Manchete SociedadeNatalidade | Escolas incluem alunos idosos para colmatar quebra Hoje Macau - 24 Ago 2026 Já há escolas do território a receber estudantes com mais de 65 anos para colmatar a falta de alunos, cenário que se verifica devido à quebra de natalidade. Uma dessas instituições de ensino é a Escola Sun Wah A quebra gradual taxa de natalidade em Macau tem levado as escolas do território a transformar-se em espaços de ensino não só para crianças, mas também para a terceira idade. No interior de um edifício residencial na zona norte de Macau encontra-se a Escola Sun Wah. Sem sinais exteriores que indiquem ser uma escola, o espaço de ensino acolhe reformados que frequentam aulas em salas contíguas às do jardim-de-infância e do ensino básico e secundário, partilhando espaços comuns e corredores com as crianças, um cenário que pode apontar para o futuro da educação na cidade. Após o fim de uma aula de caligrafia, dezenas de alunos idosos exibem orgulhosamente os seus trabalhos. Entre eles está Margarida Ip, de 75 anos, antiga operária fabril que começou a frequentar aulas após a reforma. Não teve oportunidade de estudar na juventude mas, agora, os seus dias são preenchidos com várias aulas. “Aprendo caligrafia todas as segundas e quartas-feiras, inglês às quintas, também aprendo natação de manhã, há pouco tempo tive algumas aulas de informática e quero aprender mais. Estou muito feliz”, disse Ip à Lusa. A presidente da Escola Sun Wah, Ho U, afirmou que a instituição oferece cursos para idosos desde 2024, incluindo pintura chinesa, dança, instrumentos musicais, línguas e artes marciais. Desde então número de alunos quadruplicou, chegando agora aos 2.000. Esta expansão ocorre numa altura em que a taxa de natalidade em Macau continua a sua queda de 11 anos. Em 2025, a cidade registou apenas 2.871 nascimentos, o valor mais baixo em quase meio século, com uma taxa de fecundidade de 0,47 filhos por mulher entre os 15 e os 49 anos, outro mínimo histórico, segundo dados oficiais. Só três turmas Na Escola Sun Wah, o departamento de jardim-de-infância tem agora apenas três turmas, com o director, Ho U, a reconhecer que “alguns assistentes educativos” foram despedidos devido à queda do número de matrículas, embora cada turma mantenha ainda mais de três elementos no corpo docente. Mas a escola também se adaptou. “Mais de dez professores do jardim-de-infância e do ensino primário vão trabalhar a tempo parcial na educação de adultos e de idosos no próximo ano lectivo”, afirmou Ho U, acrescentando que “podem leccionar música, pintura, inglês, português, tecnologia e muito mais”, disse o director. Para preservar postos de trabalho, a Sun Wah está a expandir o seu programa de educação para adultos e idosos. Está prevista a abertura de um novo campus no centro de Macau, com 30 turmas e um investimento superior a um milhão de patacas. O professor de caligrafia, Lei Man Wai, que pratica esta arte há 50 anos e a ensina há décadas, afirmou que ensinar reformados “é muito mais fácil do que ensinar crianças” devido à motivação e à capacidade de concentração que apresentam. Um reformado de apelido Chang, antigo funcionário público, pratica caligrafia há nove anos desde que se reformou. “Se não estou a praticar caligrafia, estou a ler algo sobre o assunto nesse dia”, disse à Lusa. Actualmente, frequenta cursos tanto na Sun Wah como na Universidade Politécnica de Macau. Tendência crescente O Governo oferece a cada residente com 15 ou mais anos um subsídio de 6.000 patacas para educação contínua. Entre 2023 e 2026, mais de 41.000 idosos participaram em diversos cursos, segundo a Direção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ). O número de vagas para cursos para idosos no ensino superior de Macau “ultrapassará os 9.000 este ano”, indicou a DSEDJ à Lusa, acrescentando que “a participação dos idosos continua a aumentar”. No entanto, nem todas as escolas estão convencidas que esta mudança é necessária. A Escola Secundária Pui Va, por exemplo, tem menos duas turmas de jardim-de-infância do que no ano passado, mas seu director, Lei Chau Lam, afirmou que a escola “irá reflectir” sobre a transformação, mas indicando que “perante a quebra da natalidade”, a escola mantém-se confiante de que continuará a operar. “Não acho que a transformação ajude estudantes e os pais (…). Quando fundámos a escola, começámos com apenas uma turma”, apontou. Segundo a DSEDJ, actualmente entre nove e 11 escolas estão a considerar uma fusão ou reestruturação. Lei Chau Lam defendeu à Lusa que o Governo local deveria concentrar os seus esforços em “atrair talentos, facilitar a entrada de estudantes de outras regiões em Macau ou incentivar os jovens a terem mais filhos”, considerando que “estas medidas são as mais práticas”. Numa resposta a perguntas da Lusa, a DSEDJ afirmou que oferece apoio de transição às escolas com dificuldades em matrículas de alunos, incluindo subsídios para a transformação “em instituições de educação contínua, formação profissional ou educação para idosos”, bem como financiamento para a reconversão de professores, de modo a ajudá-los a obter acreditação profissional. No entanto, o director Lei Chau Lam duvida das medidas, questionando se os professores que perdem o emprego nas escolas terão “capacidade e qualificações para ministrar educação de adultos” após apenas “algumas formações”. O custo humano está patente na história de um professor. Bruce Lei, que leccionou chinês em escolas de Macau durante 25 anos, indicou ter perdido o emprego há dois anos devido a “falta de alunos”. Além de um curto período como substituto, não conseguiu encontrar trabalho desde então. O antigo professor referiu que a maioria das ofertas de emprego tem limites de idade e que as escolas evitam contratá-lo porque o seu salário legalmente exigido é demasiado elevado. Teve entrevistas noutras escolas, mas “não teve uma segunda oportunidade”. “A minha única esperança é encontrar um emprego como segurança ou esperar que a minha mãe morra para herdar a casa dela”.