Elogios da Passagem do Tempo

Ashikaga Yoshimasa (1435-1490), o shogun de Quioto entre 1449-73, de acordo com a lenda, teria quebrado acidentalmente uma preciosa e estimada taça para chá de porcelana que viera da China e porque não a queria perder enviou-a de volta à origem para ser, mesmo assim, reparada e poder continuar a usufruir da sua beleza.

Quando a peça de porcelana voltou, porém, o samurai não ficou satisfeito e encomendou a artesãos locais uma nova reconstrução da taça. E desta vez, com as linhas de junção dos pedaços partidos sublinhados com uma mistura de laca e pó de ouro, o poderoso governante aceitou por fim a reparação.

É a história que a tradição utiliza para contar a origem da expressão japonesa kintsugi, a «reparação a ouro», parte da filosofia wabi-sabi, palavras que apontam à «simplicidade rústica» e à «beleza reconhecida pela passagem do tempo». Que é enquadrada na enunciação sanfayin do budismo chan, os «três carimbos do dharma», usados para verificar se um ensinamento ou experiência é de facto budista no seu entendimento da natureza da realidade e que falam da impermanência, do sofrimento e da ausência da auto-natureza.

No entanto, no relato sobre o shogun esteta, que muito valorizou o wabi-sabi, está a indicação de que, de modo mais humilde e engenhoso, o elogio da imperfeição fazia há muito parte da vida doméstica chinesa.

Uma vontade de reparar objectos de porcelana partidos que sublinhava a passagem do tempo. Designada juci pode vêr-se por exemplo na pintura da dinastia Song, Subindo o rio na altura do Qingming. Nela se notam artesãos itinerantes balançando uma vara sobre os ombros (biandan), numa ponta a caixa de ferramentas, na outra um banco ou o forno onde eram moldados os pequenos agrafos de metal usados para unir dois pedaços sem perfurar a parede dos objectos.

A preservação das marcas da passagem do tempo já fora notória e admiravelmente referida num poema da esposa imperial Feng Xiaolian (-581?) que dedilhando a pipa, o instrumento musical cordofóne com caixa em forma de pêra, escreveu: «Se quiseres saber de que forma está o meu coração partido, repara como está emendada com cola esta corda de seda».

Ren Xun (1835-93) um pintor de Xiaoshan (Zhejiang) recordou numa pintura (leque dobravél montado numa folha dourada, tinta e cor, 25,4 x 54,6 cm, no Museu de arte Samuel Harn da Universidade da Flórida) uma outra tocadora de pipa, protagonista de um famoso poema (Pipa xing) de 816 de Bai Juyi. Evocado em muitas pinturas o poema refere um inolvidável encontro num porto de rio, e nelas a tocadora surge geralmente sentada numa embarcação emergindo dos juncos. Nesta pintura, ao contrário, ela está de pé e a sua timidez revela-se no ligeiro voltar de cabeça para o poeta que, também de pé à sua frente se curva, chorando, perante tantas memórias da passagem do tempo que lhe trouxe a tocadora de pipa.

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