Tragédia paira sobre Lisboa mais 10 anos

Após o anúncio pelo primeiro-ministro de que a localização do novo aeroporto de Lisboa seria em Alcochete choveram os mais díspares comentários na comunicação social. Mas, o que mais me surpreendeu foram as declarações de um antigo comandante da TAP que esclareceu, inacreditavelmente, que por duas ou três vezes já esteve para acontecer uma grande tragédia em Lisboa com a queda de um avião sobre a cidade. Desconhecia por completo e ficámos a saber que o perigo continuará por mais 10 anos. 10 anos que ninguém acredita que o aeroporto estará pronto com a burocracia e derrapagens de obras que é usual em Portugal.

Em primeiro lugar, a denominação Alcochete está errada. Todo o terreno onde está projectado o novo aeroporto pertence ao Concelho de Benavente e nem um metro a Alcochete. Durante a semana passada foram divulgados por especialistas da aviação, do ambiente e da engenharia que a Comissão Independente que concluiu ser Alcochete o melhor local para o aeroporto não teve em conta que no subsolo daquele terreno existe a maior reserva de água doce de Portugal. Foi afirmado que os 10 anos anunciados para a construção é um escândalo se tomarmos em conta que o maior aeroporto da Europa, o de Istambul, acabou de ser construído em cinco anos e que, o de Beijing, um dos maiores do mundo, levou a construir apenas quatro anos.

Depois, as infraestruturas adjacentes ao aeroporto irão sobrecarregar os gastos anunciados de 10 mil milhões de euros, tomando em conta que ter-se-á de construir uma nova ponte sobre o rio Tejo com vias rodoviárias e ferroviárias. Mais se esclareceu que os portugueses poupariam um dinheirão se o aeroporto de Beja fosse ligado a Lisboa por uma via férrea rápida. Trata-se de uma estrutura já em funcionamento, com um espaço gigantesco para melhorar o que fosse necessário e serviria igualmente o turismo do Algarve, já que o aeroporto de Faro está a rebentar pelas costuras. As opiniões foram as mais diversas, salientando-se que Santarém ou Vendas Novas seriam opções muito mais baratas e mais rápidas na ligação a Lisboa.

Se hoje, a população de Lisboa protesta pela exagerada quantidade de CO2 que tem de respirar com o enorme movimento do aeroporto Humberto Delgado, daqui a 10 ou 15 anos, será a população de Alcochete e arredores – que aumenta anualmente – a protestar com o ruído e com a poluição. Há muitos especialistas que não entendem a decisão de Alcochete, aliás, de Benavente, porque se a pretensão é baseada na existência de um movimento de 90 milhões de passageiros, obviamente que a capital não suporta a chegada nem de metade. Acresce-se a particularidade de a maioria dos opinadores ligados ao bloco central político concordar com a localização, também houve logo quem dissesse que determinados blocos financeiros desse centrão já adquiriram todos os terrenos que rodeiam a localização do novo aeroporto. Nesses terrenos serão construídos hotéis, condomínios de luxo e outras estruturas de grande rendimento financeiro.

A decisão demorou 50 anos. No entanto, é necessário sermos justos e dizer que José Sócrates há mais de 10 anos quis iniciar o projecto do novo aeroporto em Alcochete. Tal como o TGV que ligasse Lisboa a Madrid e que agora o Governo anunciou que será uma obra a realizar. A questão mais premente é a interrogação sobre onde Portugal irá arranjar tantos milhares de milhões de euros para os mega projectos? Em parcerias público-privadas? E o problema da ANA que tem a concessão absurda para 50 anos da gestão de todos os aeroportos? Um facto que o Governo devia resolver de imediato no sentido de a ANA nada ter a ver com o novo aeroporto. A ANA estava obrigada por contrato a realizar obras no exterior do aeroporto da Portela, aumentar os hangares de manutenção, o estacionamento de aviões e de outras estruturas. Sabem o que a ANA faz há anos? Só tem aumentado o freeshop, isso é que lhe tem dado muito dinheiro.

O facto mais discutido é verdadeiramente o tempo anunciado para a obra: 10 anos que certamente se transformarão em 15 ou mais. Ninguém acredita que o aeroporto esteja concluído em 10 anos. Mesmo assim, é inacreditável como se decide um projecto desta natureza para 10 anos, tendo exemplos no mundo em que se constroem aeroportos modernos em quatro e cinco anos.

Todo este pecúlio gigantesco trouxe à colação de imediato a situação de pobreza em que os portugueses vivem. Cerca de quatro milhões a viver sem qualidade de vida. Os jovens sem possibilidade de comprar uma casa, os idosos em lares miseráveis onde não são tratados, mas sim abandonados. Os reformados que não conseguem ver governantes que lhes proporcionem um aumento significativo das suas reformas miseráveis entre 200 e 400 euros.

Não se constrói um bairro social com dignidade, um hospital central em Lisboa, não se resolve o problema dos professores, das forças de segurança, das forças armadas, dos oficiais de justiça, dos guardas prisionais. Porquê? Porque os governantes dizem que não há dinheiro, mas para projectos de grande envergadura o dinheiro não falta. Dirão alguns que serão os privados a pagar. Debalde. O Estado nunca poderá privar-se de ter a sua quota num aeroporto internacional que passará a ser o maior do país. A dúvida irá sempre ficar no “ar”, porque se trata de um voo de longa distância. O que não agrada aos lisboetas é ficarem mais 10 ou 15 anos a viver com o pânico da queda de um avião sobre a cidade provocando uma tragédia sem limites.

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Volta Sócrates estás perdoado!!
Volta Sócrates estás perdoado!!
23 Mai 2024 06:45

Depois diziam todos portugueses que o Sócrates quando era primeiro ministro que era um grande corrupto, ma luco e com manias de grandezas quando quis mandar construir o novo aeroporto de Lisboa e construir o TGV.Volta Sócrates estás perdoado!!