EUA | Vitória esmagadora dos democratas reacende debate sobre centros de dados

As eleições intercalares nos EUA deram uma esmagadora vitória ao partido Democrata tanto no Senado como na Câmara dos Representantes. O Presidente do país, Donald Trump, admitiu a derrota dos Republicanos e diz estar disposto a trabalhar com o partido rival. Entretanto, a vitória dos democratas reacendeu debates em torno da inteligência artificial

A vitória dos democratas nas eleições intercalares dos EUA reacendeu o debate sobre os centros de dados dedicados à inteligência artificial (IA), levando o empresário Elon Musk a ironizar sobre a derrota dos candidatos republicanos que apoiou financeiramente com mais de 400 milhões de dólares.

Perante a vaga democrata que garantiu o controlo das duas câmaras do Congresso norte-americano, Musk, o homem mais rico do mundo, mostrou-se preocupado com a possibilidade de serem impostas restrições à construção de centros de dados dedicados à IA. A Alphabet (Google) anunciou a construção de vários centros de dados no Estado, enquanto Elon Musk transferiu para o Texas as sedes das suas principais empresas: Tesla, SpaceX e X.

“Tenho a sensação de que a interferência dos meus lasers espaciais nas eleições não funcionou desta vez”, brincou o fundador da SpaceX, após, entre outros resultados, a derrota de Ken Paxton, o candidato que apoiava para o Senado pelo Texas. “Os centros de dados no espaço parecem agora particularmente atraentes”, comentou Musk na rede social X.

Os resultados das eleições intercalares nos EUA garantiram uma vitória histórica ao Partido Democrata nas duas câmaras do Congresso, incluindo o controlo do Senado, após derrotas republicanas em estados decisivos como Texas, Ohio, Kansas e, contra todas as expectativas, Carolina do Sul.

Num país com um discurso político anti-imigração, estas eleições marcaram também uma viragem no perfil dos candidatos eleitos, existindo agora três governadores negros e uma indígena. Foi ainda eleito, pela primeira vez, um senador assumidamente gay, Chris Pappas.

Keisha Lance Bottoms fez história no Estado da Geórgia a tornar-se na primeira mulher negra eleita governadora estadual no país. Byron Donalds, também negro, venceu na Florida, e David Crowley no Wisconsin.

O peso da derrota

No final de uma campanha marcada, entre outros temas, pelo debate em torno da instalação de centros de dados, Donald Trump depara-se agora com uma pesada derrota política por parte dos eleitores norte-americanos.

O campo do Presidente perdeu importantes bastiões, como o Texas, onde os cargos de senador e governador passaram para responsáveis democratas favoráveis a uma maior supervisão dos centros de dados.

“É necessário estabelecer imediatamente uma moratória sobre os centros de dados”, defendia Gina Hinojosa, advogada que derrotou o governador cessante Greg Abbott, num dos compromissos da sua campanha.

Abbott tinha afirmado, em 2025, querer transformar o Texas no “centro nevrálgico do desenvolvimento da IA”, antes de moderar a sua posição devido ao crescente descontentamento da população.

Hinojosa defende igualmente o fim das isenções fiscais concedidas ao sector, posição partilhada por James Talarico, eleito senador pelo Texas na terça-feira.

As eleições neste estado do sul dos EUA, historicamente conservador, foram descritas por muitos analistas como decisivas para o futuro das infraestruturas ligadas à IA. Graças à abundância de energia e a um enquadramento regulamentar favorável, o Texas deverá concentrar, em 2028, cerca de 30 por cento da procura nacional de energia eléctrica destinada à IA, que deverá aumentar fortemente, segundo estimativas da Bloom Energy.

Impacto nos Estados

Wall Street deve a sua impressionante valorização dos últimos anos ao entusiasmo em torno do advento da IA. Contudo, os investidores mostram-se cada vez mais exigentes quanto à rentabilidade desta tecnologia dispendiosa e preocupados com os obstáculos ao seu desenvolvimento.

Nas negociações antes da abertura de Wall Street, as valorizações das gigantes tecnológicas Microsoft, Google e Amazon recuaram cerca de 1 por cento, enquanto a SpaceX registou uma queda de 5 por cento.

“Tendo em conta a dimensão da vitória democrata” e dos referendos que apelam à restrição dos centros de dados, dado que os eleitores votam tanto em candidatos como em medidas locais durante estas eleições, “os políticos que querem conservar os seus empregos terão de ter em conta estas mensagens”, considerou na rede social X Jim Bianco, analista da Bianco Research.

Os especialistas concordam que o impacto será mais significativo a nível estadual, destacando o papel crucial dos governadores.

A democrata Keisha Lance Bottoms, recentemente eleita governadora da Geórgia, “defendeu um congelamento temporário, à escala estadual, da construção de novos centros de dados, bem como medidas para assegurar que os grandes consumidores suportem os custos associados às suas infraestruturas”, recordou Stephen Innes, analista da SPI Asset Management. Também Amy Acton, eleita governadora do Ohio, prometeu impor regras mais rigorosas ao sector.

Bolsas agitadas

A vitória dos democratas nas intercalares americanas trouxe também agitação às bolsas asiáticas, que registaram ontem resultados mistos nas primeiras horas de negociação, com fortes quedas em Tóquio e Seul e ganhos moderados na Índia e China.

Na Bolsa de Tóquio, o principal índice, o Nikkei, recuou 3,56 por cento até ao intervalo da sessão de ontem, perdendo 2.246,5 pontos, para 60.835,36 pontos. O índice mais abrangente Topix, que reúne as empresas japonesas da secção principal do mercado, as de maior capitalização, caiu 2,49 por cento, ou 98,01 pontos, para 3.832,27 pontos.

Em Seul, a tendência foi semelhante, com o principal índice, o Kospi, a perder 3,54 por cento após as primeiras três horas de negociação. O indicador recuou 199,98 pontos, para 5.448,81 pontos, invertendo a tendência positiva registada na abertura da sessão. O índice Kosdaq, que reúne empresas tecnológicas e de média capitalização, caiu 2,69 por cento, ou 18,93 pontos, para 685,46 pontos.

Na China continental, os mercados apresentaram resultados mistos perto das 12h locais. A Bolsa de Xangai recuou 0,1 por cento durante a sessão da manhã, enquanto Shenzhen avançou 0,14 por cento e o índice CSI 300, que acompanha as 300 principais empresas cotadas nos dois mercados, valorizou 0,04 por cento.

A Bolsa de Pequim registou uma queda mais acentuada, de 0,54 por cento, embora tenha menor peso no mercado financeiro chinês, devido à sua criação recente, em 2021, e à concentração em pequenas e médias empresas.

Em Hong Kong, o índice de referência Hang Seng avançou 0,02% até ao intervalo da sessão. Na Índia, os principais índices abriram em terreno positivo, depois de quatro sessões consecutivas de fortes valorizações. O BSE Sensex, índice de referência da Bolsa de Bombaim, que reúne 30 das maiores empresas cotadas, subiu 0,59 por cento, enquanto o Nifty 50, da Bolsa Nacional de Valores, que acompanha as 50 empresas com maior liquidez, avançou 0,47 por cento.

Nos principais mercados do Sudeste Asiático, predominaram as perdas, com quedas em Singapura (1,45 por cento), Tailândia (0,95 por cento), Indonésia (0,79 por cento) e Malásia (0,17 por cento). Em sentido contrário, as bolsas das Filipinas e do Vietname registaram ganhos de 0,98 e 0,33 por cento, respectivamente.

Donald aceita derrota

Perante este volte-face a favor dos democratas, Donald Trump acabou por assumir a derrota do seu partido em entrevista ao jornal New York Times, periódico que tem sido alvo de acusações frequentes, por parte do Presidente norte-americano, de difusão de notícias falsas sobre si e o seu Governo.

Numa entrevista concedida ao jornal esta terça-feira à noite, Trump disse estar “absolutamente disposto a aceitar” os resultados das eleições intercalares de terça-feira, prometendo trabalhar com um Congresso controlado pelo Partido Democrata. “Trabalharemos com os democratas; estamos ansiosos, sabe, por colaborar com eles. Provavelmente conseguiremos encontrar um terreno comum”, afirmou o chefe de Estado.

Apesar destas declarações, Trump escreveu na sua rede social, “Truth Social”, o seguinte: “Eu não estava no boletim de voto e, se estivesse, teríamos vencido POR UMA MARGEM ESMAGADORA!”.

Numa outra entrevista concedida ao canal Fox News, Trump responsabilizou “parcialmente” a guerra no Irão como factor para a derrota. Este disse ainda que os democratas “fizeram um bom trabalho” e “lutaram bem”. A derrota dos Republicanos “não tem nada a ver” com a sua Administração, defendeu, argumentando que “havia uma certa atmosfera no ar” e que não deveria sentir-se culpado. “Quase nunca o Presidente em exercício, independentemente de ser bom ou mau, republicano ou democrata (…) consegue vencer” as eleições intercalares, referiu.

Preocupações económicas

Segundo uma reportagem da agência estatal chinesa Xinhua, muitos eleitores norte-americanos demonstram preocupações com o panorama económico do país. “Por entre uma elevada inflação persistente e o aumento do custo de vida, as eleições intercalares deste ano irão constituir um grande teste à Administração Trump no seu segundo mandato”, lê-se.

“Nos últimos dias, jornalistas da Xinhua visitaram o Maine, Texas, Carolina do Norte e Georgia, bem como outros Estados, verificando que a inflação e o aumento do custo de vida estão entre as maiores preocupações para os eleitores americanos este ano. Muitos eleitores culpam a Administração Trump por políticas que levam a um aumento dos preços da energia e alimentação, expressando particular frustração em relação à guerra com o Irão e alterações tarifárias”, lê-se na reportagem. Além disso, os eleitores americanos parecem preocupar-se também “as políticas de imigração, cuidados de saúde e corrupção”. Com agências

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