Grande Plano ManchetePatrimónio | Histórias das lojas da Rua Cinco de Outubro contadas em livro Andreia Sofia Silva - 23 Fev 2026 Natalie Fu acaba de lançar um livro sobre o comércio tradicional da Rua Cinco de Outubro, a convite da Associação de Estudos de Reinvenção do Património Cultural de Macau. “Macao’s Historical House Taxonomy – The Shophouses at the Rua Cinco de Outubro” conta a história secular de lojas-casa que foram o “coração da comunidade chinesa de Macau” Acaba de ser editado um livro que revela um pouco da história do comércio feito pela comunidade chinesa na Rua Cinco de Outubro, localizada no Porto Interior, palco de muitas movimentações comerciais ao longo dos séculos. A obra explica também como estas lojas, que, ao mesmo tempo, são casas, revelam detalhes sobre a história de Macau. “Macao’s Historical House Taxonomy – The Shophouses at the Rua Cinco de Outubro”, da autoria de Natalie Fu, doutoranda na Universidade de São José, surge a convite da Associação de Estudos de Reinvenção do Património Cultural de Macau, cuja edição depende também “do apoio e da assistência de muitas outras pessoas”, contou a autora ao HM. Um dos espaços de venda do livro, que não tem versão em português, é a Pin-to Livros. “A investigação começou com o amor por Macau e pelos seus edifícios antigos”, revela a autora, que começou o trabalho de investigação em torno destes prédios em 2022, em plena pandemia. “A Rua de Cinco de Outubro sempre foi uma importante zona comercial em Macau. Outrora, era o coração da comunidade chinesa de Macau. Ainda hoje, muitas lojas antigas permanecem próximas do bairro local. As lojas são edifícios de uso misto”, explica ainda a autora. Este é o palco da diversidade comercial, uma vez que a Rua Cinco de Outubro “alberga vários negócios, tais como padarias tradicionais chinesas, lojas de medicina chinesa, lojas de chá e lojas de fruta”. Segundo a apresentação da obra, feita nas redes sociais pela própria associação, este tipo de imóvel constitui “um tipo comum de edifício residencial multifuncional”, onde a “planta dos edifícios é geralmente rectangular, com dois a três pisos”. Normalmente, o piso térreo é usado para a loja ou como armazém, enquanto que os pisos superiores estão reservados para a habitação. “Este tipo de construção consegue adequar-se ao clima local, apresentando grande flexibilidade nos métodos de construção e nos materiais utilizados. Devido à diversidade dos usos quotidianos, as casas-loja foram outrora o principal tipo de edificação das ruas de Macau, possuindo importante valor histórico, social, cultural, arquitectónico e estético”, lê-se ainda. Desafios de preservação Ainda segundo a mesma nota, o livro chama a atenção para a importância de se preservar este tipo de construção e, consequentemente, um símbolo do património local. “Infelizmente, por se tratarem de edifícios de pequena escala e dispersos, e por não estarem plenamente protegidos pela Lei de Protecção do Património de Macau, têm vindo a desaparecer gradualmente com o rápido desenvolvimento da sociedade”, sendo que, actualmente, “apenas um pequeno número destas construções tem a classificação de ‘monumento’ e está protegido”. Para Natalie Fu, “a preservação das lojas de Macau enfrenta muitos desafios, um dos quais é o facto de não estarem incluídas na lista existente de edifícios antigos protegidos de Macau”, além de que, na sua visão, “as alterações nas leis de construção também dificultaram a manutenção destes edifícios antigos”. Questionada sobre o futuro desta rua icónica do Porto Interior, a autora reconhece que “o crescimento de uma cidade envolve inevitavelmente a renovação e o desaparecimento de edifícios”, pelo que “determinar quais os edifícios que devem ser preservados e como preservá-los é um desafio a longo prazo”. Natalie Fu fala mesmo da necessidade de alargar a investigação a mais ruas de Macau que também são zonas de comércio tradicional. “A investigação e documentação das lojas na Rua Cinco de Outubro e em Macau são urgentes, uma vez que o seu número está a diminuir. Além disso, são necessárias investigações académicas adicionais e discussões com a comunidade local para informar a direcção futura da área do Porto Interior.” Em relação ao panorama na Rua Cinco de Outubro, a autora descreve que se deve apostar na manutenção, mantendo os espaços comerciais abertos. “As lojas que são mantidas em utilização destacam melhor o seu valor social. Tomando como exemplo algumas lojas na Rua Cinco de Outubro, a existência de lojas centenárias enfatiza ainda mais o valor cultural e histórico da área e das lojas. Além disso, ‘mantê-las em uso’ permite a monitorização e manutenção de forma mais imediata, o que constitui a forma mais directa de proteger a arquitectura antiga.” Uma certa influência Num território que pautado pela coexistência das culturas portuguesa e chinesa, o livro de Natalie Fu mostra como estas casas sofreram influências de outras culturas. “As arquitecturas chinesa e ocidental em Macau sempre se influenciaram mutuamente ao longo do desenvolvimento histórico, sendo esta característica particularmente visível na aparência das casas-loja.” Desta forma, este livro ajuda a cimentar essa característica, “estabelecendo um sistema de classificação das casas-loja de Macau, consolidando a sua definição arquitectónica”. Este livro é, portanto, um “estudo classificativo das antigas casas-loja de Macau”, constituindo “o primeiro passo para a sua salvaguarda”, descreve, na mesma nota, a associação que apoiou o projecto editorial e investigação. “A autora realizou um registo e levantamento detalhados [das lojas], começando por realizar visitas e levantamentos de cartografia na zona do Porto Interior. Foram elaborados mapas de localização das casas-loja existentes nessa rua, fichas de análise com base em trabalho de campo, registos fotográficos e entrevistas aos comerciantes e moradores actuais, de modo a compreender a história do uso de cada edifício.” Além disso, a obra documenta sete casos em particular, “fornecendo informações sobre a sua história, evolução e utilização actual, bem como uma discussão preliminar sobre possíveis direcções de preservação”. O livro deixa ainda o registo de dois exemplos de casas-loja que já desapareceram. “Espera-se que esta obra incentive mais pessoas a descobrirem a ‘beleza de Macau’. Tendo as casas-loja como tema central, é esperada a promoção do intercâmbio e da discussão entre académicos de diferentes áreas”, aponta ainda a associação. Natalie Fu convidou “vários especialistas e académicos para partilhar as suas ideias, experiências e sugestões sobre a protecção e o futuro deste tipo de edifícios”, é descrito. Nascida e criada em Macau, Natalie Fu teve a oportunidade de visitar todo o Sudeste Asiático desde muito jovem, viagens que a levaram a “fomentar uma profunda apreciação e paixão pela arquitectura”. A autora é licenciada em Arquitectura, descrevendo-se também como uma pessoa interessada pela área da conservação do património e uma “estudiosa da arquitectura histórica formada em Macau”.