O Oceano taoista

Por Ana Cristina Alves, Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau1

A filosofia taoista dos primórdios, a de Laozi e do Livro da Via e da Virtude (《道德经/經》) , escolherá a água do oceano e do mar como imagem privilegiada do Tao (道 Dào), aquele que não pode ser dito, sem forma, de que dependem o próprio universo e os dez mil seres (万物 wânwù) que nele habitam, bem como os primeiros princípios da existência, o vazio (無/无 wú), o masculino yang (陽/阳 yáng) e feminino o yin (阴/隂yīn).

Esta escolha de uma filosofia autóctone da China encontra o seu eco na linguagem e filosofia populares, por exemplo em expressões como “capacidade enorme” (海量Hǎiliàng), que tanto pode ter uma interpretação afetiva e social de portentosa generosidade ou magnanimidade, como ainda física e concreta, aplicando-se a alguém que consiga ingerir amplas quantidades de álcool. O mar encontra-se, ainda, ligado à palavra boa e constante, por exemplo na “jura de amor eterno tão enérgica como o mar e firme como a montanha”, onde montanha empresta acrescida firmeza à promessa (海誓山盟 ou 山盟海誓Hǎishì-Shānméng ou Shānméng-Hǎishì).

O oceano, o mar, mas também os grandes rios são constituídos por água dadivosa, tanto na filosofia popular como na erudita taoista. Aqui a água é o modelo figurado do Tao, como se lê no Livro da Via e da Virtude e na melhor sinologia, pelo que se aconselha a leitura adicional de Alan Watts Tao: The Watercourse Way.

Vale a pena dedicar especial atenção aos capítulos em que a água surge como a figuração mais aproximada do Tao no Livro da Via e da Virtude, a saber: os capítulos 8, 14, 34, 66 e 78.

No capítulo 8 é-se informado que o Tao é o bem supremo “como a água” (上善如水) (Abreu, 2014, 43), mas não é a própria água. Portanto, será pela semelhança de funções que ambos são comparados. Ora a água é generosa, concedendo a vida a todos os seres, sem estabelecer qualquer distinção entre eles, a sua dádiva alcança mesmo aqueles de quem ninguém gosta e penso, por exemplo, nos parasitas. Ela mantém-se junto da terra para a fertilizar, é profunda, simples, verdadeira, justa e correta e muito oportuna, quando lava e limpa no tempo certo.

Assim é também o Tao. Nos primeiros versos do capítulo XIV, a respeito do Tao, volta a surgiu uma imagem aquática:

Olha-se e não se vê,

Chama-se Indistinto.

Escuta-se e não se ouve,

Chama-se Silencioso.

Toca-se e não se apanha,

Chama-se Subtil.

Este trio não é decifrável

Pois funde-se numa unidade

(視之不見名曰夷/聽之不聞名曰希/搏之不得名曰微/此三者/不可致詰/故混而為一)2 (Ribeiro, 2004, 32-33)

E um pouco adiante é-nos dito que ele é inominável e ininterrupto (繩繩不可名) (Ibidem)

O Tao é como um oceano, uma unidade ininterrupta e inesgotável em que alguém se imagina facilmente a nadar numa água não demasiado luminosa nem sombria, como viria a suceder a Michael Saso na sua 14ª meditação sobre o Tao, em A Taoist Cookbook. with Meditations from the Laozi DaodeJing, à qual denominou “Nadar no Tao” (Saso, 1994,47), meditação que ele faz acompanhar por uma receita de espinafres, pasta de soja e sésamo, já que o sábio é aquele que “esvazia a mente e enche o ventre” (虛其心實其復) (Ribeiro, 2004, 10-11), aqui se sente como o autor está imerso no grande Tao seguindo ao sabor da corrente.

A água pode ainda ser figurada num grande rio, como sucede no capítulo 34:

O grande Tao inunda como um rio,

Para a esquerda, para a direita,

Dele dependem os dez mil seres.

(大道泛兮/其可左右/万物恃之而生)

(Abreu, 2013, 94-95)

No mesmo capítulo é-nos dito que o Tao não só dá vida como nutre e alimenta, sendo porto de abrigo essencial no regresso às origens, não para a morte, mas para a vida eterna diluída na grande unidade, sendo por isso ele grande, tão grande como o mar, ou melhor o grande mar, que é o oceano.

Quem queira estar como deve ser na existência ou até governar corretamente o mundo, deve seguir o modelo da água dos rios e dos mares, como se lê no capítulo 66:

Rios e mares são superiores a cem vales

Porque permanecem abaixo deles,

e assim são príncipes, dominando cascatas e correntes.

(江海所以能为百谷王者/以其善下之/故能为百故王)3

(Abreu,2013, 158-159)

O comportamento do sábio distingue-se pela maleabilidade e espontaneidade. Não se impõe, pelo que é respeitado por todos, só ele deve então governar, porque age bem naturalmente, sem oprimir, sem magoar deixando que todos sigam o seu curso o mais livremente possível, como é reiterado no capítulo 78:

Nada no mundo é mais maleável e flexível

quanto a água,

mas no ataque ao que é duro e rijo

nada consegue ultrapassá-la

e nada há que a substitua.

(天下莫柔弱於水/而攻堅強者莫之能先)

(Ribeiro, 2004 160-161)

A água taoista de Laozi é entre os Cinco Elementos Chineses (Água, Madeira, Fogo, Terra, Metal) aquele que evoca grande unidade oceânica fonte de vida de tudo o que existe, mas também de morte, ou melhor, de regresso às origens e à vida eterna, quando esta imagem representa o princípio filosófico Tao. E se a água, doce e salgada, é o supremo bem do mundo, o Tao é a origem, o supremo bem, inclusive do Céu. Enquanto raiz ou fêmea misteriosa (cap 6) é a raiz do cosmos tal como o conhecemos e experienciamos. Ele é fonte de vida espiritual e material, mas a água também, já que o seu modelo deve ser seguido em todas as circunstâncias desde a fonte material dos seres à complexa conduta humana. As pessoas que agem corretamente e, sobretudo os sábios e santos taoistas, têm presente o modelo físico e concreto da água que os auxilia a praticar um outro invisível, o do Tao. Serão então maleáveis e adaptáveis, capazes de se nutrirem por dentro e de darem vida a qualquer forma por fora. Saberão como transformar-se para melhor nutrir e vivificar.

O modelo oceânico taoista difere daquele que animou ao longo da história os portugueses que olharam para o mar como o seu oceano. A água taoista não é desafiante nem chama à conquista, não possui cabos da tormenta ou da esperança a dobrar, não solicita armas nem embarcações, nem mapas, nem instrumentos náuticos. Ela é o elemento dominante, conquistador por dentro de todos os seres, que se vão adaptar a este elemento maximamente maleável, sem que para tal necessitem de desenvolver o seu espírito inventivo. A filosofia a que conduz não pede vigilância nem espírito crítico, mas adaptação ao mundo tal como ele é e generosidade para o aceitar com o mínimo de sofrimento e o máximo de alegria.

Referências Bibliográficas

Laozi. 2013. Tao Te Ching 道德经 O Livro da Via e da Virtude.Tradução der António Graça de Abreu. Edição Bilingue. Lisboa: Vega.

Laozi. 2013. Dao De Jing. O Livro da Via e do Poder. Tradução de Cláudia Ribeiro. Edição Bilingue. Mem Martins: Publicações Europa-América.

Saso, Michael. 1994. A Taoist Cookbook. With Meditations from the Laozi DaodeJing. Tokyo, Boston, Massachussets: edição de autor.

Watts, Alan. 1975. Tao: The Watercourse Way. New York: Pantheon Books.

NOTA: Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

Texto em chinês clássico.

Texto em chinês simplificado.

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