Múltiplas rupturas

Alice Fletcher, nascida em Liverpool de mãe portuguesa e pai inglês, no início dos anos 50, foi viver para Londres aos 18 anos e aí viveu até morrer, em 2019. Foi professora no King’s College, onde ensinou uma cadeira que ela mesmo criou, «literaturas fragmentadas», que tinha como objecto de estudo não apenas textos de aforismos e fragmentos, mas também cartas e pequenos textos, que não são nem novelas nem contos, mas algo difícil de qualificar. Escreveu vários ensaios, mas foi com «Rupturas», 1989, que ficou conhecida. E «Rupturas» mostrava textos que produziam uma distorção na percepção que usualmente temos da literatura. Vários são os exemplos ao longo das quase setecentas páginas, mas indiquemos apenas algumas: «Metamorfose», de Kafka; «A Carta de Lord Chandos», de Hugo Von Hofmannsthal; «Sobre o Teatro das Marionetas», de Henrich Von Kleist; e «Um Homem Sorri À Morte Com Meia Cara», de José Rodrigues Miguéis. Para um leitor atento, o último texto causa de imediato alguma perplexidade. Para que não se pense que os textos eram todos de autores do centro da Europa, adiante-se que entre os textos citados no monumental «Rupturas» encontramos «O Mito de Sísifo», de Albert Camus, «A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer», de Stig Dagermann e «Quatro Leitura Talmúdicas» de Emmanuel Levinas. O que ligava todos estes textos, para além de todas as evidentes diferenças? Aquilo a que Fletcher chama de rupturas. Rupturas com a forma e com o conteúdo. Rupturas até com o modo como o autor usualmente entendia o seu próprio ofício de escrita. E para Fletcher a escrita é um ofício, independentemente dos seus resultados ou do seu proveito. Escreve, logo na introdução, à página 24:

«Todo o acto de escrita destes autores com quem irei tentar dialogar deve ser entendido como um ofício. Que ofício é esse? O ofício de trabalhar aquilo que somos através da palavra pensada ou intuída até à formação de uma entidade que se supõe existir ou apenas poder vir à existência, como um horizonte que se avista de um convés de uma embarcação em alto mar. Trabalhar com palavras, e com os seus significados, é como trabalhar o barro. Com este forma-se coisas, com as palavras deformam-se coisas. Ambas as tarefas têm um imaginário e um real. Mas acima de tudo têm um sonho: que aquilo que moldam se pareça com uma necessidade humana.» Assim, percebe-se bem cedo que estamos a falar não só de textos, mas de como se entende a escrita. Em «Rupturas», escrever não aparece como uma tarefa que se faz – por exemplo, escrever um livro sobre si ou sobre uma viagem ou sobre uma doença ou sobre uma qualquer experiência que se tenha tido de diferente – mas como um ofício que se tem. E este ofício é o de pensar a linguagem e a relação que ela estabelece connosco e com a nossa apreensão da chamada realidade. Escreve Fletcher, ainda na introdução, páginas 32-3: «Ninguém faz sapatos porque teve uma experiência única com umas botas ou umas sandálias. Faz-se sapatos porque se trabalha diariamente nesse ofício de tentar fazer com que as pessoas andem com conforto e/ou com elegância ou simplesmente porque é um modo com o qual conseguimos ganhar a vida. E assim é escrever. Não que se procure elegância, conforto ou modo de ganhar a vida, mas porque se pensa e escreve diariamente de modo a tentar compreender o que é uma palavra.»

Evidentemente, para o leitor português, o texto de José Rodrigues Miguéis não pode deixar de causar curiosidade. E não poucas vezes tenho visto leitores da nossa língua a procurar de imediato a parte relativa a esse texto, assim que pegam no livro de Alice Fletcher. A autora começa assim: «Em 1959, José Rodrigues Miguéis publica um livro extraordinário, que causa ruptura com o modo como se entendia a literatura até então, chamado “Um Homem Sorri À Morte Com Meia Cara”. Trata-se do primeiro texto de auto-ficção. A parte mais biográfica do texto, que e o seu centro gravítico, mostra a vida de alguém, ou um determinado período da vida de alguém desnudado perante as suas doenças. Trata-se de um texto onde alguém se relaciona de modo privilegiado com as doenças. Que modo privilegiado é esse? A hipocondria.» De facto, José Rodrigues Miguéis era hipocondríaco. Não apenas fisicamente, mas também socialmente. Viveu toda a vida sob o espectro do medo compulsivo: das doenças, de estar sob o olhar dos outros, de que os outros vissem quem ele era na realidade: um humano. Realidade que ele via apenas quando projectava sobre si mesmo a possibilidade de um outro estar a vê-lo. Tinha, se assim o podemos dizer, uma alergia a si mesmo.

Assim, o texto trata da doença física e da doença de percepção de si, em simultâneo. Escreve Fletcher: «Para além de ser a primeira autoficção da história da literatura, o texto é uma chapada na cara do nosso ponto de vista conformista em relação à vida. Não é uma ruptura com a vida nem com a morte. É uma ruptura com o nosso olhar a morte. A morte é vista através da vida, através do corpo, através da dor e da dificuldade em viver. Viver dói. Mas morrer também dói. Morrer é terrível, ainda que a morte possa não ser, ainda que possa ser uma libertação. Morrer é atroz. O texto de Miguéis trata disto. Veja-se esta passagem: “Que é isto de encarar a morte? […] A dor física pouco importa: aqui é o medo soberano que domina tudo, ou a coragem e a aceitação.” E já no final desse terceiro capítulo: “Estava ali a olhar-me sofrer, como se fosse outro.” É esta distorção, que percorre todo o texto, entre alguém que escreve na primeira pessoa como se fosse uma terceira, como se a possibilidade efectiva da morte, amplificada por uma dor atroz, nos afastasse de nós mesmos, como se não se pudesse ser o mesmo às portas da morte, que faz deste texto uma ruptura.

Ruptura com o cada um de nós mesmos, do mesmo modo que a primeira pessoa gramatical produz ruptura com a terceira. A doença produz esta distorção. Só se pode falar de estar a morrer, na primeira pessoa, se ela for uma terceira.»

O livro de Alice Fletcher talvez mereça que voltemos a ele em outros textos, pois são muito proveitosas as suas leituras de outros dos textos que aqui adiantamos. Ainda assim, sem mais tempo para abordar «Rupturas», acrescente-se esta passagem acerca de «Metamorfose» de Kafka: «Se olharmos bem para nós, não teremos dificuldade em reconhecer que não fazemos ideia nenhuma do que somos e da forma que temos. Só quem não pergunta seriamente por si, está confortável na sua humanidade. E a forma literária que melhor mostra o frémito terrível de não saber quem se é, tem de ser em conformidade à ruptura com as formas mais acomodadas, quer seja em poesia quer seja em prosa.» Este livro de Alice Fletcher, é um livro a que volto muitas vezes.

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