A Ponte e os Crocodilos do Rio Han

Han Yu (768-824), o notável homem de letras da dinastia Tang que era um convicto defensor do Confucianismo, opondo-se com vigor ao Daoísmo e ao Budismo foi por essas suas convicções despromovido e condenado ao exílio na então remota e pouco desenvolvida Chaozhou, no Leste de Guangdong.

Aí no breve espaço de sete ou oito meses do ano 819 operou memoráveis mutações. Quando chegou, nomeado governador, inquiriu os habitantes locais sobre as maiores dificuldades que enfrentavam e todos lhe falaram dos problemas do rio que periodicamente inundava, trazendo perigosos répteis que aterravam a população.

Na biografia de Han Yu que consta do Novo Livro de Tang (Xintang Shu, 1060) diz-se que lhe explicaram que no então designado rio Mau, «havia crocodilos que devoravam quase todo o gado do povo e por causa disso eles viviam na pobreza». Percebendo que com medo nada se podia fazer, agiu primeiro sobre a imaginação prendendo a atenção popular e depois gizou um plano para conter as destrutivas águas do rio rebelde.

No primeiro acto instituiu um ritual onde foram sacrificados um porco e uma cabra e proclamou um édito (Jieyu wen) dirigindo-se aos crocodilos dando-lhes um prazo inicial de três dias para abandonar o local mas, magnânimo, se não conseguissem passava para cinco dias e se mesmo assim não fossem embora alargava o prazo até ao máximo de sete dias. Passado esse tempo advertia-os que seriam caçados por arqueiros com «arcos fortes e flechas envenenadas». Depois mandou escavar canais e erigir diques para vencer os obstáculos de irrigação das terras cultiváveis.

O sucesso da sua acção nota-se ainda hoje no rio que passou a ter o seu nome e num templo com o seu título póstumo Han Wengong, erigido em 999 à volta de um carvalho que ele teria plantado e, em 2022, foi nomeado um enorme crocodilo com cinco a seis metros, que existiu na região desde a Idade do Bronze até cerca do século XV, com o seu nome Hanysuchus. Um familiar de Han Yu também é lembrado no rio que corre para Sul.

Ning Zhai, que viveu entre o século XV e o XVI, retratou aquele que se tornou o imortal daoísta Han Xiangzi (rolo vertical, tinta e cor sobre seda, 160,7 x 96,8 cm, na Galeria de Arte da Universidade de Yale) quem sabe se indo ao encontro do tio, para o salvar de uma tempestade de neve.

A relação com o poeta consta do poema «Escrito para o meu sobrinho-neto Xiang no desfiladeiro Azul (Languan)» que fala dessa ocasião melancólica a caminho do exílio terminando com os versos «Vieste de longe e sei que com boas intenções: Não deixarás os meus ossos nas margens do rio dos miasmas.»

Han Xiangzi está ligado ao rio na lenda da famosa ponte Guangji em Chaozhou cuja construção teria resultado de uma competição entre o imortal e o patriarca do Budismo chan Yang Yizhong (781-872) que o imperador Xuanzong nomeou Guangji, «Bondade universal».

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