Entrevista MancheteRicardo Borges, académico e historiador: “‘Landins’ nunca criaram raízes em Macau” Andreia Sofia Silva - 18 Set 2026 O Instituto de Estudos Europeus recebe amanhã uma palestra sobre a história dos “landins”, soldados moçambicanos destacados em Macau durante a administração portuguesa. O historiador Ricardo Borges descreve ao HM como a presença destes soldados no território passou a ser um incómodo para o regime a partir de 1961 Imagens cedidas por Ricardo Borges e publicadas na revista “Nam Van”, em 1986 Que tipo de investigação está a desenvolver sobre os “Landins”? Estou a preparar um doutoramento em História, focado na história militar de Macau, mais concretamente nas décadas de 1950 e 1960. O número de soldados africanos destacados para Macau atingiu o pico durante este período e julgo ser importante entender as circunstâncias ligadas à sua presença, pois as suas vivências e condição social eram diferentes dos soldados que vinham da metrópole. Neste sentido, procuro investigar as origens destes soldados e o seu recrutamento, as caraterísticas do seu modus vivendi dentro e fora dos quartéis, bem como reflectir sobre as ramificações da sua presença dentro e fora de Macau. Quais as principais razões para o envio destes soldados para Macau, e qual a sua origem? Eram sobretudo financeiras, e pela fácil adaptação que tinham para viver num clima de feições tropicais. As praças africanas eram classificadas como praças de 3ª Classe, enquanto que da metrópole eram de 1ª Classe, reflectindo-se em menos despesas de pré (salário), rancho (comida) e fardamento. Esta discriminação viria mais tarde a ser uma das razões para não haver mais soldados africanos em Macau, pois a discriminação institucional não se coadunava com os preceitos de um suposto luso-tropicalismo. A difícil adaptação dos soldados que vinham da metrópole ao clima tropical de Macau levou, já no século XIX, à procura de recrutas vindos de Goa. Todavia, o serviço militar deixou de ter apelo para os residentes de Goa, sendo depois o recrutamento alargado à Índia Britânica, conforme o modelo britânico das “raças guerreiras” com, por exemplo, os sikhs, maratas e muçulmanos Punjabi. No início do século XX, em resposta dos entraves britânicos às tentativas portuguesas de recrutar indianos para o serviço militar, começaram a ser organizados contingentes em Moçambique que, após anos de experiências, demonstraram grandes qualidades de bravura e disciplina. Estas excepcionais qualidades para o serviço militar tornaram-nos indispensáveis para a guarnição e defesa militar de Macau. Os soldados africanos destacados em Macau vieram sempre de Moçambique, à excepção de um período de dois anos, entre 1949 e 1951, quando vieram de Angola e da Guiné-Bissau. Que tipo de trabalho desenvolviam os “Landins”? Ficaram em Macau, criaram raízes no território? Os chamados “Landins” nunca tiveram oportunidade de criar raízes em Macau, sendo-lhes imposto sempre um período de comissão de dois anos. Após o término, tinham de obrigatoriamente regressar à origem para serem rendidos por outros soldados de África. Além do mais, um dos alicerces para a preferência pelo destacamento de soldados africanos estava precisamente na distância que estes tinham em relação à comunidade chinesa, pois a própria comunidade local tinha preconceitos sobre estes e discriminava-os. Deste modo, estes soldados estavam totalmente focados nas suas funções nos quartéis, garantindo uma maior dificuldade em cair em hábitos viciosos e, em situações mais difíceis, cumprindo ordens superiores com maior frieza. Porquê o uso da designação “Landim”? Pelas ligações a Moçambique, ou havia outra razão? O autor Walter Rodney sugere que os “Landins” eram uma classe social distinta no sul de Moçambique no século XIX, mas a designação “Landim” não aparenta ser um termo específico para identificar uma etnia ou povo em específico. Foi um termo que prevaleceu na consciência e no discurso público em Macau para se referir ao conjunto de soldados africanos destacados para cá. Na realidade, os soldados provinham de diversas áreas de Moçambique e de diferentes etnias. Com a descolonização, como ficou a situação dos “Landins” em Macau? Com o início das acções dos movimentos de independência em Angola e Guiné, a permanência de soldados africanos foi considerada problemática, pois receava-se que tivessem sido influenciados por esses acontecimentos e que a segurança da chamada província ultramarina de Moçambique estivesse em risco. Isto porque o Comando Militar em Macau, através dos seus serviços internos de informações, ficou a saber que algumas das praças africanas tinham sido submetidas a determinado grau de doutrinação ideológica por frequentarem escolas comunistas e estarem com elementos chineses que, falando bem português, exploravam junto das praças os temas de discriminação e desigualdade de tratamento entre europeus e africanos. Ora, enviar de regresso a Moçambique homens com preparação militar, com doutrinação política e espírito anti-português foi considerado um risco demasiado elevado, determinando o fim da presença de soldados africanos em Macau. Essa doutrinação tinha ocorrido nas escolas de Macau? Sim. Algumas praças africanas frequentavam escolas comunistas em Macau nos períodos de licença, ou dias de folga. Para atrair as praças, junto dos quartéis actuava um grupo chefiado por um dirigente comunista que se fazia rodear de raparigas chinesas jovens, explorando os temas mencionados e selecionavam as praças mais receptivas à mensagem. Os objectivos destes esforços de doutrinação política não eram imediatos, pois o que procuravam era lançar sementes de revolta dentro da província de Moçambique aquando o regresso destes soldados a casa. As discriminações relativamente a estes soldados partiam mais da comunidade portuguesa ou chinesa? Ambas as comunidades tinham preconceitos contra africanos. Havia discriminação institucional dentro do Comando Militar, mas a realidade era um pouco mais complexa, porque dentro dos quartéis não eram permitidos comportamentos discriminatórios por parte das praças europeias e vários comandantes. Na década de 50 alertavam para a necessidade uniformizar os regulamentos e abandonar as diferenças verificadas entre praças de 1ª Classe (europeus e macaenses) e praças de 3ª Classe (africanos). Com a comunidade chinesa não havia grande proximidade, pois os soldados africanos estavam limitados a comissões de dois anos, o que os dissuadia de estabelecer ligações mais fortes com a comunidade local. Os próprios chineses tinham respeito pelos “Landins”, mas a discriminação e xenofobia eram, infelizmente, comuns nessa época. Quais as principais acções militares em que participaram estes soldados? Foram várias, a começar pelos incidentes de “Chip Seng” de 1922, passando pela repressão de piquetes grevistas que em 1925 e 1926 disparavam contra as fortificações construídas nas Portas do Cerco, até aos graves incidentes de Julho de 1952, quando várias praças africanas foram gravemente feridas. Uma delas, o soldado Jacinto Mundau, veio a falecer no hospital militar de São Januário. O último contingente de soldados africanos partiu de Macau a 29 de Setembro de 1962, portanto anos antes dos acontecimentos do “1, 2, 3”.