O olhar erótico dos Jogos Olímpicos

Se dependesse apenas das medalhas, os Jogos Olímpicos seriam um espectáculo de atenção mediática média. Mas basta abrir as redes sociais durante os Jogos Olímpicos de inverno em Milão para perceber que há outras narrativas de interesse. Há uma curiosidade clara sobre quem são estes atletas, os seus dramas, os seus limites, e as suas aventuras sexuais. Estas narrativas revelam algo: não é que os atletas estejam mais sexualmente activos, mas sim que o olhar público é intensamente erotizado.

Comecemos pelo “penisgate”, que correu as agências noticiosas por todo o mundo. Um jornal alemão alegou que atletas de salto de ski poderiam estar a injectar ácido hialurónico no pénis para favorecer uma aerodinâmica vencedora. De repente, estamos todos a olhar para os pénis dos atletas, notando a sua forma e volume. Discutem-se na imprensa sobre os possíveis riscos, que ainda assim poderiam garantir um salto vencedor: garantem-nos os especialistas em aerodinâmica. Mas ninguém sabe da veracidade de tal ideia. Muito se falou sobre os pénis, muito se conjecturou, e a agência antidopagem prometeu investigar. Talvez não seja uma erotização declarada, mas os pénis dos atletas tornaram-se no epicentro da conversa.

Também poderemos falar do mito erótico persistente, este bem mais antigo: o da Aldeia Olímpica como epicentro de actividade sexual desenfreada. Sempre que surgem notícias sobre o rápido esgotamento de preservativos, como já aconteceu em Milão, em três dias, o imaginário reacende-se. A narrativa é simples: jovens reunidos num espaço fechado e por isso estão entregues a uma espécie de festival permanente de desejo.

Colocando os pés numa realidade menos fantasiosa, por mais que queiramos acreditar que os atletas olímpicos estão cheios de tesão a consumir preservativos como se o amanhã não existisse, não podemos perder de perspectiva uma realidade bem menos glamorosa. Em períodos competitivos intensos, é mais provável que os atletas experienciem níveis elevados de stress fisiológico e psicológico. Cortisol alto, rotinas rígidas, privação de sono, foco na performance. Faria mais sentido que para muitas pessoas, o contexto dos jogos olímpicos pudesse diminuir — e não aumentar — a responsividade sexual. O corpo em modo de sobrevivência competitiva nem sempre está em modo de disponibilidade erótica.

Isto não quer dizer que não haja encontros ou intimidade na Aldeia Olímpica. Até mesmo depois de uma grande vitória, em modo de celebração afectiva. A activação fisiológica é tão alta que facilmente poderá ser reinterpretada como excitação emocional ou sexual. São carreiras inteiras condensadas em minutos de prova, emoções amplificadas e proximidade física. Mas a persistência quase folclórica da ideia de uma “orgia olímpica” diz talvez mais sobre a fantasia do público do que sobre o quotidiano dos atletas. Ninguém sabe, ao certo, se os preservativos estão a ser usados – só se andarem a remexer no lixo, e sobre isso não me pronuncio. Ninguém me garante que os preservativos estão simplesmente a ser acumulados para tempos futuros de mais sexo.

Na verdade, o que estas histórias erótico-sexuais parecem revelar é uma tensão. Por um lado, o desporto de alta competição é apresentado como o domínio do controlo e da disciplina. Por outro, o público insiste em reinscrever esses mesmos corpos numa narrativa de excesso ou descontrolo. A verdade é que eles estão imersos num ambiente de intensidade emocional rara.

A linha entre euforia competitiva, alívio pós-prova e abertura ao contacto interpessoal pode, por momentos, tornar-se mais porosa. Mas é importante reconhecer que a cultura digital contemporânea amplifica estes episódios. Uma história repetida mil vezes contribui para solidificar a percepção pública de que a sexualidade é um elemento central da experiência olímpica. Não há nada de errado se assim for — mas tudo indica que trabalhamos mais com projecções do que com realidades situadas. Porque precisamos tanto que o espectáculo olímpico seja também um espectáculo potencialmente erótico?

Claro que o corpo atlético, e o seu lugar simbólico no discurso contemporâneo, tem certamente a sua influência. Num mundo cada vez mais sedentário, mediado por ecrãs e marcado por ansiedade corporal, o atleta olímpico representa uma forma quase mítica de presença. Força, disciplina, juventude e vitalidade.

No fim de contas, episódios como o “penisgate” ou o eterno alarme dos preservativos dizem menos sobre uma suposta libertinagem olímpica e mais sobre o nosso próprio olhar colectivo. Talvez os Jogos nunca tenham sido apenas sobre quem corre mais depressa ou salta mais alto. Talvez tenham sido sempre, também, sobre a forma como olhamos para corpos que parecem ir mais longe do que julgávamos possível — e sobre tudo aquilo que, nesse olhar, escolhemos imaginar.

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