Livro | Joaquim Magalhães de Castro lança “Bengala e o Reino do Dragão”

Acaba de ser editado o livro “Bengala e o Reino do Dragão – Façanhas Portuguesas no Delta do Ganges e nos Himalaias”, de Joaquim Magalhães de Castro, cronista e viajante que viveu em Macau. O livro revive o percurso que os padres jesuítas Estevão Cancela e João Cabral fizeram pelos Himalaias, no século XVII, em busca de um sítio chamado “Cataio”, nome alternativo para a China

Há muito que Joaquim Magalhães de Castro se dedica a vaguear pela Ásia em busca dos seus segredos, com particular incidência sobre as missões dos jesuítas portugueses e a presença histórica dos portugueses no continente. Depois do documentário “No Reino do Dragão”, exibido em 2022 na RTP, o autor e cronista resolveu editar um livro que nasce desse projecto audiovisual e que conta as aventuras dos jesuítas Estevão Cacela e João Cabral rumo ao Tibete Central, no século XVII, e que incluiu uma longa estadia no recém-criado Butão, no coração dos Himalaias. “Bengala e o Reino do Dragão – Façanhas Portuguesas no Delta do Ganges e nos Himalaias” é o nome dado à obra apresentada recentemente na Feira do Livro do Porto, e que tem a chancela da Lema D’Origem.

Estevão Cacela e João Cabral estiveram na missão jesuíta de Cochim e foram para Goa, no então Estado português da Índia. Saíram em 1626 do Golfo de Bengala para o Butão, onde chegaram em Fevereiro de 1627 e onde permaneceram largos meses.

O objectivo, porém, era chegar ao Tibete Central e a um lugar chamado “Cataio”, ou seja, à China. Segundo o prólogo do livro, antes da chegada ao Tibete era preciso desbravar “as montanhas do reino do Butão, tarefa que não se adivinhava nada fácil”. Oito meses depois, e “após duas sofridas viagens – intercaladas por uma longa e privilegiada permanência no reino butanês –, Cacela atingiria Xigatsé”. Por sua vez, João Cabral chegaria a esse lugar uns meses depois, onde os dois criaram uma missão jesuíta.

Ao HM, Joaquim Magalhães de Castro conta como este livro é fruto da viagem realizada há exactamente dez anos para a produção do documentário para a RTP. “Queria contar o resto da história das viagens dos jesuítas ao Tibete. Os padres João Cabral e Estevão Cacela foram os primeiros ocidentais a conhecer o Butão via Bengala, e nessa viagem que fizemos para o documentário passámos pelo Bangladesh, Bengala e Butão, seguindo mais ou menos o trajecto que os padres fizeram no início do século XVII.”

Lançar este livro revelou-se importante dado que em 2026 celebram-se os 400 anos do início desta viagem. Dos oito meses que passaram no Butão, grande parte foram marcados por difíceis viagens a pé, em condições muito precárias, das quais restaram alguns escritos. “A chegada deles [dos dois padres jesuítas] coincide com a formação do Estado do Butão, que antes não existia nessa condição. Na primeira parte do livro falo dessa história”, explicou o autor.

Joaquim Magalhães de Castro também se debruça “nas comunidades de católicos que vivem naquela zona de Bengala”, onde “há muita gente que se assume como tendo origem portuguesa, tendo ou não sangue português, e que têm apelidos portugueses”.

Uma série de peripécias

Por norma, naqueles anos, os jesuítas exploravam aquela parte do mundo pela Índia, “através das montanhas dos Himalaias”. Tratava-se de um percurso “cheio de peripécias, aventuras e dificuldades”, sendo que a primeira passava por tentar passar despercebido. “Eles iam sempre disfarçados de mercadores muçulmanos, por exemplo. A certa altura, disfarçavam-se de soldados, usavam todos os meios que tinham ao seu alcance para atingir o objectivo que queriam, que era chegar ao Tibete.”

Além disso, a dupla de padres levava mercadorias para possíveis transacções, e “presentes que serviam como moedas de troca para favores”. “Agora existem fronteiras, mas na altura era mais complicado, e havia ainda muitos ladrões e uma série de dificuldades no trajecto em si. Logo em Daca [actual capital do Bangladesh], houve uma rebelião e eles foram praticamente linchados, tendo de se esconder em cima de uma casa com a ajuda de alguém. Conseguiram afastar-se, mas a aventura poderia ter terminado logo ali”, acrescentou.

Estevão Cacela e João Cabral foram avançando entre autorizações de reis para atravessar território. Havia ainda “a questão das doenças, e um deles contraiu uma, talvez malária, e teve quase às portas da morte, tudo isto antes de chegar ao Butão”.

Chegados a este país nos Himalaias, o monarca foi “previamente informado de que havia estrangeiros nas suas terras” e acabou por mandar “enviados especiais para saber o que é que eles [padres jesuítas] queriam, se traziam presentes”.

O livro conta também “imensas histórias interessantes” que Estevão Cacela e João Cabral deixaram até chegar ao Tibete Central. “De certa maneira enganaram o próprio rei, que os tinha como hóspedes, mas, ao mesmo tempo, prisioneiros. Eles [autoridades asiáticas] gostavam de ter estrangeiros, pois eram pessoas exóticas e com conhecimento, cultas.”

Joaquim Magalhães de Castro realça a permanência de estrangeiros sob uma ténue vigilância mediante um acordo tácito, uma espécie de moeda de troca. “Havia a questão da curiosidade, e depois claro que os portugueses tinham o objectivo de envangelizar [as populações].”

Sinais que perduram

O autor de “Bengala e o Reino do Dragão – Façanhas Portuguesas no Delta do Ganges e nos Himalaias” adiantou que ainda hoje, nas escolas do Butão, “as crianças aprendem nos manuais escolares quem foi João Cabral e Estevão Cacela como os dois primeiros ocidentais a chegar ao Butão”. “Enquanto que, no Tibete, a memória desapareceu completamente, no Butão continua e é ensinado na escola, além de que pessoas com alguma cultura sabem essa história”, acrescentou.

Ao longo dos anos houve registos, “documentos que não foram publicados, que não foram descobertos, ou que se perderam”. Estas viagens feitas pelos jesuítas “eram especiais e únicas, feitas com muitas dificuldades”.

Joaquim Magalhães de Castro já as fez, quer na qualidade de documentarista, quer como guia turístico, e assume: “só podemos sentir um bocadinho do que eles passaram”. “Há zonas em que se sobem as montanhas, uma cada vez mais alta do que outra, com vales e precipícios, coisas incríveis, com uma profundidade… é como multiplicar as nossas montanhas várias vezes. E eles referem isso nos seus diários. Imagine-se fazer isto a pé, sempre com ladrões, a ter de pagar isto e aquilo”, rematou.

De destacar que o par de religiosos aventureiros tiveram relações com Macau, que por esta altura já tinha uma presença jesuíta bem firmada: João Cabral foi vice-reitor do Colégio de São Paulo, a primeira instituição de ensino superior de estilo ocidental na Ásia. A escola foi fundada em 1594 e servia para preparar os missionários jesuítas nas suas missões. Tinha disciplinas como Latim, Teologia, Filosofia, Matemática, Chinês e Japonês, entre outras.

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