O umbral da desordem mundial (III)

“The supreme folly is to believe that power is its own justification.”

Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism (1951)

 

A abordagem americana de “fazemos como queremos” assenta num pressuposto errado. No Pentágono acreditam (ou fingem acreditar) que a exibição de força militar assustará a China. O Presidente Trump dispara para intimidar o Presidente Xi e levá-lo a renunciar às suas ambições no IndoPacífico, preservando o status quo. Revolução permanente para perpetuar o existente. Washington está, de facto, a reduzir as suas hipóteses de conter Pequim, que observa satisfeita o desperdício dos arsenais americanos destinados ao IndoPacífico. Os estrategas chineses regozijam-se ao consultar a tabela periódica pois cada míssil, drone ou avião perdido pelos Estados Unidos exige, para ser reconstruído, terras e metais raros dos quais a China detém um quase monopólio. A guerra contra o Irão expõe assim os americanos na única frente que realmente importa e torna Washington dependente de Pequim para reconstruir o arsenal necessário à disputa no Pacífico. Se os chineses fossem (estes) americanos, diriam jogo, set e partida. Em vez disso, esperam porque a guerra, terceiro factor de impotência, acelera a crise americana.

Um inquérito recente realizado nos círculos da administração Trump mostra que apenas 32% dos funcionários se dizem satisfeitos e empenhados, enquanto 58% se declaram menos envolvidos do que em 2024. Os valores mais baixos surgem no Departamento de Estado, onde a satisfação mal ultrapassa os 20%. No Pentágono, situa-se nos 48%. Os funcionários federais não gostam de trabalhar para esta América, também porque poderes privados descomunais estão a canibalizar o Estado. Como sugerem os iranianos com ironia fria (bem diferente da Epic Fury), os Estados Unidos ainda precisam de “negociar consigo próprios”. Só depois poderão procurar um compromisso sério com a República Islâmica e mesmo assim em condições piores do que antes de 28 de Fevereiro. A menos que se lancem em aventuras militares que, a longo prazo, corroeriam ainda mais a sua reputação.

O balanço provisório da terceira guerra do Golfo indica que a América pós-hegemónica e em défice de estatalidade nem sequer é a superpotência militar que sempre acreditou ser. Crise do Estado, fim da hegemonia e impossibilidade do domínio. O que mais esperar de uma monarquia anárquica? Há um elemento esotérico na disputa em torno do Irão. Encoberto pela névoa da guerra, começa apenas agora a delinear-se, como aqueles medalhões que, no centro dos tapetes persas, se estendem subtilmente para o exterior através de nós simétricos, também chamados turcos ou gordianos. Ao desvanecerem, assumem formas difíceis de decifrar, deixando o observador na dúvida sobre a figura oculta no tapete tal como os exegetas de Henry James continuam a experimentar. O segredo que se torna cada dia mais evidente, mas nunca totalmente revelado, é a questão turca.

Quando os analistas do futuro reconstruírem a história da agressão israelita ao que resta do antigo império persa, concluirão que o seu alvo indirecto, mas central, era a Turquia. Potência em ascensão, hoje capaz de ampla projecção, enquanto a Pérsia se encontra em declínio, recolhida em si mesma para não morrer prisioneira de um regime que ofende a sua civilização. Mais do que impedir a bomba iraniana, Jerusalém quer impedir que Ancara a obtenha e assim consolide a sua primazia no Médio Oriente. Não vale a pena procurar noutro lado pois o hegemon regional, uma vez afastadas as potências ocidentais, será um entre Israel, Irão e Turquia. Talvez inscrito na esfera de influência chinesa, da qual o Médio Oriente é o elo que liga Ásia, Europa e África. A menos que, cego pela obsessão exclusivista, Israel arraste os rivais para o vórtice da última guerra preventiva que é nuclear. Ou que os dois rivais cedam a essa tentação. Pode acontecer quando se aprende a não temer e a amar a Bomba.

Ironia das ironias pois durante cerca de vinte anos, entre as décadas de 1950 e 1970, os três actores estiveram associados numa “aliança da periferia” anti-árabe. Para lá das considerações estratégicas, essa aliança informal assentava no desprezo comum pelos árabes. Judeus, persas e turcos nunca consideraram as tribos de onde emergiu o verbo de Maomé como iguais. Era assim quando os unia o objectivo de liquidar o panarabismo egípcio, sírio ou iraquiano. E é ainda mais assim hoje, na competição triangular a leste do Suez, entre o Corno de África e o Mar Arábico. Quanto às petromonarquias do Golfo, vistas a partir deste triângulo, são patrimónios familiares sustentados por rendas energéticas precárias, destinados a desaparecer. Manipuláveis, incapazes de hegemonia, eternamente à procura de um protector que inevitavelmente as desiludirá em que o último foi os Estados Unidos. A guerra de 28 de Fevereiro confirmou ao mundo e a elas próprias a sua fragilidade irremediável.

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