Biblioteca Nacional | Mostra “A China vista da Europa” patente até Março

Está patente até 2 de Março do próximo ano, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, a exposição “A China vista da Europa: Séculos XVI-XIX”, co-organizada pelo Observatório da China. Mapas antigos, peças de porcelana e livros ajudam a compreender um período fortemente marcado pelo comércio português com a China que revelou à Europa novas peças, ideias e modos de vida dos chineses

“A China vista da Europa: Séculos XVI-XIX” é o nome da nova exposição que desde o dia 29 de Novembro, e até 2 de Março, pode ser vista na Biblioteca Nacional, em Lisboa. Revelando as marcas da cultura chinesa deixadas na Europa graças ao contacto dos europeus com a China nesse período áureo de comércio, a exposição inclui mapas antigos, livros ou peças de porcelana, tendo como curadores Rui Lourido, historiador e presidente do Observatório da China, Ângelo Cattaneo, do Instituto de História da Europa Mediterrânea e Alexandra Curvelo, ligada ao Instituto de História de Arte da Universidade Nova de Lisboa.

Participam ainda neste projecto inúmeras instituições que ajudaram a doar peças e materiais, nomeadamente o Museu Galileu, situado em Florença, Itália, a Câmara Municipal de Lisboa, a Universidade de Ciências e Tecnologia de Hong Kong, o Museu de Arte Antiga ou a Torre do Tombo, num total de 15 entidades.

Ao HM, Rui Lourido revela que nesta mostra se pretende mostrar como o comércio feito entre Portugal e a China à época, potenciado pela chegada dos portugueses à China, a partir de 1513, e pelo estabelecimento de Macau, em 1557, influenciou fortemente as sociedades portuguesa e europeia.

“Trouxemos da China a seda e a porcelana, além de que inúmeros desenvolvimentos tecnológicos chineses foram aproveitados pelos europeus. Queremos demonstrar que a interacção entre a sociedade portuguesa e a China, através de Macau, foi sempre muito vantajosa para Portugal e para a Europa.”

Um dos exemplos mais paradigmáticos desta relação é, segundo Rui Lourido, a cartografia, “um dos elementos extremamente apreciado pelos portugueses”, sendo que “o período da expansão é considerado em Portugal como um período benéfico para a sociedade”.

Segundo o catálogo da exposição, “a Europa foi conhecendo melhor a China sobretudo desde finais da Idade Média, por via das relações de alguns mercadores e missionários cristãos”. Contudo, no início do século XVI, “no quadro da expansão marítima portuguesa, uma presença mais constante dos europeus nos litorais chineses permitiu um conhecimento gradualmente mais completo sobre o reino da China”.

Desta forma, “a cartografia e a literatura de viagens portuguesas desempenharam um papel relevante para a difusão de uma nova imagem da China em diferentes partes da Europa”. O mesmo catálogo destaca ainda a importância de Macau para todo este comércio e fluxo de novos produtos e informações, tendo sido “um palco estratégico da presença luso-asiática na China” na qualidade de “centro de saber, de comércio e da religião cristã, que preparou a entrada dos europeus, particularmente dos jesuítas”, no vasto império chinês.

Um dos exemplos desta expansão é a chegada, a partir de 1570, de cartógrafos como Fernão Vaz Dourado, Michele Ruggieri ou Matteo Ricci que foram integrando nas suas obras “novas imagens, progressivamente mais completas, recolhidas das viagens portugueses e europeias integradas com fontes cartográficas e literárias chinesas, não apenas dos litorais, mas também do interior do império chinês”.

Quatro núcleos

A mostra, patente nos próximos meses na Biblioteca Nacional, divide-se em quatro núcleos, explorando a China marítima e interior, a chegada dos europeus à China e o papel importante da cartografia neste domínio e ainda as transferências tecnológicas e científicas do império chinês para a Europa. Existe ainda um espaço destinado a Macau e ao seu papel como “porta para a China”.

Rui Lourido destaca o empréstimo feito pela Universidade de Massachusetts na cedência de um mapa da China feito pelo jesuíta Mateus Ricci. Trata-se da primeira vez em que, na cartografia do país, “a China está no centro do planisfério, ao contrário da habitual visão eurocêntrica na cartografia europeia, em que, desde sempre, a Europa ficava no centro”.

Segundo o co-curador, este mapa, que tem legendas em chinês, apresenta, pela primeira vez, “a China no centro do mundo”, ideia ligada ao termo “País do Meio”, como se apresenta a própria China, no contexto de uma “visão sino-cêntrica, tal como [existiu] a visão eurocêntrica”. “Daí o interesse deste mapa que é extremamente perfeccionista, com muito detalhes”, frisou Rui Lourido.

O historiador destaca ainda a chamada “chinoiserie”, ou seja, objectos de arte chinesa e peças de porcelana, com relógios pintados e lacados à moda chinesa, ou ainda pinturas de Macau e da zona da Praia Grande do século XVIII. “É interessante ver a junção de objectos de arte ou tecnológicos como o astrolábio do século XVI, [cedido pelo] Museu da Marinha português”, disse o responsável.

Surpresa e admiração

Rui Lourido recorda ainda que Portugal “é o único país da Europa com um contacto de cinco séculos com a China”. “A percepção sobre a China foi evoluindo ao longo da história. A primeira visão foi de grande surpresa, admiração e até de entusiasmo pelo desenvolvimento científico, tecnológico e civilizacional dos chineses”, sendo que esse desenvolvimento era mais evidente “no desenvolvimento da porcelana, das sedas e a higiene do povo chinês”, pois estes comiam com pauzinhos e não comiam com as mãos, ao contrário dos europeus, que apenas usavam uma faca nas refeições.

“Os orientais achavam isso extremamente bizarro e bárbaro.”
“Do ponto de vista social, o sistema chinês era bastante mais desenvolvido [do que na Europa]”, pois “os chineses, para subirem aos postos públicos, tinham de fazer exames extremamente difíceis, tendo de ler cinco livros clássicos e dominar a cultura chinesa”.

“Só depois é que podiam aceder aos graus de mandarinato, enquanto na Europa qualquer ignorante e letrado, desde que fosse de uma família nobre, poderia aceder a qualquer cargo público”, acrescenta. Rui Lourido lembrou que “a imagem da China levada pelos portugueses para a Europa e para o mundo era extremamente positiva”, sendo de frisar a presença de sedas e peças de porcelana nas então colónias africanas e no Brasil.

“As casas aristocratas e burguesas tinham sempre peças de porcelana, tendo-se criado o hábito de ter uma sala chinesa nesses palácios com produtos chineses, mobílias e porcelanas.” Desenvolveu-se, com a ajuda de Portugal, “uma ideia estranhamente positiva da China na Europa”, de um país desenvolvido e letrado que teve influência nas correntes do Iluminismo, em autores como Rousseau, Voltaire e Montesquieu.

Estes “teceram grandes elogios à civilização chinesa por ser extremamente original e viam com muita admiração o facto de o império chinês promover as pessoas pelo mérito do conhecimento científico e literário e não por serem nobres ou por uma questão hereditária, o que se passava na Europa”, adiantou Rui Lourido.

Mudança de perspectiva

A mudança de perspectiva dos europeus em relação aos chineses dá-se a partir da Guerra do Ópio, em meados de 1850, sobretudo a partir do início do século XIX, quando se dá a Revolução Industrial em Inglaterra, financiada, segundo Rui Lourido, pelos ganhos obtidos com o comércio com a China.

“Os chineses deixam de ser considerados um povo desenvolvido para passarem a ser encarados como um povo que necessita de ser ensinado pelos pretensos desenvolvimentos dos europeus, com uma perspectiva colonial. É, portanto, a época em que se considera que a China passa a ser um país atrasado que necessita do ensinamento europeu, nomeadamente inglês, francês e depois americano. A mudança da perspectiva está relacionada com os sistemas económicos que se desenvolvem em cada momento, e neste caso é clara a transformação.”

Rui Lourido quer, com esta exposição, ajudar a combater a alegada existência de uma “campanha anti-China que se desenvolve na Europa sobre a batuta dos EUA”, onde se verifica “a pressão americana para considerar a China uma ameaça”.

O período a que se remete esta exposição, entre os séculos XVI e XIX, foi “extremamente galvanizador da opinião pública portuguesa” graças às relações e comércio com o Oriente. “Queremos que a China seja motivo de conversa e de notícia por boas causas e não por manipulação da informação devido a pressões políticas.”

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