Poemas de Meng Haoran

Tradução de Rui Cascais

孟浩然 (689-740)

(五言古體詩)

晚春臥疾寄張八子容

南陌春將晚

北䆫猶臥病

林園久不遊

草木一何盛

狹徑花將盡

閑庭竹掃淨

翠羽戲蘭苕

頳鱗動荷柄

念我平生好

江鄉遠從政

雲山阻夢思

衾枕勞感咏

感咏復何為

同心恨別離

世途皆自媚

流俗寡相知

賈誼才空逸

安仁鬢欲絲

遙情每東注

奔晷復西馳

常恐填溝壑

無由振羽儀

窮通若有命

欲向論中推

MENG HAORAN (689–740)

(Pentâmetros ao Estilo Antigo)

Acamado no Fim da Primavera; Enviado a Zhang Zirong

Para sul, a Primavera finda ao longo das ruas.

Junto à janela virada a norte, continuo doente.

Há muito que não vou ao bosque ou ao jardim,

Mas as plantas e árvores proliferaram.

Os poucos botões apertam-se ao longo da vereda;

No meu pátio indolente o bambu foi varrido.

Serenas asas azuis esvoaçam entre as espigas,

Barbatanas vermelhas empurram talos de lótus.

Recordo o melhor amigo da minha vida,

Que deixou as margens do nosso rio para trabalhos de governo.

Nuvens e montanhas atulham-me os pensamentos vagos,

Trabalho numa canção sentida ainda acamado.

Mas por que tento outra vez estas canções sentidas?

Detesto estar separado de quem sente como eu.

Na estrada do mundo todos andam encantados

Mas é raro conhecerem-se uns aos outros.

Tal como o talento de Jia Yi foi deslocado em vão,

Também o cabelo de Anren foi atado para encanecer.1

Quando os sentimentos se erguem para oriente,

Logo galopam para ocidente com a sombra do sol.

Temo sempre vir a encher um buraco ou vala, 2

Não há como fingir uma dignidade cortês.

Sucesso e fracasso já estão destinados,

Assim argumentam os tratados. 3

Referências:

Pan Yue 潘岳 (247–300), de seu cognome Anren, era não só um poeta famoso como um belíssimo homem. Na sua “Rapsódia das Inspirações Outonais”, lamenta que o cabelo esteja a ficar-lhe branco com apenas trinta e dois anos.

Diz-se no Mencius que o medo de qualquer homem ambicioso é ser lançado a um buraco ou vala.

No seu “Tratado Sobre o Destino” (辨命論), Liu Jun 劉峻 (462–521) diz, “No que concerne ao sucesso ou fracasso de um cavalheiro, tudo o que há é predestinação”.

登江中孤嶼贈王白雲先生迥

悠悠清江水

水落沙嶼出

回潭石下深

綠篠岸傍密

鮫人潛不見

漁父歌自逸

憶與君別時

泛舟如昨日

夕陽開晚照

中坐興非一

南望鹿門山

歸來恨相失

Subindo a Ilhota Solitária no Rio; Para Wang Jiong, Abade das Nuvens Brancas1

A correr e correr, límpida água do rio;

Quando a água baixa, uma ilhota de areia emerge.

Uma lagoa serpenteia profundamente sob as rochas,

Na margem verdeja espesso bambu-anão.

As pessoas-tubarão estão submersas, para não se verem,2

Mas o pescador canta a sua própria liberdade.

Lembrando o tempo em que nos separámos,

Parece ainda ontem o barco que derivava.

O sol da tarde espalha agora a sua tardia iluminação;

Sentado nela, a mente dispersa-se.

Para sul, olho a Montanha da Porta do Cervo,

E lamento ter perdido a ocasião de lá voltar.

Mestre Wang Jiong residia na Montanha da Porta do Cervo e surge mencionado em diversos outros poemas seguintes.

As “pessoas-tubarão” (jiāo rén, 鮫人) viviam nas águas costeiras; as suas lágrimas eram pérolas e teciam um tecido especial. Segundo o tradutor inglês, a sua presença aqui é estranha, surgindo talvez do desejo de criar um paralelismo com o pescador no verso seguinte, reminiscente da figura do pescador na colecção de poesia Chu Ci (século III a.C.), que celebra o seu desapego relativamente à sociedade, assim como a prática de fluir de acordo com a natureza e os tempos, dois ideais taoístas.

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