A ver o mar e comboios

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 18 Outubro

 

Para onde quer que atire os olhos, para o branco no alcatrão a dizer bicicleta, seta de sentido ou jogo da macaca, para o verde farfalhudo e inusitado da colina, o fragmento recortado de castelo vindo de nenhures para desaparecer, a quadrícula espelhada e funcionária do prédio público, o candeeiro torto, a voluta do puxador no móvel sinuoso, as lombadas hieráticas, enfim, a experiência interior, o resultado acaba sendo o mesmo: vejo-me um belo condutor de paragens de autocarro. De tão quedo, chego até a pensar que vou a lugares.

Horta Seca, Lisboa, segunda, 19 Outubro

Dou por mim a fazer malabarismos com a brasa, a batata quente e o fragmento de lava em está feita a editora, isto enquanto avanço no fio da navalha. Olhar para o abysmo provoca a queda, há que seguir em frente, mesmo sem vislumbrar sítio, lá no horizonte, onde ter pé. Talvez a vida fosse sempre assim, e acreditássemos que os planos tornavam os dias mais sólidos. Nunca assim foi, jamais será. Desato, portanto, a disparar projectos em todas as direcções da frente. Alguns são ideias antigas, de puro interesse pessoal, outros procuram responder às circunstâncias. Disso falaremos adiante, desde que o chão, mesmo entretecido de nós por desatar, não me escape.

O essencial da noite acabou sendo a amizade, mas discutia-se como passar para imagens em movimento uma mudança de pele. E de lugar. A cidade encolhe, a pensar que cresce. E impiedosamente amachuca papéis, destrói monumentos, sacrifica íntimas correspondências com os múltiplos passados. Não voltaremos a ser os mesmos. Tenho brincado com os fins do mundo que vão acontecendo no entorno de cada um, mas percebo agora que se trata disso mesmo. Não estamos entre parêntesis, o caminho risca-se em linhas compostas de três pontos. No carro que me deposita em casa, as vozes da rádio levaram-me a outros tempos, quando a crença ainda fazia parte das ferramentas. Custou-me a adormecer.

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 20 Outubro

A generosa insistência do último moicano da tribo da carta manuscrita Tiago [Manuel] trouxe-me a beira-mar, tão rica de cambiantes que parece aquele ouro de cobrir peitos de Viana. Luísa Dacosta, também nesta recolha diarística de «Um Olhar Naufragado» (ed. Asa), descreve como ninguém os múltiplos mares, que aquele atlântico não é sempre o mesmo. «O mar é hoje uma ondulação quebrada de espelhos a reflectir o sol e um céu, alto e claro. Entre céu e mar há como que um balão de luz, transparente, bola de sabão, não irisada. Duas velas, ao longe, dão-me asas e tornam-me gaivota.» Em cada lugar que visita há-de descobrir um rio ou a subtileza das orlas marítimas. «Mar achãozado, sem ondas. Azul clarinho. Quieto, na tarde morrente. Um campo de água, semeado a miosótis.» A volúpia da descrição também a aplica à flora, mais riqueza deslumbrante, a contaminar o vocabulário, jardim de palavras que soube cultivar com esquecida mestria. E à casa, a grande da infância. «Manhã de névoa, perfurada pela ronca, que é para mim um som de búzio e infância. À beirada, a areia tem já um tom quente e solar, mas as águas, quietas, da maré vaza estão prisioneiras da névoa e dos penedos, onde as gaivotas, aninhadas, parecem nenúfares, brancos, de corolas fechadas. Não há linha de horizonte, nem apelos de longe. Só este chamamento, doloroso, constante e incansável.» Passo a mão pelo veludo do detalhe exposto e acuso o toque.

O mano Tiago, na ilustração que abre o volume (algures na página), desenhou rosa cercada por ondas de espinhos, espelhando os tons sensíveis destas páginas líquidas. A morte e a dor são presenças dialogantes, nunca afastadas nem pelas manifestações de afecto, ou pelas retribuições da comunidade escolar, e, sobretudo, dos seus leitores infanto-juvenis de várias idades. Na maré da atenção vem os amigos, a pintura, a actualidade política, os seus autores, Pessanha e Cecília Meireles. (Macau também aparece com a alegria do bom acolhimento, ou não fosse a casa do seu poeta.) E o feminino visto de muitos ângulos, sobretudo os mais negros, tendo o homem por qualquer coisa entre sombra e assombração. A infância desponta a cada frase, irrigando a palavra, que brilha no orvalho, na nuvem, na cor. E a dor, ainda ela.

A relação com os editores está representada tão só na versão amarga, causada pelos inevitáveis atrasos, pela desatenção, agravamentos da sensação partilhada amiúde de que era escritora ignorada. A entrada de um certo 15 de Outubro anuncia: «os livros não irão aparecer! Como me explicou o novo director do departamento, já estava esgotado o lote das saídas. De resto não tinha sido ele a contactar-me porque só há pouco tomara conta do cargo e não fazia parte da programação que tinha elaborado. Além disso era uma autora pouco vendável (não estava em causa a qualidade, claro) e não havia nada a fazer. Há quanto tempo a vida vinha a escorraçá-la e a bater-lhe?» Muito comum na sua prosa, este atravessar da primeira para a terceira pessoa, como que a afastar-se de si para se ver melhor. Luísa Dacosta pagou o preço de ser autora para as infâncias, preconceito que afasta os bem pensantes de cada época, e que, neste caso único, escondeu obra única que se mantém requintada como manhã de litoral. «O meu livro caiu no silêncio e na indiferença», escreve. «Ninguém noticiou. Ninguém disse, ainda, nada.» Ninguém ainda nada parece ser o exacto quotidiano da edição.

Horta Seca, Lisboa, quarta, 21 Outubro

Peguei sem querer no livrinho e logo senti o inverso. Diálogos cortantes a empurrar vertiginosamente uma narrativa de personagens inteiriças, sem sombra de banalidade. Surpresa em texto adulto, que, não sendo sobre nada, cresce à volta do ser mulher, mãe, voz e figura. Talvez gato a rasgar palco com as garras. «Um Tigre à Porta da Sé» (ed. Nova Mymosa), da Mónia [Camacho], obrigou-me a desligar o telefone até saber o que ainda não descobri da cantora marroquina que deseja mudar de pele, de país. Ser daqui. E faz de uma estação de comboios o seu lugar. Para mal dos nossos pecados, contém ainda chefe de estação perplexo, jornalista embeiçado e polícia filósofo. «Todas as vidas têm, num qualquer canto, um jardim. Um oásis. Mas em alguns casos é preciso semeá-lo primeiro. Era isso que ia fazer. / O mundo dobra-se ao meio quando é preciso.» Estou capaz de acreditar, um instante que seja.

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