VozesMia Soave!… Amélia Vieira - 14 Jan 2026 Poemas há que precisamos deles de forma total. Quem não sabe lembrar nenhum em tempos especiais e adaptá-lo à sua situação padece de um recurso que não é passível de ser substituído por nenhuma outra competência. Sem poema aprendido estamos despojados de humanidade perante os bravios golpes do destino, a nossa composição neuronal não tem ligações e tudo se desalinha de forma imprecisa. Nós estamos no estertor olhando a morte daqueles que vimos nascer, a nossa dor imensa não necessita de psicólogos, padres, mentores, gurus, só necessitamos de algo que venha em nossa direção e que possamos agradecer aos céus por termos tido dela conhecimento. O poema. Na madrugada agonizante um poema se solta como ave bem-dita na despedida:« – Mia Suave..- Ave?! … Almeia?!… Mariposa Azul… Transe!… » e assim dissemos adeus na fronteira entre morte e vida onde o som do poema ressoava na noite telepática «Não dói por Ti Meu Peito…/ Mia Soave…- Ave! – Almeia!…» E a alma lustral ainda em ferida foi capaz de soletrar canções dos velhos anjos, e suavizar passagens, contornar o asfalto da falta grave de um amado ser. É um poema de Ângelo de Lima que o dedicou a seus amigos do Orpheu introduzindo uma tal eloquência que somente em situações sagradas o lembramos, mas são as coisas que nos lembram e se cruzam no efeito certo dos propósitos, e grande é o poeta que nos abençoa e encaminha em momentos tão derradeiros. Poderemos dizer: que poema é este? É um poema. Parece um poema concreto feito de significados aleatórios que visam quebrar a monotonia das frases feitas do sentir, da sua métrica sequencial, do seu propósito canónico, e por isso estar distante e esquecido do terreiro das coisas dadas nesta matéria, que por outro lado é o mais belo poema da língua portuguesa do século vinte sem apelo nem anotação no marasmo das descrições de todo o género que não chegam a bálsamo nos instantes vitais. É com um misto de surpresa e encantamento que uma coisa assim nos acontece, é uma iniciação. Ângelo de Lima foi barbaramente assassinado nos corredores das psicanálises e pareceres psiquiátricos de então, a sua obra nem chegou a ganhar fôlego nas correntes literárias, mas quando nos visita, tudo muda. «– Do Ocaso pela Epopeia… Dorto… Stringe… O Corpo Elance… Vai À Campa… – Il C´or descanse…- Mia Soave… – Ave!… – Almeia!…» Este poema está cheio de luz e de lágrimas, só quem o conhece é por ele visitado na hora grave de uma despedida. Ele canta mais do que soletra, ele é mais poema que coisa escrita, ele afaga, enobrece e enaltece, e quando tudo se turva de amor desfeito ele dá-nos ainda o bálsamo dos grandes mistérios. Mia Soave, meu Amor « – Não dói Por Ti Meu Peito…/ Não Choro no Orar Ciclo…/ Em Profano…- Edd´ora…Eleito!…» A madrugada ia avançando, a lua alta estava, e um poema visitava a curva da despedida como um cântico de amor e morte, mas surpreendentemente numa esperança futura que não sabe ainda onde irá de novo nascer. Um mantra assim pode levar-nos a pensar que o sopro que dali vem salva a nossa alma para sempre, dando àquela que parte uma dimensão até então desconhecida, e aos que ficam a certeza que só a grande, grande poesia, salva os seres e os distingue. E este é um grande poema. Transfigurador, milagroso, belíssimo. O que vem dizer sequencialmente é um desafio. Que nada diz coisa nenhuma se a palavra não tiver a dimensão que aqui nos traz.