CCCM | “China tem ainda dificuldade em seduzir”, diz ex-ministro

Nuno Severiano Teixeira, professor e antigo ministro, defende que a China ainda não é uma potência global na área do “soft power”, porque “consegue conquistar, mas ainda tem dificuldade em seduzir”. A ideia foi avançada durante a apresentação do livro “Is China a Global Power?”, de Francisco José Leandro

Será a China uma verdadeira potência global nas vertentes militar, económica e do chamado “soft power”, ou seja, na capacidade de influência de outros países por uma via mais branda? O novo livro de Francisco José Leandro, “Is China a Global Power? The Three Great Walls of the Middle Kingdom” afirma que o país tem um maior poderio militar e tecnológico a nível global, o que confere o estatuto de potência, mais do que pela via negocial com outros países, ou na arte de influenciar de forma plena as relações internacionais.

A obra, editada pela Palgrave Macmillian no ano passado, foi apresentada na semana passada no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), tendo sido comentada por Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na área da Ciência Política e Relações Internacionais e antigo Ministro da Administração Interna e Ministro da Defesa Nacional.

Na sessão, Severiano Teixeira indicou que a China ” está ainda longe de atingir” esse estatuto de potência global” ‘no soft power’. “No que diz respeito aos aspectos culturais e da vida imaterial, ainda não atingiu o seu objectivo. Usando a expressão de Joseph Nye, se no ‘hard power’ a China o atingiu, no ‘soft power está ainda longe de o atingir. Ou seja, a China consegue conquistar, mas tem ainda dificuldades em seduzir”, acrescentou.

A obra de Francisco José Leandro, professor na Universidade de Macau (UM), apresenta a metáfora da muralha para descrever as várias vertentes em que a China demonstra o seu poder, seja a nível militar, cultural, económico ou de negociação diplomática, da chamada “governança global”. Segundo explicou Nuno Severiano Teixeira, “em cada uma destas muralhas o ponto em que a China se encontra é diferente”, sendo que a nível económico e tecnológico, o país “atingiu o seu objectivo de ser uma potência global “.

Neste contexto, o docente da UM disse “ter quase a certeza que os próximos cinco a dez anos vão ser surpreendentes do ponto de vista da evolução tecnológica e económica”. Estes dois aspectos estão, aliás, interligados num dos capítulos do livro, estando em causa “uma estratégia financeira com vários níveis de governação”.

Francisco José Leandro apresentou vários exemplos de como a China tem evoluído em termos tecnológicos, o que lhe pode conferir o estatuto de potência global neste domínio. Relativamente ao sistema europeu de satélites, “a China não teve acesso e criou o seu sistema, que é um dos melhores do mundo”. Depois há a aposta no Espaço: “temos uma estação internacional e depois temos a estação chinesa, exactamente porque à China não foi dada essa possibilidade”.

“Em termos de capacidades militares, a China já ultrapassou, em muito, o número de activos [face a outros países]”, declarou o académico, referindo que “a China foi a potência que mais satélites colocou no espaço em 2012”, apresentando-se “uma taxa de sucesso impressionante comparativamente às agências europeia e americana”.

Outra visão

Nuno Severiano Teixeira declarou como a China tem hoje “uma visão alternativa para a ordem internacional em que vivemos”, podendo-se questionar se o país “é um consumidor das regras, das normas internacionais, ou se é um produtor” de normas; ou se é “capaz de legitimar, do ponto de vista internacional, essa visão ou não”.

A obra de Francisco José Leandro destaca como Pequim não domina ainda o mundo a nível da chamada governança global. Conforme disse Nuno Severiano Teixeira, “a China não é ainda um grande arquitecto, mas um grande artesão que está, a pouco e pouco, a mudar”. “Diria que, depois de ler o livro, que a China é quase uma potência global, está muito perto de o ser, disso não há dúvidas nenhumas”, assumiu. Isto numa altura em que existe “numa ordem internacional complexa e muito inútil”, disse Nuno Severiano Teixeira, que defendeu que a China tem aproveitado para desenvolver algumas áreas tendo em conta as últimas políticas norte-americanas, nomeadamente “as asneiras que o Presidente Trump está a fazer com as universidades americanas”.

A China capta talentos, desenvolve o conhecimento científico, “mas não encontrou ainda o seu Hollywood”, disse o professor, numa referência à aposta que os Estados Unidos fizeram na indústria cinematográfica para se expandir e que, é hoje, das mais importantes do mundo.

Muralhas imaginárias

“Is China a Global Power?” nasce das provas de agregação que Francisco José Leandro fez no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, sob o tema “Contemporary China”, em 2022. O livro traz reflexões em torno de quatro temas, nomeadamente as três “muralhas” do “acesso tecnológico e económico”, que permitem o acesso do país ao poder material; a muralha do “acesso cultural e intangível”, que levam ao “poder intangível” e ainda a muralha “do acesso político e governança global”, que permite o “poder da governação” a Pequim. O livro faz ainda a “avaliação da capacidade de poder abrangente da China”, com recurso a “observações no terreno em que o autor argumenta que a China possui uma visão e ambição globais, posicionando-se como uma quase-potência global”, descreve-se numa sinopse divulgada pelo ISCTE.

Tiago Vasconcelos, outro dos oradores da sessão do CCCM, e docente nas áreas de Estratégia e Geopolítica, destacou que a obra deixa a reflexão sobre se as três muralhas “são as que a China tem de construir para se proteger ou controlar os fluxos de ideias, pessoas, capitais, bens e serviços, ou as suas fronteiras, um pouco à maneira da grande muralha original”; ou se, pelo contrário, “são muralhas que a China teve de derrubar ou ultrapassar, para se tornar, ou ser percebida como potência global”, isto “se já o for?”.

“No domínio material do poder o autor presta atenção à importância global da China nas questões económicas, incluindo as que respeitam a competição tecnológica entre a China e os Estados Unidos da América. A questão que aqui se invoca é que se a China já ultrapassou esta grande muralha, que dificulta o acesso de novos entrantes ao patamar do poder económico e tecnológico de classe global”, questiona o académico.

Desta forma, “a conclusão [do livro], é que actualmente a China já é reconhecida como uma potência económica global”. Porém, Tiago Vasconcelos acrescentou que, ao nível “das questões culturais globais” e do “domínio intangível do poder”, a China é ainda, segundo o livro, “uma potência predominantemente interregional”.

Um certo receio

Tiago Vasconcelos disse ainda ser importante evitar “categorizações simplistas” para avaliar “um fenómeno tão complexo como é o crescimento do poder da China”. Porém, o analista considerou ser “bastante natural a preocupação com as possíveis consequências de um fenómeno tão potencialmente transformador da política mundial como é a ascensão da China, e isto é inegável”.

Em “Is China a Global Power?”, Francisco José Leandro “observa como em certas áreas o poder crescente da China tem precipitado narrativas de securização”, com o fomento de “medo nas elites e no público em geral”, por estar em causa “um fenómeno realmente novo para a maior parte das pessoas vivas, mas que alimenta, por vezes, populismos que perturbam processos de decisão”, adiantou Tiago Vasconcelos.

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