Grande Plano MancheteChina-Brasil | Reeleição de Lula da Silva ajuda aproximação a Pequim Hoje Macau - 27 Out 2026 Lula da Silva venceu Flávio Bolsonaro na segunda volta das eleições presidenciais do Brasil com 51,76 por cento dos votos, prometendo o melhor mandato da história do país. Vários analistas chineses acreditam que a vitória vai ajudar as relações comerciais e políticas com a China A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva como Presidente do Brasil consolida a aproximação política e económica entre Brasília e Pequim, uma parceria que uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia ter enfraquecido, segundo analistas chineses. Lula conquistou aquele que será o seu quarto mandato ao vencer, no domingo, a segunda volta das eleições presidenciais com 51,76 por cento dos votos, contra 48,24 por cento de Flávio Bolsonaro, filho do antigo Presidente Jair Bolsonaro, segundo os resultados oficiais, após a contagem de 99,81 por cento dos votos. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009. O comércio bilateral atingiu, em 2025, um valor recorde de 171 mil milhões de dólares, um aumento de 8,2 por cento, enquanto o Brasil foi o principal destino mundial do investimento chinês nesse ano, com 6,1 mil milhões de dólares, uma subida de 45 por cento. A possibilidade de alternância política no Brasil tinha despertado interesse entre analistas chineses, que destacaram as diferenças entre a aposta de Lula numa política externa diversificada e a aproximação aos Estados Unidos defendida pelo seu adversário. Numa análise publicada no jornal China Youth Daily, Li Bing, investigador da Academia Chinesa de Ciências Sociais, afirmou que a continuidade de Lula da Silva permitiria “promover a cooperação pragmática em múltiplas áreas entre a China e o Brasil”, bem como a participação activa do país sul-americano no bloco de economias emergentes BRICS, grupo do qual ambos são membros fundadores. Segundo Li, a vitória de Flávio Bolsonaro poderia ter reduzido a importância política da relação com a China, ao dar maior prioridade a Washington, embora considerasse “improvável” tanto uma saída do Brasil dos BRICS como uma ruptura dos laços comerciais entre as duas economias. Zhang Jieyu, analista do Instituto Chinês de Estudos Internacionais, afirmou, em declarações à imprensa local, que uma chegada da direita brasileira ao poder poderia transformar “completamente o panorama geopolítico da América Latina”. Zhang ressalvou, contudo, que não se verificaria “uma ruptura drástica” nas relações entre a China e o Brasil, que manteriam “alguma solidez” mesmo em caso de vitória de Bolsonaro. Outros analistas apresentaram avaliações mais cautelosas. Xu Tianqi, da Universidade Renmin, afirmou ao portal chinês Guancha que o peso do comércio e do investimento tornava difícil que um eventual Governo de Bolsonaro abandonasse os BRICS, apesar das posições defendidas por alguns sectores do seu círculo político. A reacção de Pequim A China felicitou ontem Lula da Silva pela reeleição, tendo manifestado disponibilidade para continuar a trabalhar com o Brasil na construção de uma “comunidade de futuro partilhado” entre os dois países. O porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros Guo Jiakun afirmou, em conferência de imprensa, que “a China está disposta a trabalhar com o Brasil para continuar a avançar na construção de uma comunidade de futuro partilhado entre os dois países”. Flávio Bolsonaro recusou reconhecer a vitória de Lula e anunciou que vai pedir à Justiça a “anulação” das eleições. Questionado sobre esta posição, Guo limitou-se a afirmar que “a China respeita a escolha do povo brasileiro”. No tocante ao posicionamento político da China face à situação interna do Brasil, a liderança chinesa tem evitado associar expressamente as relações com a América Latina à orientação política dos respectivos governos. O representante especial da China para a região, Qiu Xiaoqi, afirmou em Outubro que Pequim “não estabelece divisões ideológicas” e respeita as escolhas eleitorais de cada país. Xi Jinping e Lula falaram ao telefone em Julho, ocasião em que o Presidente chinês manifestou apoio à soberania brasileira e rejeitou as “interferências externas”, num contexto de tensões comerciais entre Brasília e a administração norte-americana de Donald Trump. Washington anunciou nesse mês novas tarifas de 25 por cento sobre determinados produtos brasileiros, às quais o Governo de Lula respondeu com o início dos procedimentos para aplicar a sua lei de reciprocidade. Apesar da aproximação política, persistem divergências comerciais entre os dois países. Em Outubro, a China começou a aplicar uma tarifa adicional de 55 por cento sobre a carne de bovino brasileira que exceda a quota anual estabelecida por Pequim, após as exportações do Brasil terem esgotado o volume atribuído. Promessa do “melhor” Quando soube da vitória, rodeado de apoiantes na Avenida Paulista, em São Paulo, Luiz Inácio Lula da Silva prometeu que o quarto mandato para que foi reeleito será o melhor da história do Brasil. Na rua havia uma multidão vestida de vermelho, eufórica entre o choro de felicidade e cânticos em louvor a Lula, que chegou à Avenida Paulista num trio eléctrico, cumprimentando os apoiantes com um megafone. “Essa vitória é para mostrar que as mulheres são parte importante”, afirmou o Presidente, beijando a sua mulher, Rosângela Lula da Silva, ou ‘Janja’ para os brasileiros, para delírio dos apoiantes. Lula da Silva, que se tornou o primeiro brasileiro eleito quatro vezes para o mais alto cargo da nação, agradeceu ao povo e destacou a participação dos jovens, que “se levantaram em defesa da democracia”. “Esse meu quarto mandato será o melhor mandato que um Presidente já fez na história desse país”, prometeu o líder histórico brasileiro. O candidato progressista impôs-se ao senador Flávio Bolsonaro com uma vantagem de mais de quatro milhões de votos e foi o primeiro candidato na história democrática do país a chegar ao Palácio do Planalto sem ter sido o mais votado na primeira volta. Num primeiro discurso de vitória, Lula da Silva, agradeceu ao povo brasileiro e, em particular, aos jovens que foram “para a rua defender a democracia”. “Agradecer à generosidade da juventude brasileira que foi para rua defender a democracia”, disse o chefe de Estado brasileiro, numa sala a abarrotar no coração da cidade de São Paulo. Lula declarou que a votação registou “o menor número de abstenções da história” e “o menor número de votos nulos”. “Quero agradecer às pessoas idosas. Vi muitas cenas de pessoas sendo carregadas pelos seus netos para irem votar. Conseguimos convencê-las de que o voto era muito importante para assegurar o voto no país”, destacou. A mais alta participação Num país em que o voto é obrigatório, participação eleitoral atingiu 80,8 por cento de 159 milhões de eleitores registados, a mais alta desde 2006 e dois pontos percentuais acima do registado há três semanas. A percentagem de abstenção, 19,2 por cento, foi a mais baixa registada numa segunda volta das eleições presidenciais desde as eleições de 2006, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito pela primeira vez frente a Geraldo Alckmin, actual vice-presidente de Lula. “Hoje minha fala é de agradecimento”, afirmou o Presidente no discurso de vitória, em que reservou um elogio a Alckmin, também ele reeleito: “Feliz o Presidente que tem um vice da qualidade, da lisura de comportamento e da lealdade do Alckmin”, afirmou. “Tenho que fazer um agradecimento às pessoas que coordenaram a nossa campanha, aos partidos que participaram. Mas queria agradecer ao povo brasileiro a generosidade que ele tem comigo há muito tempo”, disse ainda.