António Cabrita

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António Cabrita nasceu em Almada, em 1959. Estudou cinema, escreveu guiões de cinema, e foi jornalista e crítico durante mais de vinte anos no jornal Expresso. Vive actualmente em Moçambique.

Derivas na língua

À esquerda, na frente, as violetas, os violinos e os oboés; depois, acima, por detrás das violetas e dos violinos: a harpa, de viés, para que as cordas vibrem impelindo o ar na direcção do leitor. Atrás dos oboés: as trompas

A benzina de John Zorn

O seu profundo espírito Dada, é concomitante de uma apreensão quase mística da música. Zorn cavalga todos os corcéis, simultaneamente, numa busca e curiosidade incessantes

Improvisos

A vida, dizia alguém, é como um concerto de cordas que se executa em pleno palco, à medida que se vai aprendendo, que a sua partitura se inscreve em nós – em sangue

Para não ver claro

Se associarmos a idade ao hardwire, como um circuito que não pode ser reprogramado porque ficou como soldado a uma conexão anterior, não sinto nada que aos estímulos novos queira antepor alguma perspectiva de controlo.

As costas de Deus

No belíssimo livro de entrevistas entre o poeta argentino Robert Juarroz e Fernand Verhesen, Poésie et Création, a dado momento o entrevistador comenta que o primeiro tomo da Poesia Vertical (a obra do argentino é unitária e teve sempre o mesmo título, só acrescentando um número aos diferentes volumes) é atravessado pela nostalgia de Deus, de um Deus visto de costas, de um Deus que vira as costas

Os contos do trânsfuga

Ruben Dario (1867-1916), praticamente, nasceu trânsfuga, numa Nicarágua natal que só lhe conheceu a infância, o começo da juventude e o ocaso

Séries e os Malogros de Deus

Sou arredio à televisão e na generalidade às séries. A última que vi com agrado foi True Detective. A primeira temporada – já não espreitei as seguintes. Porém, como até em casa que não pratica a televisão tal frenesim chega, tive de trazer de Lisboa, gravadas sob encomenda, uma caterva de séries para a minhas filhas

Campeonato Mundial

William Carvalho, intuo, passou a infância numa garagem que antes fora um galinheiro, daí que exiba no campo a velocidade da ervilha que mede pelo canto do olho o nervoso esporão do galo capão

Cenas do mundo flutuante, de Kenneth White

Fiapos de bruma, brancos e pegajosos, retocam a baía / e um velho junco acomoda-se pesadamente no seu caminho – / dava tudo para não perturbar esta mansidão… / mas já o dia alça consigo as gruas giratórias, / as pessoas apressam-se e tossem, os motores / e as sirenes afogam o ring-ring dos telefones / - Hong-Kong desperta para o rodopio das moedas.

Lisboa: Os espermatozóides trapezistas

Jardim do Torel. Morremos porque somos alérgicos ao ar? É um dos emaranhamentos mais misteriosos. Entretanto, não desdenhava conhecer o primeiro que criar um teste para as alergias poéticas!

Franguinho no churrasco

E temos, à vez, riso, experimentalismo, ludismo… mas também, a contrapêlo: celebração e elegia

Dos glúteos: recomendações

Sou de uma geração que ainda não tinha descoberto os glúteos. E que ainda não lia nos dicionários: Os glúteos formam a parte mais apreciada pelos homens.

Um tremendo fotógrafo

José Cabral, o primeiro fotógrafo moçambicano a assumir uma postura de “autor”, fugindo do foto-jornalismo e da “epicidade colectiva”.

O que volta em farsa

Também a mim aconteceu que a minha vida mudou no dia em que me vi desintoxicado do frenesim da paixão amorosa. Até aí frequentei o mundo das cabeçadas a esmo

Do Nobel, sem pruridos

Sem quórum, o Nobel da literatura arriou as calças

A Arca de Noé

Tenras cabeças que o vento tatuou. As que encontro ao espelho, matinalmente. Emerge a cada manhã uma cabeça, frágil como a do cravinho no seu esquiço de energias antes de lhe acudir a primeira palavra, esse primeiro contacto com a resina

A vaidade e o sexo oral

Que cada país leia na exacta proporcionalidade do uso de broches de ouro na lapela dos seus políticos um sinal simétrico de tropeço do seu futuro no fosso do descalabro.

Pobre Atmosfera

John Berger comparou uma vez o espaço do atelier com um estômago, ainda que o processo da arte seja o inverso daquilo que se passa com o sistema digestivo - o que entra é merda, o que sai é uma oferenda.

Pagar o galo

Numa palavra, eis a proposta: deves subir lá acima, e fazer soar a trombeta. De imediato, alternância do visível no invisível, e mudança de estação na floresta.

A dupla face do escritor

O que me liga à minha mulher, sem muito custo (embora isto não seja isento de pequenas tensões), para além do óbvio das filhas e das afinidades, foi ela ter aceitado implicitamente que vivemos em adultério e que a minha “legítima” é o isolamento que penhoro na escrita

Sangrar a Oriente pelo lápis do poeta

Em Visitações, pequeno livrinho lançado uns meses depois de Anastasis, ambos de 2013, reforça-se a suspeita de que em Carlos Morais José (1962) o exercício poético é uma gnose lapidada por um diálogo com uma tradição e não um mero jogo lúdico. Ao qual não pode deixar de convergir uma mão cheia de responsabilidade e outra tanta de atrevimento

“Complexo de Trump”: Primeiro Caso

Tenho uma rotina matinal, abro a net, vou ao Google e digito: Trump notícias. Nunca me desilude, é um verdadeiro circo. Nunca fica nenhuma mulher barbuda por revelar

A Palavra e o Silêncio

Para que nos continue a nutrir, o silêncio necessita de encontrar em nós um pouco de inocência e diria até de idiotia. Dado haver um kairos do silêncio, um sentido de oportunidade em relação ao momento de calarmos.

Hemorróidas de Ouro

A convivência fraternal, eis um princípio que, como as bolotas, nenhum porco deixa incólume. Imagine-se o gáudio de Putin, ao anunciar que tem no seu arsenal a arma invencível