As Flores Que Nasciam do Som da Flauta de Han Xiangzi

Li Bai (701-762), o poeta cuja intuição lhe permitia nomear fugidios pensamentos até então apenas pressentidos, acabaria por despertar a atenção do esclarecido imperador Xuanzong (r.712-756) que logo o chamou à corte para dar nome aos seus próprios desejos e intenções.

Mas seria uma tarefa insensata obrigar o homem que via mais longe e parecia ter vindo de longe – o mais velho poeta He Zhizhang chamou-lhe «um imortal exilado do Céu», a ser apenas um jogral, animador da corte, por muito refinada e acolhedora que esta fosse; conta-se que logo ao chegar cerca de 742, o imperador ofereceu um grande banquete e pessoalmente lhe temperou a sopa. Mais tarde, o poeta reflectiria: «Como poderia franzir as sobrancelhas e dobrar a cintura aos homens do poder, só para me tornar incapaz de mostrar uma cara feliz se o coração é infeliz?»

E cerca de dois anos depois foi-se embora para conhecer outros, porventura mais inquietantes desafios; «Tantas encruzilhadas à frente, onde será a minha certa morada? E no entanto sei que virá um tempo em que rijos ventos penetrarão a espuma da rebentação, então desfraldarei velas brancas como nuvens para atravessar a espuma imensa.»

O gesto de sair da ordem e da comodidade da corte repetia o de outros desiludidos poetas como aquele que Li Bai muito admirou chamado Meng Haoran (689/91-740) sobre quem escreveu: «Como se pode verdadeiramente medir uma tão alta montanha? Fico aqui em baixo, numa vénia vã à sua pura fragrância». E pintores literatos evocariam as suas reconhecíveis figuras que logo remetem para as suas palavras.

Assim o fez muitos anos depois, um pintor que leal e cordatamente serviu três imperadores. O seu nome é associado a outros pintores em grandes projectos como o rolo narrativo Ao longo do rio durante o Qingming (versão da corte) ou a minuciosa figuração da recém-renovada Academia Hanlin. Porém noutras pinturas, em formato mais reduzido mostra o que, fora dos deveres oficiais, ocupava a imaginação de um pintor literato na corte dos Qing.

Jin Kun (activo entre 1717-1749) no rolo vertical Cavalgando sob ameixieiras (111 x 56 cm, à venda em Altprice.com) evoca esses literatos que como Meng Haoran, foram enfrentar as adversidades dos caminhos solitários achando as flores que os espelhavam despontando no mais rigoroso Inverno.

Noutro rolo vertical (tinta e cor sobre seda, 94,5 x 51 cm, à venda em SoWAs.com) uma figura de pé, as vestes de literato ondulando ao vento, preso ao chapéu um ramo com as brancas flores de ameixieira que se notam também junto à cabaça na cintura, que com o cesto às costas denotam um viandante. Está a tocar a flauta dizi, o emblema de Han Xiangzi, que para provar ao seu tio-avô, o poeta Han Yu que também seguiria o caminho das pedras, que era um imortal fez brotar do nada, flores, de cujas pétalas nasciam poemas.

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