A grande beleza

Tenho amigos e amigas detestáveis pelos quais o tempo parece não passar. Normalmente são pessoas cujo estilo de vida privilegia a conservação de um estado de funcionamento razoável do corpo, seja pela alimentação, pela prática de desporto, pela recusa do álcool e do tabaco ou, mais geralmente, pela combinação de uma multiplicidade de hábitos saudáveis. Na verdade, a mera descontinuação de um hábito negativo e a adopção de um contraponto positivo parece ser suficiente para operar um deslocamento do centro de gravidade dos preceitos de vida; o sujeito que deixa de fumar descobre-se passado pouco tempo no ioga e apreciando torções de coluna que, em tempos idos, o deixariam num estado pré-paraplégico. Não parece possível – ou de todo o modo provável – ser saudável às fatias.

Somos tendencialmente atraídos por polos ao redor dos quais gravitam uma constelação de elementos com graus distintos de afinidade. É assim, por exemplo, com as pessoas com as quais nos relacionamos a diferentes níveis. Por terem uma determinada profissão, por exemplo, esperamos deles um certo gosto musical, uma certa orientação política, um certo estilo de roupa. Os intervalos nos quais a diversidade de manifestações de cada característica acaba por não nos surpreender não são alvo de racionalização ou de inspeção prévia. A surpresa acontece sempre a montante da conceptualização. Na surpresa descobrimo-nos sempre no momento imediatamente posterior a derrocada de uma pré-concepção. “Mas como é que podes ser de direita sendo actor?”; a nossa compreensão do mundo é, como Nietzsche não se cansava de dizer, preguiçosa. Funcionamos por anotações gerais e vagas. O ponto de vista é essencialmente mandrião. E não se cansa, por isso mesmo, de ser apanhado em contrapé.

Nunca tive particular fascínio por me ver ao espelho. Nunca tive, aliás, razões para isso. Mas houve uma altura, até há dez anos, na qual a coisa era modicamente suportável. Lembro-me muitas vezes de Charles “o outro lado da lua” Bukowski e do seu repúdio por espelhos. As pernas eram a sua única medalha estética. Não se cansava de repetir a Jane, o seu grande amor, “look at my legs, baby, I’ve got great legs”. Cada um se ocupa de promover e gabar o si-próprio na montra como pode e sabe.

Li há uns dias uma peça entre a sociologia e a curiosidade, como soi escrever-se nestes dias, uma coisa com aparente validade científica e ainda assim leve, o fast-food servido no porão da ciência que sempre desbloqueia uma conversa num jantar de colegas em que ninguém quer lá estar. A peça era sobre pessoas consensualmente bonitas – era esta a ideia que passava – e as suas experiências em entrevistas de emprego. Enquanto que o comum mortal com rosto de anonimato se tenta escapar como pode ao pisoteamento em que se transformaram a maioria das entrevistas de emprego, às iterações de Adónis ou de Helenas pergunta-se-lhes apenas quando podem começar. A impressão decorrente da beleza, sobretudo da beleza que parece engrandecer e simultaneamente esmagar tudo em seu redor, deixa-nos numa posição de extrema vulnerabilidade: a pessoa diante de nós, por um motivo que não racionalizamos mas que intuímos imediatamente, é muito maior do que somos. A beleza é uma espécie de passaporte diplomático: o seu portador pertence a uma elite de acesso privilegiado nas mais diversas situações sociais.

O único revés da beleza – o seu fardo, se assim o quisermos colocar – é o facto de esta ser muitas vezes um factor de intimidação alheia. E quando não o é, é fonte de desconfiança: aquele que é belo vê a beleza como uma coisa entre outras na constelação de atributos através dos quais se pensa. Por isso nunca tem a certeza de que os outros – aqueles pelos quais este se interessa – se interessam por ele pela expressão de uma afinidade que ultrapassa os limites da pele ou apenas para serem co-portadores, ainda que que a fingir, da luz herdada na lotaria genética.

1 Mar 2019

Partir o pente

A minha irmã acha que eu deveria cortar o cabelo, logo agora que recebe mais elogios que nunca. Divertida, faz-me sinais de uma tesoura invisível, sorri e oferece-se, “Se quiseres eu corto”. Não tenho usado muito os bigoudis que dela herdei quando decidiu cortar o longo cabelo bem curtinho, há uns anos. Agora, tem uma afro invejável, com tons entre o loiro e o castanho. Uma vez, numa loja de acessórios, dei por ela a experimentar uma peruca. Retorquiu, “O que foi? Sempre quis saber como ficaria se fosse loira.” É difícil cabermos, e aos nossos cabelos, por inteiro na mesma selfie, mas ambas continuamos, cada uma num país, a lidar com estranhos que insistem em tocá-los. Suspiro. Da raiz até às pontas.

Vejo vídeos sobre como fazer a transição capilar, reeducar o cabelo, fazer o big chop total ou parcial, para ter uma só textura, para desintoxicar e recuperar o meu verdadeiro eu. Na série Insecure, Issa Rae e as amigas mudam frequentemente de penteado. Em This is Us, igualmente. Parece fácil e acessível. Em Keeping up with the Kardashians, a royalty da reality tv america é adepta de extensões e perucas. Muitas vezes, a sua origem é indiana ou vietnamita: as primeiras doam o cabelo ao templo milionário e as segundas usam-no para sobreviver e alimentar as famílias mais algum tempo.

Cabelo curto, comprido, desfrizado e natural, tranças, caracóis, liso e ondulado: já tive de tudo um pouco, embora nunca o tenha pintado senão de preto. Pouco original, bem sei. No processo, parti muitos pentes, dentes de pentes, cabos de pentes, como qualquer africana ou afro descendente que se preze.

Penso que não tenho mais paciência para isto do que para usar maquilhagem. Deixei de desfrisar o cabelo há dois anos, depois voltei a fazê-lo, e já só o fazia uma vez por ano, no momento de maior desespero e embaraço, quando o pente ameaçava partir-se novamente, após logradas tentativas de domesticação. Arrependo-me e penso, agora vou ter de começar de novo. No entanto, trouxe recentemente do supermercado uma escova eléctrica. Apesar de ter um ferro de alisar e uma varinha de encaracolar, que raramente uso. Não tenho secador mas sei que, por uma vez, a explicação não cabe a Freud.

Se folheio a Poesia Toda, descubro em Herberto Helder Na cerimónia da puberdade feminina (dos índios Cunas, Panamá). A mesma inclui tesouras, cabaças, água e aguardente, lenços, mulheres e raparigas. Muitas vezes sinto saudades de ter tranças. Permanecem na memória como um ritual sagrado e moroso, em frente à televisão, com pequenas pausas e muita paciência, perfeição e minuciosidade das mãos maravilhosas da minha mãe e da minha tia.

Passaram dois anos desde o lançamento do icónico álbum de Solange, “A seat at the table”, e do hino “Don’t touch my hair”. Este single, que obriga a reflectir para além do já expressivo título, assenta muito bem num mundo em que o cabelo continua a ser motor de vítimas e de agressores, com mais ou menos silêncio e assumir de responsabilidades e preconceitos. O responder a uma pergunta que raras vezes é feita. Uma resposta pacífica para um gesto tantas vezes agressivo, se não físico, certamente mental e emocional. A artista explica “Don’t touch my hair / When it’s the feelings I wear”. Nada parece faltar a Solange. E nós sentamo-nos à mesa para pensar e lutar com ela.

Também em 2016, a ginasta olímpica Gabby Douglas foi criticada, sobretudo na comunidade afro-americana, pelo seu cabelo que, segundo os comentadores, se apresentou desleixado durante as competições. Gabby, uma jovem adulta digna de admiração, cedeu naturalmente perante tais reacções, quando deveria estar feliz, a celebrar a sua prestação e a medalha de ouro, a primeira ganha por uma afro-americana naquela categoria.
Início de 2018: uma mulher de nome Essie Grundy processa a cadeia de supermercados Walmart por suposta segregação de produtos de cabelo e pele destinados à comunidade afro-americana, guardados a chave num armário, como em Portugal vemos tantas vezes com produtos não conotados racialmente, mas que talvez tenham mais tendência a serem alvo de furtos, como artigos de higiene pessoal.

Se ando por livrarias ou supermercados, por todo o lado encontro Becoming, de Michelle Obama. A internet delira e ergue as mãos ao céu em júbilo pela sua cabeleira, em estreia natural e encaracolada na capa da revista Essence. Não foi assim há tanto tempo que os Obama deixaram a Casa Branca e o levantar de sobrancelhas que as tranças das suas descendentes causaram. Não foi assim há tanto tempo que, de Beyoncé, ouvimos “I like my baby heir with baby hair and afros.”

E se 2016 parece ter sido um dos anos capilares de maior relevo, a uma fotografia de Barack, de cabeça baixa, permitindo a um menino que lhe tocasse no cabelo para descobrir se seria igual ao seu, o devemos. Sou fã de Michelle, mas pergunto: porque é que o cabelo encaracolado não agraciou antes a capa da sua biografia, em vez da revista, e se manteve politicamente correcto, já depois da presidência? Talvez o mundo deva mais a Michelle do que o contrário. Talvez Michelle guarde o seu cabelo natural para a intimidade; talvez tenha sido este o seu sacrifício. Os Egípcios deixavam crescer o cabelo enquanto viajavam. Talvez Michelle, não tendo ainda chegado ao fim da viagem, apenas agora tenha conseguido fazer uma pausa para pensar. Talvez a sua pequena evolução pessoal e capilar ainda venha a tempo de ser uma revolução, talvez ela não seja o seu cabelo (bem, não mais do que qualquer um de nós, pelo menos) e estejam certas as culturas que acreditam que o cabelo é uma das moradas da alma e também o estejam as primeiras-damas que se protegem atrás dele. Talvez este experimentar constante, numa altura em que toda a gente se policia, seja apenas mais uma forma de aprendermos a suportar o nosso próprio peso.

6 Dez 2018

Se calhar, Deus chama-se Baldwin

Na insónia, há um túnel viscoso que se forma. É coisa que faz alastrar o borboto das paisagens perdidas: praias inóspitas, areias tempestuosas, planícies extensas, estepes desertas, fundos soturnos de todos os oceanos. Vincado sobre esta cenografia, o momento da insónia coincide com o da tentação falhada, algo parecido com o hiato em que Orfeu, segundo o mito, se vira para trás, já perto da saída do Hades, e deita tudo a perder na vida. Para o evitar, Van Gogh tomava cânfora, Proust tomava Veronal e Marilyn Monroe tomava fenobarbital. Em vão.

Na insónia, a lira deixa de encantar panteras e propõe os seus rombos e soluções: Death in paradise na Fox Crime, pó de calcitrin para as cirurgias da Grey, Hailey Baldwin a passear na praia com um globo terrestre na palma da mão e o grande jipe cherokee na Syfy para penetrar a vénus amarelada dos candeeiros de rua que invadem os tectos do quarto. Para o bem e para o mal, há que saber percorrer o túnel da insónia como se não houvesse tempo no horizonte. Mas apenas e tão-só um brevíssimo instante, uma ínfima travessia, um logro que até poderá vir por bem (noites há em que um busto de Alexandre Magno caminha na nossa direcção com barbatanas avermelhadas, tudo é possível).

O que se vê, o que se delira e o que se pensa numa insónia não é nunca objectivo, claro está. É veludo pardo. Melhor: é uma ebulição de gases miríficos tipo esboço de arte expressionista à procura das tripas. Com mais clareza ainda, caros leitores: a insónia é um degredo sem geografia, um sarcófago que pôs a múmia à venda na feira do relógio, um canal sem qualquer tipo de Veneza à volta, por vezes uma simples Stabat Mater a propagar-se nos arrabaldes de Urano.

É voz comum afirmar-se que a ideia de perspectiva rareia na insónia. É da praxe. Leonardo da Vinci não faria a mínima ideia, mas tudo parece abater-se num mesmo plano que se esfuma, enquanto se entreabre. No entanto, apesar do tom crepuscular, sabe-se que o comboio da vida irá continuar. Para além do muro. Para além do roubo das armas de Tancos. Mais: sabe-se que o desconhecido percorrido pelos dedos da insónia se ajustará, em todo o caso, a coisas que já conhecemos. Mesmo se vagas, pouco gramaticais e deleitosas, pois, verdade se diga, ‘ele’ há sempre no universo uma mão amiga.

Numa das minhas mais recentes insónias, pus-me a imaginar as dores de cabeça por que passaram alguns investigadores europeus, quando, a partir de 1799, foram confrontados com um animal que misturava o ‘imisturável’: era um mamífero que punha ovos e que via o leite escorrer ao longo do seu corpo peludo; além disso, apoiava-se em patas que atrás tinham esporões e que à frente ostentavam umas pequenas asas. Um quebra-cabeças do diabo capaz de ameaçar regras estáveis. Coisa de insónia, realmente, ou, se se preferir, um panorama próprio dos prodígios de Boaistuau e das monstruosidades de Ravenna. O animal era o ornitorrinco, escapava a todos os modelos e um alemão, de nome Blumenbach, chegou a baptizar o bicho como Ornithorhynchus paradoxus precisamente por parecer incategorizável. Só quase um século depois, o mistério seria resolvido por W. H. Caldwell e o estado de insónia substituído pelo palavrão “monotrémato” (mamíferos que são, ao mesmo tempo, ovíparos).

No território da insónia o paradoxo dirige sempre a sua desmedida fauna. No território da insónia, confundimo-nos todos com um ornitorrinco com os faróis de nevoeiro acesos. No território da insónia, cruzamos inevitavelmente o nosso olhar com o de Medusa e por isso ficamos feitos de pedra. Imobilizados. Vimo-nos e já estamos a vislumbrar as vertigens de Bosch. Tentamos moldar o mundo, mas ele escapa-se-nos sempre: tanto põe ovos e dá de mamar ao busto de Alexandre Magno e às suas barbatanas avermelhadas, como é capaz de pressupor a existência de bolsonaros de bolso nos horizontes mais tropicais do planeta. Grande parte do globo terrestre insinua-se (e sempre se insinuou) em estado da mais pura insónia.

Tal como nos dias aziagos, o pião das horas mortas e florbelianas continua a girar. Gira sem parar. E eu com a convicção cristalina de que foi a mão de Hailey Baldwin quem o atirou sobre o veludo pardo que agora lentamente já se abre para a alvorada (dos dedos cor-de-rosa). O túnel, afinal, não era modelo para insónia nenhuma. O túnel era a próprio modelo. Nada de cyberstalking, confesso: apenas insónia, desatino, sôfrego abysmo.

1 Nov 2018

Feio

É a componente estética aquela que mais define a vida como estrutura organizada da multiplicação pelo ciclo do acasalamento, qual lembrança perdida de uma harmonia. Se a vida, essa, sempre se refaz pelo invencível ciclo harmónico da regeneração, isso indica que dentro de cada coisa viva existe um pouco desta experiência incrível: um programa geométrico de um longínquo gérmen-memória de imortalidade.

Vivemos nós de estereótipos estetizantes que, quase sempre, e caso a atenção nos falhe, poderão contribuir para o martírio de uma conduta de comunicação, a partir das noções mais vastas desse mecanismo. Implantados no mapa ideológico, trajar as vestes do mito social, requer a flutuação de princípios para o ajustar a essa vertente, onde o poder é a causa mais interessante da luxúria do feio. Uma certa arquitectura segue no corpo da ideia…

Na medida em que a flutuação comportamental estética modela as ondas do espaço social, podemos nós, como nas batalhas, medir a tensão dos ritmos presentes, e há que salientar que todas as épocas trouxeram para o espaço público a sua estética do feio, como o mundo clássico no vasto diálogo moral entre tais princípios. Salientar que o fantástico disforme da cultura helénica foi um fenómeno absolutamente extraordinário. Percorrendo todas as deformidades elas acompanhar-nos-iam até ao seu extremar. Escatológica a força do destino!

O disforme pode ser uma urgência em acabar de vez com o insuportável sorriso dos incautos. «Não deveria, portanto, odiar quem me detesta? Não farei pactos com os meus inimigos. Sou um infeliz e eles partilharão comigo a minha infelicidade». Muito semelhante a uma frase de Rilke, que define a beleza como princípio do terrível. As vanguardas ocuparam-se, há mais de cem anos, a olhar para dentro das vísceras das belas imagens e a devolverem-nos o conjunto sem o qual a visão que rege a outra parte ficaria sempre inacabada, e muitos não conseguiram fazer a transição da decoração para a transgressão, ficando-se no efeito algo perverso das coisas bonitas – e é claro- bonito não quer dizer nada e, no entanto, será sempre bonito dizer-se do bonito que as coisas são.

A prodigalidade da desmesura pode em muito contribuir para desventrar pântanos onde muitos pensam ser Narcisos e esse espectro atroz da contemplação nas fétidas águas dos seus cânones será imprudentemente a maravilha, a forma de arte completa, vista por quem a observa em outras latitudes. Devolver o cenário de uma excrescência será esse o trabalho mais sério de um artista ou de todo aquele que perscruta os sinais do estranho horror que emana da vida. Podem os que escrevem aleijar todas as fontes verbais ao sair do labirinto de um ordeiro Minotauro que, doloso, segue a nossa sombra para se entreter no seu martírio de fera só. Tudo podemos experimentar na longa marcha que cria o insólito com que muitos olhos, mesmo abertos, ao contemplar, não vêem a liberdade total que será sempre a conquista definitiva do próprio mérito.

Não queremos poesia de género nenhum.
Queremos truques mágicos de saco,
Procurando tapar na existência um fatal buraco.
E apesar de esforço insano não tapamos nenhum.

Wilhelm Klemm – Expressionismo alemão

Há no entanto algo que escapou a uma filtragem atenta e se precipita agora na antecâmara provável dos horrores, esse algo que não tem código na nossa outrora e quase obscena arte do feio, um fenómeno que ultrapassou as torres de vigia de como olhávamos o esquartejamento das imagens… uma outra dimensão que a fealdade não alcança. Já muito alucinámos acerca da devastação dos medos, eles tornaram-se modelares, competitivos mas o que se avizinha não nos deve estarrecer nem surpreender, na medida em que não temos esses sentidos para os contemplar, mas onde certamente somos a via por onde uma repugnância qualquer se fará sentir. Acéfala e gregária, a nossa vida avança para o cume de um estertor que não há registo, pese embora a distância da quimera de cada um na felicidade ardilosa que teima em não chegar. O nosso repouso celular deixou entrar um festim de exterminadores implacáveis. Já não há braço, modelagem, ferocidade, génio, garbo, convicção para a metamorfose de um cerco em volta do mundo.

O “código criminal” do feio pode ser uma qualquer mágoa acelerada para anunciar desastres e também um local de exílio perante a falta de compaixão, foi Isaías que anunciou que um Messias sem beleza diante do qual se tapa o rosto, considerado como um leproso iria ajudar-nos a salvar-nos de males maiores. Há instantes mais cruéis que olharmos no olho de um Ciclope, e desventuradamente o grotesco se desfez para dar origem ao medonho.

Salientar que chegam até nós as trombetas de uma regressão – não fosse nada definitivamente andar para trás – avança de outra maneira com mais pujança que o antigo braço que vemos chegar quase tão repentinamente como os furacões.

30 Out 2018

A Beleza Alheia

No início do século, comprei o livro nuns saldos da Livraria Buchholz, em Lisboa: Dans une autre beauté, de Adam Zagajewski. Custou-me cinco euros.

Li-o de rajada e, encantado, falei dele aos amigos. Em vão, ninguém dava um tostão furado por outro polaco. A tolerância para os eslavos esgotava-se em três nomes: o Milosz, para alguns demasiado católico (uma barbaridade), o Herbert (que sofria de um excesso de racionalidade, outra idiotia) e a Szymborska (quase extraordinária, não fora ser mulher). E em me sendo perguntado o que acrescentaria o Zagajeswski, respondi, secamente, “bom, na verdade, tem os defeitos dos outros, além dos próprios…”.

Fiquei sozinho com a minha descoberta, na altura desconhecia que a Susan Sontag e o Brodsky escreveram maravilhas sobre o livro.

Calhou-me ir a Paris meses depois. Aí comprei o Mystique Pour Débutants, do Zagajewiski, tão delicioso como o título. Quis editá-lo na extinta Íman Edições, mas fali nas vésperas do “grande negócio” – sem desdouro embora igualmente sem glória.

Neste ínterim o prestígio do Zagajewski subiu em flecha e hoje é o santo e a senha da actual literatura polaca. Tendo finalmente saído dele uma antologia portuguesa, Sombra de Sombras, na Tinta da China (2017).

Não me vou ocupar da antologia portuguesa (oportuna e bem feita), mas antes discorrer sobre Dans une autre beauté – um sortido muito equilibrado de notas diarísticas, de livro de memórias, de caderno de pequenos ensaios e de aforismos -, cuja ideia matriz se vislumbra no poema que cito, incluído na antologia portuguesa:

NA BELEZA CRIADA PELOS OUTROS: Só na beleza criada pelos outros/ existe consolação, na música/ e nos poemas dos outros./ Só os outros nos podem salvar, /mesmo que a solidão tenha o sabor/ do ópio. Não são o inferno, os outros,/ se os espreitarmos de manhã, quando/ têm a testa limpa, lavada pelos sonhos./ Por isso cismo muito sobre a palavra/ que hei-de usar, «ele» ou «tu». Cada «ele»/ é uma traição a qualquer «tu», mas,/ em troca, um poema de alguém fielmente/ oferece uma fresca, moderada conversa.»

Contra a paranóia sartreana (“o inferno são os outros”), ao arrepio da mediocridade do regime político de tipo soviético em que cresceu e pelo qual se sentiu espoliado quer de “acessos directos à beleza criada pela tradição humanista”, quer “da evidência da verdade” – marcas de sensibilidade a que o regime contrapôs o dogma, a venalidade e a consequente corrupção do gosto em nome de uma estética sob programa -, Zagajewski viu na “beleza alheia” a evasão e um factor de contágio que excede em muito o campo da estética. Posto a beleza ser a lente que potencia a transmutação do olhar e abre, nos termos que o poeta usa, a passagem da solidão ao solidário.

Ao transformar-nos, a beleza incita a apurar as miras da Verdade enquanto nos empurra para a consciência de que vivemos num tecido de «intertextualidades», face a cuja matéria nos situamos como um elo. O resgate da beleza propende-nos a uma maior humildade (galvanizada na contemplação e no estudo) e converte-nos em membros de uma comunidade – a dos receptores da obra de arte – que mantém a consciência de que uns poemas remetem, de algum modo, para outros poemas, umas canções remetem para outras, sucedendo o mesmo na pintura: isto faz da fecundidade da tradição uma eterna fénix.

Ou seja, só quando nos convertemos em guardiões de uma tradição – a beleza alheia – é que nos alçamos a um patamar de fidelidade que, de modo a renovar-se a combustão que mudará a pele à fénix (e isto não é paradoxal mas complementar), exigirá ao autor o salutar cultivo da ironia e da crítica.

Não existe assim tradição sem crítica e ironia e vice-versa. Embora nada disto dispense o fervor: um entusiasmo que nos impele.

Eis o núcleo da «cosmovisão» zagajewskiana: uma pequena revolução ao jeito de uma conversa amena e passo a passo. E que não pode prescindir de qualquer detalhe da memória nem da tradição clássica.

Um aspecto se abre aqui, de responsabilidade social: se cada um de nós se sentisse de facto o guardião de uma beleza não própria mas alheia, talvez esse peso não nos deixasse ceder à trivialidade e nos tornássemos criaturas de outra substância moral. Isto podia de facto ser o fundamento de uma ética, creio.

O que não adivinhava e só agora me dei conta é que já tinha traduzido esta ideia em 95 numa narrativa, em As Cinzas de Maria Callas (Teorema, 97), um livro em que atesto os engulhos de ser pobre e de crescer na periferia de Lisboa antes do 25 de Abril (- tema que nos últimos anos se tornou moda).

Aí narro um encontro meu com um homem mais velho do meu bairro, peão de um obscurantíssimo passado. Aterrando nos princípios de setenta naquele rincão pobre, como um antigo emigras nas Américas, gabava-se de uma paragem na Argentina, onde teria sido amigo do Onassis, e doutra, breve, em Hollywood, tendo no entanto acabado a sua malograda carreira de actor como a voz do Mister Ed, o cavalo que falava.

Um dia o Arquimedes chamou-me ao seu anexo para, do nada, me emprestar um livro do Cesariny e me fazer ouvir ópera. Naquele tugúrio a que não faltava o bolor acontece a transmissão fatal: lega-me uma pequena urna onde jurava assentarem as cinzas de Maria Callas, das quais me tornava guardião. Eu tinha doze anos e aquela responsabilidade pesava-me e levou-me ao gesto insólito de, durante três anos, pedir aos meus pais como prendas de anos e Natal discos da Maria Callas.

Veio o 25 de Abril e poucos meses depois a Maria Callas foi cantar ao Coliseu de Lisboa. Afinal fora enganado. Mas já estava mortalmente infectado pela diferença que era, contra todo o condicionamento da minha condição social, ser um apaixonado pela ópera e pela estranheza da dicção do Cesariny. Creio que não me acomodei como fiel de armazém devido ao deslumbre face à beleza alheia.

11 Jan 2018

A beleza e o mal

21/04/17

Hoje, a ideia dominante no mundo desenvolvido, que devora e regula tudo, já o dizia Zygmunt Bauman, é a segurança. Mas promover a segurança não tem sido ir à raiz dos problemas, preferindo-se tomar os sintomas pelas causas.

Nada de tranquilo nos pode chegar por este método, pois tentar forçar a segurança a todo o transe é o equivalente a acreditar que o elefante se esconderá atrás da palmeira – uma obstinação insensata. A segurança absoluta reside na certeza de que o perigo que se quer evitar não existe. Como a probabilidade disto é ínfima, inventamos o artifício de desenhar mapas sem território, com a mesma objectividade e convicção com que farejamos a malária na Gronelândia. Ébrios pela idêntica eficácia com que os médicos em Moliére esclareciam que o ópio dava sonolência por ter «faculdades dormitivas».

A necessidade de segurança, estranhamente, não se tem aliado à prevenção dos conflitos ou à negociação de concessões, pendendo antes para a intransigência de pensar que a simples existência de outros sistemas é irreconciliável com a nossa segurança. É esta a atitude de Trump.

Neste mundo supostamente globalizado e onde a vigência dos Direitos Humanos se tornou a últimas das ideologias universalmente aceites, emerge, contraditoriamente, uma agónica alergia ao Outro e uma crença enternecedora de que a «verdade» só a mim assiste. Voltámos de novo a desejar identidades monolíticas, alheias ao contágio e ao dialógico. Daí que já não se estabeleçam compromissos, exerce-se de novo a chantagem da força, num inglório retrocesso civilizacional.

E eis que, distraidamente, abro um livrinho de Paul Watzlawick – um dos “filhos” mais produtivos de Gregory Bateson – O mal do bom ou as soluções de Hécate, de 1986 – ,e descubro isto: «O lógico austro-canadiense Anatol Rapoport, em 1960, no seu livro Fights, Games and Debates recomendava uma técnica interessante para solucionar problemas. No caso de um conflito em vez de pedir que cada partido dê a sua própria definição do problema, Rapoport propõe que o partido A exponha a opinião do partido B em presença deste, e que o faça de um modo exacto e detalhado até ao ponto em que o partido B aceite esta exposição e a declare correcta. Depois toca ao partido B definir a posição do partido A e de um modo satisfatório para aquele. Rapoport supõe que esta técnica de negociações conseguirá em grande parte atenuar a acrimónia e o problema entre as duas partes, antes que se ponha sobre a mesa a discussão do problema propriamente dito. A sua suposição é exacta; aplicando esta técnica sucede não poucas vezes que uma das partes em litígio diga, com assombro, à outra, “nunca tinha imaginado que você pensasse que é assim que eu penso”, o que supõe ter-se dado um passo para além da convicção ingénua: “Sei exactamente…”.»

Tão simples, tão simpaticamente racional este modo de fazer da empatia um dispositivo de relação. E por que me parece lamentável que esta técnica de negociação não tenha vingado, implantada por exemplo como regra primeira nas Nações Unidas e no palco da política?

O homem, quando quer, ainda é capaz de inventar umas soluções que não sejam finais – devíamos estar mais atentos, ao invés de nos entregarmos às delícias de uma ‘

automoribundia” que hipnoticamente nos desilude a possibilidade de enxergarmos outras saídas.

23/04/17

Ouço o resultado das eleições em França e viro as costas ao ecrã, prefiro deliciar-me na net com as obras de Bernini, escultor e arquitecto, e um dos mais brilhantes artistas do barroco italiano; alguém que na escultura rivaliza sem favor com Miguel Ângelo.

Talvez porque creia, com o sino-francês François Cheng, que o mal e a beleza são os dois pólos contrastantes do universo vivo, isto é do real. Defende Cheng: “Compreendo por instinto que sem a beleza, provavelmente, não vale a pena a vida ser vivida e que, por outro lado, uma certa forma de mal chega-nos justamente do uso terrivelmente pervertido da beleza”.

O Belo foi uma categoria abandonada pelos caminhos da arte do século XX e é um náufrago mais solitário que Robinson Crusoé. Mas vivendo numa cidade que se degrada a olhos vistos e onde se descuram quaisquer mínimas regras de planificação urbanística, ao ver a urbe transformar-se em monstro apocalíptico de cimento, lixo e zinco, confesso que tenho saudades do Belo, de um banho de horizontes onde, salvaguardadas as proporções e a harmonia, os elementos sensíveis e sensoriais tomem uma orientação precisa.

E então refugio-me nesse armazém da arte que é a net. Detenho-me nas obras de  Bernini, nos seus detalhes, enquanto ouço os meandros da política francesa.

E descubro duas coisas fantásticas.

A primeira é que para além do pormenor da pressão dos dedos de Plutão na coxa de Proserpina (no momento de a agarrar, para raptá-la), numa fabulosa transfiguração da textura da pedra em carne macia, os dedos de Plutão – um estuprador de deusas, e no oposto do seu rosto hirsuto e brutal – são finos, graciosos e espantosamente femininos. Também para Bernini, só a beleza, a tangível delicadeza das suas formas, pode ser um antídoto (brotado de dentro, da sua própria natureza) contra o mal que a figura de Plutão representa?

A segunda está no gesto de outra mão, igualmente talhada em mármore pelo escultor, desta vez no inesperado anelo da mão da beata Ludovica Albertoni, a qual – nesse êxtase que supostamente seria o estado da alma numa união mística com Deus e pela suspensão do exercício dos sentidos – afinal não prescinde de tocar o seu seio, que se adivinha excitado, tal como inclusive parece estar todo o drapejado da santa, encantado, ondulante, e vibrátil de gozo. Nem no transporte da morte Bernini deixa de homenagear a alegria do corpo, o que me faz evocar outro barroco, o Francisco de Quevedo, que fechava um soneto dizendo «Pó se tornarão, mas pó enamorado».

Ah, pois, as eleições francesas. Que comentar?

Por que não continuar com Bernini?

27 Abr 2017