Traurig

Talvez pudesse ter avistado antes os sinais. Talvez. São estradas antigas, caminhos familiares, encruzilhadas já percorridas. Mas agora é tarde: o disco já toca, a canção de alerta que soa sempre que chego a este lugar: “This is the crisis I knew had to come / destroying the balance I kept”. Estranhamente é um mau presságio quase bem-vindo mas negro, negro. Gostaria que estas palavras que a custo aqui vou deixando não passassem de artifício, ilusão efémera para prender o leitor. Não é assim. É verdade que ninguém consegue escrever quando está muito triste ou muito contente: é preferível viver esses momentos e não entregá-los a estas convenções e regras que fazem a escrita e que, por definição, ao utilizá-la afastam-se da pureza do que se está a sentir.

Mas aqui o território é outro. Não se trata da grande dor, da grande tristeza. Apenas algo mais insidioso, ronceiro. Tem mil nomes e mil causas e ainda assim quem por aqui anda não as consegue identificar – só os sintomas. Recorro a uma carta escrita por um especialista neste mal estar, o poeta John Keats, que assim descrevia este ser ausente e presente em simultâneo: “Estou nesse estado em que se estivesse debaixo de água mal conseguiria chegar à superfície”. É isto, leitor. Reconhece? Reconhece-se?

Assim, eis-me aqui a tentar vestir de palavras este negro suave, este odor dulcíssimo de flores que definham. É um combate inútil mas uma catarse necessária. A resignação triste pode ser uma armadilha terrível ou até um pecado mortal – a acedia, uma renúncia à vida e a Deus – para quem como eu é crente.

Mas mesmo assim, que farei destas ruínas em que me encontro? Que outra coisa poderei fazer senão admirá-las, tentar descrevê-las? Um dia, espero, serão uma paisagem antiga. Agora são reais, o meu mundo. Chamemos-lhe melancolia, então. Mas não de afectação, não de bric-à-brac. O poeta, como o escritor, pode ser o tal fingidor. Com a verdade me enganas, lembra-me a minha inoportuna memória. E é a mesma memória que prontamente me aponta para três dos mais bonitos versos da língua portuguesa, escritos a propósito do amor mas que agora me assentam perfeitamente na alma: “Que dias há que na alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde, /Vem não sei como e dói não sei porquê”.

O que fazem, leitores, quando esta “dor mansa e vegetal” vos invade? Digam-me, digam-me: alguma vez estiveram aqui? Por onde devo ir? O que devo evitar? Aguardo, aguardo qualquer luz. Mais não poderei fazer. O título desta crónica é a palavra alemã que significa tristeza, triste. E é também uma anotação musical utilizada para indicar o sentimento do andamento ou frase onde aparece colocada. Assim estamos, assim estou: um andamento da minha vida longo, sedutor, lento, traurig.

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