VozesA administração Trump e a sustentabilidade do globo Olavo Rasquinho - 2 Abr 2025 O período relativamente curto desde que a administração Trump tomou o poder nos EUA já deu para ver que os próximos quatro anos serão de continuação do ataque contra o bom senso, entre outros aspetos, no que se refere à sustentabilidade do nosso planeta. Em vez de se seguirem as recomendações de várias agências especializadas da ONU, baseadas em estudos científicos, vão ocorrer mais medidas no sentido de incrementar a exploração dos combustíveis fósseis. Trump decretou, pela segunda vez, logo no primeiro dia do seu segundo mandato, a saída do Acordo de Paris. E fê-lo provocatoriamente, perante as câmaras de televisão. Além da retirada de outras instituições da ONU, como a Organização Mundial de Saúde e o Comité dos Direitos Humanos, a sua administração está a tomar medidas no sentido de asfixiar projetos nas áreas relacionadas com o ambiente. Outros sintomas da aversão de Trump à ciência consistem no facto da tomada de medidas para que se deixe de recorrer a expressões como “alterações climáticas” e “aquecimento global”, nos documentos das agências estatais americanas que lidam com a atmosfera, os oceanos e o clima. Também outras instituições, como a Agência de Proteção Ambiental, o Departamento do Interior e o Departamento de Energia foram notificadas no mesmo sentido. Não se trata de medidas puramente semânticas, mas de instruções bem concretas para tentar reverter a luta que se está a travar à escala global contra o uso e abuso dos combustíveis fósseis, os quais, como se sabe, são a principal causa do efeito de estufa que está na base das alterações climáticas. Este comportamento do governo da potência mais poderosa do globo, e a segunda que mais injeta gases de efeito de estufa (GEE) na atmosfera, configura o que deveria ser classificado como crime não só contra a humanidade, mas também contra a biodiversidade, o ambiente e a sustentabilidade do nosso planeta. A explicação desta atitude poderá ser encontrada quando se investiga quais os principais apoiantes de Trump, entre os quais se contam não só os eleitores do mundo rural, facilmente manipuláveis através das redes sociais, mas também personalidades da alta finança e magnatas envolvidos na exploração de combustíveis fósseis. Estes têm muito a lucrar com esta política, como o intrépido Elon Musk, um dos principais financiadores da campanha eleitoral que antecedeu a tomada do poder por uma oligarquia sedenta do lucro fácil. Ainda está na nossa memória a promessa de oferta de um milhão de dólares a alguns dos eleitores que assinaram uma petição de apoio ao candidato Donald Trump. Os favores pagam-se com favores, e eis Trump, recentemente, a fazer publicidade a automóveis Tesla. É provável que a intensificação da exploração dos combustíveis fósseis, preconizada pela nova administração americana, ajude a contrariar temporariamente a subida do preço da energia, uma vez que a transição energética preconizada pelas mais variadas agências das Nações Unidas fica relativamente cara aos cidadãos. Entretanto, as energias renováveis estão a tornar-se cada vez mais económicas e competitivas, o que implica, a médio e longo prazo, que os preços diminuam significativamente, atendendo a que as principais fontes de energia renováveis (radiação solar, vento, recursos hídricos, ondas e marés, biomassa, geotermismo) são inesgotáveis. Além dos oligarcas e dos cidadãos com nível de instrução relativamente baixo, também contribuíram para esta situação os promotores da tenebrosa teoria da conspiração promovida pelo movimento QAnon1 que, através da Internet, desenvolve atividades com base em notícias falsas, as famosas “fake news”. Consta também que a Federação Russa não é alheia às manobras que levaram Trump ao poder, como aconteceu em 2016, recorrendo a ataques cibernéticos que prejudicaram a candidata Hillary Clinton. Tudo isto se passa numa altura em que o nosso planeta caminha perigosamente para um ponto crítico em que será cada vez mais difícil reverter os danos causados às várias componentes do sistema climático: a atmosfera está cada vez mais impregnada de GEE; na hidrosfera a acidez e a poluição dos oceanos aumenta perigosamente; na biosfera as florestas são dizimadas por incêndios e por desflorestação, e a biodiversidade sofre degradação acelerada; na litosfera, o solo está parcialmente impregnado de produtos tóxicos, entre os quais metais pesados provenientes das atividades humanas, os quais são suscetíveis de serem absorvidos pelas plantas e entrarem na cadeia alimentar de animais e seres humanos; a criosfera funde parcialmente provocando perigosamente o aumento do nível médio do mar. Segundo a Organização Meteorológica Mundial e o Serviço Mundial de Monitorização dos Glaciares verificou-se, no período 2022-2024, a maior perda de massa glaciar jamais registada em três anos, antevendo-se que em muitas regiões os glaciares não conseguirão perdurar para além do século XXI. É dececionante que um conjunto de oligarcas, que só tem em perspetiva o lucro a curto prazo, esteja a contribuir para arrastar o nosso planeta para tempos cada vez mais difíceis. A fatura a pagar será tanto mais grave quanto mais tempo essa administração, e outras semelhantes, estiverem no poder. Em vez da recente visita provocatória do vice-presidente dos EUA à Gronelândia, talvez tivesse sido melhor ideia ter visitado a Islândia, onde se encontra uma placa no local onde existiu o glaciar “Okjökull” (também designado por “Ok”), o primeiro glaciar islandês a desaparecer devido às alterações climáticas. Está nela escrito um texto, em islandês e inglês, com o título “Uma carta para o Futuro” que consta do seguinte: “Ok é o primeiro glaciar islandês a perder o seu estatuto de glaciar. Estima-se que, nos próximos 200 anos, todos os nossos glaciares sigam o mesmo caminho. Este monumento é para dar a conhecer que sabemos o que está a acontecer e o que é necessário ser feito. Só você sabe se nós o fizemos”. *Meteorologista QAnon – movimento de extrema-direita surgido na Internet em 1917, nos EUA, que recorre frequentemente a notícias falsas que fomentam a crença de que existe uma conspiração secreta à escala global fomentada por elites, políticos e figuras do meio intelectual e artístico que estariam envolvidas em atividades relacionadas com pedofilia, tráfico de crianças e rituais satânicos.