As duas cabeças

21/07/20

No Jardim Zoológico de San Diego, na Califórnia, vê-se algo bastante raro embora não excepcional: cobras do deserto californiano que, devido a algum tipo de acidente genético, têm duas cabeças. O que complica a vida a este corpo com duas cabeças é que são duas vontades, dois sujeitos, do ponto de vista cerebral. E podem morrer por causa disso: cada cabeça busca comida de seu lado; quando uma encontra comida, a outra desvia-a na direcção que prefere e assim essas pobres cobras de duas cabeças dificilmente se conseguem alimentar, apenas em zoológicos. Vemos, então, que o princípio da exclusão funciona mesmo entre duas cabeças-de-cobra que têm o mesmo corpo.

Associo isto às culturas nas sociedades pós-coloniais. As supostas remanescências da cultura colonial e a suposta e “restituída” cultura de origem são duas cabeças que se recusam a perceber que hoje vivem num mesmo corpo híbrido e as duas cabeças em vez de conjugar esforços para se conseguirem alimentar combatem-se e morrem à fome. O resultado dá a soma resto zero do princípio da exclusão!

Já, Heinz von Foerster, um dos pais da cibernética, apontava há cinquenta anos, o grande paradoxo da auto-organização dos sistemas. E explicava que se obviamente a auto-organização significa autonomia, por outro lado um sistema auto-organizado é um sistema que tem de aplicar-se para construir e reconstruir a sua autonomia e, portanto, nesse esforço desperdiça energia. Ou seja, fica sujeito à entropia, à dissipação da força que o mantinha regulado, coeso. Para recuperar o equilíbrio que lhe permite a sobrevivência a única hipótese é esse sistema captar energia de fora, ou seja, observava Von Foerster qualquer sistema para ser autónomo, acaba por estar dependente do mundo que lhe é exterior. E essa dependência não será apenas energética, mas também informativa, porque todo o organismo vivo extrai informações do mundo exterior, a fim de organizar o seu comportamento.

Este modelo não é nada dissemelhante ao que se passa com as culturas e as identidades. Nós somos alguma coisa por referência a outras que nos estão enganchadas, embora fora de nós, a identidade é um valor no processo de diferenciação que distingue o significado de “ser africano” do significado de “ser europeu”, tal como a palavra se engancha no silêncio.

Sou pela defesa do incremento das línguas-mãe em Moçambique, pelo resguardo da sua dignidade edificando uma literatura nessas línguas, porque as línguas transportam consigo sensibilidades únicas; contudo, creio igualmente que o português é um ganho irrenunciável e que as culturas não são bolhas estanques, ilhas. Ou seremos ilhas mas em arquipélago, organizado num sistema de mútua influência e em perpétua re-combinação. Não existe o branco, o preto, o azul, existe a crioulagem, tal como se aprende na física das cores, tal como ensina o filósofo Edouard Glissant.

Nesta discussão, infinita, sobre a questão das identidades tenho a maior dificuldade em perceber as posturas extremadas. Que alguém se reivindique exclusivamente bantu, a partir dos instrumentos e das categorias que lhe foram dados por uma educação de influência ocidental e vice-versa, que um europeu não seja sensível a aspectos da cultura africana que o podem enriquecer.

E fico sempre um pouco incomodado no momento obnóxio em que alguém desata a falar em nome da ancestralidade. Não é invulgar que desse fundo mágico que o romântico Herder emprestou aos imaginários colectivos emerja uma vontade de nos alhearmos daquilo a que Stendhal chamava a “força moral”, a coragem de pensar por si próprio – posto que na verdade cada homem está sozinho na História.

Na próxima vez que participar de um debate destes já sei que argumentos usar contra o “abuso dos ancestrais”.

22/07/20

Uma observação de José Navarro de Andrade no Facebook leva-me a rever alguns filmes do Preston Sturges, e sobretudo essa comédia extraordinária The Palm Beach Story (1942)/ Uma Mulher de Verdade, com a Claudette Colbert.

Uma das coisas mais difíceis de trabalhar com alunos de guionismo é os diálogos, um dos territórios mais áridos nas artes narrativas. Conheço óptimos escritores que não atinam com os diálogos e são realmente raros os filmes (dois, três, ao ano) em que os diálogos sejam primorosos. A maior parte das vezes os diálogos apenas ilustram a acção, não estabelecem uma dialéctica com ela (quando muito cumprem a função de revelarem a parte emocional das personagens) nem montam uma rede comunicacional que é por si só um outro espectáculo porque dispara os níveis de significação e de subentendidos. Um bom diálogo vira o contexto de pantanas, serve a trama para a desviar. Billy Wilder era um mestre nisso. Constato agora que o Preston Sturges – de que só tinha visto dois ou três filmes há 30, 40 anos, na pouca assiduidade com que frequentava a Cinemateca – é absolutamente outra referência a seguir. De ontem para hoje vi três filmes dele e agora terei de farejar nos filmes em que ele só fez os diálogos.

The Palm Beach Story é uma festa, sobretudo pela personagem feminina, uma «mulher prática» de todo desassombrada e que, sabendo ser leal, à hipocrisia dos costumes diz nada e faz o que tem a fazer. Sturges, revolucionou a screwball comedy (a comédia de situações inconvencionais) porque a doseou com as técnicas de “marivaudage” (que tira todos o proveito do jogo das máscaras e da mentira) e é o exemplo de como uma enorme massa de diálogos num guião – se maduros e acutilantes (a dificuldade de explicar isto aos realizadores) não impede que a narrativa tenha um bom ritmo – só depende do pico dos actores e do “factor de improbabilidade à pele” das situaões. E digo-vos, o final do filme é tão trepidante e surpreendente como o de Quanto mais Quente Melhor, do Billy Wilder, pois socorre-se da técnica do “deus ex-machina” com uma eficácia (louca) que se impõe como necessária. Um filme imperdível. Há uma cópia menos má, legendada em português, no Youtube.

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