China | 50 anos depois, Pequim mantém silêncio sobre morte de Mao

Mao Zedong morreu a 9 de Setembro de 1976, marcando uma mudança política profunda no país. Porém, 50 anos depois, a data não se reflectiu em cerimónias oficiais na China, embora Mao nunca tenha deixado de ter importância ou de ser uma figura política omnipresente no país

Cinquenta anos depois da morte de Mao Zedong, a China deixou ontem passar a efeméride sem cerimónias oficiais ou destaque na imprensa estatal, apesar da omnipresença simbólica do fundador da República Popular. Nas páginas da agência noticiosa oficial Xinhua, do Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista Chinês (PCC), ou do nacionalista Global Times, o aniversário estava ausente dos principais destaques durante a manhã.

A Xinhua dedicava, porém, ampla cobertura aos 90 anos da vitória da Longa Marcha, outro marco da história revolucionária chinesa. A agência estatal tem ainda uma reportagem fotográfica sobre o local de onde partiu o Exército Vermelho para a Longa Marcha, em Yudu, na província de Jiangxi, e que é hoje ponto turístico para muitos.

O local tem um museu que serve de memorial a este episódio histórico, descrevendo a Xinhua que as autoridades de Yudu têm “aproveitado os abundantes recursos turísticos relacionados com a temática revolucionária para diversificar as experiências turísticas, promovendo tanto a herança do espírito da Longa Marcha como o desenvolvimento do turismo local”.

Ainda sobre o aniversário da morte do antigo secretário-geral do PCC, também não foram anunciadas cerimónias oficiais para assinalar a morte. De destacar que Mao Zedong governou o país durante quase três décadas. A única alteração visível ocorreu no mausoléu erguido no centro da praça Tiananmen, onde o corpo embalsamado de Mao permanece exposto: o horário foi prolongado em três horas e as reservas para toda a semana estão esgotadas.

A realidade é outra

O silêncio contrasta com a permanência de Mao na paisagem política chinesa. O seu retrato continua afixado sobre a Porta da Paz Celestial, junto à Praça Tiananmen, no centro de Pequim, o rosto figura em todas as notas de renminbi e o “Pensamento Mao Zedong” integra a ideologia oficial do PCC.

O legado de Mao permanece ainda indissociável das campanhas políticas que marcaram os seus quase 30 anos no poder e, sobretudo, da Revolução Cultural (1966-1976), lançada na última década da sua vida.

Apresentada como uma campanha para “aprofundar a luta de classes sob a ditadura proletária”, a Revolução Cultural mobilizou milhões de jovens Guardas Vermelhos contra alegados “revisionistas”, “reacionários” e “inimigos de classe”, mergulhando o país numa década de purgas, perseguições e violência.

O académico e comentador chinês Zhang Hongliang argumentou à agência Lusa, no entanto, que aquela foi “a única altura em que os pobres na China foram tratados com dignidade”. “Tinham habitação e educação gratuita e boas pensões. E, acima de tudo, a coragem para se erguerem perante burocratas e intelectuais” – então designados de “inimigos de classe” -, descreveu.

Professor de Economia na Central University for Nationalities, em Pequim, Zhang é um dos mais proeminentes representantes da extrema-esquerda chinesa, uma facção que se bate pelo regresso da China à ortodoxia maoista. O derramamento de sangue constituiu uma “necessária intervenção cirúrgica na sociedade chinesa”, disse.

Yu Xiangzhen tinha 13 anos quando se juntou aos Guardas Vermelhos e começou a perseguir professores e outros “inimigos de classe”. “Ninguém encarava as nossas acções como erradas, nem sequer parava para pensar, limitava-me a seguir ordens superiores”, contou à Lusa. Para aquela adolescente, Mao “era como um Deus”.

“Acima do partido”

O próprio PCC classificou posteriormente a Revolução Cultural como um grave erro, mas nunca repudiou Mao. Essa ambiguidade ajuda a explicar por que razão, meio século depois, a sua figura permanece simultaneamente indispensável à legitimidade política do regime e potencialmente incómoda.

Sob a liderança do actual Presidente Xi Jinping, regressaram ainda conceitos associados à era Mao, incluindo a unidade ideológica, a centralização do poder e o espírito de “luta”, embora especialistas rejeitem uma equivalência entre os dois líderes.

“Mao estava acima do Partido”, enquanto Xi é “um homem do Partido por inteiro”, explicou Jean Christopher Mittelstaedt, professor da Universidade de Zurique. “No fim de contas, Xi Jinping continua a ser um produto do sistema que Mao criou”, resumiu.

A nostalgia é visível nas gerações mais antigas. Num antigo complexo habitacional maoista de Pequim, Zhang Qiwei lamentou à Lusa a sociedade produzida por quase cinco décadas de reformas económicas, iniciadas após a morte do fundador da República Popular. “O povo está dividido; existe um materialismo excessivo”, afirmou. “No tempo de Mao, trabalhava-se arduamente sem se pensar em dinheiro. Lutava-se por um ideal comum”, acrescentou.

O legado de Deng

Dois anos depois da morte de Mao Zedong, a China entrava num período de Reforma e Abertura de que Deng Xiaoping foi um dos protagonistas. Apesar de Mao ter designado Hua Guofeng para a liderança do partido, a verdade é que Deng ascendeu no poder em 1978.

A sua estátua de bronze encontra-se hoje no topo do parque Lianhua Hill Park, em Shenzhen, demonstrando a importância desta figura política para o país.

Nos 120 anos do nascimento de Deng, celebrados em 2024, a Xinhua destacou, em reportagem, os grandes feitos do político. Numa reportagem da agência foi entrevistado Lan Zongguo, camponês de 58 anos natural de Huaqiao, cidade de Guang’an, terra natal de Deng Xiaoping. E este destacou que “as reformas lideradas pelo falecido dirigente chinês colocaram tigelas de arroz nas mãos das suas quatro irmãs”.

Huaqiao é hoje conhecida pela produção de arroz, mas, nos anos 70, havia ainda escassez e muitas normas patriarcais que condicionavam a produção agrícola. Assim, Lan era o único membro da família autorizado a comer a modesta ração de arroz, lê-se na reportagem.

“À hora do jantar, era o único dos filhos a receber uma tigela de arroz. As minhas duas irmãs mais velhas comiam silenciosamente a sua porção de papa de milho, enquanto as minhas irmãs mais novas se juntavam à minha volta, na esperança de conseguir uma colherada de arroz”, contou.

Deng Xiaoping foi responsável não só pela implementação das Zonas Económicas Especiais, que deram um impulso à zona sul do país e a uma maior industrialização, como também criou, no início da década de 80, o “sistema de responsabilidade por contrato familiar”, reforma que atribuía terras colectivas a famílias individuais, permitindo aos agricultores gerir a sua própria produção e ficar com a maior parte das colheitas. Foi isso que trouxe mais comida à família de Lan.

A Xinhua descreve ainda como o “processo de Reforma e Abertura liderado por Deng deu início à histórica transformação da China, que passou de uma economia planificada, com um Produto Interno Bruto per capita de cerca de 200 dólares norte-americanos, para a segunda maior economia do mundo”. Shenzhen tornou-se, em 1980, numa das primeiras ZEE do país, o que permitiu que empresas estrangeiras instalassem fábricas na cidade.

Um dos exemplos foi a “gigante da televisão” Konka, fundada em 1980 em Shenzhen, e que “começou por produzir televisores a preto e branco para responder à crescente procura interna de produtos electrónicos de consumo”. Zhou Bin, presidente do grupo Konka, disse à Xinhua que a ZEE foi de extrema importância para o crescimento de uma economia de mercado.

“Ao permitir que as empresas tivessem acesso a recursos estrangeiros, o processo de reforma e abertura criou um ambiente mais favorável à inovação, o que, por sua vez, acelerou o desenvolvimento social e económico da China”, afirmou. A.S.S. / Lusa

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