Do mal e da farsa

O problema com o mal é que é superficial e raras vezes ultrapassa o recorte da opereta. Ou seja, não é Lady Macbeth quem quer – até Macbeth soçobrou na tentativa. No desfecho do primeiro encontro entre o Fausto e o Mefistófeles, de Goethe, isso é-nos caridosamente explicado, quando o mafarrico, na impossibilidade de sair do Gabinete de Estudo conforme quer, concede que a “lei” não muda, o que leva Fausto a observar, triunfante: «Então até o Inferno tem as suas leis. Isso é óptimo. Quer dizer que um pacto feito com os senhores seria fielmente respeitado.»

Pois é: então afinal o Diabo desordena, trapaceia, muda o quê? Pobre mártir das aparências.

Daí que no essencial a tentação satânica traduza uma mera aceleração das potências do desejo ou funcione como um momentâneo e hipnótico inibidor do bem, sem que seja um domínio. É um enredo que entretém, sem resolver o enigma. Para o comprovar basta não ceder à coerção da violência: aí constata-se como o mal se dilui; de si mesmo alheio.

Grande parte do mal advém de um desespero que não acedeu à lucidez, de uma energia mal orientada.
Em Moçambique calhou-me enfrentar situações em que julguei estar face ao Mal. Essa percepção da maldade humana que experimentei, sufocava-me. Até que me apercebi que essas figuras vogavam em práticas de vida agónicas, e como, para além de se não divisar a vantagem que tiravam da sua ruindade, se sentiam absolutamente perdidas. Tornava essa irracionalidade mais distorcida a sua maldade? Sim, mas esvaziava-se no seu acto circunstancial, eles não representavam qualquer entidade – apenas, os filhos da mãe, desconheciam a bondade. Aí o “poder” inverteu-se.

A obscenidade com que demasiadas vezes a ficção aposta no mal como efeito-placebo de uma suposta totalização do real resulta de uma necessidade que houve a jusante de dotar as narrativas de uma dimensão extra-moral (e foi uma dessacralização necessária, justíssima), mas a montante a representação do mal fetichizou-se, vulgarizou a perversão. Passou-se só a figurar a sombra, a violência, o mal, da mesma forma que a comunicação social ficou refém dos efeitos dramáticos que “intensificam” as mensagens.

Talvez não fosse mau – lá está! – conseguirmos contrapor a esta pulsão uma certa «disseminação amante», usando uma expressão feliz de Ramos Rosa.

Creio que uma das chaves para entender o Pessoa é aceitar que a sua multiplicidade nasce da sua resposta ao problema do Mal: primeiro o medo (ao que se enraízava na sua declarada compulsão para a loucura) levou-o a criar, em vez de fantasmas, duplos de si que o tornassem insituável, por fim, converteu-se na compreensão de que no uso do mal afinal só se condensa a escória de um tempo perdido e, que, em contrapartida, a prática do múltiplo vitamina o bem.

Pessoa não está só nesta intuição, também Valery escreveu: «Penso muito sinceramente que se cada homem não pudesse viver uma quantidade de outras vidas para além da sua, nem a sua própria ele poderia viver».

Há outra questão que não é de somenos. A tentação faustica – na sua face patológica, havendo outra benigna – pode nascer de uma fonte psíquica pouco sadia: a identificação com o equívoco que às vezes norteia a ideia de ser-se eleito.

Fausto simboliza a arrogância de espírito que se julga acima da fona da populaça! Por isso desdenha de proximidades com a massa, ignara e tola, e impaciente observa: «É já tempo de provares, por actos, que a dignidade do homem não fica atrás da grandeza de um Deus», estatelando-se estridentemente na soberba.

É normal que então se interrogue sobre como poderiam sobrevir soluções ou respostas para o mundo de alguém mais senão dele. Aí faz o pacto. Para se situar acima da média humana.

Uma proposição nos antípodas de um lema de Zambrano que devíamos adoptar como antídoto para tanta sandice a que assistimos: “nada real deve ser humilhado”. O que nos convida a uma descentralização do nosso lugar de sujeitos e a trocarmos uma antropologia assimétrica por um imaginário que seja rizomático.

E como no fundo não era melhor que os demais, rapidamente, dos pedidos de Fausto a Mefistófeles, ressuma a falência das suas ideias mais nobres: sobressaem as questões acessórias, egoístas, subjectivas, os pequenos inhos, a fatalidade de quase condenar Margarida, por afinal ser tudo igual nos “céus” a que o transporta Mefistófeles ao que na terra se desenhava.

É-me difícil por conseguinte ler o Fausto a não ser como farsa.

Contudo, às duas por três no Sabbath final há uma bruxa que se propõe vender pechinchas de toda a espécie e que entretanto avisa: «(…) nada vendo que não haja igual na terra, ou que um dia não tivesse feito mal aos homens e ao mundo. Não há aqui punhal que não tenha derramado sangue; nem taça que não tenha vertido num corpo são o seu veneno activo (…) nem enfeite que não tenha seduzido mulheres virtuosas; nem espada que não tenha quebrado uma aliança (…)» etc. O que leva Mefistófeles a ripostar: «Longe estais de entender os novos tempos, boa amiga; o que lá vai, lá vai. Mostrai-nos coisas novas, só nos atrai o que for novidade.»

Como antídoto ao seu próprio “métier”, Mefistófeles lembra que é necessário romper com a tradição para surgir a novidade. Uma das mensagens mais inesperadas de Fausto e uma das mais actuais. Talvez, contra esta tradição obsessiva do mal que em termos políticos e militares já ressuscitou modelos arcaicos como a Lei de Talião, tenha chegado o momento de, como ateus (é o meu caso), não nos envergonhar romper e aceitar os gestos de beleza ou de bondade, e que à competitividade doentia possamos preferir a emulação do jogo; recuperando algo desse espírito trágico que nos advertia: existe o mal… e também há as alegrias incuráveis, como na vida – e não como nos regimes dominantes da ficção actual.

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