Cristina Branco, fadista: “Acho importante que as pessoas percebam aquilo que somos, como portugueses”

Da sua voz as canções corajosas de Zeca Afonso ganharam nova roupagem, mas Cristina Branco também assume o Fado, canção tradicional portuguesa, como sendo sua. Vem à China pela primeira vez em trabalho na próxima semana, no âmbito do Festival Internacional do Fado, com concertos em Pequim, Xangai e Zhuhai

Primeira vez com um concerto em Zhuhai. Quais as expectativas para esta edição do Festival Internacional do Fado?

Não é a primeira vez que estou na China, mas é a primeira vez que vou em trabalho e que actuo neste território. Diria que as expectativas são bastante elevadas, e por várias razões: é um público muito diferente do público ocidental e estou muito curiosa em perceber como a nossa música é recebida neste ambiente. Há de facto uma diferença muito grande entre a forma como a minha música é representada e aquilo a que o público chinês poderá estar habituado. Óbvio que vai ser uma coisa extremamente exótica. Temos sempre aquela perspectiva do contrário, de que aquele território é que é exótico, mas, neste caso, seremos nós os exóticos. Tudo isso me desperta uma enorme curiosidade. Em relação ao festival, é sempre um feito quando um festival de Fado chega a territórios tão distantes, porque é uma forma de mostrarmos a nossa música e de darmos a conhecer a nossa língua, e também de nos aproximarmos de uma cultura tão diferente da nossa.

No ano passado lançou “Mulheres de Abril”, álbum novamente focado no universo do Zeca Afonso, que já tinha explorado com “Abril”, em 2007. Porquê voltar? Faltava explorar o universo feminino de Zeca Afonso?

Quero destacar que nos espectáculos na China não vamos levar o “Mulheres de Abril”, mas sim o disco “Mãe”, que é de fado tradicional com arranjos contemporâneos. É, portanto, uma formação musical diferente, com piano, contrabaixo e guitarra portuguesa. “Mulheres de Abril” é uma formação mais de jazz, numa linguagem completamente diferente. Mas o “Mulheres de Abril” é um disco que fala das mulheres que, de alguma forma, estão presentes no repertório do Zeca. Quando fiz “Abril” tinham ficado imensas canções de fora que não conseguimos gravar, e mesmo depois de gravar “Mulheres de Abril” fica imensa coisa por fazer. Achei este momento pertinente para gravar algumas das mulheres do repertório do Zeca, porque, de alguma forma, elas estão presentes, mas são invisíveis. Isso representa um pouco da forma como a mulher estava na sociedade portuguesa antes e mesmo após o 25 de Abril. O que o Zeca apresenta destas mulheres é a sua combatividade, mas também a forma matriarcal em relação à sociedade portuguesa de antes do 25 de Abril. Achei que fazia sentido voltar a pegar nas mulheres de Zeca porque é por demais evidente a importância do momento que vivemos no nosso país, em que temos de falar da mulher e perceber em que ponto estamos, e para onde queremos ir. É chocante como se consegue regredir ou, pelo menos, não evoluir. Como é que passam 50 anos e estamos exactamente no mesmo sítio, ou que temos para fazer para passarmos a ser iguais [aos homens]? A questão não é querer ser melhor ou mais, mas apenas sermos iguais. As mulheres do “Mulheres de Abril” combatem e precisam ser vistas, faladas, saírem da sombra e ganhar voz.

Colocou também nesse disco o poema “Endechas a Bárbara Escrava”, de Camões. Representa, portanto, essa mulher submissa de outros tempos.

Exactamente. É uma negra, e aqui temos o problema da xenofobia, do racismo, e de como há um homem que se apaixona por uma mulher negra que, ainda por cima, é escrava. Imagine-se a questão que isto coloca. Curioso como o Zeca pega numa coisa que não tem nada a ver, porque podemos imaginar que não é do mesmo tempo, mas, infelizmente, é a mesma realidade, pois passam muitos anos e parece que está tudo no mesmo sítio.

Voltamos ao “Mãe”. É um disco de 2023, fale-me desse projecto e de como trabalhou estas canções para levar aos concertos na China.

No concerto não está, claro, apenas o disco “Mãe”. Falar do “Mãe” é, para mim, algo muito grato por várias razões. A primeira é porque é um disco de fado tradicional, com arranjos contemporâneos feitos pelos músicos que vão estar comigo [nos concertos na China], e que estão comigo sempre: Bernardo Couto na guitarra portuguesa, Bernardo Moreira no contrabaixo, e Luís Figueiredo no piano. Eles assumem os arranjos e produção desse disco. Então pensámos pegar em fados tradicionais, agarrar na linguagem que criamos nos 15 anos que temos de trabalho conjunto, e que é muito pessoal, muito Cristina Branco, e alinhar com o fado tradicional. Portanto, o que as pessoas vão ouvir é uma linguagem contemporânea sem perder a raiz, porque a voz canta sempre o fado exactamente como ele é. Depois, nesse disco, cada um de nós assina uma música, e é algo que me deixa muito feliz, porque foi a primeira vez e, provavelmente, a última, que fiz uma música. Foi muito gratificante perceber que era uma música que andava, há muito, a tamborilar na minha cabeça, que eu assobiava imensas vezes. De repente pedi a um dos meus filhos para a gravar, cheia de vergonha, cheguei aos músicos e perguntei: “Vocês acham que isto dá um Fado?”. Deu um Fado. Portanto, há Fado na minha cabeça, além da minha voz, e isso alegra-me profundamente.

Voltando ao espectáculo, disse que não será só sobre o “Mãe”. Que outras músicas irá apresentar?

O concerto andará todo à volta do universo tradicional do Fado, mas levamos os nossos arranjos, a nossa linguagem. As pessoas vão identificar-se com o Fado, e vou contar sempre uma história em torno deles, que é também a história do nosso país e povo. Acho importante que não seja só música e que as pessoas percebam um pouco aquilo que nós somos, como portugueses e como país. São os fados mais antigos, onde imprimimos o nosso cunho muito pessoal. Portanto, não será apenas um concerto de Fado, mas também de Fado, que é a linha condutora de tudo e está sempre presente, mas da qual saíamos porque temos uma linguagem que é, de alguma forma, paralela, porque dois músicos que me acompanham vêm do jazz. Esta junção de linguagens fez o que é hoje a matriz da música de Cristina Branco.

Pergunto então se se considera cem por cento fadista, ou cem por cento intérprete.

Sou cem por cento fadista quando canto Fado. Mas é óbvio que, sendo a minha voz bastante camaleónica, de alguma forma, por ser chamada para fazer coisas diferentes, consigo ir a outros universos com muita facilidade. Mas não sou outra coisa senão fadista.

Mas gosta de deambular pelo trabalho de outros compositores e intérpretes.

Preciso disso, não consigo imaginar a minha música estanque. Nada é fechado e tudo tem abertura e um paralelo com outras coisas. Só assim se evolui, não como cantor, mas como ser humano. Este é o meu trabalho e é uma paixão enorme, mas só acredito na sua evolução desta forma abrangente. Claro que venho do Fado e é isso que me apaixonou inicialmente, mas acredito que a música sofre influências musicais, sociais e políticas. Tudo isso entra para dentro da minha caixinha. Mas sou fadista, absolutamente fadista.

O Fado tem sofrido uma evolução nos últimos anos, na forma como é interpretado, produzido. Conseguimos com que o meio musical português tenha evoluído na sua música essencial?

No Fado diria que sim. Acho que o papel do Museu do Fado [em Lisboa], e o facto de ser património mundial da humanidade ajudou a perceber que o Fado não é, de todo, uma música hermética, mas que cresce com a sociedade, e isso faz com que vá ganhando características diferentes. Temos hoje um acervo de Fado tradicional com cerca de 330 canções, onde se pode colocar diferente poesia. É essa poesia que faz com que o Fado cresça. Portanto, se calhar daqui a dez anos são 340 canções. É isso que torna o Fado, no fundo, tão efervescente. Quando comecei a cantar apaixonei-me pela voz da Amália Rodrigues e pela sua forma de interpretar outras coisas além do Fado. Tinha 20 anos e achava que o Fado era aqueles dez tradicionais e nada poderia sair dali. Só que essa não é a realidade do Fado hoje em dia. Aprendemos muito com o facto de o Fado passar a ser património mundial da humanidade porque, finalmente, podemos estudar as suas origens, para onde podia caminhar e o que se podia fazer com ele. O Fado é uma música em constante evolução e está em crescimento, felizmente.

Parece que Portugal é um país com falta de auto-estima, com coisas boas que só reconhece quando lá fora se dá por elas. Com o Fado foi um bocado isso, era encarado como uma música triste e aborrecida?

Era horrível. Quando comecei a cantar os meus colegas de faculdade olhavam e diziam: “Coitada, mas isso interessa? Tu gostas disso?”. As músicas que gostava não eram fados de verdade, mas os poemas de Alain Oulman que a Amália Rodrigues cantava. Já era, de certa forma, um processo evolutivo dentro do Fado. Hoje vou às casas de Fado e estão cheias de miúdos. Foi preciso esse processo, por causa da nossa auto-estima, é verdade.

Porquê a vergonha de compor?

Costumo dizer esta frase, que resume tudo: “Como encaixar o meu nome como autora entre Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa?” Não faz sentido. Se canto textos tão maravilhosos de gente incrível como Lídia Jorge, Zeca Afonso ou Maria Teresa Horta, e tantos outros, como entalar o meu nome quando sou apenas uma intérprete no meio destas pessoas? Sempre tive um pudor gigante em relação a isso. Escrevo quase todos os dias, mas apenas para mim e apenas em prosa. Não tenho essa mão de escrever para ser cantado.

Fado na China

Cristina Branco é protagonista de três concertos do Festival Fado, iniciativa da produtora Everything is New, que tem promovido espectáculos semelhantes noutros pontos do mundo. O primeiro concerto acontece em Pequim este sábado, 5, no Forbidden City Concert Hall, seguindo-se uma paragem em Xangai domingo, 6. Segue-se depois a deslocação mais para Sul. Além da música, haverá visionamento de filmes e palestras.

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