Via do MeioPor que razão os uniformes escolares chineses assumiram a forma actual? Hoje Macau - 26 Jun 2026 Por Hu Xiang Na China contemporânea, é comum observar, no percurso entre casa e escola, alunos vestidos com uniformes escolares semelhantes entre si, geralmente de estilo desportivo, corte largo e aparência pouco elaborada. Estes uniformes apresentam, na maioria dos casos, combinações cromáticas simples, como vermelho e branco, azul e branco ou verde e branco. Além disso, o corte é frequentemente unissexo, sendo usado de forma idêntica por rapazes e raparigas. À primeira vista, podem parecer pouco modernos ou esteticamente desinteressantes. Contudo, a forma actual dos uniformes escolares chineses resulta de um processo histórico complexo, no qual se cruzam factores educativos, económicos, sociais e ideológicos. Para compreender esta realidade, é necessário recuar ao desenvolvimento do sistema educativo moderno na China, sobretudo a partir do século XX. Nesse período, a China começou a adoptar modelos educativos inspirados no Ocidente, o que conduziu à criação de escolas modernas. Estas instituições passaram a distribuir aos alunos uniformes e chapéus padronizados, marcando, de forma aproximada, o início do uso do uniforme escolar moderno no país. Apesar de existirem orientações relativamente sistemáticas por parte das autoridades educativas, a diversidade dos modelos de ensino e o desenvolvimento desigual da educação contribuíram para a existência de diferenças significativas entre os uniformes escolares de diferentes regiões, escolas e níveis de ensino. Em algumas instituições, sobretudo nas primeiras décadas do século XX, os rapazes usavam o changshan, uma peça tradicionalmente associada à figura do estudioso. Paralelamente, o qipao, que se tornou popular na década de 1930, foi também utilizado como uniforme escolar feminino. No entanto, devido às limitações económicas da época, a maioria das escolas não impunha ainda um código de vestuário uniforme e rigoroso. Após a fundação da República Popular da China, em 1949, não foi imediatamente estabelecido um novo sistema formal de uniformes escolares. No entanto, consolidou-se progressivamente uma nova concepção de vestuário, fortemente influenciada pelos valores dominantes da época, nomeadamente o espírito de trabalho árduo, a simplicidade, a sobriedade e o colectivismo. O vestuário de inspiração revolucionária tornou-se, assim, uma tendência predominante. Neste contexto, a Organização das Crianças e Jovens da China, conhecida como Pioneiros da China, desempenhou um papel importante na padronização da imagem dos alunos. O seu uniforme deveria ser harmonioso, simples e adequado ao vigor das crianças e dos jovens, tendo também em consideração a situação económica da maioria das famílias. Tomando como referência certos modelos de vestuário juvenil da União Soviética, foram definidas regras específicas: entre maio e outubro, rapazes e raparigas deveriam usar camisa branca de estilo ocidental e calças escuras; no verão, era permitido o uso de calções. Mais tarde, as alunas passaram a usar saias escuras até ao joelho, posteriormente substituídas, a partir de 1952, por saias coloridas, cujas tonalidades podiam variar de escola para escola. Este uniforme funcionava também como uniforme escolar, sendo que a principal distinção entre membros e não membros dos Pioneiros residia no uso do lenço vermelho. Durante a década de 1960, a escassez material era muito significativa, o que se reflectia diretamente no vestuário. A expressão popular “três anos com roupa nova, três anos com roupa velha e mais três anos remendada” revela bem as dificuldades económicas desse período. A roupa remendada era comum e, nesse contexto, a uniformização do vestuário escolar não constituía uma prioridade. Ainda assim, devido à limitação das opções disponíveis, o estilo de vestuário das crianças acabava por ser relativamente homogéneo. No final da década de 1970, com a abertura económica e o contacto crescente com o exterior, novas ideias sobre beleza, moda e individualidade começaram a entrar na sociedade chinesa, influenciando também o vestuário infantil e juvenil. Mais tarde, a 13 de abril de 1993, a Comissão Nacional de Educação publicou o documento “Opiniões sobre o reforço da gestão do uso de uniformes escolares pelos alunos do ensino básico e secundário nas cidades”. Trata-se do primeiro documento específico, a nível nacional, sobre a gestão dos uniformes escolares. Segundo este documento, o uniforme escolar deveria ser utilizado diariamente pelos alunos do ensino básico e secundário nas cidades, não sendo concebido como roupa de moda, vestuário cerimonial ou equipamento exclusivamente desportivo, mas como vestuário escolar de uso quotidiano. O documento definia ainda como princípios de design a sobriedade, a elegância, a alegria e a praticidade, procurando refletir as características físicas e psicológicas dos adolescentes. Contudo, não estabelecia regras rígidas quanto ao estilo concreto dos uniformes. Com o passar do tempo, os uniformes de estilo desportivo, por serem mais económicos, fáceis de produzir e adequados à liberdade de movimentos, tornaram-se o modelo mais difundido. Estes uniformes são, em geral, de cores como azul, verde ou vermelho, com riscas, barras ou blocos brancos nos ombros. O nome da escola surge frequentemente estampado de forma visível no peito ou nas costas. Para se adaptarem às actividades físicas diárias e ao rápido crescimento das crianças, os tamanhos são muitas vezes maiores do que o necessário. Esta opção tem uma dimensão prática evidente, mas levanta também críticas estéticas e funcionais. O corte largo e indiferenciado, comum a rapazes e raparigas, é frequentemente considerado pouco elegante e pode contribuir para uma imagem corporal pouco valorizada. A discussão pública sobre os chamados “uniformes escolares feios” intensificou-se em março de 2014, quando Michelle Obama, então primeira-dama dos Estados Unidos, visitou uma escola secundária em Pequim. As imagens televisivas dos alunos vestidos com uniformes desportivos largos desencadearam debates nas redes sociais e nos meios de comunicação chineses. Pais, escolas e designers de vestuário começaram então a refletir mais criticamente sobre o estilo dos uniformes escolares. No entanto, tendo em conta a grande desigualdade no desenvolvimento educativo entre diferentes regiões da China, estes uniformes continuam a ser vistos por muitos como uma solução adequada às condições reais do país. Desde o início do século XXI, algumas escolas primárias e secundárias de grandes cidades começaram a adoptar um modelo misto, combinando o uniforme desportivo com o uniforme formal. Neste sistema, os alunos usam o uniforme desportivo nas actividades lectivas quotidianas e vestem o uniforme formal em ocasiões especiais, como cerimónias de hasteamento da bandeira, cerimónias de formatura ou eventos institucionais. Contudo, esta prática continua limitada a algumas escolas, sobretudo urbanas e com melhores recursos. Num sistema educativo fortemente centrado nos exames, a coexistência de dois tipos de uniforme é frequentemente considerada, por muitos pais e alunos, uma despesa desnecessária. Ainda assim, com a emergência de uma nova geração de pais, nascidos sobretudo a partir da década de 1980, aumentaram as exigências relativamente à qualidade, ao conforto e à estética dos uniformes escolares. Após mais de um século de evolução, o uniforme escolar chinês apresenta hoje uma identidade própria. Embora tenha passado por momentos de maior elegância e por outros de maior simplicidade, a sua história revela que o uniforme escolar não pode ser analisado apenas do ponto de vista estético. Trata-se de um objeto social complexo, cuja evolução acompanha as transformações políticas, económicas e educativas da China. Para além da aparência, o uniforme escolar desempenha funções relacionadas com a segurança dos alunos, a identificação institucional, a igualdade social e a construção de uma consciência coletiva. Assim, os uniformes escolares chineses podem parecer simples e pouco modernos à primeira vista, mas reflectem aspectos importantes da sociedade chinesa. Representam ideias de igualdade, praticidade, disciplina e espírito colectivo. Ao mesmo tempo, as transformações recentes mostram que os jovens chineses e as suas famílias começam a valorizar cada vez mais a diversidade, o conforto e a expressão pessoal. Os uniformes escolares na China não são apenas peças de vestuário usadas pelos estudantes. Eles contam uma história sobre a educação, a cultura e as transformações sociais do país. Através de algo aparentemente simples como um uniforme escolar, é possível compreender melhor a forma como a sociedade chinesa evoluiu ao longo do tempo e continua a adaptar-se às exigências da modernidade.