Ai Portugal VozesO calor mata André Namora - 22 Jun 2026 Segundo os números oficiais, o calor extremo em Portugal continental, no ano passado, levou a um total de aproximadamente 530 mortes. Este ano, as previsões indicam que o número mortal poderá chegar aos mil. Neste mês de Junho têm-se verificado temperaturas anormais para esta altura do ano. Ao longo da semana passada os serviços meteorológicos avisaram que em certas zonas do interior do país a temperatura pode chegar aos 50 graus. É assustador para os mais velhos e para quantos sofrem de hipertensão e vivem em casas sem climatização. Ora, aqui está o busílis deste assunto. São casas construídas há dezenas de anos e normalmente com três ou quatro pisos. Quem viva no último andar é um verdadeiro forno insuportável e que tem levado milhares de cidadãos para o hospital ou para a morgue. Os sucessivos governos nunca se preocuparam em criar uma ajuda financeira às famílias mais vulneráveis para a obtenção de um aparelho de ar condicionado a instalar nas suas casas. Teria sido o mínimo que as “inteligências” governamentais podiam ter feito. O calor em Portugal é seco, a humidade do ar cifra-se nesta altura do ano abaixo dos 50%. E esta característica ambiental é que leva muita gente ao sofrimento. Há dias, um amigo que veio de férias e que nasceu no Canadá disse-nos ter ficado estupefacto pela falta, quase generalizada, dos prédios sem climatização. E a compra de um aparelho de ar condicionado e respectiva instalação não é coisa barata e acessível à maioria das bolsas dos portugueses. Parece algo de simples e, em Macau, os residentes sabem bem da importância de se possuir ar condicionado em casa. No entanto, em Portugal não há um governante, especialmente a ministra da Saúde, que se preocupe com tantos compatriotas que morrem todos os anos devido ao calor. É que 50 graus matam mesmo para quem está habituado a sentir, no máximo, 40 graus. O calor mata mesmo e não é uma falácia. Muitas vezes, os que podem, procuram as praias marítimas ou fluviais para se refrescar e não levar com a onda de calor registada durante o dia. Acontece que em Junho, as praias ainda não têm vigilância e existem no mar os perigosos agueiros e nos rios as ramagens que caíram das árvores e que um mergulho do banhista pode ser fatal. Nas duas últimas duas semanas já morreram afogados cerca de dez cidadãos no mar ou num rio. Obviamente que a inconsciência e a irresponsabilidade dos que frequentam essas praias e rios é indiscutível. No entanto, as autoridades deviam a partir de 1 de Junho iniciar a época balnear e todas as praias mais frequentadas estarem vigiadas. A propósito de praias, com ou sem vigilância, temos assistido a uma discussão frenética nas praias com mais banhistas. Imaginem que a desordem já teve de incluir a ministra do Ambiente, a fim de declarar que as praias são um espaço público. E porquê? Porque os concessionários de toldos e barracas têm dado uma grande “barraca” ao pretenderem proibir que em frente à concessão haja alguém que coloque na praia o seu chapéu do sol. Era o que faltava termos agora praias privadas para os senhores concessionários. Já não basta a vergonha do que se tem passado na Comporta de Tróia e na Arrábida, onde os milionários proibiram o uso das “suas” praias, imbróglio que já passou para a orla judicial, havendo tribunais que discordam com as decisões do Governo, o qual decidiu serem as praias um espaço público. Portugal é um país de sol, de turismo, de boas praias, mas não pode ter o seu povo em casas sem climatização onde se sofre e morre de calor. P. S. – Na Assembleia da República a proposta do Governo sobre reforma laboral foi chumbada. Uma grande vitória dos trabalhadores cuja proposta revertia ao século XIX os direitos dos trabalhadores.