo e da equívoca relação do mercado – hipervalorizado como única instância reguladora – com os princípios da democracia, porque, afinal, tem sido esquecido, uma democracia será mais do que um sistema financeiro.

A surpresa de Boris Johnson – um cínico, que beneficiou ainda de uma educação aristocrática e assente nos referenciais de uma cultura humanista – sobre a motivação dos que vandalizaram a estátua de Churchill é genuína, daí ter lembrado que apesar de algumas das ideias defendidas pelo seu histórico antecessor serem “inaceitáveis para nós hoje”, «Churchill continua a ser uma figura heróica que salvou o país de uma “tirania racista e fascista”». Indesmentível, e isso torna absurda a situação dos anti-racistas tomarem a figura de Churchill como alvo da sua ira e da estátua do estadista ser defendida por milícias e holligans de extrema-direita.

Assistimos aos sintomas da desordem mental que resulta de sermos expostos há décadas a um avassalador fluxo informativo sem filtro, sem a mediação de qualquer pensamento crítico ou a ambição de articular essa amálgama informativa sob o guarda-chuva de um sistema cognitivo que re-ligue os padrões e nos possa orientar no seio de Babel. A educação como grande projecto iluminista pulverizou-se: o efeito disto traduz-se mais nos “legumes” de Archimbold e Pilipe Haas que num mundo mais igualitário.

A facilidade com que hoje os líderes convencem os seus fanáticos de que quem se opõe às suas ideias é “comunista” ou “fascista” assinala o triunfo do slogan contra qualquer possibilidade de reflexão. O eleitorado prefere a velocidade, a adrenalina, à ponderação, ao juízo.

Um verdadeiro líder democrático é quem nos ensina: a contingência habita o cerne do poder – mais cabal não há que o exemplo de Churchil, derrotado à boca das urnas logo a seguir a ter ganho a guerra, perdeu e retirou-se. Hoje, com Trump e Bolsonaro, assiste-se ao contrário: napoleonicamente, apresentam-se como providenciais, e, grotescamente, estão convencidos disso.

A democracia, mais do que o exercício da alternância democrática (que apela ainda a uma disputa entre os diferentes sentimentos de pertença cristalizados nos partidos), deve antes promover um sentimento de não-pertença e de distância analítica que se reforça pela persuasão com que novos direitos e sensibilidades emergentes ganham novos focos de mediação, novos intermediários e impõem as suas razões narrativas.

O movimento social é como um tecido corrompido que só se sara quando se instauram novas mediações.
Socorramo-nos de Alain Badiou:

«… chame-se movimento a uma acção colectiva que obedece a duas condições: em primeiro lugar, esta acção não está prevista nem regulada pela potência ou o poder dominante. Logo, esta acção pressupõe algo imprevisível, que rompe com a repetição. Chamamos movimento a algo que rompe com a repetição colectiva, social. É a primeira condição.»

O que tivemos com as espontâneas reacções à morte de George Floyd. E o movimento, deve romper com a unanimidade mimética – pura condição.

Embora, para se tornar fecundo, a sua segunda condição seja «que se proponha dar um passo mais, adiante, no que respeita à igualdade. A consigna de um movimento, o que diz, o que propõe, vai, de una maneira geral, no sentido de uma maior igualdade».

O seu efeito é a emergência de um novo “intermediário”, de uma nova sensibilidade em relação às decisões políticas e às instâncias de mediação. Nesta pequena nuance da mediação joga-se a superação de uma democracia representativa para uma democracia re-encantada e este salto é vital.

A validade e inteligência desta mutação ficam enfraquecidas com os gestos demagógicos de vandalizar as estátuas. Restituir ao social a dignidade que aponta para uma “maior igualdade” supõe simultaneamente respeitar os símbolos da ideologia adversária e mobilizar a energia para a mudança política, posto estar o debate lançado.

A explosão e a fúria sem a reflexão redundam numa oportunidade perdida. Pichar as estátuas, mutilá-las, censurar filmes ou livros, só mostra como o colectivo e as suas unanimidades são permeáveis à estupidez e intolerância que germinou nos regimes autoritários e discriminatórios e como a educação volta a ser o combate do século.

18 Jun 2020

Música | Bob Dylan com concerto marcado para 4 de Agosto em Hong Kong

Recebeu o Nobel da Literatura em silêncio provocando uma onda de especulação. Robert Allen Zimmerman, nascido há 76 anos em Duluth, regressa sete anos depois a Hong Kong para um concerto. Zimmerman não será o nome impresso nos cartazes, uma vez que é mais conhecido como Bob Dylan

 

Bob Dylan, cantor, compositor e Nobel da Literatura, está de regresso a Hong Kong para um espectáculo no dia 4 de Agosto. O evento, classificado como “histórico” pela organização, vai ter lugar no Centro de Convenções e Exposições e os bilhetes foram colocados ontem à venda.

Este será o primeiro concerto de Bob Dylan em Hong Kong já com o estatuto de Nobel da Literatura, distinção conquistada em 2016, e que foi justificada pela academia por o artistas norte-americano “ter criado novas formas de expressão poéticas no quadro da grande tradição da música americana”.

Do alinhamento nada se sabe, mas se mantivermos em conta a sequência de canções dos últimos concertos, Bob Dylan deverá interpretar, entre outras, “Highway 61 revisited” e “Ballad of a thin man”, de 1965, “Tangled up in blues”, de 1975, ou “Summer days”, de 2001, além de versões e revisitações de temas de outros artistas. “Bowling in the wind” é uma hipótese que pode ficar para um encore.

Em 2017, Bob Dylan editou “Triplicate”, o primeiro triplo álbum de carreira, com 30 versões de clássicos da música norte-americana, mas nos últimos anos tem vindo também a publicar álbuns com gravações ao vivo de muitos dos concertos que tem dado nas últimas décadas.

Da crítica, os maiores aplausos vão para os últimos oito álbuns.

O sucesso de Lisboa

A referência musical que tem vindo a marcar décadas desde os anos 60 esteve no passado mês de Abril em Lisboa. Se havia cépticos quanto à qualidade dos espectáculo do nem sempre muito consensual músico, as dúvidas ficaram resolvidas. Depois do espectáculo lia-se no Público: “num pavilhão com lotação esgotada, esteve a lenda, o músico determinante na história da música popular urbana do pós-guerra, o senhor Nobel da literatura – tudo isso conferiu à ocasião uma certa solenidade e uma palpável expectativa”.

Mais do que uma estrela, quem ali estava “a nu”, era o músico “naquele palco sóbrio, despido dos ecrãs e tecnologia de ponta hoje tão habituais, sob a luz dos holofotes de outros tempos que criavam um efeito misto de salão de baile e set cinematográfico”, refere a mesma fonte.

Dylan é um mestre. Uma figura incontornável da música do último meio século, com uma carreira que oscilou com naturalidade entre o rock e o blues, com um salto no folk.

Tal como no filme “I´m Not There” o senhor que não ficou conhecido pelo nome Zimmerman pode ser muitos homens e em cada um surpreender. A soma de todos os artistas que contém a imensa personalidade musical que é Bob Dylan poderá ser testemunhada em Hong Kong no próximo dia 4 de Agosto.

15 Mai 2018

Não entres docilmente nessa noite escura

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«Do not go gentle into that good night»

E este foi o ano em que sem nos apercebermos, os sons foram lembrados para celebrar os poetas. Dylan Thomas, o quase ainda romântico escritor inglês, nascido no início do século passado, anda distante do movimento surrealista, mas próximo do círculo iniciado nos finais do século XIX por Freud e também do legado das expressões míticas que tanto se fizeram sentir em Yeats como em T.S. Eliot. Estava aberto assim o dilema entre o eu poético e a vertente da natureza social e todo este riquíssimo desocultar da psique, conjuntamente com a raiz da herança céltica deu uma poesia absolutamente intransponível na sua dimensão de vínculo cultural. Chegados aqui, todos sabemos então que o Prémio Nobel da Literatura que não tendo, é claro, a importância capital tão discutida, pois que também é certo que o tempo em que vivemos é todo ele o da relatividade quase absoluta, tanta, que a poesia passou a ser feita por agentes que ou não devem entender do que se trata ou tudo tem efectivamente uma outra interpretação.

Bob Dylan, nascido Robert Allen Zimmerman, deve o seu nome a Dylan Thomas. Aqui foi efectivamente o Prémio em Poesia que se fez sentir na vontade de ser e na qualidade de se ter tornado quem foi, o que denota a justa forma de saber homenagear. Há um conflito de posição face ao estereótipo do criativo, como aquele que se faz a si próprio numa auto-suficiência ilusória: no fundo, acaba por ser uma atitude mais política que poética norteando os dados para um conjunto de influências que ajudem a sua causa numa espécie de campanha que norteará o “eleito”. O que se passou com este Prémio foi singular e emblemático pela justa forma de saber ver que o mensageiro que soube tão bem interpretar a mensagem é a título abrangente o depositário do Poema.

Dylan Thomas morreu jovem, tinha trinta e nove anos, tendo publicado o seu primeiro livro aos vinte «Eighteen-Poems». Teve trabalhos, sim, mas aos trinta e dois anos tornara-se poeta a tempo inteiro pois que não há poetas a tempo parcial, nem a vida de um criativo é uma felicidade ingénua à boa maneira do antigo S.N.I. dos «pintores de fim de semana»: talvez até, que para escrever somente isto: “clama, clama, contra o apagar da luz que finda, que a velhice arde e brada ao término do dia“, se precise muito mais que pendor e, mesmo que se morra novo, se tenha experienciado por lucidez a pavorosa passagem do tempo. Não por acaso o tema da morte é tão significativo nesta poesia e acaba por ser o motor de uma tradição poética europeia que Bob Dylan, que humildemente não se considera poeta, soube trazer nessa herança, e não mais que ouvi-lo para saber da contingência entre os movimentos vitais de criação e de destruição. O homem quando nasce, como expressamente nos diz, « é suficientemente idoso para morrer».

Neste poeta há sem dúvida referências bíblicas, tal como em Eliot na «Quarta-feira de Cinzas», e também em toda a estrutura dos poemas vamos desvendando o conhecimento simbólico, que, tal como em Dylan, o torna muito mais simbolista que metafórico. Estamos no campo em que descemos do ego cardíaco e nos adentramos no mistério comum que nos inunda de respeito. Saídos da esfera da perturbação vamos entrando nos assombros e nos próprios abismos de olhos abertos, essa lucidez tão cara a um poeta:

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens irão confundir-se.
Com o homem no vento e na lua do poente;
Quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos.
Hão-de nos braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
Mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir.
Mesmo que os amantes se percam , continuará o amor.
E a morte perderá o seu domínio.

Mesmo que os amantes se percam… sim, o amor continuará e os amantes reencontrar-se-ão, talvez, num tempo descarnado das suas pobres vísceras, mesmo que tudo se perca. Perder é depor as armas e estar mais desperto da essência e no sopro longo do Verbo lá está o amor: ” no fim, ainda que os lábios aceitem as trevas, porque se esgotou o raio das suas palavras, eles não entram docemente nessa noite serena”.

E se mais andarmos vamos até ao rei Artur e Guinevere – a das longas tranças – a Ilha das Maças: “e o tempo deixava-me acenar e subir, dourado, na grande luz dos meus olhos: era, venerado por todos, o príncipe das cidades das maças”.

Pois que já nem temia os dias brancos como cordeiros que lhe viessem erguer o tempo, nem a vida do lado de fora de um reinado mítico acrescentaria mais luz que a doce lã das ovelhas; sim, temos aqui a sacralidade do poeta orando na versicular legenda da escrita e talvez seja esta noção tão íntima que transmite a maravilhosa manifestação de que estamos diante do inesperado que traz em si todo o silêncio antes de reflectirmos o que devemos dizer quando aceitamos as dádivas.

Há aspectos que se isolam ao alcançarem a plenitude, e nós, a quem tanto foi tirado em troca de nada, convém que nos devolvam todas estas noções e um mundo onde elas possam de novo caber, ampliando o sentido do que está retido nestas vozes. Por isso:

– NÃO ENTRES DOCILMENTE NESSA NOITE SERENA

que te querem dar, como um Prémio, de que não foste obreiro nem construtor. A vida que nos dão foi-nos imposta, requer-se a vida conquistada, para quando menos esperarmos podermos saber o significado de todas as palavras.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

28 Nov 2016

De Dylan aos golpes da espionagem

Hoje é a cerimónia de entrega do Prémio Nobel de Literatura.

A nomeação de Bob Dylan, indubitavelmente um grande artista, como Nobel não me provoca alergia mas não me alegra.

Explico-me: como professor preocupa-me muito o baixo quociente de atenção de que se mostram capazes os alunos. Entre outros factores,  identifico a «síndrome pop», o facto do grosso dos jovens crescer condicionado pelo formato da canção pop, que dura três minutos. São fisgados por um tipo de atenção breve e, como na comunicação oral, sustentada em refrões.

Na educação clássica e na formação musical não se apurava apenas a educação do gosto e do ouvido, os alunos afeiçoavam-se a uma intensificação da concentração e dos seus vários níveis de escuta. Uma das razões porque o público da pop não ouve Mahler, prende-se – mais do que à complexidade estrutural das sinfonias do músico vienense -, com a sua duração, que excede as pautas de atenção em que foi adestrado. Depois de décadas só a ouvir canções de três minutos, o que equivale a uma corrida de cem metros no atletismo, uma peça musical de uma hora corresponderá a uma maratona.

Acresça-se que a este carácter redutor, a cultura pop institucionalizou a diversão: o mais das vezes uma escapatória para a preguiça intelectual.

Premiar um ícone da cultura de massas é um sinal de cedência a este regime balizado por dois limites: a ideia de diversão como único combustível das intensidades sensoriais  (esquecendo que a aventura intelectual também oferece diversão e até felicidade); a ideia de que o que é difícil e exige mais atenção deve ser reconvertido para se tornar mensurável e acessível.

Esta atribuição também parte do equívoco de considerar-se que a literatura carece de público e de que há que achá-lo onde o público está. Ora, este raciocínio enferma do mesmo erro que cometia a velhinha que, à noite, perdera uma moeda no princípio da rua mas a procurava adiante, debaixo do halo de luz do candeeiro público.

Se as pessoas hoje lêem menos Proust ou Joyce não é porque esses livros não contenham ingredientes que possam interessar os jovens de hoje, mas porque o mundo se trivializou e a atenção se tornou uma habilidade só para especialistas.

1/11/2016

Sinopse para uma comédia, escrita na minha aula de Guionismo, onde desenvolvemos um breve apontamento de Billy Wilder, infelizmente nunca elaborado:

Ano, 2020. Instalou-se no mundo uma Nova Guerra Fria que separa Povos Com Zika de Povos Sem Zika.

Num congresso de cientistas da saúde africanos, realizado em Kingshasa, destaca-se o trabalho de Ónus, um académico moçambicano – um homem íntegro e que só tem por fraqueza gostar de uma pinguinha.

É a ele que os observadores americanos, enviados por Hillary, escolhem para ser o inconsciente portador da fórmula secreta de uma “bomba” cujo poder curativo mudará a face do continente, que será posteriormente resgatada por agentes sul-africanos (- os americanos não se arriscam a passar-lhes directamente a fórmula para não serem acusados de favoritismo na ONU).

Para tal, convidam-no para uma festa, embriagam-no, raptam-no e depois tatuam-lhe no pénis a fórmula. Que só pode ser lida em erecção. O cientista acorda azamboado e de ressaca no hotel, a uma hora do seu embarque de regresso, e, com a pressa, não dá por nada.

Chega a casa, em Maputo, desfaz as malas e toma um duche, antegozando a noite maravilhosa que terá com Bárbara, a sua mulher. É aí que dá conta: tem algo tatuado no sexo. Ónus entra em pânico: não há desculpas que justifiquem aquela inscrição (que não consegue ler) e a sua estranha amnésia. Ainda por cima, acontecer-lhe a ele, fidelíssimo à mulher!

À noite, a culpa inibe-lhe a erecção. Como acontece pela primeira vez, entre eles, a mulher graceja e adormecem após uma boa galhofa. Ou antes, ela. Ele não, está à rasca. E ao longo da semana repete-se a nega. A esposa começa a desconfiar que ele tem outra. E o sentimento de culpa dele adensa-se.

Os outros países africanos começam a enviar-lhe mulheres cientistas de grande aparato físico, para o atraírem a uma cilada sexual.

A lasca zimbaweniana – uma enóloga – embriaga-o ao falar-lhe sobre uma enzima que dá às uvas o tamanho de melões, sem o conseguir levar para o quarto.

A enviada etíope atrai-o ao quarto sob promessa de lhe mostrar um besouro em cuja carapaça a natureza desenhou o Rato Mickey. Mas um copo a mais de Mateus Rosé fá-lo sucumbir no sono, no sofá, antes dela regressar da casa-de-banho, nua e em oferenda.

A África do Sul envia uma Mata-Hari capaz de derreter um iceberg quando expõe o mamilo esquerdo, o menos abrasivo. A ingenuidade de Ónus é mais uma vez enrolada pelo parlapié duma colega cientista e sobe ao quarto dela, num intuito académico. Martini puxa Martini, e eis Ónus enfiado na cama dela, atarantado mas nu.

Contudo, como é homem de uma obstinada fidelidade, a erecção não tem lugar.

A sul-africana – uma cientista de renome – não está com meias medidas e tira da mala um x-acto para decepar o membro murcho. Debruça-se sobre a cama, o olhar amortecido de Ónus nem se apercebe do brilho da lâmina…

É então que Bárbara, que o seguia sorrateira há uma semana, abre a porta num pontapé. Com dois golpes de Karaté despacha a espia boer e amarra-a ao cadeirão.

Ónus, a quem a entrada de rompante da mulher pusera sóbrio, observa deliciado a limpeza com que a sua mulher o salva – sim, é sua, a mais felina das mulheres! E o entusiasmo proporciona-lhe a maior erecção da sua vida.

Ónus e Bárbara, lêem então, contristados, a fórmula que ele exibe, tatuada no pénis: Abstinência!

10 Nov 2016

Bob Dylan aos olhos da China 今夜我们唱鲍勃

A semana passada estive a trabalhar num ensaio sobre o Livro dos Cânticos, uma colecção de poesia clássica chinesa, que inclui 305 palavras cuja origem remonta a um período compreendido entre os séculos XXI e VII AC. Nessa altura, escrevi: “…A poesia na sua forma original deve encontrar-se nos cânticos… As letras ficaram registadas, embora a música e a representação que lhe estava associada tenham sido gradualmente esquecidas. Estas palavras arcaicas tornaram-se poemas, constituindo uma memória que nos transporta a sentimentos e disposições de alma que se perderam na noite dos tempos. Os poemas combatem o esquecimento: são o grito dos nossos antepassados contra o olvido.”

Pouco tempo depois Bob Dylan ganhava o Nobel da Literatura, e os protestos que esta escolha desencadeou fizeram-se ouvir de imediato. Enquanto isto, pus-me a pensar que, para os chineses, esta deliberação não foi nada surpreendente, embora receie que a minha análise não tenha nada a ver com a decisão da máquina de Estocolmo.   

Demos agora uma olhadela rápida à imagem de Dylan na China através dos média de língua inglesa. O Guardian menciona a digressão de Dylan na China em 2011. “Na semana em que Ai Weiwei, o artista e activista, foi preso, Bob Dylan teve autorização para actuar em Pequim. Ninguém sabe ao certo porque é que qualquer uma destas decisões foi tomada, mas isso também não incomodou as 6.000 pessoas que encheram a arena do Estádio dos Trabalhadores, nessa noite…”

O concerto teve lugar em Pequim e o alinhamento “seguiu à risca o programa aprovado”. Até aqui não há nada de surpreendente, porque a China é a China e o público chinês compareceu “não pela música, mas pela lenda” e Dylan “não cantou, falou”. Ou seja, “cantou” poesia. A minha análise tem pernas para andar. Bob Dylan foi/é um sábio poeta chinês.

Durante os últimos dias, vimos nos canais de língua chinesa, o povo expressar-se directa e abertamente mostrando, de forma esmagadora, o seu apoio a Bob Dylan – ao contrário do meu círculo de amigos do hemisfério ocidental.  O público chinês partiu à descoberta de Bob Dylan, artista plástico, e de Bob Dylan. romancista: não existem limites para o brilhantismo e para o talento deste homem.

Encantados com esta vitória, os chineses já sugeriram que Zhang Chu deverá ser o próximo galardoado com o Nobel da Literatura.

E aqui vai Zhang Chu 张楚, aposto que nunca tinham ouvido falar dele:

https://bit.ly/2eb1Mxl

19 Out 2016

Bob Dylan ganha prémio Nobel da Literatura

O Prémio Nobel da Literatura foi esta quinta-feira atribuído em Estocolmo a Bob Dylan. O músico norte-americano tornou-se o 113.º escritor a receber o mais cobiçado prémio literário do planeta. “Por ter criado novas formas de expressão poética no quadro da grande tradição da música americana”, foi assim que a Academia Sueca justificou a entrega do Nobel ao cantor norte-americano.
É o primeiro norte-americano a ganhar o prémio desde Toni Morrison, em 1993. Mais relevante, porém, é o facto de, depois de vários anos em que o seu nome foi avançado como possível vencedor, a atribuição do Nobel a Dylan servir como legitimação literária da canção popular, de que o cantor de Blowing in the wind é um dos maiores representantes. Não por acaso, Sara Danius, Secretária Permanente da Academia Sueca, reconhecendo que a distinção de alguém cujo ofício é o das canções pode ser controverso, manifestou a esperança de a Academia não ser criticada pela escolha. “The times they are-a changing, perhaps” (“Talvez os tempos estejam a mudar”), afirmou, citando o título de uma das mais famosas canções de Dylan.
Nascido em Dulluth, no Minnesota, a 24 de Maio de 1941, Bob Dylan foi uma figura fulcral na revolução musical e cultural da década de 1960. Partindo da tradição folk, blues e country americanas, mas transportando-a para uma nova era de convulsão política e agitação social, levou a palavra, como nunca antes, para o centro da criação pop. Assinou 37 álbuns desde a estreia homónima em 1962. Fallen Angels, editado em 2016, é o último até ao momento.
Tecnicamente, esta não é a primeira vez que um músico é distinguido com o Nobel da Literatura. Em 1913, o indiano Rabindranath Tagore recebeu a distinção. Bob Dylan, porém, é o primeiro Nobel da Literatura cujo ofício se centra num campo exterior ao literário. Isso explicará não só a surpresa com que o anúncio do prémio foi recebida, mas também a polémica que se desencadeou, com várias vozes a questionarem a justiça da distinção.
Poucos terão sido mais cáusticos que o romancista escocês Irvine Welsh. “Sou fã de Dylan, mas isto é um prémio nostálgico mal amanhado, arrancado das próstatas rançosas de hippies senis e gaguejantes”, escreveu na sua conta de Twitter. Salman Rushdie não podia estar mais em desacordo. Igualmente no twitter, defendeu o prémio em três frases: “De Orfeu a Faiz, canção e poesia têm estado intimamente ligados. Dylan é o brilhante herdeiro da tradição dos bardos. Uma grande escolha”. Entre uma posição e outra, não falta naturalmente o humor. O escritor americano Jason Pinter, por exemplo, tem uma sugestão a fazer: “Se o Bob Dylan pode ganhar o Prémio Nobel da Literatura, então julgo que Stephen King dever ser eleito para o Rock’n’Roll Hall of Fame”.
O nome a que chegaram os dezoito membros da Academia Sueca foi, porém, consensual. E, apesar de inusitado na história do Nobel, estará de acordo com os critérios vagos, considera a Academia, deixados em testamento por Alfred Nobel para sua atribuição. “Na verdade, a história do prémio literário surge como uma série de tentativas de interpretar um testamento impreciso na sua formulação”, lê-se no site da Academia.
Na nota biográfica emitida pela instituição, acentua-se que as letras de Dylan “têm sido continuamente publicadas em novas edições, sob o título Lyrics. Enquanto artista, é extraordinariamente versátil; tendo estado activo enquanto pintor, actor e guionista”. A nota despede-se apontando que “a sua influência na música contemporânea é profunda, e ele é alvo de um fluxo contínuo de literatura secundária”.
Inicialmente próximo da tradição da canção de protesto de Woody Guthrie, algo aprimorado nos clubes folk extremamente politizados de Greenwich Village, Nova Iorque, Bob Dylan recusou ser preso no altar de “voz de uma geração” a que foi erguido. A sua música e as suas letras, inicialmente primorosos retratos sociais e denúncia política arrancados à história das canções da velha América e à realidade nas ruas que o envolviam, foram ganhando uma nova dimensão à medida que se virava para si próprio e procurava uma expressão indidivual em que a liberdade poética surgia torrencial, surreal, revolucionária tendo em conta o que era habitual até então na música popular urbana – exemplo magistral disso é a sua trilogia clássica da década de 1960, formada por Bringing It All Back Home (1965), Highway 61 Revisited (1965) e Blonde on Blonde (1966). O final da década traria nova inflexão de rumo, com o mergulho nas raízes e nas mitologias da música americana selado nas famosas Basement Tapes gravadas com a The Band em 1967 e editadas em 1975 ou, simbolicamente, no dueto com Johnny Cash, emGirl from the north country, que abre Nashville Skyline (1969).

14 Out 2016