O filet mignon de Luiz Pacheco

Esta é a reedição há muito esperada de um autor de culto que estava indisponível; ou melhor, que estava disponível apenas para as algibeiras com maior capacidade, para os colecionadores e quejandos, que certamente aproveitaram a aura de excentricidade do autor para atirar-nos preços totalmente descabidos. É caso para perguntar: se ao menos o dinheiro acumulado por alfarrabistas que veio do culto necrófilo do desvio moral e comportamental por parte dos leitores candidatos a “maldito” tivesse sido dado em vida ao autor, será que a sua carreira de autor maldito de Pacheco teria sido diferente?

«Ser Livre em Português: Uma Antologia» é o recentíssimo volume de éditos, que reúne alguns —poucos — títulos publicados pelo autor, incluindo os mais emblemáticos, como «Comunidade», ou «O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor». «Textos Avulsos, Inéditos e Dispersos» é o nome do volume irmão que reúne cartas, cadernos, rascunhos, diários e outros textos dispersos, além de um conjunto de crónicas, a partir de investigaçãono espólio pessoal do autor, à guarda da família, feita pela mesmo equipa que organizou o centenário. Ambos são publicados pela Tinta-da-China, com edição dos investigadores Rui Sousa e Sofia A. Carvalho. No lançamento foi apresentado como o «filetmignon», leia-se: a escolha das escolhas. No fundo, a redução de Pacheco, como quem reduz em alta cozinha um molho, uma emulsão — o que é talvez um erro de perspetiva quando falamos de um autor que funciona muito por acumulação de textos, como o demonstram os próprios organizadores nas introduções, aliás muito enxutas e, já que estamos em metáforas de cozinha, sem qualquer gordura.Muito importante é emLuiz Pacheco, de facto, a migração, confirmação, repetição de textos de livro para livro.

Claro que podemos perguntar-nos porque é que Luiz Pacheco é autor de culto, mas isso é toda uma outra questão. É-o talvez pelas piores razões, num país onde o estudo é tradicionalmente desprezado, e que prefere o anedotário fácil e a fruição do desvio, o dos outros. O estudo é apenas tomado a sério em certas figuras incensadas, consideradas sábias já à nascença, enquanto que os académicos são apodados de preguiçosos, o que na verdade nada diz nem sobre uns nem sobre outros e só mostra as descontinuidades da tradição crítica em Portugal. Dá trabalho ler as centenas de páginas publicadas por Luiz Pacheco, sobretudo num quadro em que o anedotário tende a fazer ignorar a matéria textual de uma obra. A anedota, a história fácil escondem uma vida que se desdobrou num trabalho imenso de que agora o público ledor começa a aperceber-se. Ao contrário daqueles que acham que o espólio nada tem a dizer, que tudo já está revelado, tratado, que os autores sem encontram já todos conhecidos e revelados e podem facilmente considerar-se geniais, sem trabalho de arquivo. Aqui poderia citar o próprio Pacheco quando diz a propósito de Lobo Antunes (ou será de Saramago?) que o génio é uma longa paciência. O que continuamente surge é o contrário disso, e ainda pouco ou nada foi feito sobre o que realmente interessa.

A partir destes dois livros — que na verdade ganhavam em ser unidos num só — o culto pode passar a sê-lo por melhores razões. E agora já não há desculpa para não ler. Tudo isto veio a propósito de um centenário de muitas, intensas e incansáveis atividades, ainda por cima tão descentrado quanto a vida do autor, tendo calcorreado muito lado deste país: Palmela, Setúbal, Caldas, Sertã, estâncias da penetração pachecal (em vida, claro!).

Centenário esse basicamente da responsabilidade de Rui Sousa, mas também com a colaboração de Sofia A. Carvalho e Mafalda Borges Soares, investigadores nada preguiçosos. No que toca à edição, muito limpa e muito criteriosa — com todas as opções justificadas, as escolhas dos textos e com as mais relevantes variantes textuais assinaladas —, ela permite pensar, por todos esses elementos, que entrámos numa fase crítica sobre o autor. Antes estávamos na já referida fase anedótica, isto é, pré-crítica, em que interessavam mais as memórias, os resquícios dos contactos pessoais e as historietas em torno da figura do autor. O melhor da academia, em seriedade, está aqui nestes dois livros, sobretudo no sentido da sua grande contenção e da necessidade de deixar os textos respirar. Finalmente entrámos numa fase de recuperação crítica da escrita de Luiz Pacheco, mais do que da sua gasta e funambulesca figura — que, graças ao centenário, e sobretudo a Rui Sousa, abandona o caso, o riso, talvez a chacota. Até porque este Pacheco bicéfalo se completa com o notável «O Essencial sobre Luiz Pacheco», da IN-CM, que saiu ao mesmo tempo, também da responsabilidade de Sousa. Funcionam em tríade, e aconselho o leitor interessado a ir aos três.

Algo que é digno de ser sublinhado é que a escolha do volume de éditos predispõe a uma leitura simultânea, unitária, da ficção e da crítica pachecais, — ainda que os grandes textos ficcionais do autor surjam em toda a sua pujança, em estado concentrado –, patenteando a dificuldade em separar uma da outra. Pegando no volume de éditos, os textos iniciais escolhidos surgem com uma força imensa, em crescendo. É ainda hoje incrível o atrevimento de um texto como «O Libertino Passeia por Braga», escrito e publicado no remoto e fatal ano de 1961, que vem complementar o memorialismo erótico de «O Teodolito» e o experimentalismo radical de «Os Namorados». E une-os a todos com um viés fortemente existencial, que se nota muito nesses grandes textos, como «Comunidade» ou «O Libertino», um texto todo ele em torno de experiências sexuais falhadas, laica meditação radical sobre elas. No que poderia chamar um tentame de tradição materialista na literatura portuguesa (que vem de Cesário, dos primeiros livros de Junqueiro, passa por Fialho e José Duro, por certos projetos pessoanos, e vai desembocar ao neorrealismo e a algum surrealismo), a única metafísica possível aqui é a investigação sobre as bases materiais do ser humano, sobre o que realmente o sustenta, e aí Pacheco só encontra a desagregação do sujeito por entre a merda, o pus e outras secreções. Há por vezes, é certo, uma tentativa de radicação metafísica via hereditariedade, uma espécie de contemplação da eternidade através dos filhos e dos avoengos, que nos conectariam com a longa corrente humana. Mas a radicalidade da epígrafe, que vem na contracapa dos dois livros, parece ir num outro sentido. É uma espécie de contemplação do abismo, um ponto muito forte de uma poética materialista e existencial — sem ser necessariamente existencialista – centrada na intensidade e no limite das experiências humanas e na sua exploração em língua portuguesa (o livro chama-se «Ser Livre em Português»). É uma espécie de satori pachecal: «Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo».

Outro aspeto que estas duas recolhas tornam notório é que, num momento em que todo o prosador-bicho-careta persegue o romance, há aqui uma recusa das grandes formas, de alguma forma reafirmando a posição de Fialho, que estupidamente era desconsiderado comoficcionista por não ter romance. Crítica, epistolografia e diário como literatura: tudo gestos nos quais a linguagem, ao tocar o mundo, se volta para si própria; é certo, com o aspeto lúdico, metaliterário da maior parte dos seus textos, não de forma ressequida, mas sempre solta, vital, na melhor tradição camiliana. É só pena quea excessiva contenção em relação ao número de páginas para os dois breves volumes não tenha permitido a saída de um só, único e folhudo calhamaço, sabendo nós que as pessoas que querem Luiz Pacheco estariam perfeitamente dispostas a comprá-lo e até a lê-lo.

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