A peça de Margarida Vila-Nova

Por Gonçalo Alvim

O monólogo “À primeira vista”, protagonizado por Margarida Vila Nova e encenado por Tiago Guedes, esteve em exibição este Sábado, 14 de Março, no Centro Cultural de Macau. Tive a oportunidade de assistir e, tal como a generalidade do público presente, gostei da interpretação e do enredo, adaptado da obra de Suzie Miller. No final da peça houve uma conversa com a actriz e o encenador, tendo o público sido desafiado a colocar as suas questões. E assim pudemos perceber diferentes opiniões, questões que o tema levanta, e o que pensam os protagonistas sobre a mensagem transmitida.

Para quem não tenha visto, a peça versa o tema do abuso sexual de mulheres, relatando a história ficcionada de uma advogada criminal, a Teresa, que tendo defendido com sucesso presumíveis agressores sexuais, acaba por ser ela própria agredida sexualmente por um colega, numa relação que começara em acaso e consentimento e acaba em violação não consentida. Teresa, embora percebendo a fragilidade jurídica do seu caso, decide corajosamente levá-lo a tribunal, mas não é bem-sucedida nos seus intentos e o colega sai ilibado.

A peça não pretende trazer soluções imediatas, limita-se mostrar, de dois ângulos distintos, o drama vivido por vítimas de abuso sexual. Com efeito, é feita a contraposição entre a segurança de quem sabe jogar com o sistema jurídico vigente –Teresa enquanto advogada criminal –, com as fragilidades de quem se vê no papel da vítima – Teresa depois de ter sido abusada sexualmente.

Embora o sentimento geral na sala tenha sido de aprovação, e tenha mesmo havido uma sugestão de adaptação da peça às escolas com o intuito de sensibilizar os mais novos para o problema das relações não consentidas, parece-me que a peça comporta, por um lado, alguns perigos para a sociedade – sobretudo para os mais novos; e, por outro, merece reflexões importantes que não foram aventadas. Como disseram os protagonistas, a finalidade da peça passa muito por levantar questões e suscitar reflexões, não por dar as soluções. E é isso que vou procurar fazer.

Entre os riscos que vejo na peça, está a exposição dos limites do sistema jurídico, onde casos como este, sobretudo quando bem orientados pela defesa do arguido, levam normalmente à absolvição. A vincar este aspecto temos a actuação de Teresa na absolvição de clientes seus, expondo-nos com cinismo as fragilidades da Justiça e as naturais incoerências das vítimas que passaram por situações de violação; e há depois o seu próprio caso, onde, apesar da sua experiência e conhecimento da legislação, não consegue apresentar provas irrefutáveis, cai em incoerências e acaba por não conseguir a condenação de Francisco. E assim, após mais de dois anos de sofrimento com o caso, vê-se vítima do sistema que usava e sai emocionalmente destruída do Tribunal.

Alguns dos presentes no público sugeriram que o caminho deveria passar pela alteração de alguma da jurisdição, mas a verdade é que isso é muito difícil de levar à prática e comporta riscos – dado o sistema vigente de presunção de inocência até prova em contrário. E assim, esta divulgação das imperfeições do sistema jurídico, sem solução à vista, corre o risco de trazer, por um lado, uma desconfiança na Justiça por parte das vítimas, que concluem não valer a pena levar para a frente as acusações; e, por outro, um sentimento de impunidade por parte de eventuais violadores, percebendo agora que se fizerem as coisas de uma determinada maneira, sem provas evidentes, não sofrerão consequências. O ónus da prova cabe à vítima e eles nem sequer têm de depor em Tribunal.

Outro aspecto preocupante para mim, enquanto pai, é a insegurança transmitida às raparigas em relação aos rapazes, assim como o sentimento de impotência dos rapazes em contrariar esta desconfiança lançada sobre si. No limite, isto poderia levar à criação de muros entre si, não de relações de confiança que a sociedade precisa para crescer. A protagonista da peça refere mesmo que um em cada três homens comete, ou terá cometido, abusos sexuais, o que me fez olhar em volta e estimar que, se assim fosse, naquela sala haveria várias dezenas de homens nessa situação.

A peça não pretende dar soluções, como Tiago Guedes sublinhou na conversa, mas apenas levantar o véu sobre um problema que persiste na sociedade. Para além de ter sido bem interpretada, a história está bem conseguida e bem montada, evidenciando dois aspectos que não foram mencionados pelo público mas que devem estar no centro de uma conversa com jovens sobre o tema.

O primeiro tem a ver com a construção de relações. Teresa mal conhecia Francisco, apenas sabia que ele era de um meio social mais privilegiado que o seu e concluíra, pelos casos jurídicos que ele tinha defendido, que teria um futuro promissor. No entanto, talvez com alguma ambição de permeio, deixou precipitar as coisas de uma forma muito rápida, entrando assim naquele limbo de não saber bem que tipo de relação tinham, mas sem que isso a levasse a recuar, deixando a relação correr sem norte. Isto faz parte de alguma tendência em procurar a gratificação no imediato, em detrimento de uma relação mais sólida, que exige tempo e espaço de discernimento. Na peça, a mãe da Teresa assistiu em Tribunal à exposição desse vertiginoso desenvolvimento da relação dos dois, e aparentemente terá permanecido impávida. Percebemos que deve ter sofrido, porque não é isto que uma mãe pretende para a filha.

O segundo aspecto com importância na compreensão da história, e que está directamente relacionado com o primeiro, foi o consumo excessivo de álcool por parte de Teresa e Francisco em diferentes ocasiões, o que terá contribuído para a precipitação dos acontecimentos que se desenrolaram. Como sabemos, o álcool desinibe, baixa-nos as defesas e, em excesso, pode mesmo alterar-nos de uma forma irreconhecível. Francisco, que inicialmente é apresentado como um pouco tímido, envolveu-se com Teresa no escritório após consumirem bebidas alcoólicas em demasia; depois, durante o acto não consentido, estariam os dois bastante embriagados. Não importa aqui discutir se esse facto atenua a gravidade do que aconteceu, mas alertar, sobretudo os mais jovens, para os perigos envolvidos quando se abusa no consumo de álcool. Beber em demasia leva a situações que ultrapassam a capacidade de controlo de quem bebe, e esse facto deve ser tido em conta não apenas quando bebemos, mas também quando outros que estejam connosco tenham bebido. A situação pode fugir ao nosso controle e convém estarmos alertados.

Concluindo, gostei muito da peça mas fiquei aliviado de os meus filhos não terem ido. Se isso tivesse acontecido, sei que teria depois de ter com eles longas conversas para enquadrar o que tinham assistido e desvalorizar o que estava a ser insinuado. E quando no final a protagonista, de forma bastante directa, sugeriu que olhássemos para a esquerda e para a direita, no pressuposto matemático de que alguém ao nosso lado teria estado envolvido num acto sexual não consentido, asseguro que olhei com atenção para ver se alguém o fazia. Ninguém o fez. Concluí que, em geral, os que assistiram à peça confiam uns nos outros. Nem tudo está perdido.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários