António Cabrita

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António Cabrita nasceu em Almada, em 1959. Estudou cinema, escreveu guiões de cinema, e foi jornalista e crítico durante mais de vinte anos no jornal Expresso. Vive actualmente em Moçambique.

Lisboa: Os espermatozóides trapezistas

Jardim do Torel. Morremos porque somos alérgicos ao ar? É um dos emaranhamentos mais misteriosos. Entretanto, não desdenhava conhecer o primeiro que criar um teste para as alergias poéticas!

Franguinho no churrasco

E temos, à vez, riso, experimentalismo, ludismo… mas também, a contrapêlo: celebração e elegia

Dos glúteos: recomendações

Sou de uma geração que ainda não tinha descoberto os glúteos. E que ainda não lia nos dicionários: Os glúteos formam a parte mais apreciada pelos homens.

Um tremendo fotógrafo

José Cabral, o primeiro fotógrafo moçambicano a assumir uma postura de “autor”, fugindo do foto-jornalismo e da “epicidade colectiva”.

O que volta em farsa

Também a mim aconteceu que a minha vida mudou no dia em que me vi desintoxicado do frenesim da paixão amorosa. Até aí frequentei o mundo das cabeçadas a esmo

Do Nobel, sem pruridos

Sem quórum, o Nobel da literatura arriou as calças

A Arca de Noé

Tenras cabeças que o vento tatuou. As que encontro ao espelho, matinalmente. Emerge a cada manhã uma cabeça, frágil como a do cravinho no seu esquiço de energias antes de lhe acudir a primeira palavra, esse primeiro contacto com a resina

A vaidade e o sexo oral

Que cada país leia na exacta proporcionalidade do uso de broches de ouro na lapela dos seus políticos um sinal simétrico de tropeço do seu futuro no fosso do descalabro.

Pobre Atmosfera

John Berger comparou uma vez o espaço do atelier com um estômago, ainda que o processo da arte seja o inverso daquilo que se passa com o sistema digestivo - o que entra é merda, o que sai é uma oferenda.

Pagar o galo

Numa palavra, eis a proposta: deves subir lá acima, e fazer soar a trombeta. De imediato, alternância do visível no invisível, e mudança de estação na floresta.

A dupla face do escritor

O que me liga à minha mulher, sem muito custo (embora isto não seja isento de pequenas tensões), para além do óbvio das filhas e das afinidades, foi ela ter aceitado implicitamente que vivemos em adultério e que a minha “legítima” é o isolamento que penhoro na escrita

Sangrar a Oriente pelo lápis do poeta

Em Visitações, pequeno livrinho lançado uns meses depois de Anastasis, ambos de 2013, reforça-se a suspeita de que em Carlos Morais José (1962) o exercício poético é uma gnose lapidada por um diálogo com uma tradição e não um mero jogo lúdico. Ao qual não pode deixar de convergir uma mão cheia de responsabilidade e outra tanta de atrevimento

“Complexo de Trump”: Primeiro Caso

Tenho uma rotina matinal, abro a net, vou ao Google e digito: Trump notícias. Nunca me desilude, é um verdadeiro circo. Nunca fica nenhuma mulher barbuda por revelar

A Palavra e o Silêncio

Para que nos continue a nutrir, o silêncio necessita de encontrar em nós um pouco de inocência e diria até de idiotia. Dado haver um kairos do silêncio, um sentido de oportunidade em relação ao momento de calarmos.

Hemorróidas de Ouro

A convivência fraternal, eis um princípio que, como as bolotas, nenhum porco deixa incólume. Imagine-se o gáudio de Putin, ao anunciar que tem no seu arsenal a arma invencível

Cansaço, simplesmente cansaço

Cansaço de mim mesmo ou de mim próprio? Vai dar no mesmo, um estuário de fadiga, num espelho desidratado

Curar & Curare

A tapeçaria dos povos apresenta amiúde histórias medonhas, intrincadas, implacáveis. Pior quando se eximem da responsabilidade sobre o bem comum e acabam como vítimas desgraciosas do próprio desleixo acumulado

Mau tempo no canil

Faz sentido? Faz se suspeitarmos que o morto não reivindicará a sua parte dos direitos, a qual reverterá para alguém da organização

Duas fábulas sobre lembrar e esquecer

Na mesa em frente à minha uma ruiva magra como um galgo sofre a fustigação de uma negra de grande envergadura, que lhe quer mostrar como fala bem o inglês e lhe despeja à fraca figura parágrafos sobre parágrafos, sem tomar o fôlego.

Descida aos infernos

Os primeiros funcionários do Arquivo Histórico rasgavam os jornais para embrulharem o pão e o mata-bicho - delatado com vergonha pela primeira directora do Arquivo.

Esvaziar e Recomeçar

Baudelaire não viu o El Greco, o Miguel Ângelo, Ticiano, ou Goya. Não viu Goya, meu Deus! Não consigo deixar de me espantar. Hoje é tudo mais simples, com a net. Ou não será?

Dos importúnios e dos meus engates

Na mesa ao lado da minha, contava um amigo a outro sobre o seu pai camponês que este lhe confidenciara no leito de morte que lastimava não ter conseguido apurar se a galinha quando põe o ovo, fica com aquilo a arder

A Beleza Alheia

No início do século, comprei o livro nuns saldos da Livraria Buchholz, em Lisboa: Dans une autre beauté, de Adam Zagajewski. Custou-me cinco euros

Napoleão em Santa Teresita

Desde miúdo que guardo a sensação de que cada ano, mesmo no seu término, nos trata como se tivéssemos a irrelevância de uma mascote pronta a ser esquecida. Não vejo o que haja a comemorar. Além disso, nem todas as cicatrizes são tão espectaculares que mereçam o relato do que as produziu