Retratos de homens célebres que conheci

uma vez vi o couto viana, reduzido aos coutos, numa homenagem (neo-sal)az(ar)ista ao palácio

da independência

uma vez vi o cesariny no lux, na festa da assírio & alvim, com o dedo no ar

uma vez vi o herberto helder a tomar uma cerveja nas galegas e não tive coragem de me

aproximar, como moisés da sarça ardente

uma vez vi o manuel da silva ramos a fugir duma manifestação, a dizer que era surrealista

certa vez vi o meu pai na curva da estrada, a perder o juízo

uma vez vi o antónio barahona a beijar a testa do defunto gil de carvalho, como mandam as

religiões do livro

uma vez acenei para o alexandre vargas do outro lado da rua, frente à casa da índia, e ele não

me devolveu o cumprimento

uma vez bebi um vermute com o eduíno de jesus, o pedro ivo e a maria joão ruivo

uma vez vi o meu avô, que era marceneiro homossexual em angra do heroísmo, a cozinhar-me

uma faca

uma vez ouvi o eduardo lourenço em aix-en-provence a queixar-se do ressonar da cunhada

uma vez fingi que não conhecia o manuel cintra

uma vez ouvi joaquim manuel magalhães contar uma anedota sobre a mulher a dias do

eugénio de andrade

a primeira vez que vi o antónio cândido franco ele estava de calções, como um rapazola da

mocidade portuguesa

a primeira vez que vi o cruzeiro seixas ficou espantado quando lhe disse que o sobrinho do

pascoaes era jeitoso

o fernando grade pôs-me uma vez no seu “livro do cão” por não ter dinheiro para lhe pagar a

revista que me estava a impingir

uma vez vi a minha mãe envolvida numa massa de sombras, torcidas e tremidas

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