Grande Plano Manchete11 de Setembro | Ataque às Torres Gémeas aconteceu há 25 anos Andreia Sofia Silva - 11 Set 2026 A 11 de Setembro de 2001, Jorge Silva tinha acabado de apresentar o telejornal quando se deparou com a catástrofe do outro lado do globo que viria a mudar o mundo. O analista Pedro Ponte e Sousa destaca como a queda das Torres Gémeas alterou “profundamente a ordem internacional” O 11 de Setembro foi há 25 anos e, tantos anos depois, a imagem da queda das Torres Gémeas em Nova Iorque, após o embate de dois aviões desviados por terroristas da Al-Qaeda, ainda permanece na memória vívida. O mundo parou e as televisões permaneceram ligadas a imagens que pareciam ficção, mas que eram terrivelmente reais. Em Macau, Jorge Silva, pivot recentemente aposentado da TDM – Teledifusão de Macau – tinha acabado de apresentar o telejornal, o relógio batia as 21h. “Recordo-me perfeitamente desse dia porque acabei o telejornal como habitualmente, por volta das nove horas, e quando chego à redacção, um colega meu da altura que já não é jornalista, Rui Moura, disse-me: ‘Jorge, vê a televisão porque um avião acaba de bater no World Trade Center’. Por um segundo, perguntei: ‘Isto é no World Trade Center de Macau? O que se passa?’. Liguei a televisão, e percebi que era em Nova Iorque, e era uma coisa medonha. Logo a seguir, outro avião.” Jorge Silva ligou ao pai, que estava em Portugal, perguntando-lhe se estava a ver o horror em directo. “O meu pai respondeu: ‘Isto é a Terceira Guerra Mundial’. Assim mesmo.” A actualidade noticiosa dos anos seguintes foi pautada pelo ataque às Torres Gémeas e os seus protagonistas: Osama Bin Laden, anos mais tarde capturado e morto pelos Estados Unidos da América (EUA), a organização que liderava, a Al-Qaeda, e o terrorismo como alvo a abater. “Pegámos [a TDM] no dia seguinte, porque naquele dia não havia mais nenhum serviço noticioso. Por umas horas ninguém sabia exactamente o que estava a acontecer, mas o nome de Osama Bin Laden já estava a circular. Foi algo inusitado, ninguém imaginaria uma tragédia como essa. Aquilo transformou as nossas vidas e foi matéria noticiosa durante anos.” O crescimento de Pequim Na visão do analista Pedro Ponte e Sousa, investigador do IPRI – Instituto Português de Relações Internacionais e analista político na RTP, “o 11 de Setembro mudou profundamente a ordem internacional, mas talvez de uma forma diferente daquela que Washington imaginou”. Isto porque “os atentados permitiram aos EUA transformar o combate ao terrorismo no princípio organizador da sua política externa durante quase duas décadas. O resultado foi a chamada ‘guerra global contra o terrorismo’, com o Afeganistão, Iraque, Guantánamo, operações extraterritoriais, assassinatos selectivos e uma extraordinária expansão dos poderes de vigilância”. A Guerra no Iraque levou, no entender do analista, a uma “erosão” da ordem internacional. “A invasão do Iraque em 2003, fundada em alegações sobre armas de destruição maciça que se revelaram falsas, o combate ao terrorismo deixou de ser apenas uma política de segurança e tornou-se uma espécie de licença geopolítica para o exercício da força.” Desde então, os EUA “concentraram enormes recursos políticos, militares e financeiros no Médio Oriente e na ‘guerra ao terror'”, enquanto “a China consolidou a sua ascensão económica e estratégica”. Para Pedro Ponte e Sousa, a China tornou-se, nos 20 anos que se seguiram, “numa potência económica global e progressivamente numa potência política, tecnológica e militar. A ‘guerra global contra o terrorismo’, que pretendia consolidar a primazia norte-americana, contribuiu também para criar as condições em que a China pôde reduzir a distância em relação aos EUA”, referiu. Mudanças práticas Jorge Silva recorda o “medo” que pairava por toda a parte e mudanças no dia-a-dia das pessoas, tal como na forma de viajar. “Não podíamos transportar determinados produtos que antes transportávamos na mala de mão e que passaram a ir para o porão. Começou também um maior controlo das transferências bancárias”, graças a suspeitas que, na altura, pairavam sobre financiamentos e o envolvimento de estudantes nos atentados terroristas. O ex-jornalista recorda também como, a seguir ao 11 de Setembro, “começaram pequenos ataques contra alvos ocidentais”. “Aqui na Ásia, na Indonésia, discotecas e restaurantes ocidentais eram alvo de ataques de células ligadas à Al-Qaeda, por parte de terroristas radicais e, sobretudo, anti-Ocidente. Percebemos que o mundo tinha mudado. E mudou para sempre”, frisou. Jorge Silva não tem dúvidas que tudo isso culminou no actual panorama político nos EUA, pautado pela era Trump. “A situação agravou-se nos últimos tempos com Donald Trump, um presidente norte-americano completamente paranoico. Iniciaram-se uma série de aventuras hegemónicas norte-americanas, e não apenas anti-islâmicas, criando-se uma grande agitação no mundo, e estamos a pagar esse preço.” A IA na nova era Pedro Ponte e Sousa diz que a grande conclusão que se deve tirar do 11 de Setembro, e de tudo o que sucedeu nos 25 anos posteriores, é que “não se derrota uma ideologia através da guerra permanente”. “A Al-Qaeda foi profundamente debilitada e o Estado Islâmico perdeu o território que chegou a controlar, mas o terrorismo jihadista não desapareceu. E surgiram novas formas de extremismo, incluindo fenómenos de radicalização online e comunidades violentas sem uma estrutura organizacional clássica.” O analista destaca que hoje existem “redes digitais descentralizadas e com jovens radicalizados através da Internet”. “A grande lição deveria ser que a segurança não pode ser reduzida à dimensão militar. Quando se responde a um fenómeno político, social e ideológico fundamentalmente com bombardeamentos, ocupações e repressão, pode-se destruir organizações concretas, mas não se eliminam necessariamente as condições que alimentam a violência.” O analista não esquece as novas tecnologias, sobretudo a inteligência artificial (IA), e as novas formas de conflito, com o perigo da “utilização da ameaça tecnológica para justificar uma nova expansão dos mecanismos de vigilância e controlo”. “Foi exactamente isso que aconteceu depois de 2001. O medo legítimo do terrorismo foi utilizado para normalizar formas de vigilância que, em circunstâncias normais, seriam politicamente muito mais difíceis de aceitar. Com a IA, esse risco é ainda maior”, rematou. Estudo | Mais de 80% dos americanos lembram-se do ataque às Torres Gémeas Um inquérito realizado entre 24 e 30 de Agosto deste ano pelo Pew Research Center destaca que muitos adultos se recordam perfeitamente do 11 de Setembro e dos pequenos detalhes que povoaram as suas vidas nesse dia. Segundo o centro de estudos, “muitos americanos recordam esse dia com clareza”, já que “83 por cento dos adultos nascidos antes de 2001 – incluindo 93 por cento daqueles que tinham 10 anos, ou mais, na altura – afirmam lembrar-se exactamente onde estavam ou o que estavam a fazer quando ouviram a notícia”. O Pew Research Center destaca como “à medida que os ataques se tornam mais distantes no tempo, a percentagem de adultos americanos que não viveram aquele dia continua a aumentar”, já que “10 por cento dos adultos de hoje nasceram depois de 2001 e só conhecem os ataques através do que aprenderam com outras pessoas”. Além disso, os inquiridos que são hoje adultos, e que têm entre 18 e 24 anos, diz ter ficado a saber do 11 de Setembro pela primeira vez “nas aulas ou através de trabalhos escolares”, representando 60 por cento de todos os participantes. “Uma percentagem menor afirma ter tomado conhecimento dos ataques pela primeira vez através da família ou de amigos, 16 por cento; ao ler ou ver algo por conta própria, 8 por cento; ou de outra forma, 1 por cento.” Para a realização do inquérito, o Pew Research Center entrevistou 5.166 adultos norte-americanos. O inquérito comprova como o ataque às Torres Gémeas deixou “efeitos profundos no país”. “As sondagens realizadas na sequência desses acontecimentos revelaram um sentimento generalizado de medo, raiva e tristeza, a par de um apoio esmagador da opinião pública a uma acção militar contra os responsáveis”, indica o think tank.