Grande Plano MancheteRota das Letras | Filme de Filipa Queiroz conta história de desalojados da Alta de Coimbra Andreia Sofia Silva - 24 Fev 2026 “Salatinas – Histórias da Velha Alta de Coimbra” traz de novo a Macau a jornalista Filipa Queiroz, juntamente com Rafael Vieira e Tiago Cerveira, co-autores do documentário que integra o cartaz do Rota das Letras. O filme conta a história de como, em pleno Estado Novo, cerca de três mil moradores foram expulsos da Alta de Coimbra para permitir a construção da Cidade Universitária A Cidade Universitária na Alta de Coimbra é um dos pontos turísticos da cidade, oferendo uma paisagem deslumbrante. Porém, apesar da beleza, a história da construção da Cidade Universitária está repleta de sofrimento. No documentário “Salatinas – Histórias da Velha Alta de Coimbra”, Filipa Queiroz, Rafael Vieira e Tiago Cerveira contam a história das pessoas que viviam no local na década de 40 e que se viram subitamente desalojadas e sem um plano B. O filme integra o cartaz do Festival Literário Rota das Letras, que começa no próximo dia 5 de Março. “Esperamos que, em Macau, a história possa ter impacto em toda a gente e em particular nos tantos conimbricenses que sabemos que residem no território”, contou ao HM Filipa Queiroz, que viveu vários anos em Macau, tendo sido jornalista do HM e da TDM – Teledifusão de Macau. Está feliz por voltar e por revelar esta história desconhecida para muitos. E deixa os maiores elogios a um festival que viu nascer, há 15 anos. “Acho a programação desta edição do Rota das Letras particularmente corajosa e relevante tendo em conta os contextos de Portugal, de Macau e do mundo neste momento. Fazemos por apresentar o filme onde faz sentido e é precisamente este o caso. É um filme sobre pessoas, mas também sobre poder, resistência, identidade e o preço do progresso – temas que Macau conhece tão bem”, destacou. Filipa Queiroz teve contacto com a história destas pessoas através de uma reportagem. “O Rafael Vieira colaborava comigo como jornalista, pois dirigia uma publicação em Coimbra [Coimbra Coolectiva] e disse-me que havia ali uma história [interessante], e que queria contar histórias fora da caixa, mais invisíveis, digamos assim.” Nasceu assim o “Salatinas”, em referência ao nome dado às gentes que viviam na Alta de Coimbra, onde já havia as faculdades de Letras, Direito e a biblioteca. Porém, o Estado Novo desalojou estas pessoas para fazer as construções actualmente existentes. Foram três mil pessoas que deixaram as suas casas, sendo esta “uma das maiores transformações urbanísticas em Portugal, num tempo em que desalojamentos forçados, falta de acesso à habitação e segregação social ainda fazem manchetes”, descreve a sinopse do documentário. “Salatinas” é, portanto, “uma viagem à memória do bairro histórico varrido do mapa sob o ímpeto renovador do regime e ao burburinho de estudantes, tricanas, merceeiros e alfaiates que se esconde por baixo das faculdades”, acrescenta a mesma sinopse. Sair depressa “O que aconteceu foi uma vontade do Governo daquela altura”, diz Filipa Queiroz, para explicar como uma decisão política mudou a vida a tanta gente. “A Universidade de Coimbra andou entre Lisboa e Coimbra durante muitos anos, mas depois ficou instalada em Coimbra e era a única do país, onde estavam os cérebros do país, a elite. Houve então a decisão de que a universidade precisava de crescer e tinha de ser ali. O próprio Salazar tinha estudado ali [Faculdade de Direito], além de que havia um hospital. Não se tratou de uma requalificação, mas destruíram mesmo o que havia para construir por cima.” O que se seguiu foi uma profunda transformação nas famílias da zona. Muitos nunca recuperaram completamente. “Quando começou a destruição, basicamente o Governo avisou as pessoas que lá moravam de que tinham todas de sair dali. Deram valores às casas [para indemnizações], completamente desproporcionais e muito inferiores ao valor das casas”. “Há uma pessoa que mencionamos no filme que fazia parte do círculo de Salazar, era médica e uma pessoa ilustre, e conseguiu que a sua casa fosse das últimas a ser retirada, mas mesmo assim foi [desalojada]. Quanto mais pobres e humildes eram as pessoas, mais rapidamente tiveram de sair, com uma mão à frente, outra atrás. Estas pessoas foram atiradas para bairros da cidade, que nem podemos chamar de bairros, porque foi algo improvisado na altura”, conta a co-autora do documentário. Falamos de zonas com casas “frágeis”. Porém, a precariedade da habitação já vinha de trás. “Foram construídas casinhas que não tinham uma qualidade incrível, mas já as casas na Alta de Coimbra também não tinham, muitas delas. Não havia saneamento básico, aquilo precisava de ser requalificado.” Uma “identidade própria” Filipa Queiroz destaca como “a solução foi acabar com tudo, não se valorizando o facto de ser um bairro, e com uma identidade própria, e esta é a questão principal”. O bairro era o Salatina. “Salatinas são as pessoas que trabalhavam ou viviam na Alta da cidade, ou que tinham nascido ali, e que se cruzavam diariamente com a elite estudantil. Essa diversidade tinha uma riqueza muito grande, que acabou por ter efeitos no aspecto cultural, na música, por exemplo”. Coimbra é terra associada a nomes da música portuguesa, sobretudo de intervenção, como Zeca Afonso e Carlos Paredes, e por entre os “doutores” havia também “os futricas”, ou seja, “as pessoas do povo de Coimbra, mas desses nunca mais ninguém se lembrou”. Filipa Queiroz destaca que “muita gente, inclusive de Coimbra, não sabe o que se passou ali”. “Havia ali uma cidade, uma malha urbana muito concentrada e cheia de gente e de vida, com as fogueiras de São João, eventos culturais, tudo coisas muito identitárias.” Tudo coisas destruídas com a requalificação e expansão da Cidade Universitária. Filipa Queiroz destaca que nos dias de hoje, e apesar das vivências universitárias, a Alta da cidade deixou de ter a dinâmica que tinha. “Tem aquela arquitectura austera e à noite, não se passa nada.” “Salatinas” deu voz a um tema pouco falado. “As pessoas estão muito emocionadas e sentem-se muito valorizadas. Tivemos pessoas que foram à estreia [em Coimbra, na zona da Alta] e que nos disseram: ‘Parece que houve aqui uma reparação’. Isto provocou, inclusivamente, a morte de algumas pessoas, porque se suicidaram com o desgosto, porque tiveram de deixar o sítio onde construíram o seu negócio e a sua vida”. Filipa Queiroz agradece ainda a Ricardo Pinto, director do Rota das Letras, pelo convite feito. “Convidou-nos sabendo apenas a ideia do filme. Isto vai permitir levar os meus colegas a conhecerem, pela primeira vez, este sítio, Macau, que é tão especial para mim.” Filipa Queiroz quer continuar a contar histórias através de imagens. Tendo feito documentários ligados a Macau, como “Boat People” e “Era uma Vez em Ka-Hó”, a ideia é continuar num género audiovisual tão próximo do jornalismo. “O documentarismo acrescenta uma camada artística e um tempo que o jornalismo não permite. Sim, gostava de fazer [mais documentários], isso está sempre no meu horizonte. Há sempre desafios, com o financiamento dos trabalhos e o tempo que se pode dedicar a eles, mas sem dúvida que sim, gostava de continuar.”