Ai Portugal VozesDilema André Namora - 29 Jun 2026 Na região da Guarda, onde resido, existe há muito um dilema que se agudizou. Trata-se da luta pela sobrevivência dos lobos e das ovelhas. Por um lado, estão os pastores que defendem os seus rebanhos e que estão contra a existência de lobos no montado porque atacam e comem as suas ovelhas. Alguns pastores já passaram a andar de caçadeira na mão com o intuito de abaterem qualquer lobo que se aproxime. Por outro, estão os defensores dos animais que adiantam ser imperioso defender a existência dos lobos. Afirmam que o lobo ibérico está em vias de extinção e que está protegido por lei. Um dilema, uma contradição difícil de solucionar. Os que defendem os lobos são criticados. Os críticos afirmam que não são defensores de animais, porque morrem ovelhas quase todos os meses devido ao ataque dos lobos. E salientam que esses defensores de animais não comparam a importância de uma ovelha para a sociedade e a do lobo que se limita apenas a matar outros animais. A discussão não tem fim e estamos quase perante aquele dilema de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha… O debate sobre esta matéria tem sido complexo e gira essencialmente em torno de quatro eixos principais: os ataques causam prejuízos severos aos criadores de gado, especialmente no norte e centro do país e no planalto mirandês. Além da perda de animais, há ferimentos que inutilizam o gado e o pânico provocado no rebanho afecta a produção. A repetição e proximidade dos ataques levam alguns criadores a reivindicar o fim do estatuto de protecção legal do lobo ibérico, que está em vigor desde 1988. Para mitigar os ataques, várias entidades promovem activamente a coexistência através de boas práticas pecuniárias, tais como, o uso de cães de protecção, nomeadamente o Cão de Gado Transmontano, Cão da Serra da Estrela e Cão de Castro Laboreiro. Esta é uma das medidas mais eficazes para afastar os lobos. Por outro lado, tem sido importante a utilização de vedações eléctricas e a recolha de gado em abrigos seguros durante a noite, que reduzem drasticamente a vulnerabilidade dos rebanhos. Um aspecto positivo tem sido a posição do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas que atribui indemnizações aos proprietários lesados pelos prejuízos causados pela perda de ovelhas ou cabritos. Conversámos com um pastor que nos surpreendeu ao dizer-nos: “Sabe, já perdi dezenas de ovelhas mortas por lobos, mas agora pensei numa coisa que tenho posto em prática e que me tem resolvido o problema. Uma vez por semana mato uma ovelha e corto aos bocados. Meto-me na mota e vou lá acima à montanha onde sei que vivem lobos e distribuo a carne. Para já, tem sido um remédio santo, mas ando sempre em pulgas não venha aí um lobo e lá se vão duas ou três ovelhinhas”. Na verdade, a vida de pastores no montado é algo de muito difícil e cada vez há menos jovens que se dediquem à criação e venda de gado ovino. A rapaziada nova prefere alistar-se na polícia, na GNR ou seguir a vida militar. Todavia, o dilema prossegue e em certas zonas os ataques dos lobos continuam e não se vislumbra uma solução. Parece um assunto de pouca importância, mas não o é. Imaginem só, as centenas de talhos existentes no país e que estão sempre a pressionar os seus fornecedores de carne para que não falte aos muitos clientes que são todos os que gostam de um bom petisco de borrego ou de cabrito. A natureza é assim mesmo. A sobrevivência de muitos animais é a lei dessa natureza. Temos o exemplo de quase todas as espécies carnívoras, como as leoas e as águias que matam outros animais para se alimentar e dar de comer aos filhos. Como lemos num livro, contra a natureza não há nada a fazer. P. S. – Por referirmos os fenómenos da natureza, desejamos enviar as nossas sentidas condolências a todas as famílias das vítimas dos sismos registados na Venezuela.