Grande Plano MancheteCheias | Pelo menos 362 mortos e mais de 1.400 desaparecidos no Nepal e Tibete Hoje Macau - 28 Ago 202628 Ago 2026 Os números de mortos e desaparecidos aumenta à medida que as equipas de salvamento avançam no terreno Equipas de resgate continuavam ontem a procurar mais de 1.400 pessoas desaparecidas devido às enxurradas que atingiram a região fronteiriça entre o Nepal e a China, onde pelo menos 362 pessoas morreram. De acordo com o mais recente balanço da Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal, pelos menos 362 pessoas morreram e 826 estão desaparecidas, incluindo 466 estrangeiros numa altura em que se intensificam as operações nos distritos mais afectados de Nuwakot e Rasuwa. Sunil Sharma, porta-voz do organismo de turismo do Nepal, afirmou que entre os desaparecidos estavam 133 cidadãos indianos que participavam numa peregrinação ao monte Kailash, no Tibete, um local sagrado para os hindus. Estavam também desaparecidos 47 cidadãos dos Estados Unidos, 34 da Austrália, 33 do Reino Unido e 24 do Canadá, segundo o responsável. O Ministério dos Negócios Estrangeiros disse à Lusa que pelo menos dois cidadãos portugueses, um homem e uma mulher, estão entre os desaparecidos. Também ontem, as autoridades da China tinham elevado de 265 para 558 o número de desaparecidos no município de Shigatse, na região do Tibete, onde já foi confirmada a morte de três pessoas. As encostas íngremes e os vales verdejantes situados abaixo da cordilheira dos Himalaias são particularmente vulneráveis a inundações e deslizamentos de terras, enquanto fenómenos meteorológicos extremos, como monções intensas e o degelo dos glaciares, tornaram-se mais frequentes devido ao aquecimento provocado pelas alterações climáticas de origem humana. Avisos naturais A região registou enxurradas semelhantes em Agosto de 2025, quando um lago glaciar no Tibete transbordou devido às temperaturas elevadas. Nove pessoas morreram e infraestruturas essenciais, incluindo uma ponte que liga o Nepal à China, ficaram danificadas. Imagens captadas por drone no Nepal mostraram estradas destruídas e edifícios soterrados por torrentes de água. Os vales íngremes da região constituem importantes corredores económicos e de transporte, mas tornam-se particularmente vulneráveis em situações de catástrofe. Imagens mostraram o que pareciam ser os segundos pisos de edifícios no distrito de Nuwakot, um dos mais afectados no Nepal, cobertos de lama após a passagem das águas. Destroços ficaram presos em ramos de árvores e cabos, veículos foram soterrados e alguns sobreviventes, cobertos de lama, mostravam-se atordoados. As inundações interromperam as deslocações em algumas zonas. O Governo nepalês ainda não solicitou ajuda, mas a Austrália está a coordenar com o Nepal, as Nações Unidas, a Cruz Vermelha e outras organizações uma eventual resposta humanitária, acrescentou. A cordilheira dos Himalaias atravessa vários países do sul da Ásia e alberga alguns dos picos mais altos do mundo e vários glaciares. O que aconteceu Um forte fluxo de água, lama e detritos desceu a grande velocidade na manhã de quarta-feira de ambos os lados da fronteira montanhosa do Nepal e do Tibete, território chinês. Uma câmara de vigilância instalada do lado chinês filmou uma vaga castanha de vários metros a submergir e a engolir em poucos segundos um edifício de cerca de seis andares enquanto várias pessoas tentavam fugir a correr. No Nepal, a vaga atingiu as localidades situadas no vale do rio Trishuli, no distrito de Nuwakot, a norte de Katmandu, e no vale do Bhotekoshi, a leste da capital. Num primeiro momento, as autoridades chinesas falaram de um deslizamento de terras, e as nepalesas de inundações. As causas De acordo com o Instituto de Estudos Geológicos dos Estados Unidos (USGS), a enxurrada pode ter sido causada pelo colapso de um glaciar, com uma violência tal que terá provocado um sismo de magnitude 5,2 e numerosos deslizamentos de terras. A topografia extrema dos Himalaias agravou os riscos. Os cientistas vão tentar perceber se as alterações climáticas aumentam a probabilidade de tais eventos extremos. Ajuda internacional Meios de ajuda internacional começaram a ser enviados desde quarta-feira para o Nepal. Os Estados Unidos comprometeram-se a doar 500.000 dólares em ajuda de emergência. A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC, na sigla em inglês) desbloqueou pouco mais de um milhão de euros em fundos de emergência. A União Europeia activou o sistema europeu de vigilância por satélite Copernicus para ajudar os socorristas no Nepal e declarou-se pronta para fornecer mais ajuda. A vizinha Índia enviou 10 toneladas de ajuda humanitária, incluindo cobertores, lâmpadas solares e medicamentos. Nepal | Risco de novas cheias caso detritos bloqueiem rios Especialistas alertaram que os detritos transportados pelas enxurradas nos Himalaias, que deixaram pelo menos 270 mortos no Nepal e na China, podem criar barragens naturais e desencadear um segundo evento catastrófico caso sejam libertados. Num comunicado divulgado ontem, o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD, na sigla em inglês), com sede em Katmandu, indicou que as autoridades e os cientistas estão a avaliar se os detritos bloquearam temporariamente o rio num troço estreito, “formando uma barragem natural”, dado que, se esta água for libertada repentinamente, poderá criar “um risco secundário”. O centro acredita que uma avalanche proveniente de um glaciar terá provavelmente provocado a enxurrada de quarta-feira, que deixou pelo menos 1.300 desaparecidos dos dois lados da fronteira. “As observações hidrológicas indicam a velocidade e magnitude excepcionais”, afirmou o organismo, indicando que, num determinado ponto do rio Trishuli, o nível da água subiu até nove metros em apenas meia hora. O rio Lhende Khola, afluente do Bhotekoshi, registou as maiores cheias, acrescentaram os especialistas. “O Lhende Khola transbordou duas vezes em 14 meses, desta vez devido a uma avalanche de gelo e rocha proveniente de um glaciar do lado nepalês, que bloqueou o rio e libertou subitamente uma enorme massa de água a jusante”, explicou Saswata Sanyal, especialista em redução do risco de catástrofes do ICIMOD. Sanyal destacou a importância dos sistemas de alerta precoce num contexto de “aquecimento dos Himalaias”. A cordilheira dos Himalaias atravessa vários países do sul da Ásia e alberga alguns dos picos mais altos do mundo e vários glaciares.