Verdades escondidas por trás dos números e reflexões sobre a felicidade

Em Março, órgãos de comunicação social de Hong Kong citaram o relatório global sobre a riqueza da UBS, que estabelece limiares claros para a riqueza global: o limiar do património líquido do 1 por cento da população onde se encontram os mais ricos é de aproximadamente 1,1 milhões de dólares americanos (equivalente a 8,6 milhões de dólares de Hong Kong). O limiar do património dos 10 por cento mais ricos é de 150.000 US dólares (aproximadamente 1,17 milhões de dólares de Hong Kong), ao passo que para os 25 por cento mais ricos é de apenas 230,000 dólares de Hong Kong. O relatório também demonstra que, a nível global, 40 por cento dos adultos não chegam a possuir 10.000 US dólares.

Para os leitores que vivem em Hong Kong e em Macau, estes números podem ser confusos. Em qualquer das duas cidades, possuir uma casa paga na integra aumenta significativamente a probabilidade de se tornar um entre os 10 por cento mais ricos do mundo. Olhando apenas para os números, é fácil ficarmos muito satisfeitos. No entanto, uma análise mais detalhada destes dados levanta várias questões que merecem ser consideradas:

Em primeiro lugar, em termos absolutos, um património líquido de 230.000 dólares de Hong Kong ultrapassa de facto o património de aproximadamente 75 por cento da população mundial, reflectindo directamente a distribuição desigual da riqueza a nível global, com a grande maioria da população a viver com níveis baixos de rendimento.

Em segundo lugar, estes dados usam apenas o património líquido pessoal como padrão estatístico, ignorando completamente o rendimento per capita, os níveis de consumo e o custo de vida nas diferentes regiões. Discutir números de riqueza sem considerar o poder de compra faz com que 230.000 dólares de Hong Kong sejam apenas um valor de referência incapaz de reflectir com precisão a qualidade de vida nas diferentes regiões.

Em terceiro lugar, em cidades economicamente desenvolvidas como Hong Kong e Macau, com elevado custo de vida, 230.000 dólares de Hong Kong podem representar apenas uma parte das poupanças de muitas pessoas, longe de ser suficiente para garantir uma vida confortável.

Comparar com dados locais dá uma imagem mais clara da verdadeira natureza da riqueza. No relatório publicado pelo Citibank em Novembro de 2025, “Hong Kong Millionaire Survey Report 2025”, revelou que Hong Kong tem aproximadamente 395.000 milionários, com uma riqueza média de 20,5 milhões dólares de Hong Kong, que representam 7 por cento da população total da cidade. Isto significa que aproximadamente um em cada 14 residentes de Hong Kong é milionário.

Em média, este grupo junta o seu primeiro milhão por volta dos 34 anos de idade, e compra a primeira casa aos 33. 51 por cento dos seus activos estão concentrados em propriedades, com os restantes 49 por cento divididos entre investimentos e dinheiro. Isto demonstra que é necessário elaborar um estudo local para ter uma imagem mais precisa da verdadeira situação de riqueza numa região.

No entanto, por trás dos “milionários” de Hong Kong existe uma ilusão de riqueza. Como é bem sabido, os preços das propriedades em Hong Kong são elevados; um apartamento com três assoalhadas pode custar perto de 10 milhões de dólares de Hong Kong. Estes activos ligados a casas ocupadas pelos proprietários, se não forem vendidos e liquidados, são essencialmente números num papel e não podem ser convertidos em rendimento disponível. Compreender isto é crucial para compreender o fenómeno da população com elevado património em Hong Kong.

Embora os índices de riqueza sejam impressionantes, os índices de felicidade não têm acompanhado o mesmo ritmo. O Relatório Mundial sobre a Felicidade 2026 das Nações Unidas mostra que a classificação do índice de felicidade de Hong Kong caiu do 77.º lugar em 2021 para o 88.º em 2025, e prevê-se que desça para o 90.º em 2026. O relatório indica que o excesso de pressão no trabalho, a redução da liberdade e as fortes pressões de sobrevivência são as principais razões para o contínuo declínio da felicidade global.

Com base em vários dados, é fácil concluir que para julgar o nível de riqueza de uma região se deve ter em conta as realidades locais; comparar apenas números globais descontextualizados é irrelevante. Além disso, possuir riqueza não é equivalente a possuir felicidade. A felicidade não é definida apenas pelo dinheiro; um ambiente de vida confortável, relações familiares harmoniosas, ligações sociais genuínas e um ritmo de vida descontraído são todos ingredientes essenciais da felicidade. Em vez de nos esgotarmos a perseguir patamares de riqueza, devemos equilibrar as nossas prioridades na vida e procurar outras fontes de felicidade para lá dos bens materiais.

Desejo que possamos sempre focar-nos nas pequenas coisas que trazem alegria ao nosso coração. Assim, um dia todos seremos felizes.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

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