Via do MeioO Oceano taoista Ana Cristina Alves - 1 Dez 2025 Por Ana Cristina Alves, Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau1 A filosofia taoista dos primórdios, a de Laozi e do Livro da Via e da Virtude (《道德经/經》) , escolherá a água do oceano e do mar como imagem privilegiada do Tao (道 Dào), aquele que não pode ser dito, sem forma, de que dependem o próprio universo e os dez mil seres (万物 wânwù) que nele habitam, bem como os primeiros princípios da existência, o vazio (無/无 wú), o masculino yang (陽/阳 yáng) e feminino o yin (阴/隂yīn). Esta escolha de uma filosofia autóctone da China encontra o seu eco na linguagem e filosofia populares, por exemplo em expressões como “capacidade enorme” (海量Hǎiliàng), que tanto pode ter uma interpretação afetiva e social de portentosa generosidade ou magnanimidade, como ainda física e concreta, aplicando-se a alguém que consiga ingerir amplas quantidades de álcool. O mar encontra-se, ainda, ligado à palavra boa e constante, por exemplo na “jura de amor eterno tão enérgica como o mar e firme como a montanha”, onde montanha empresta acrescida firmeza à promessa (海誓山盟 ou 山盟海誓Hǎishì-Shānméng ou Shānméng-Hǎishì). O oceano, o mar, mas também os grandes rios são constituídos por água dadivosa, tanto na filosofia popular como na erudita taoista. Aqui a água é o modelo figurado do Tao, como se lê no Livro da Via e da Virtude e na melhor sinologia, pelo que se aconselha a leitura adicional de Alan Watts Tao: The Watercourse Way. Vale a pena dedicar especial atenção aos capítulos em que a água surge como a figuração mais aproximada do Tao no Livro da Via e da Virtude, a saber: os capítulos 8, 14, 34, 66 e 78. No capítulo 8 é-se informado que o Tao é o bem supremo “como a água” (上善如水) (Abreu, 2014, 43), mas não é a própria água. Portanto, será pela semelhança de funções que ambos são comparados. Ora a água é generosa, concedendo a vida a todos os seres, sem estabelecer qualquer distinção entre eles, a sua dádiva alcança mesmo aqueles de quem ninguém gosta e penso, por exemplo, nos parasitas. Ela mantém-se junto da terra para a fertilizar, é profunda, simples, verdadeira, justa e correta e muito oportuna, quando lava e limpa no tempo certo. Assim é também o Tao. Nos primeiros versos do capítulo XIV, a respeito do Tao, volta a surgiu uma imagem aquática: Olha-se e não se vê, Chama-se Indistinto. Escuta-se e não se ouve, Chama-se Silencioso. Toca-se e não se apanha, Chama-se Subtil. Este trio não é decifrável Pois funde-se numa unidade (視之不見名曰夷/聽之不聞名曰希/搏之不得名曰微/此三者/不可致詰/故混而為一)2 (Ribeiro, 2004, 32-33) E um pouco adiante é-nos dito que ele é inominável e ininterrupto (繩繩不可名) (Ibidem) O Tao é como um oceano, uma unidade ininterrupta e inesgotável em que alguém se imagina facilmente a nadar numa água não demasiado luminosa nem sombria, como viria a suceder a Michael Saso na sua 14ª meditação sobre o Tao, em A Taoist Cookbook. with Meditations from the Laozi DaodeJing, à qual denominou “Nadar no Tao” (Saso, 1994,47), meditação que ele faz acompanhar por uma receita de espinafres, pasta de soja e sésamo, já que o sábio é aquele que “esvazia a mente e enche o ventre” (虛其心實其復) (Ribeiro, 2004, 10-11), aqui se sente como o autor está imerso no grande Tao seguindo ao sabor da corrente. A água pode ainda ser figurada num grande rio, como sucede no capítulo 34: O grande Tao inunda como um rio, Para a esquerda, para a direita, Dele dependem os dez mil seres. (大道泛兮/其可左右/万物恃之而生) (Abreu, 2013, 94-95) No mesmo capítulo é-nos dito que o Tao não só dá vida como nutre e alimenta, sendo porto de abrigo essencial no regresso às origens, não para a morte, mas para a vida eterna diluída na grande unidade, sendo por isso ele grande, tão grande como o mar, ou melhor o grande mar, que é o oceano. Quem queira estar como deve ser na existência ou até governar corretamente o mundo, deve seguir o modelo da água dos rios e dos mares, como se lê no capítulo 66: Rios e mares são superiores a cem vales Porque permanecem abaixo deles, e assim são príncipes, dominando cascatas e correntes. (江海所以能为百谷王者/以其善下之/故能为百故王)3 (Abreu,2013, 158-159) O comportamento do sábio distingue-se pela maleabilidade e espontaneidade. Não se impõe, pelo que é respeitado por todos, só ele deve então governar, porque age bem naturalmente, sem oprimir, sem magoar deixando que todos sigam o seu curso o mais livremente possível, como é reiterado no capítulo 78: Nada no mundo é mais maleável e flexível quanto a água, mas no ataque ao que é duro e rijo nada consegue ultrapassá-la e nada há que a substitua. (天下莫柔弱於水/而攻堅強者莫之能先) (Ribeiro, 2004 160-161) A água taoista de Laozi é entre os Cinco Elementos Chineses (Água, Madeira, Fogo, Terra, Metal) aquele que evoca grande unidade oceânica fonte de vida de tudo o que existe, mas também de morte, ou melhor, de regresso às origens e à vida eterna, quando esta imagem representa o princípio filosófico Tao. E se a água, doce e salgada, é o supremo bem do mundo, o Tao é a origem, o supremo bem, inclusive do Céu. Enquanto raiz ou fêmea misteriosa (cap 6) é a raiz do cosmos tal como o conhecemos e experienciamos. Ele é fonte de vida espiritual e material, mas a água também, já que o seu modelo deve ser seguido em todas as circunstâncias desde a fonte material dos seres à complexa conduta humana. As pessoas que agem corretamente e, sobretudo os sábios e santos taoistas, têm presente o modelo físico e concreto da água que os auxilia a praticar um outro invisível, o do Tao. Serão então maleáveis e adaptáveis, capazes de se nutrirem por dentro e de darem vida a qualquer forma por fora. Saberão como transformar-se para melhor nutrir e vivificar. O modelo oceânico taoista difere daquele que animou ao longo da história os portugueses que olharam para o mar como o seu oceano. A água taoista não é desafiante nem chama à conquista, não possui cabos da tormenta ou da esperança a dobrar, não solicita armas nem embarcações, nem mapas, nem instrumentos náuticos. Ela é o elemento dominante, conquistador por dentro de todos os seres, que se vão adaptar a este elemento maximamente maleável, sem que para tal necessitem de desenvolver o seu espírito inventivo. A filosofia a que conduz não pede vigilância nem espírito crítico, mas adaptação ao mundo tal como ele é e generosidade para o aceitar com o mínimo de sofrimento e o máximo de alegria. Referências Bibliográficas Laozi. 2013. Tao Te Ching 道德经 O Livro da Via e da Virtude.Tradução der António Graça de Abreu. Edição Bilingue. Lisboa: Vega. Laozi. 2013. Dao De Jing. O Livro da Via e do Poder. Tradução de Cláudia Ribeiro. Edição Bilingue. Mem Martins: Publicações Europa-América. Saso, Michael. 1994. A Taoist Cookbook. With Meditations from the Laozi DaodeJing. Tokyo, Boston, Massachussets: edição de autor. Watts, Alan. 1975. Tao: The Watercourse Way. New York: Pantheon Books. NOTA: Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores. Texto em chinês clássico. Texto em chinês simplificado.