Fotografia | Ochre Space, em Lisboa, apresenta “-40ºC”, de A Yin

Foi inaugurada ontem “-40ºC”, uma exposição de fotografia de A Yin, na Ochre Space, em Lisboa. A mostra pode ser vista até 26 de Setembro e é a segunda de uma série de exposições alusivas ao Ano do Cavalo. As imagens reflectem a graciosidade dos animais fotografados na Mongólia Interior

Estamos no Ano do Cavalo segundo o zodíaco chinês e, a pensar nisso, a galeria Ochre Space, em Lisboa, tem uma programação pensada para celebrar a efeméride. Depois da mostra de Wang Zengping, foi inaugurada ontem a segunda exposição temática relacionada com o cavalo. “-40ºC”, de A Yin, é um projecto fotográfico a preto e branco onde este animal é protagonista, assim como a beleza das paisagens da Mongólia Interior.

A Yin, um artista visual chinês mongol que há muito explora este universo, vê, assim, o seu trabalho exposto em Lisboa num espaço dedicado à fotografia, e que nasceu da vontade de João Miguel Barros, residente de Macau, fotógrafo e curador.

Segundo a apresentação oficial da exposição, em “-40ºC” o frio “não é apenas uma condição atmosférica, mas o elemento que determina a paisagem, o corpo e a própria experiência de olhar”. Desta forma, a estepe, nome da pradaria mongol com campo de visão ilimitado, “deixa de ser uma paisagem distante para se tornar um espaço onde a vida é reduzida às suas condições mais essenciais”.

A forma como são fotografados faz com que os movimentos dos cavalos sejam captados de uma forma única, que deambula entre “a presença e o desaparecimento”, é descrito. “À distância, os rebanhos transformam-se em pequenos vestígios escuros na imensidão branca; de perto, revelam corpos marcados pela neve, pelo gelo e pelo vento.”

Com curadoria a cargo de João Miguel Barros, a exposição não tem como únicos protagonistas os cavalos, mas também incide sobre “aquilo que permanece quando quase tudo é reduzido ao essencial: resistência, silêncio, movimento e sobrevivência”.

Diz o curador que A Yin “trabalha o preto e branco como uma ética do despojamento”. “A cor, que poderia seduzir ou distrair, desaparece. Ficam as relações essenciais: claro e escuro, cheio e vazio, linha e massa, silêncio e movimento. A neve torna-se página, mas uma página instável; o céu torna-se peso; o cavalo torna-se inscrição viva”, é acrescentando.

Assim, há imagens de A Yin cuja composição se aproxima “da tradição oriental do vazio, em que o espaço não preenchido não é ausência, mas respiração”. Há outros casos em que “a fotografia impõe a rudeza documental da matéria: o animal não é metáfora pura, é corpo exposto ao Inverno”.

Três décadas de beleza

Há 30 anos que A Yin se dedica a um intenso trabalho de análise e estudo à cultura nómada da Mongólia. Numa nota oficial sobre a mostra, A Yin assume: “Amo os cavalos mongóis” e revela a profunda conexão que tem com um universo que lhe é tão próprio. “Quando eu tinha sete anos, o meu pai começou a ensinar-me a montar a cavalo. A minha mãe abençoou-me: “Boa sorte sobre o cavalo!”.
“Sou um mongol da Mongólia Interior e descendente de Gengis Khan”, disse ainda.

Sobre a sua carreira, diz que ganhou “muitos prémios com que a maioria dos fotógrafos sonha”. “Tenho uma certa influência neste meio, dentro e fora do país. Mas nunca abandonei a minha amada estepe, os cavalos mongóis e os nómadas. Estou sempre aqui, nesta terra, de alma e coração, a registar o meu povo, a minha estepe e os meus cavalos mongóis… Amo os cavalos mongóis”, aponta.

A Ochre Space descreve como a fotografia é, para o artista, “uma forma de preservar uma herança cultural profundamente ligada ao território e simultaneamente de registar as transformações sociais, históricas e ambientais que têm vindo a alterar esse modo de vida”.

A Yin é autor de uma trilogia sobre a cultura nómada, com títulos como “Os Nómadas Mongóis da China”, “A Terra Sagrada dos Nómadas” e “Os Buriates”. Fez também os projectos “As Escolas Primárias Mongóis da China” e “−40 °C (Cavalos Mongóis)”.

É ainda o único fotógrafo proveniente de uma das minorias étnicas do país a ter sido nomeado por duas vezes entre os “Dez Melhores Fotógrafos Retratistas Chineses”, além de ter recebido o Prémio Estátua de Ouro, a mais alta distinção da China em fotografia, o Prémio Humanidade e o Prémio “All Roads” da National Geographic. Nascido em 1970 numa família de pastores das estepes da Mongólia, A Yin apresenta-se como um fotógrafo independente e autodidacta.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado