Com os médicos não se brinca

Cinquenta crónicas que tive o prazer de vos enviar desde o centro de Portugal. Aproximadamente há um ano que iniciei este contacto com os portugueses que vivem em Macau e com os macaenses que amam a sua terra. Desejo ardentemente saudar todos os leitores que semanalmente se encontram com o Namora e se me permitem, manifestar a minha satisfação de escrever para um diário que tem um prestígio grandioso e onde trabalham profissionais do mais alto nível jornalístico.

Hoje, vou falar-vos de uma conversa que tive com um jovem médico que terminou a sua especialidade de cirurgião cardiovascular com a nota de 19 valores. Os seus mestres no Hospital de Santa Maria prestaram-lhe uma homenagem no fim de curso e esperavam tê-lo como colega no piso daquele estabelecimento hospitalar que tem fama internacional. Contudo, o novo especialista que me transmitiu todos os sacrifícios que a sua família fez para o ajudar a estudar, decidiu abandonar Portugal e aceitar um convite excepcional que lhe chegou de Londres. Em Inglaterra vão-lhe pagar três vezes mais do que auferiria no nosso país, irá habitar uma casa acolhedora paga pelo hospital, pagam-lhe a conta da luz, da água e do telemóvel. Todas as horas que trabalhe na urgência do hospital serão pagas a dobrar tal como as horas extraordinárias e ainda a dobrar será o pagamento de sábados, domingos e feriados. Ainda não acabei. Assim, que adquirir um automóvel, que diariamente o transportará para o trabalho, metade do preço da gasolina que encha o depósito será pago pelo hospital. As batas, máscaras, sapatilhas especiais e estereoscópios serão fornecidos pelo novo “patrão”. Em face do que ouvi, só me apeteceu dizer-lhe “se o hospital não lhe lavava o rabo com água de colónia”…

A verdade é que a situação do número de médicos em Portugal é grave. Cada vez mais os médicos que terminam a sua especialidade recebem propostas tentadoras no estrangeiro. Na Suíça sei de outro especialista que está a receber 20 mil euros mensais e passagens aéreas pagas a Lisboa todos os meses para ver a família. O Governo português ainda não se compenetrou que a profissão de médico é completamente diferente, especialmente os especialistas, porque o que está em causa é a vida de todos nós. Obviamente, que um especialista tem de ter um vencimento superior a um clínico de medicina geral, tem de ter um salário superior a qualquer função profissional. E em Portugal paga-se mal aos médicos e aos enfermeiros. Neste sentido, um grande número de estudantes de medicina durante os estudos já está a consultar a internet para indagar qual o país que lhe poderá dar mais vantagens.

Ainda recentemente, os serviços de Saúde promoveram um concurso para vagas existentes de médicos de família. Quase nenhum dos potenciais interessados concorreu, porque as condições eram deploráveis, se atendermos que um médico residente em Coimbra e se tiver que deslocar-se para Bragança a fim de exercer ali a sua profissão, logo desespera ao tomar conhecimento que nem residência lhe facilitam. O chamado SNS (Serviço Nacional de Saúde), que em boa hora o saudoso António Arnaut criou para todo o povo, não pode estar à míngua de um orçamento estatal que não compreendeu ainda que os médicos é que podem salvar as nossas vidas através de cirurgias cada vez com tecnologia e sabedoria mais avançada.

Um especialista médico, em princípio, não pode falhar no diagnóstico e na intervenção cirúrgica e para isso tem de ser bem compensado. Quando entramos no Instituto Português de Oncologia (IPO) é que damos valor aos profissionais que ali trabalham. A sapiência, coragem e aptidão que são necessárias para tentar salvar quem pensa que já não tem salvação, logo que sente os tratamentos de quimioterapia e de radioterapia. Custa-me imenso, choca-me e revolta-me mesmo, quando assisto ao peditório nacional pelas ruas do país na angariação de dinheiro para os IPO de Lisboa e Porto. Então, o Governo não sente vergonha que se chegue a tal ponto? O povinho, cheio de pena e caridade, lá contribui com o que pode, mas estou certo que será uma migalha do quantitativo necessário para fazer frente à aquisição de materiais de custos elevados. O peditório devia ser proibido pelo próprio Governo que tem a obrigação de contribuir com o pecúlio essencial e necessário nos institutos de tratamento dos cancros.

Dizia certo dia uma criança para o pai, ao entrar num hospital: – “Papá, com estes senhores da bata branca não se brinca, não é?”. O pai sorriu e deve ter pensado que o seu filho tinha razão, mas que as autoridades governamentais “brincam” e de que maneira…

*Texto escrito com a antiga grafia

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