O Grito Pungente do Gibão e o Som Deleitoso do Veado

Sidarta Gautama, o Supremo Buda, é protagonista de uma série de histórias que relatam os seus sucessivos nascimentos que prepararam e precederam o seu surgimento como Buda, «o desperto». Entre essas chamadas Jataka, «Histórias do nascimento», em que ele pode encarnar como um macaco, um elefante, um pária ou um rei, e que servem para a sua alma ir aprendendo lições de bondade e fortalecer-se, há uma em que encarna um cervo chamada O rei veado ou O veado de nove cores.

Nela se conta como um homem que estava desesperado, em risco de morrer afogado nas rápidas águas de um rio, foi salvo por um veado cuja pele tinha nove cores. Quando o homem lhe perguntou como lhe poderia agradecer, o veado pediu-lhe apenas que não revelasse que o tinha visto nem onde. Mas o homem contou. A rainha daquele país ouvindo falar de um veado com uma pele de nove cores, desejou logo vestir-se com tão soberba pele, pelo que o rei logo partiu com os seus caçadores para o capturar. Quando se percebeu cercado, o veado calmamente explicou o que tinha acontecido e o rei ao saber da ingratidão do homem, o coração cheio de remorsos, não só poupa o veado como promete proteger todas as criaturas vivas. O ingrato sofre logo uma terrível doença como castigo.

A história que está figurada na parede da gruta 257 de Mogao, nos arredores de Dunhuang (Gansu) numa pintura datada da dinastia Wei do Norte (386-534) ilustra apenas uma das ligações do Buda ao esquivo cervideo. Dois veados em templos a ele dedicados surgem por vezes joelhados ladeando a roda do dharma, numa alusão ao Parque dos veados, o lugar onde o Buda proferiu o seu primeiro sermão. A sua elegante e assombrosa aparição no meio da floresta terá contribuido para a percepção do secreto e nobre carácter que lhe é atribuído. No Shijing, o Clássico da Poesia, o seu balido (you you) é referido como metáfora da hospitalidade, de encontros felizes, como o que encenou o pintor Ma Yuan (c.1160- 1225) numa folha de álbum (tinta e cor sobre seda, 33,7 x 39,3 cm, no Museu de Arte de Cleveland) em que se vê um literato observando um veado num rio à sombra de um pinheiro, num intenso e emocionante cenário de harmonia.

Yi Yuanji, (1000-64),um pintor de Changsha (Hunan), também no íntimo formato de uma folha de álbum (tinta e cor sobre seda, 25 x 26,4 m, no Museu do Palácio Nacional em Taipé), juntou gibões pendurados num carvalho, símbolo da sabedoria da vida longa à presença de um veado, correspondendo ao fonograma dos seus nomes a pintura constitui um voto de promoção para o receptor da pintura. Porém a forma como os dois se manifestam acentua a raridade do cervo. Dois versos do poema Alojado na montanha no Outono precoce, de Wen Tingyun (801?-866), sublinham essa estupefacção: «Frutos caídos, terá passado um gibão,/ Resfolhar de folhas secas,vai passando um veado».

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